@RTEWEBBRASIL

pinturas


Marco de Araújo

Abertura: 7 de julho de 2005
Período de exposição: de 8 a 31 de julho de 2005
Encontro com o artista - 22 de julho às 18h
Local: Galeria Augusto Meyer, Casa de Cultura Mario Quintana
Rua dos Andradas, 736, 3º andar - Porto Alegre - RS


 

 

ESPAÇOS GESTUAIS, PLANARES E VOLUMÉTRICOS NAS PINTURAS DE MARCO DE ARAUJO




Niura Legramante Ribeiro*

Sem Título. Óleo sobre MDF recortado.
137cm x 183cm. 2004. Fotografia: Leandro Selister



Do informalismo ao abstracionismo geométrico, da planaridade ao ilusionismo e do gesto autográfico à impessoalidade. Essas são as formas de representações de espaços que as pinturas de Marco de Araujo colocam em discussão nesta mostra individual que ocorre na Casa de Cultura Mario Quintana.

As suas pinturas a óleo sobre MDF, de bordas recortadas, produzidas especialmente para essa exposição, apresentam elementos plásticos bem definidos. Para configurar os planos das obras, o artista se impõe uma regra metodológica durante o processo de trabalho no atelier: parte sempre das extremidades em direção ao centro compositivo. Primeiramente, elabora um campo plástico com superfície de pinceladas gestuais ou com a técnica do dripping, isolando os demais planos para conseguir precisão de acabamentos nos limites dos espaços internos. Em um segundo momento, constrói uma estrutura plana geométrica completamente uniforme, que resulta em triângulo, retângulo, quadrado, losângo, círculo e semicírculo. E, por último, cria a forma essencialmente volumétrica, com o cilindro e a sua sombra projetada sobre aquela superfície geométrica. O cilindro que atravessa a composição e avança no espaço para fora do limite de cada obra, a princípio poderia ser visto como uma imagem meramente abstrata, porém pode nos surpreender: aliado à projeção de sua sombra, é o elemento marcadamente realista, responsável, portanto, pela ilusão de tridimensionalidade no espaço da pintura. É a volumetria e a tomada aérea do próprio cilindro que cria o distanciamento dos demais planos compositivos e define o contraponto com as superfícies informais e abstrato geométricas. A sensação que se tem ao visualizar os trabalhos à certa distância é que o cilindro se configura como um elemento real que foi colocado sobre as pinturas. Mas não se engane, pois é pura ilusão de ótica.

Nas superfícies de tratamento gestual, o pintor utiliza várias cores e, apesar de tratar-se da parte do trabalho que concentra maior subjetividade, um olhar mais atento pode constatar que as pinceladas matéricas têm um determinado sentido bem estruturado de repetição na forma de “s”. As cores nos espaços geométricos, por sua vez, estabelecem racionalmente um jogo com as cores do cilindro, conforme atesta o pintor: “se a figura geométrica é de uma determinada cor, o cilindro será de uma cor análoga à complementar da geometria. Se a cor do triângulo é violeta, a cor do cilindro é laranja”(1). Para criar uma completa e desejada impessoalidade nas superfícies geométricas ele usa uma única cor em cada forma e faz correr, de maneira uniforme, o rolo que utiliza para pintar. Quanto mais pastosa prepara a tinta, mais a textura do rolo fica evidente, desde que conserve a ausência de uma marca de subjetividade.



Sem Título. Óleo sobre MDF recortado. 91cm x 137cm. 2004. Fotografia: Leandro Selister



Os elementos compositivos atuais começam a aparecer em pinturas a óleo sobre tela, em 1987. Porém, nesse momento, o artista ainda conserva a forma tradicional de apresentação do quadro: o cilindro se prolonga até as bordas, já manifestando intenções ilusionistas, entretanto há uma escala de diâmetro mais tímida que as atuais, enquanto que as formas geométricas, na maioria das vezes estão contidas sobre as superfícies das pinturas informais, funcionando como fundo para os cilindros.

A partir de 1992, suas pinturas passam a ter limites externos recortados de forma minuciosa, em contraposição com a simplicidade formal e a volumetria do cilindro. Este cilindro avança além dos limites das bordas recortadas, passando a se impor como grande força plástica dos trabalhos. Nas obras da presente exposição, Marco realiza uma depuração e uma simplificação em tais recortes, passando a tratá-los como espaços e estabelecendo um diálogo mais coeso com as formas geométricas. Assim como o cilindro, também tais formas planares ultrapassam as extremidades das pinturas, embora continuem ainda exercendo o papel de fundo para o cilindro, mesmo que, em um certo sentido, possam se comportar como figura se as suas extremidades forem levadas em conta. A pintura, literalmente, invade o espaço externo e passa a exigir um afastamento da parede, denunciando a intencionalidade de se constituir em uma pintura-objeto. Nesse sentido, Marco se diz um admirador confesso de Frank Stella pela utilização que este artista faz dos materiais e dos diferentes procedimentos plásticos.

