PEDRO GERALDO ESCOSTEGUY
p o é t i c a s   v i s u a i s


Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli
Praça da Alfândega, s/nº - Porto Alegre/RS
Visitação de 16 de julho a 14 de setembro de 2003 - De terças a domingos, das 10h às 19h
Financiam este projeto: Fumproarte e Pref. Mun. de Porto Alegre


A PUC/RS, a Ed. da Univ. Federal de Santa Maria e o Acervo Literário Pedro Geraldo Escosteguy
convidam para a mesa-redonda : A narrativa vanguardista de Pedro Geraldo Escosteguy
e o lançamento do livro e exposição : Anticontos de Pedro Geraldo Escosteguy
Dia 21 de julho às 17horas. Prédio 9, campus da PUC/RS

 

PEDRO GERALDO ESCOSTEGUY
poéticas visuais



Os anos 1960-1970 foram especialmente instigantes no cenário brasileiro. Sob a égide da ditadura, diversos segmentos da sociedade procuravam novas formas de organização e de participação social e política, que rompessem a camisa de força imposta pelo regime militar. A sensibilidade cultural, expressa na música, no teatro, nas artes plásticas e outras manifestações criativas, não ficaria omissa ao momento.

Nas artes plásticas, um dos nomes síntese deste período será Pedro Geraldo Escosteguy. considerando o conjunto de sua obra, destacamos:

* A busca de novas linguagens que transcendessem a pintura e a escultura, em diferentes formas de objetos e instalações;
* A utilização de materiais alternativos como a madeira e o plástico, ou mesmo de objetos do cotidiano;
* A prioridade, nos conteúdos, ao protesto contra a violência da ditadura e outras formas de repressão;
* O íntimo diálogo entre a plasticidade dos elementos visuais e da palavra escrita;

  * O interesse manifesto pela participação dos mais variados segmentos de público no processo criativo, defendendo a idéia de arte como uma atividade integrada ao cotidiano.

A exposição retrospectiva Pedro Geraldo Escosteguy, Poéticas Visuais procura resgatar estes eixos centrais da produção do artista, mas, antes e acima disto, propõe a praxis da proposta de Escosteguy: o exercitar, no trabalho artístico, um íntimo díalogo com a sociedade e com o espectador. esta proposta, tão atual como o foi nos anos 1960-1970, reforça não só a homenagem, como a importância de mantermos a produção artística de Pedro Geraldo Escosteguy atuante em nosso convívio.

Ana Maria Albani de Carvalho e Susana Gastal - Curadoras da exposição

 

Anos 1960

Década de 1960: anos hippies, em tempo de filosofia zen, apregoando paz e amor; mas, também, tempo de guerras, como a do Vietnã. O Brasil do período defronta-se com o regime militar e a ditadura. Serão anos negros, com restrições às liberdades individuais e coletivas, que levarão à reação política extremada, na forma de luta armada (guerrilha) no campo e nas cidades. As artes e os artistas não ficarão omissos ao momento, e o país viverá um momento ímpar de criatividade na reação ao autoritarismo e à violência.

Os artistas ampliarão sua participação em manifestações de rua e propostas coletivas. O artista plástico Hélio Oiticica cria o termo Tropicalismo, que irá caracterizar todo um movimento cultural abrangendo música, teatro, artes visuais e cinema. A marcá-lo, a busca por uma nova brasilidade cultural e de uma arte que possa ser para todos, popular nas suas raízes, e de participação e envolvimento do espectador nas suas formulações a exigir penetração, toque, sensualidade, entrega. Arte não como um produto estático e acabado, mas, antes, um processo nascido na interação. Não importa o material, mas a proposição. Em relação ao cinema, o cineasta Glauber Rocha bradaria: «uma câmera na mão e uma idéia na cabeça». Nas artes plásticas não foi diferente. (Susana Gastal, fragmento do livro Pedro Geraldo Escosteguy, poéticas visuais).



Jogo (Roleta)
Técnica mista em madeira, 120 x 60cm, 1964
Col. Marília Escosteguy, Porto Alegre, RS.

