TRÊS DIAS A QUATRO MÃOS NO ATELIER DE PISSARRO
desenho, pintura e vídeo  de
Daí Zheng e Teresa Poester

De 6 a 18 de março de 2003 - Château de Gisors - Gisors, França
Apresentação do vídeo na Embaixada do Brasil
na França dia 27/03/2003 às 18h30, na Sala Villa Lobos.
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Três dias a quatro mãos no Atelier de Pissarro
Homenagem ao centenário de morte de Camille Pissarro (1903-2003)


As artistas Teresa Poester, brasileira, e Daí Zheng, chinesa, realizaram uma experiência única no antigo atelier de Camille Pissarro em Eragny sur Epte. Durante o mês de julho de 2002, elas concluíram juntas uma pintura sobre tela de 1,5mx3,75m e um desenho sobre papel de 1,5mx4,5m, tendo como referencia a paisagem local. Trata-se de uma experiência a quatro mãos. As pintoras trabalham juntas e ao mesmo tempo sobre os dois suportes confrontando o ritmo oriental e ocidental na confecção pictórica. A paisagem, no trabalho das duas artistas, constitui um pretexto para o exercício do gesto.

Paisagem em Gisors Pissarro e Família Atelier de Pissarro
Daí Zheng no Atelier de Pissarro Daí Zheng e Teresa Poester no Atelier de Pissarro Teresa Poester no Atelier de Pissarro


O resultado desta experiência está sendo apresentado através de uma exposição em homenagem ao pintor, onde Teresa Poester e Daí Zheng, desejam ressaltar a importância do local e a influencia de Pissarro na pintura e no desenho contemporâneo. A exposição será acompanhada da apresentação de um vídeo de aproximadamente 20 minutos realizado durante o trabalho.

A paisagem de Eragny sur Epte e a atmosfera no atelier do pintor estimularam as artistas a realizar esta experiência integrando dois gestos e duas percepções diferentes da natureza.



Acrílico sobre tela. 150x375cm.



Desenho sobre papel. 150x450cm.

 

 

 
Sobre as artistas - Teresa Poester e Daí Zheng são professoras de desenho e pintura em Universidades de seus respectivos países. As duas artistas tem uma trajetória estritamente ligada ao motivo da paisagem. Tendo a orientação do mesmo diretor de tese, M. Pierre Baque, elas se conheceram em 1998 na França, na Université de Paris I - Panthéon - Sorbonne. Apesar do obstáculo da língua nos primeiros tempos, a pintura as aproximou.




Teresa Poester defendeu seu trabalho teórico, "Fronteira da paisagem: Janelas e Grades", em 4 de julho de 2002. Este estudo propõe uma relação entre a paisagem como motivo e a abstração na pintura ocidental do início do século XX. A partir da abstração, na história da pintura recente, o gesto se torna protagonista.

Num mundo onde a intervenção do corpo é cada vez menos solicitada, o desenho contemporâneo encontra sua identidade na escritura do gesto.

Seu percurso pessoal como artista há 25 anos testemunham essas idéias. Ao longo de sua trajetória as manchas informais do início se transformam gradativamente nas linhas orgânicas e rápidas dos últimos desenhos que parecem captar o caráter fugitivo da natureza onde tudo é movimento. "Na série atual "Os Jardins de Eragny" ela abandona a estrutura ortogonal das grades anteriores e busca a depuração do gesto.





Daí Zheng
deve defender sua tese em julho de 2003. ela é a primeira artista e professora de seu país a realizar um doutorado em Artes Visuais. O interesse pela natureza é marcante na sua pintura.

Se, na China, Daí Zheng era fascinada pela pintura ocidental, e particularmente pela escola francesa de paisagem, chegando na França ela resgatou, no seu trabalho, a tradição pictórica do oriente.


Ela procura agora a sensação da matéria retirada da natureza. A paisagem não é mais representada, mas utilizada como um instrumento de trabalho : as árvores, nas suas novas pinturas, constituem tanto uma presença física quanto metafórica com suas raízes no fundo da terra. Tem-se a impressão que a artista esfrega diretamente as telas nas texturas ásperas das árvores, sugerindo galhos e raízes com os traços do pincel característico da pintura chinesa, sutis e delicados.

 

 

"Depois de alguns dias trabalhando neste atelier
eu senti o ambiente histórico dentro e fora do lugar.
Isto dá vontade de pintar.
A natureza é percebida em nossos pensamentos
quando trabalhamos à quatro mãos.
Estes trabalhos se apresentam como um
cruzamento de duas culturas.
São construídos e destruídos muitas vezes.
Os dois tipos de traços superpostos revelam
gestos nascidos ao mesmo tempo
do corpo e da cultura."

