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Artistas convidados : Adriana Boff, Alfredo Nicolaiewsky, Alexandre Cappellari, Alexandre Moreira, André Severo, Andrei Thomaz, Carlos Asp, Carolina Breda Resende, Carla Borba, Carlos Pasquetti, Cristina Ribas, Clóvis Dariano, Daniela Cidade, Daniele Marx, Denise Gadelha, Eduardo Vieira da Cunha, Elaine Tedesco, Ethiene Nachtigall, Fabiana Rossarola, Fabiana Wielewicki, Fabio Del Re, Flávio Gonçalves, Glaucis de Moraes, Helena Martins Costa, Hélio Fervenza, Juliana Angeli, Kátia Prates, Leandro Selister, Letícia Cardoso, Lucia Koch, Mara Alvares, Mariana Silva da Silva, Mariane Rotter, Maria Helena Bernardes, Manuel da Costa, Mario Ramiro, Mario Rohnelt, Neuza Zini, Nick Rands, Odilza Michelon, Paula Krause, Paulo Gomes, Raquel Stolf, Richard John, Tiago Rivaldo, Vera Chaves Barcellos, Vilma Sonaglio e Yftah Peled. |
| Em busca do
Território Perdido Os caminhos da fotografia são muitos e sua história marcada por inúmeras bifurcações. Por ser imagem realística anteriormente jamais conseguida, a imagem fotográfica angariou para si um estatuto de persuasão indiscutível até bem avançado o século XX. Desde o momento em que se convencionou reconhecer sua invenção até hoje uma das mais recorrentes possibilidades de territorialização da fotografia calcou-se na crença em sua ontologia especular, o que lhe traria estreitas afinidades com funções de caráter documental como o fotojornalismo e a ciência. Entretanto, paralelamante a esta vocação historicamente convencionada, as relações da fotografia com a arte sempre foram tema de debates constantes, apesar dos inúmeros preconceitos que nortearam esta discussão. O estatuto inicial da fotografia, colado ao avanço do positivismo científico e à era industrial, contribuiu com o fato de ela não ter sido levada a sério como arte no século XIX. Mesmo em Baudelaire, o pai ancestral da modernidade artística, vamos perceber restrições quanto ao poder estético da fotografia diante de sua origem subsidiária à máquina. A conquista de um espaço mais marcamente artístico pela imagem fotográfica se deu no envolvimento com a pintura, imitando-lhe os efeitos. Muito disso se deve a movimentos como o academicismo e o pictorialismo, experimentos que buscaram muito mais a capacidade da fotografia em aproximar-se mimeticamente da pintura, como manifestação primordial das artes no século XIX, do que trataram de sua especificidade. Coube às vanguardas artísticas em seu ímpeto renovador, a possibilidade de reavaliação de todo o campo artístico, introduzindo uma sensibilidade mais acurada para outros recursos visuais vinculados ao mundo moderno e ao cotidiano fortuito do homem comum. As artes das massas, como a fotografia e o cinema nascente, ganham relevância e passam a ser incluídas nas pesquisas artísticas. A Bauhaus, o surrealismo e as experiências dadá têm muitas contribuições neste direcionamento. Com estes movimentos, a fotografia é investigada como rompimento frente às imposições pictóricas que a haviam influenciado e mesmo limitado o seu avanço. Os artistas da Bauhaus fazem usos inusitados da imagem através de sobreposições, fotomontagens e diferentes enquadramentos fotográficos como recursos específicos da fotografia. O surrealismo, por sua vez, percebe na imagem fotográfica a possibilidade de analogias com a noção de escrita automática, considerando o olho da objetiva também ele um disparo que traz à tona elementos que remetem ao mundo inconsciente. Com o dadaísmo, por outro lado, realizam-se pesquisas que acabam chegando à possibilidade de compreender a fotografia tanto como trama ficcional quanto como traço ou rastro da realidade. Em todos estes movimentos, percebe-se haver uma reavaliação da imagem fotográfica, indo além do meramente documental e ultrapassando, em muito, as demarcadas fronteiras da fotografia como recurso auxiliar da atividade artística. A partir do segundo pós-guerra, com o questionamento dos valores centrais do Sistema das Artes, aparecerá um uso bem mais ampliado da fotografia nas artes visuais, demarcando a consolidação de um território de relevância inconteste para a experimentação e reflexão sobre a imagem no mundo contemporâneo. A discussão, já em desuso, sobre o estatuto artístico da fotografia volta à tona, quando a arte parece confundir-se com o fotográfico. Opera-se uma passagem que se configura a partir da visão da fotografia enquanto arte para a visão da arte enquanto fotografia. Em tendências absolutamente diferentes, como as experiências neo dadás ou as apropriações da imagem midiática pela arte pop ou, ainda, a partir do princípio documental da imagem fotográfica nas investigações de caráter processual conceitualistas, haverá uma introdução mais agressiva - e talvez definitiva - da fotografia na arte contemporânea. Se nos anos 1960/70 a fotografia é vista ainda como coadjuvante dos processos artísticos, nos anos 1980/90 ela se configura como obra em si, latência que, entretanto, já aparecia nos primórdios da experiência conceitual. A exposição Um Território da Fotografia não tem a pretensão de fazer um mapa exaustivo das pesquisas contemporâneas relacionadas à imagem fotográfica. Trata-se de uma primeira amostragem da