Jogo

A idéia de jogo costuma ser convocada para sustentar inúmeros comentários e reflexões sobre a Arte, seja na busca em estabelecer uma possível distinção geral entre o campo artístico e outros domínios da atividade humana, seja na análise de procedimentos ou obras específicas. Muitas das analogias e relações estabelecidas entre o fazer artístico e o jogo, vinculam-se ao fato deste último pressupor uma prática que demanda a construção de suas próprias regras, sendo que as mesmas não têm um objetivo imediato além do próprio jogo. O jogo, nesta linha de raciocínio, se opõe ao mundo do trabalho, que visa a produção de algo enquadrado em uma lógica que extrapola o produzir em si.

No caso da produção artística realizada por Pedro Geraldo Escosteguy, a idéia de jogo pode servir como amálgama entre aspectos distintos de sua obra. Entre estes, considere-se o aspecto interativo presente em grande parte de suas peças. A interatividade, como fator preponderante na relação entre o espectador e a obra, encontra-se ancorado na busca de uma ponte entre arte e cotidiano e é fruto da atitude que o próprio artista estabelece como ponto de partida para sua execução e o modo como se vincula ao campo específico das artes visuais. 

Jogo também é o que se estabelece, nos trabalhos de Escosteguy, entre palavra e imagem, na medida em que a primeira é espacializada pelo artista. O contexto da palavra, neste caso, não será a lógica de um texto verbal, mas a do espaço físico dos objetos (Ana Maria Albani de Carvalho, fragmento do livro Pedro Geraldo Escosteguy, poéticas visuais).



Objeto

A noção de objeto como uma categoria artística - ao lado da escultura e da pintura, por exemplo - coloca a discussão sobre quais os critérios adequados para que algo possa ser definido e reconhecido como "obra de arte". De maneira resumida, é possível apontar duas questões centrais para o trabalho com o Objeto, por parte dos artistas contemporâneos: 

1) relação entre arte e cotidiano;
2) o conceito de apropriação.

Através do ato de tomar e da idéia de apropriar-se de algo já existente, os artistas que exploram as possibilidades do Objeto contrapõem ao procedimento que é considerado como típico da arte, no caso o "fazer a mão", um outro: o "já feito". Este último - associado à lógica da cultura de massas e do modo de produção industrial - não parece comportar com a mesma intensidade as idéias de autoria e originalidade, dois termos chaves para a construção do conceito de Arte, desde o Renascimento.

No caso específico dos trabalhos produzidos por Pedro Geraldo Escosteguy, também é adequado considerar o desejo do artista em favorecer uma aproximação entre público e obra através do Objeto como estratégia estética e como componente de modernidade embutido nesta mesma escolha, considerando-se o cenário sócio-cultural brasileiro dos anos 1960 e 1970 (Ana Maria Albani de Carvalho, fragmento do livro Pedro Geraldo Escosteguy, poéticas visuais).

Corpo Estranho (Dizer)
Técnica Mista, 180 x 110 cm, 1965
Coleção Marília Escosteguy. Porto Alegre , RS



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Pedro Escosteguy
  Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy
Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy
Pedro Escosteguy
Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy Pedro Escosteguy

 


O processo de trabalho de Escosteguy fica bem simbolizado por uma foto do seu atelier na época: numa bancada a sua frente, está uma plaina. Na parede, em cuidada organização, estão pendurados formões, martelos, chaves de fenda, mais lembrando uma marcenaria do que um ambiente de artes plásticas. Noutra foto, de 1970, o artista empunha martelo e formão. Pura manualidade? Com certeza, não. O processo é altamente cerebral, como mostram suas anotações para o objeto Construção Flutuante, composto por três caixas, onde bóiam um átomo, um coração e um óvulo invadido por um espermatozóide. Escosteguy anota no estudo : "Aqui o espermatozóide entra no óvulo com a respectiva cauda. Na verdade, grude (sic) a cauda ao entrar no óvulo. Exagerei para melhor compreensão."
Não causa surpresa, em tal ambiente de trabalho, a produção dos objetos como Instrumento I, Instrumento II, Instrumento III e Instrumento IV, de 1973, nos quais o trabalho é a fonte de inspiração. Um trabalho que é o do operário, mas também o do artista: o trabalho vira objeto. (Susana Gastal, fragmento do livro Pedro Geraldo Escosteguy, poéticas visuais).