Daí Zheng

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Daí Zheng
Daí Zheng
Daí Zheng Daí Zheng



"Eu estive em Eragny sur Epte pela primeira
vez em 1999.
Uma série de coincidências me levaram a
conhecer o atelier de Pissarro.
Logo que eu terminei minha pesquisa em Paris,
em julho de 2002, propus à Daí realizar este trabalho. Ficamos três dias juntas
dentro do atelier e logo depois voltei ao Brasil.
Uma outra série de circunstancias
nos permitiu apresentar agora o resultado
desta experiência que é também
a história de muitos encontros."

Teresa Poester

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 Teresa Poester Teresa Poester
Teresa Poester Teresa Poester

 


Resgate do Lugar através da Paisagem
Uma abordagem geográfica



Todos os dias, durante os deslocamentos das pessoas, ouve-se referência às categorias de espaço, lugar e paisagem, que são consideradas como equivalentes. Suas diferentes utilizações parecem não ter relevância.

No entanto, para a Geografia, essas categorias são conceitos operacionais diferenciados.O conceito central, representado pelo Espaço Geográfico, é aquele onde espaço e tempo são indissociáveis, permitindo-se pensar espaço como coexistência de tempos ou como acumulação desigual do tempo (1). Dessa maneira, pode-se pensar que num mesmo espaço, coabitam tempos naturais e tecnológicos diferentes, imprimindo ritmos diferenciados aos lugares e, como conseqüência, espaços geográficos marcados por heranças que apontam novas possibilidades.

É na leitura desses espaços que pode-se distinguir os demais conceitos da Geografia como Lugar e Paisagem: O Lugar não é apenas uma dimensão pontual, como por muito tempo se considerou. Atualmente , abrange também a dimensão da existência, a relação do indivíduo com o mundo, passando de uma relação local-local para uma relação local-global.

"No lugar, nosso próximo, se superpõe, dialeticamente, ao eixo das sucessões que transmite os tempos externos ...O eixo dos tempos internos é o eixo das coexistências, onde tudo se funde, enlaçando definitivamente as noções e as realidades de espaço e tempo". (2)

A Paisagem se define como espaço percebido e construído simbolicamente. Constitui o aspecto visível do espaço, organizado por dados sensoriais e simbólicos do indivíduo. "É o conjunto de formas, que num dado momento, exprimem as heranças representadas pelas sucessivas relações entre o homem e a natureza" (3).

Pode-se pensar que espaço geográfico é um complexo organizacional, que abrange, entre outras dimensões, a cultural, pela paisagem e a existência (objetiva ou subjetiva), pelo lugar.

É através dessas duas dimensões que pode-se perceber o trabalho de Teresa Poester (Brasil) e de Daí Zheng (China). O ponto de partida é uma visita à cidade de Gisors, na França. Existe, de imediato, uma interação artista-lugar. Caminhando pelas ruas do lugar, Teresa Poester associa de imediato a paisagem ao trabalho do pintor francês Pissarro (1830-1903). Para sua surpresa, é exatamente naquele lugar que o artista viveu, montou seu atelier e retratou suas últimas paisagens. Impulsionada pelo feliz encontro com o lugar, a artista descobre o atelier do pintor e depara-se com a simultaneidade dos tempos que ali existiram e que ali coexistem. O atelier permanece intacto, rodeado por uma paisagem "natural" que acompanha o tempo e avança sobre as materializações antrópicas.

É nesse lugar que, através da visão emotiva das artistas, irá se desenvolver a idéia de trabalhar a paisagem a quatro mãos. O resultado final "Trois Jours à Quatre Mains dans L'atelier Pissarro", inclui um painel em pintura, outro em desenho e um vídeo relatando a experiência.

A paisagem percebida pelas duas pintoras se reveste de sentido pois foi analisada, vivida e desejada na sua totalidade. Essa paisagem liga-se ao inconsciente, à memória e à existência das artistas. A percepção da paisagem é sempre uma visão de conjunto e depende da posição do observador. A posição determina a extensão do observador no campo visual e sua inserção no mesmo. A paisagem está em torno dele e não diante dele.

É significativo que a primeira cena do vídeo "Trois Jours à Quatre Mains dans l'atelier Pissarro" inicia-se com o movimento turbulento das águas do rio Epte e segue num giro de 360º, até retornar ao seu ponto de partida e encontrar os olhos atentos de Daí Zheng observando a paisagem. O lugar escolhido por Teresa e Dai, não está desconectado ou isolado do mundo. Este trabalho, resgata suas heranças, e o coloca numa dimensão global, permitindo perceber paisagens, há cem anos registradas por Pissaro, agora sob outro olhar.

Neste sentido, não é apenas o pintor que é homenageado aqui pelas artistas no centenário de sua morte mas também o lugar que é resgatado através da paisagem.


Luiz Alberto Morelli
Mestrando em Geografia pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

(1,2,3) Milton Santos (1997)
(Ao lado imagens do vídeo que acompanha a exposição)