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4. Livro-objeto
Marcio Doctors Os Os livros-objeto não se prendem a padrões de forma ou funcionalidade, extrapolam o conceito livro rompendo as fronteiras comumente atribuídas aos livros de leitura para se assumirem como objetos de arte. São objetos de percepção. Normalmente, são obras raras, muitas vezes únicas, ou com tiragens extremamente reduzidas. Resistem na contramão em relação aos veículos reproduzidos em massa[1].
Essas obras poderiam representar uma das evoluções possíveis, e perfeitamente aceitáveis, da forma convencional do livro, que prevaleceu desde Gutenberg, e que o livro-objeto viria complementar, sem, evidentemente, substituí-la. Haja visto, por exemplo, a introdução da terceira dimensão, ou o que tem sido feito no livro infantil, em que o livro se desdobra, ao ser aberto, num conjunto que desperta a imaginação da criança e volta a ser um simples livro quando se fecha[2].
No livro-objeto, a narrativa literária é substituída por uma narrativa plástica. Sua importância se dá exatamente porque atravessamos um momento de amolecimento de fronteiras. As estruturas atreladas ao pensamento tradicional da representação foram ficando enfraquecidas, diluindo seus contornos e foram emergindo novas formas de expressão, ou melhor, antigas formas de expressão foram retomando sua contundência, definindo outros campos. As categorias tradicionais vão, aos poucos, perdendo sentido enquanto expressão necessária da vida e do mundo, passando se a optar por formas expressivas que não temem sobrepor, juntar, combinar o que antes parecia impossível de estar junto. Esse é o caso do livro-objeto. A estrutura livro passa a ser capturada pela estrutura plástica vemos nascer uma outra forma expressiva. O livro-objeto é um cruzamento de forças que estabelece um novo campo, o exorbitar os limites e ao se configurar nos vazios criados tanto pela literatura quanto pelas artes visuais[3].
Na construção dos livros-objeto, vários aspectos do objeto livro são explorados plasticamente, como o fato de que um livro proporciona prazer intelectual através de seu texto, mas também prazer táctil e visual. O livro pode ter uma leitura contínua, que desenha uma linha, da capa à sua última página, mas que mantém uma relação de interatividade com o leitor, que poderia ser chamado de manipulador, regente daquela orquestra de páginas, que, hora abre aleatoriamente o livro e pode fazer uma leitura ao acaso, como em um livro de poemas,
o melhor dos livros de poemas é que sempre falta algum pra gente ler[4]
hora é guiado pelas sinalizações gráfico[5]/verbais[6] da narrativa do livro, como o maestro que é regido pelo timbre dos instrumentos. Veja que o que se estabelece entre objeto/leitor é um um diálogo semelhante ao que acontece quando se visita a obra Os Bichos, de Lygia Clark, onde a estrutura dos Bichos reage, com seus movimentos próprios e definidos, às estimulações do espectador[7], como um organismo vivo (CLARK, 1998. p121).
No Brasil, a experiência de livros-objeto nasce nitidamente do encontro entre poetas e artistas visuais nos períodos Concreto e Neoconcreto (final dos anos 50 e começo dos anos 60). A poesia concreta foi fundamental para sublinhar aspectos formais e sonoros das palavras, fazendo com que se descolassem da sintaxe tradicional e inventando uma outra sintaxe poética-visual para o texto. Como desdobramento das idéias desse período, os livros-objeto de Augusto de Campos e Julio Plaza (Poemóbiles, Objetos Poemas e Caixa Preta) são excelentes exemplos. Durante o Neoconcretismo, essas experiências são radicalizadas, explorando a forma enquanto narrativa.
Outro momento fundamental nessa trajetória histórica é a obra editorial de Julio Pacello, um grande artista gráfico argentino-brasileiro, foi o primeiro a editar álbuns de gravura brasileira e livros como objetos de arte. Editor de rara sensibilidade, convida poetas e artistas plásticos a trabalharem juntos, conseguindo resultados da mais alta qualidade do livro enquanto objeto.
Durante a década de 70, temos uma explosão de livros-objeto. A própria condição da arte nesse período produziu um transbordamento de limites, fazendo com que os artistas se lançassem em múltiplas direções, explorando as mais diferentes possibilidades de expressão[8].
Diversos artistas brasileiros produziram livros-objeto, como Arthur Barrio, Lygia Clark, Antonio Dias, Waltércio Caldas, Mira Schendel, Alex Hamburguer, Delson Uchoa, Augusto de Campos, Julio Plaza, Liuba, Renina Katz, Lygia Pape.
A partir da aproximação entre literatura e artes plásticas, junto às realizações do modernismo e neovanguardas, houve um amolecimento das fronteiras entre as categorias tradicionais de arte: pintura, escultura, fotografia, literatura, objeto, desenho, colagem etc. passam a ter um diálogo cada vez maior e a se fundir, abrindo espaço para experimentação. Tornam-se possíveis obras que podem ser identificadas tanto como poema visual (uma categoria da literatura), como pop arte (uma categoria das artes plásticas), sem nenhuma incoerência. Como é o caso do Exemplo 30, de Philadelpho Menezes, mostrado na figura abaixo:
O fazer que cruza os campos da imagem e da escrita cruza também
vários modos de fazer, e se apropria de suportes não convencionais. No século
XX, o branco da página entra como elemento da poesia, do mesmo modo que o desenho
e signos da escrita entram como elemento da pintura, e é natural que, a partir
de um certo momento, as experimentações também incorporem o ambiente, ganhem
o espaço, incorporem significados, formas e temporalidades de suportes tridimensionais,
ou quadridimensionais, sejam eles um sapato, um liquidificador, uma sala, uma
gaveta, uma calçada ou um painel luminoso[9]. É o caminho que vai a poesia visual à poesia objeto. É
o caminho que chega ao livro-objeto, às instalações e às intervenções.
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[1] CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL. Livres
Objetos. Rio de Janeiro: CCBB, 1994. |