Ao lado

Instrumento I, II, III e IV
Técnica Mista, 39 x 51cm
(as 3 primeiras)
40 x 53,5 cm (a quarta), 1973.
Coleção Marília Escosteguy, Porto Alegre, RS







 

 

Sobre Totem, Pedro Geraldo Escosteguy afirma :

"(...) nesta estrutura de madeira, levanto um pseudo-monumento de inspiração mágico-perspectiva onde o observador descobre ou não que as bandeira (?) ou armas (?) são pernas-de-pau verdadeiras, que inclusive, podem ser usadas por aquele. Fixo um aspecto da mentalidade do nosso povo que aplaude, ingenuamente, muita coisa que não lhe serve."

Mário Barata - "Nova arte ajusta-se à realidade brasileira". Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, 30 maio 1967. 


Totem (fragmento) -
Madeira pintada e pedras, 37 x 22cm, 1967. Col. Marília Escosteguy, Porto Alegre, RS
Exposições - Nova Objetividade Brasileira, Museu de Arte Moderna, R.Janeiro, RJ, 1967 / IX Bienal de São Paulo, 1966.

 

 


Cisne


Poema realizado ao ar livre, construído através de blocos de letras em cores diferentes, espalhadas no gramado do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O público faz as combinações a partir do poema Amor-te-espero/ A-morte-espero. A obra Cisne participou do I Salão da Bússola, Museu de Arte Moderna do rio de Janeiro, Guanabara, 1969. Foto : Acervo Literário Pedro Geraldo Escosteguy

 

 

 

PEDRO GERALDO ESCOSTEGUY (1916-1989)

1916
(14 de julho) - Nasce em Santana do Livramento/RS.

1938 - Conclui o curso de Medicina/UFRGS, em Porto Alegre.

1952 / 60 - Integra, como membro assíduo, o Grupo Quixote.

1955 - Publica Canto à Beira do Tempo, edição Quixote, com capa ilustrada por Trindade Leal.

1956 - Participa do livro Poesia Quixote, ilustrado por Enio Lippmann.

1960 - Defende tese sobre Autenticidade e Nacionalismo, no ISEB/RJ. Participa da Mostra Popular de Poesia Ilustrada e do Volante de Poesia, uma promoção do Grupo Quixote, na Praça da Alfândega/P.Alegre.

1960 / 62 - Transfere-se para o INPS do Rio de Janeiro, onde passa a residir.

1961 - Assina a apresentação do catálogo da primeira individual de Antônio Dias.

1962 - Assina a apresentação do catálogo da primeira individual de Antonio Maia.

1964 - Participa do XIII Salão Nacional de Arte Moderna/RJ, com Jogo (Roleta), Torturador (O Monstro), Pintura Tátil.

1965 - Participa da VIII Bienal de São Paulo, com Linha de Força (Ação), Libertação, Corpo Estranho (Dizer), Psicodrama (Paz). Participa da exposição Opinião 65, no Museu de Arte Moderna/RJ., com Estória e O Circo. Participa do Proposta 65, na Fundação Armando Alvares Penteado/SP, com Três Estágios, De Noite, de Dia, Conversa Telefônica e com o texto «No Limiar de uma nova estética».

1966 - Participa da Mostra Super-mercado 66, na Galeria Relevo/RJ, com Bonequinha da Lua. Participa da coletiva Ponto-de-Vista, na Galeria Convivium/Salvador/Bahia. Participa da Coletiva G-4, na inauguração da Galeria G-4/RJ, com Transcontinental, Mapão, Ameaça-criação e Tiro ao Alvo. Participa do evento Vanguardismo Brasileiro, na Universidade de Minas Gerais/BH, apresentando O Circo Atômico. Participa da Manifestação Aperingue, na Galeria Átrio/SP. Participa de Opinião 66, no Museu de Arte Moderna/RJ, com A Mocinha da Lua, Não Há Vagas e Geiger/67. Participa do Ciclo de Estudos da Arte Brasileira: Galeria Macunaíma, junto com Ivan Serpa, Rubens Gerchman, Carlos Vergara, Carlos Zilio, Antonio Dias, Antonio Maia, Ligia Clark, Helio Oiticica, Ligia Pape, Roberto Magalhães, Solange Escosteguy, Weslwy Duke Lee entre outros.

