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ESPAÇOS GESTUAIS, PLANARES E VOLUMÉTRICOS NAS PINTURAS DE MARCO DE
ARAUJO
Niura Legramante Ribeiro* |
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Sem Título. Óleo sobre MDF recortado.
137cm x 183cm. 2004.
Fotografia: Leandro Selister
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Do informalismo ao abstracionismo geométrico, da planaridade ao
ilusionismo e do gesto autográfico à impessoalidade. Essas são as formas
de representações de espaços que as pinturas de Marco de Araujo colocam em
discussão nesta mostra individual que ocorre na Casa de Cultura Mario
Quintana.
As suas pinturas a óleo sobre MDF, de bordas recortadas, produzidas
especialmente para essa exposição, apresentam elementos plásticos bem
definidos. Para configurar os planos das obras, o artista se impõe uma
regra metodológica durante o processo de trabalho no atelier: parte sempre
das extremidades em direção ao centro compositivo. Primeiramente, elabora
um campo plástico com superfície de pinceladas gestuais ou com a técnica
do dripping, isolando os demais planos para conseguir precisão de
acabamentos nos limites dos espaços internos. Em um segundo momento,
constrói uma estrutura plana geométrica completamente uniforme, que
resulta em triângulo, retângulo, quadrado, losângo, círculo e semicírculo.
E, por último, cria a forma essencialmente volumétrica, com o cilindro e a
sua sombra projetada sobre aquela superfície geométrica. O cilindro que
atravessa a composição e avança no espaço para fora do limite de cada
obra, a princípio poderia ser visto como uma imagem meramente abstrata,
porém pode nos surpreender: aliado à projeção de sua sombra, é o elemento
marcadamente realista, responsável, portanto, pela ilusão de
tridimensionalidade no espaço da pintura. É a volumetria e a tomada aérea
do próprio cilindro que cria o distanciamento dos demais planos
compositivos e define o contraponto com as superfícies informais e
abstrato geométricas. A sensação que se tem ao visualizar os trabalhos à
certa distância é que o cilindro se configura como um elemento real que
foi colocado sobre as pinturas. Mas não se engane, pois é pura ilusão de
ótica.
Nas superfícies de tratamento gestual, o pintor utiliza várias cores e,
apesar de tratar-se da parte do trabalho que concentra maior
subjetividade, um olhar mais atento pode constatar que as pinceladas
matéricas têm um determinado sentido bem estruturado de repetição na forma
de “s”. As cores nos espaços geométricos, por sua vez, estabelecem
racionalmente um jogo com as cores do cilindro, conforme atesta o pintor:
“se a figura geométrica é de uma determinada cor, o cilindro será de uma
cor análoga à complementar da geometria. Se a cor do triângulo é violeta,
a cor do cilindro é laranja”(1). Para criar uma completa e desejada
impessoalidade nas superfícies geométricas ele usa uma única cor em cada
forma e faz correr, de maneira uniforme, o rolo que utiliza para pintar.
Quanto mais pastosa prepara a tinta, mais a textura do rolo fica evidente,
desde que conserve a ausência de uma marca de subjetividade.

Sem Título. Óleo sobre MDF recortado. 91cm x 137cm. 2004.
Fotografia: Leandro Selister
Os elementos compositivos atuais começam a aparecer em pinturas a óleo
sobre tela, em 1987. Porém, nesse momento, o artista ainda conserva a
forma tradicional de apresentação do quadro: o cilindro se prolonga até as
bordas, já manifestando intenções ilusionistas, entretanto há uma escala
de diâmetro mais tímida que as atuais, enquanto que as formas geométricas,
na maioria das vezes estão contidas sobre as superfícies das pinturas
informais, funcionando como fundo para os cilindros.
A partir de 1992, suas pinturas passam a ter limites externos recortados
de forma minuciosa, em contraposição com a simplicidade formal e a
volumetria do cilindro. Este cilindro avança além dos limites das bordas
recortadas, passando a se impor como grande força plástica dos trabalhos.
Nas obras da presente exposição, Marco realiza uma depuração e uma
simplificação em tais recortes, passando a tratá-los como espaços e
estabelecendo um diálogo mais coeso com as formas geométricas. Assim como
o cilindro, também tais formas planares ultrapassam as extremidades das
pinturas, embora continuem ainda exercendo o papel de fundo para o
cilindro, mesmo que, em um certo sentido, possam se comportar como figura
se as suas extremidades forem levadas em conta. A pintura, literalmente,
invade o espaço externo e passa a exigir um afastamento da parede,
denunciando a intencionalidade de se constituir em uma pintura-objeto.
Nesse sentido, Marco se diz um admirador confesso de Frank Stella pela
utilização que este artista faz dos materiais e dos diferentes
procedimentos plásticos.