 

Os elementos abstratos presentes nesta exposição são originários de sucessivos desdobramentos de trabalhos anteriores e tiveram sua origem no cenário que servia de composição para a figura humana, na técnica de pastel sobre papel, em trabalhos de 1984. Nesses trabalhos, o artista realizava um enquadramento em close da figura humana na altura mediana do corpo, tendo como fundo a estrutura geométrica do beiral de uma janela, dos marcos de uma porta, já deixando aparecer a sombra da figura humana projetada no espaço. Portanto, data desse período o seu interesse pela contraposição entre elementos compositivos acentuadamente realistas - pelo tratamento volumétrico dado à roupa da figura humana - em contraposição com um fundo claramente geométrico. A ambigüidade entre o figurativo e o abstrato é claramente visível, pois à volumetria da cama contrapunha a textura xadrez de um cobertor; à volumetria da cadeira, o xadrez de uma camisa.


Sem Título. Óleo sobre MDF recortado.
137m x 91cm. 2004. Fotografia: Leandro Selister


Nesse período, Marco de Araujo parece imprimir uma visão em close aos referentes que lhe servem de motivo plástico. É esse, pois, o modo de enquadrar os objetos que origina a forma do cilindro já presente em obras dessa década, no encosto de cadeiras, na cabeceira de camas de ferro, nos cordões que amarram um pacote ou ainda nas mangueirinhas que interagem com um fundo completamente ritmado por estruturas geométricas verticais e horizontais. Aqui estão definidos os elementos que, atualmente, comparecem em sua poética: o espaço planar e o ilusionista, o cilindro e a sombra.

Tais elementos são inquisidores dos sistemas de representação da pintura na história da arte. Na visão do artista, esses sistemas comportam uma determinada acidez em relação à teoria da pureza modernista de Clement Greenberg: “com o cilindro acentuo a idéia de realismo, ilusão ótica e superposição de plano. Acho importante acentuar a ilusão, porque contraria a teoria de Greenberg, aquela que determina a essência própria de cada arte e a pintura, segundo o crítico, estaria reservada à planaridade”(2).


 

Clique nas imagens
para visualizar os trabalhos

Marco de Araujo Marco de Araujo Marco de Araujo Marco de Araujo Marco de Araujo Marco de Araujo



Ao sobrepor um espaço ilusionista sobre um espaço planar, Marco passa a contrariar a idéia da especialidade Greenberguiana. Como se sabe, o autor de “Pintura Modernista”, atribui a cada categoria a função de trabalhar com a especificidade própria de cada meio: “foi a ênfase conferida à planaridade inelutável da superfície que permaneceu, porém, mais fundamental do que qualquer outra coisa para os processos pelos quais a arte pictórica criticou-se e definiu-se a si mesma no modernismo. Pois só a planaridade era única e exclusiva da arte pictórica”(3) .

Sendo assim, Greenberg nega que a tridimensionalidade seja área de competência da pintura: “a tridimensionalidade é o domínio da escultura e para preservar sua própria autonomia, a pintura teve, principalmente, que se despojar de tudo o que não podia partilhar com a escultura, e foi esse esforço, e não tanto (...) para excluir o representativo ou literário, no entanto, que ela se tornou abstrata”(4). Ao introduzir, pois, a ilusão do espaço tridimensional com o grau de realismo impresso à representação do cilindro, que Araujo parece não partilhar das atribuições unívocas exigidas para pintura modernista por aquele crítico. Suas pinturas seguem na contramão do autor modernista, não se atendo unicamente ao domínio da bidimensionalidade.

Tal procedimento plástico de recorrer a diferentes elementos estilísticos em suas pinturas o levou a realizar sua tese de doutoramento, El Ecleticismo en la Pintura, pela Universidad Complutense de Madrid, em 1998, e a desenvolver outros artigos sobre o ecletismo estilístico na pintura pós-moderna. Essa relação entre teoria e prática pode ser atestada pelo artista: “A minha produção teórica está intimamente vinculada e relacionada ao meu trabalho artístico, pois este, como se pode observar, é um trabalho eclético, onde existem referências a diferentes estéticas ou estilos artísticos”(5). Estes são os valores operativos e ideativos de linguagens ecléticas que enformam a concepção plástica das pinturas de Marco de Araujo.