cena local, considerando os últimos dez anos, em que a fotografia e suas infinitas possibilidades se imbrica ao amplo leque de experimentações que caracteriza a arte contemporânea. É, portanto, uma possibilidade de reflexão em curso, uma vez que a recorrência da fotografia em inúmeras mostras, salões e pesquisas artísticas, também vem se apresentando em Porto Alegre, como em outras cidades do país e do mundo. Estabelecendo um olhar sobre esta produção local, pretendemos colaborar para o reconhecimento deste território, expondo, ao mesmo tempo, sua vitalidade e pertinência em consonância com a cena internacional contemporânea que vem se debruçando sobre o campo expandido da imagem. Se a fotografia não é a única linguagem à disposição da arte contemporânea, na diversidade de escolhas para trabalhar com a imagem, ela ainda se coloca, entretanto, em estado de proeminência diante de outros recursos à disposição dos artistas. Por ser a pluralidade um dos aspectos centrais da produção artística contemporânea, esta exposição busca traçar um mapa bastante diferenciado das pesquisas locais. No grande número de artistas convidados há a preocupação de traçar um leque variado de possibilidades quanto à experimentação da fotografia. Radicalizando o legado das vanguardas, a imagem fotográfica se vê, na contemporaneidade, atravessando fronteiras que não se limitam mais somente à sua condição especular. Nessa perspectiva, aparecem experimentações que se aventuram em subterritórios ou zoneamentos diferenciados. Sem a preocupação de estabelecer uma hierarquia, nesta exposição pretendemos apontar dez destes subterritórios, mesmo cientes de que não existam entre os artistas convidados, processos poéticos estanques, mas investigações processuais que oscilam em sua territorialização, podendo tangenciar diferentes propostas de localização que ultrapassam qualquer classificação. Um primeiro zoneamento ou subterritório é o da relação imagem e espacialização: nesta situação a fotografia é vista como signo que ganha o espaço, seja através da imagem projetada, seja através da imagem como percurso espacial fragmentário ou experiência individual do espaço. Num segundo zonemento temos as passagens de linguagens, onde a imagem fotográfica atravessa diversos meios, desde a impressão digital, o plano pictórico ou até mesmo a possibilidade de constituir-se como objeto. Uma terceira possibilidade é a das atitudes gráficas via imagens, na composição de serialidades ou mesmo fotomontagens, dando lugar a jogos de linguagem. Num quarto subterritório aparecem aquelas experiências em que a imagem fotográfica é tomada como origem ou modelo para o trabalho artístico, quando a pintura é claramente subsidiária da imagem fotográfica. Num quinto zonemanto, aparece a criação assumida de ficções cotidianas, como elementos questionadores do poder especular e persuasivo da imagem fotográfica. O sexto subterritório é aquele da demonstração do processo artístico, este acontecendo como imagem/pensamento em artistas filiados à herança conceitual. O sétimo é o das construções poéticas a partir da própria imagem, onde esta última, apesar de elemento central, constitui-se em visão diferenciada sobre a imposição das regras retinianas convencionais. Num oitavo subterritório percebemos as ressemantizações da imagem pré-existente ou, se quisermos, o uso de imagens de segunda-mão, tendência largamente utilizada no mundo contemporâneo em que a necessidade da memória e a poluição de imagens refaz uma espécie de arqueologia imagética. Uma nona possibilidade é a da imagem fotográfica como processo de desaparição, na qual os artistas criam estratégias de desorganização do referencial ortogonal da imagem no Ocidente. E, finalmente, um décimo subterritório é aquele da imagem obtida a partir da investigação e intervenção no processo fotográfico. Contar um pouco da história recente da fotografia neste território específico, o da arte contemporânea, desdobrado a partir dos subterritórios ou zoneamentos do fotográfico acima mencionados, é pensar a respeito do próprio processo de autonomização da arte como fotografia. Como se vai perceber, boa parte da produção contemporânea envolvendo a fotografia não está interessada na noção de autoria, advinda de um fazer técnico apurado, ainda que isto não seja algo, necessariamente, rechaçado. Entretanto, a
compreensão do signo fotográfico e a presença da imagem no mundo
parecem ser necessidades bem mais flagrantes nas investidas do artista
contemporâneo em direção à fotografia. Esta se torna pensamento a
respeito das inquietudes da era pós-industrial, cenário em que estamos
a todo momento sendo postos à prova na convivência obrigatória com os Justamente por isso, a
máquina fotográfica, como instrumento que tem sua lógica própria,
com regras fixas, é tomada como campo de experimentação, cujas
imposições técnicas cabem ao artista subverter. No território da
arte contemporânea, a fotografia ganha outra vida quando posta em
contato com a tinta, com o lápis, com o texto, com a espacialidade,
enfim, com a discussão de sua ontologia de processo físico químico e
de signo cultural que tem contato tênue com a realidade.
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