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Os elementos abstratos presentes nesta exposição são originários de
sucessivos desdobramentos de trabalhos anteriores e tiveram sua
origem no cenário que servia de composição para a figura humana, na
técnica de pastel sobre papel, em trabalhos de 1984. Nesses
trabalhos, o artista realizava um enquadramento em close da figura
humana na altura mediana do corpo, tendo como fundo a estrutura
geométrica do beiral de uma janela, dos marcos de uma porta, já
deixando aparecer a sombra da figura humana projetada no espaço.
Portanto, data desse período o seu interesse pela contraposição
entre elementos compositivos acentuadamente realistas - pelo
tratamento volumétrico dado à roupa da figura humana - em
contraposição com um fundo claramente geométrico. A ambigüidade
entre o figurativo e o abstrato é claramente visível, pois à
volumetria da cama contrapunha a textura xadrez de um cobertor; à
volumetria da cadeira, o xadrez de uma camisa. |

Sem Título. Óleo sobre MDF recortado.
137m x 91cm. 2004.
Fotografia: Leandro Selister |
Nesse período, Marco de Araujo parece imprimir uma visão em close aos
referentes que lhe servem de motivo plástico. É esse, pois, o modo de
enquadrar os objetos que origina a forma do cilindro já presente em obras
dessa década, no encosto de cadeiras, na cabeceira de camas de ferro, nos
cordões que amarram um pacote ou ainda nas mangueirinhas que interagem com
um fundo completamente ritmado por estruturas geométricas verticais e
horizontais. Aqui estão definidos os elementos que, atualmente, comparecem
em sua poética: o espaço planar e o ilusionista, o cilindro e a sombra.
Tais elementos são inquisidores dos sistemas de representação da pintura
na história da arte. Na visão do artista, esses sistemas comportam uma
determinada acidez em relação à teoria da pureza modernista de Clement
Greenberg: “com o cilindro acentuo a idéia de realismo, ilusão ótica e
superposição de plano. Acho importante acentuar a ilusão, porque contraria
a teoria de Greenberg, aquela que determina a essência própria de cada
arte e a pintura, segundo o crítico, estaria reservada à planaridade”(2).
Ao sobrepor um espaço ilusionista sobre um espaço planar, Marco passa a
contrariar a idéia da especialidade Greenberguiana. Como se sabe, o autor
de “Pintura Modernista”, atribui a cada categoria a função de trabalhar
com a especificidade própria de cada meio: “foi a ênfase conferida à
planaridade inelutável da superfície que permaneceu, porém, mais
fundamental do que qualquer outra coisa para os processos pelos quais a
arte pictórica criticou-se e definiu-se a si mesma no modernismo. Pois só
a planaridade era única e exclusiva da arte pictórica”(3) .
Sendo assim, Greenberg nega que a tridimensionalidade seja área de
competência da pintura: “a tridimensionalidade é o domínio da escultura e
para preservar sua própria autonomia, a pintura teve, principalmente, que
se despojar de tudo o que não podia partilhar com a escultura, e foi esse
esforço, e não tanto (...) para excluir o representativo ou literário, no
entanto, que ela se tornou abstrata”(4). Ao introduzir, pois, a ilusão do
espaço tridimensional com o grau de realismo impresso à representação do
cilindro, que Araujo parece não partilhar das atribuições unívocas
exigidas para pintura modernista por aquele crítico. Suas pinturas seguem
na contramão do autor modernista, não se atendo unicamente ao domínio da
bidimensionalidade.
Tal procedimento plástico de recorrer a diferentes elementos estilísticos
em suas pinturas o levou a realizar sua tese de doutoramento, El
Ecleticismo en la Pintura, pela Universidad Complutense de Madrid, em
1998, e a desenvolver outros artigos sobre o ecletismo estilístico na
pintura pós-moderna. Essa relação entre teoria e prática pode ser atestada
pelo artista: “A minha produção teórica está intimamente vinculada e
relacionada ao meu trabalho artístico, pois este, como se pode observar, é
um trabalho eclético, onde existem referências a diferentes estéticas ou
estilos artísticos”(5). Estes são os valores operativos e ideativos de
linguagens ecléticas que enformam a concepção plástica das pinturas de
Marco de Araujo.
Notas
(1) Depoimento do artista à autora em 30 de abril de 2005.
(2) Depoimento do artista à autora em 14 de abril de 2005.
(3) Clement Greenberg. “Pintura Modernista” in Clement Greenberg e o
debate crítico. Rio de Janeiro: Funarte e Jorge Zahar, 1997, p, 103.
(4) Idem, p. 104.
(5) Depoimento do artista à autora em 14 de abril de 2005.
* Niura Legramante Ribeiro é professora de Teoria e História da Arte
no Atelier Livre de Porto Alegre, no curso de Artes Visuais e na
Especialização em Poéticas Visuais e Ensino da Arte na Feevale de Novo
Hamburgo. É Mestre em Artes pela Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo. |