Notas
(1) Depoimento do artista à autora em 30 de abril de 2005.
(2) Depoimento do artista à autora em 14 de abril de 2005.
(3) Clement Greenberg. “Pintura Modernista” in Clement Greenberg e o debate crítico. Rio de Janeiro: Funarte e Jorge Zahar, 1997, p, 103.
(4) Idem, p. 104.
(5) Depoimento do artista à autora em 14 de abril de 2005.

 

* Niura Legramante Ribeiro é professora de Teoria e História da Arte no Atelier Livre de Porto Alegre, no curso de Artes Visuais e na Especialização em Poéticas Visuais e Ensino da Arte na Feevale de Novo Hamburgo. É Mestre em Artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

 



 

  MARCO DE ARAUJO – São Luiz Gonzaga, 1959
e-mail -
marcodea@terra.com.br


FORMAÇÃO
: Doutor em Artes Visuais pela Facultad de Bellas Artes da Universidad Complutense de Madrid, Espanha, 1998. Bacharel em Artes Plásticas pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS, Brasil: Graduação em Desenho, 1986 / Graduação em Pintura, 1987.

PRINCIPAIS EXPOSIÇÕES COLETIVAS: 1989: Galeria de Arte Badesul, P. Alegre-RS, Brasil / Projeção 89 - Museu de Arte do Rio Grande do Sul, P. Alegre-RS, Brasil. 1990: Galeria de Arte Badesul, P. Alegre-RS, Brasil. 1991: Catálogo Geral - Instituto Estadual de Artes Visuais e Museu de Arte do Rio Grande do Sul, P. Alegre-RS, Brasil. 1996: Casa do Brasil, Madri, Espanha / 4 Artistas Brasileños - Detursa Galeria de Arte, Madri, Espanha. 1997: Embaixada do Egito, Madri, Espanha. 1999: Panorama D’Art Brésilien Contemporain III - Cacco Zanchi Kunstgalerij. Aalst, Bélgica. 2003: Três por Dois - Exposição dos professores artistas da FUNDARTE/UERGS - Galeria de Arte Loíde Schwambach, Montenegro-RS, Brasil. 2004: Uma Viagem de 450 Anos - Exposição em comemoração ao aniversário dos 450 anos da cidade de São Paulo com curadoria de Radha Abramo, SESC Pompéia. S. Paulo-SP, Brasil / Mostra de Lançamento do MAC no Cais do Porto - Armazém A6 do Cais do Porto, Secretaria Estadual de Cultura, Instituto Estadual de Artes Visuais e Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, P. Alegre-RS, Brasil.

PRINCIPAIS EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS: 1988: Galeria Arte & Brick, Ijuí-RS, Brasil / Clube Harmonia, São Luiz Gonzaga-RS, Brasil / Galeria Ornamento, Santo Ângelo-RS, Brasil / Galeria Arte Presente, Cruz Alta-RS, Brasil. 1989: Galeria João Fahrion, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, P. Alegre-RS, Brasil. 1991: Arte na Cabeça, Rio Grande-RS, Brasil / Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas-RS, Brasil. 1993: Espaço de Arte Miró, Centro Cultural Brasil/Espanha. P. Alegre-RS, Brasil. 1996: Sala Catarsis, Madri, Espanha. 2005: Galeria Augusto Meyer, Casa de Cultura Mario Quintana. P. Alegre-RS, Brasil.

SALÕES: 1983: II Mostra da Arte Missioneira, São Luiz Gonzaga-RS, Brasil / 2ª Arte Universitária - Instituto de Artes/UFRGS, P. Alegre-RS, Brasil. 1987: IV Mostra da Arte Missioneira, São Luiz Gonzaga-RS, Brasil. 1988: V Muestra del Arte Misionero - Museo de Bellas Artes de Posadas, Argentina / VIII Salão Câmara Municipal de Porto Alegre, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, P. Alegre-RS, Brasil. 1989: Salão de Artes Plásticas Copesul/MARGS 35 anos - Museu de Arte do Rio Grande do Sul, P. Alegre-RS, Brasil / VI Mostra da Arte Missioneira, São Luiz Gonzaga-RS, Brasil. 1990: Salão de Arte de Novo Hamburgo, N. Hamburgo-RS, Brasil / IX Salão Câmara Municipal de Porto Alegre - Museu de Arte do Rio Grande do Sul, P. Alegre-RS, Brasil. 1999: Menção Honrosa Categoria Pintura - IX Salão Latino-Americano de Artes Plásticas de Santa Maria - Museu de Artes Plásticas de Santa Maria – RS, Brasil.
Marco de Araujo é também pesquisador e Professor Titular do Curso de Pedagogia da Arte – Qualificação em Artes Visuais da FUNDARTE/UERGS. Tem publicações em revistas e livros.