Sílvia Motosi - Pinturas
(03/11/1971-26/02/2002)

 

Galeria Iberê Camargo - Usina do Gasômetro - Porto Alegre - RS
Abertura - 15 de junho às 19h - Visitação - 16/06 a 30/07/2004
De terça a domingo, das 15h às 19h

 

(...)Quem já se perguntou: sou um monstro ou isto
é ser uma pessoa ? (...)
É que “quem sou eu?” provoca necessidade.
E como satisfazer a necessidade ?
Quem se indaga é incompleto.
(A Hora da Estrela - Clarice Lispector)


Há 3 anos, numa tarde quente, recebi Sílvia Motosi e Amélia Brandelli em minha casa. Conversamos um bocado de horas entre brincadeiras, risos e sessões despretensiosas de fotografia. Um dos motivos dessa reunião era realizar uma exposição virtual dos trabalhos de Sílvia na internet.

Por motivos alheios a nossa vontade, a exposição acabou não acontecendo, mas as fotos dos trabalhos permaneceram comigo até hoje. Passados 3 anos, recebo o convite da Amélia para que realizássemos uma exposição em homenagem a Sílvia.

É sempre difícil pensar em uma exposição que será uma homenagem a uma artista e amiga que partiu tão cedo e uma grande responsabilidade traduzir um pouco a sua paixão pela pintura. Entre as várias fotos que tive acesso, inclusive ensaios fotográficos da própria artista, optei por ressaltar no folder da exposição as inúmeras personagens que Sílvia retratava em suas pinturas.






É como se ali estivessem registradas todas as suas perguntas acerca de si própria : “Quem sou eu ?”. Essa é a pergunta que me vem à cabeça o tempo todo. Uma pergunta que todos nós repetimos diariamente.

Essa necessidade de nos entendermos, de compreender nosso papel no mundo de hoje, às vezes é quase insuportável, mas ao mesmo tempo, impossível de escapar.

Somos acima de tudo iguais. Humanos. Sofremos, sorrimos, somos felizes e infelizes, exagerados e discretos, amamos e odiamos, e, na verdade, o que queremos é sempre o melhor para nós mesmos e para as pessoas que amamos. Assim é a vida, ou pelo menos é assim que deveria ser.

Homenagear a Sílvia hoje, é antes de tudo, manter vivo em nossa memória, o trabalho intenso de uma jovem artista que vivia para pintar e pintava para viver.


Leandro Selister
Artista plástico, Junho/2004



 

 

Sobre a Obra de Sílvia Motosi

Paulo Gomes

Artista plástico e curador independente. Doutor em Artes Visuais.

 

A dor era tão intensa que me fazia gemer, mesmo assim, tão extraordinária que era a doçura desta dor imensa, que eu não podia desejar livrar-me dela. (Santa Teresa de Ávila)


A obra de Sílvia Motosi é uma presença importante na pintura gaúcha dos últimos vinte anos. Sua obra apresenta características fortemente pessoais que a destacam no grande grupo: originalidade temática, caráter decorativo e imaginário literário plasmados através de uma fatura pictórica densa e colorística com forte caráter gráfico. Uma obra feita discurso e forma - em regime de urgência, sem muito tempo para um acabamento detalhista.

Imaginário pessoal e com forte uso de ironia e/ou crítica caracteriza seus trabalhos e, com relação a sua inserção geracional, é importante assinalar que ela faz parte de um grupo de artistas que trabalhou com materiais pobres. Na pintura poderíamos falar de uma geração PVA/pó xadrex, além dos papelões e tecidos inadequadamente utilizados, esticados de qualquer maneira sobre chassis improvisados. Isso evidencia a fragilidade de uma época de indefinições ou incertezas, no qual o resultado é a quase absoluta despreocupação com a durabilidade e/ou permanência das obras. Juntemos a isso o trânsito indiscriminado entre técnicas desenhos e pinturas de difícil classificação e temos uma despreocupação como estabelecimento de limites e com a permanência das obras.

Entendo isto como uma reação: um novo humanismo dos anos 80, no qual a idolatria fetichista do dado científico e mecânico foram substituídos pela revalorização do homem por meio do produto mais alto e construtivo que este apresenta: a arte. Uma geração que despertou para o valor e para o sentido (implícitos ou explícitos) da arte contra as generalidades, as classificações, a tipologia materialista, o esteticismo abstrato e o moralismo duro e intolerante.

Clique nas imagens
para visualizar alguns trabalhos


Sílvia Motosi  Sílvia Motosi

Sílvia Motosi  Sílvia Motosi

Sílvia Motosi  Sílvia Motosi


Sílvia Motosi  Sílvia Motosi

Sílvia Motosi  Sílvia Motosi



Através do olhar desta artista contemporânea fazemos um visita original ao domínio das paixões profanas e religiosas, inspirada por uma iconografia culta e organizada por um sistema construtivo arcaico (os polípticos) no qual as pulsões vitais se misturam a uma espécie de frenesi sensorial de símbolos, cores e formas. Um trecho de Roberto Calasso me ocorre agora que olho para estas pinturas. Diz ele que "As figuras do mito vivem muitas vidas e muitas mortes, diversamente das personagens de romances, sempre vinculadas a um só gesto. Mas em cada uma dessas vidas e dessas mortes participam todas as outras e elas ressoam." Juntemos ainda a epígrafe de Santa Teresa de Ávila, que retirei do portofólio da artista, e estamos com dois bons guias para entrar no universo plástico de Sílvia Motosi.

 

Agradecemos a todas as pessoas que colaboraram para que a realização desta exposição fosse possível.