1967 - Participa da IX Bienal de São Paulo, com a série Angústias do Século: Transcontinental (Angústia Urbana); Tiro ao Alvo (Angústia Atômica); Operação Tartaruga (Angústia Militarista); Totem (Angústia Primitiva); Mapão (Angústia das Dominações) e Objeto Popular. Participa do XVI Salão Nacional de Arte Moderna/RJ., com Geiger/67 e Não Há Vagas. Participa do encontro Tendências da Pintura no Brasil Hoje, no Colégio do Brasil/RJ., com Tempos Modernos. Proposição de Imantados. Participa da Nova Objetividade Brasileira, no Museu de Arte Moderna/RJ., com Totem, Operação Tartaruga, Torre da Reflexão e Pintura Táctil. Participa do IV Salão de Arte Moderna do Distrito Federal/Brasília com Rastro, Arma, Pombo de Coração Quente. Participa de exposição em Natal, na Galeria Relevo/RJ., com a obra Bonequinha da Lua. Participa da Exposição Galérie (Múltiplos)/RJ., com Bonequinha da Lua.

1968 - Participa do XVII Salão Nacional de Arte Moderna/RJ., com O Ogro e Vampiro. Participa, no aterro do Flamengo, do Arte no Aterro: um mês de arte pública, organizado por Frederico Morais, com Jogos de Paz, trabalho coletivo com Jorge Sirito e Paulo Roberto Martins. Cria texto e roteiro para o curta-metragem Arte Pública, sobre a Bienal de São Paulo; filmado em 35mm pela Totem Filmes, o trabalho foi exibido, entre outros, no MoMa/Nova Iorque (1970). Participa de coletiva na Galeria Cleô/RJ. Torna-se membro da direção da Associação Internacional de Artes Plásticas/seção RJ. Participa da I Feira de Arte do Rio, promovida pela Associação Internacional de Artes Plásticas/seção RJ. Participa da Exposição das Bandeiras, na Praça Gal. Osório, no Rio de Janeiro.

1969 - Participa do I Salão da Bússola, no Museu de Arte Moderna/RJ, com Construção Flutuante (Prêmio Pesquisa General Filmes) e com Cisne-Poema: Amor te espero/Amorte espero, poema, instalação e filme no Museu de Arte Moderna/RJ. Participa da II Feira de Arte do Rio, no Museu de Arte Moderna. Cria stand modulado para exposição itinerante, denominado Helicóide. Torna-se delegado da Associação Internacional de Artes Plásticas/seção RJ., junto à Comissão Organizadora da X Bienal Internacional de São Paulo.

1970 - Apresenta em Milão, Itália, a obra Air. É membro do júri da representação brasileira do artista jovem à Bienal de Paris, setor Escultura, no Museu de Arte Moderna/RJ.

1971 - Participa do XX Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro, com Do Amo ao Amor. Participa da exposição na Galeria Gáber, em Amsterdã, com a obra Seven days. Participa da exposição, na Galeria Claude Bernard, em Paris, com a instalação Um comedor de carcereiros. Participa da mostra 50 Anos de Arte Brasileira, organizada por Roberto Pontual, no Museu de Arte Moderna/RJ.

1972 - Participa do Salão de Acrílico, IBEU/RJ. Participa da Semana de Arte Moderna de Curitiba com É Preciso Romper a Espessura, Seven Days e Vide.

1973 - Participa do XXII Salão Nacional de Arte Moderna/RJ, com Ideograma e A Partida. Participa do 30o Salão Paranaense, com Instrumento – obra premiada – e Suzana Lobo. Participa do Pregão do MAM – 50 anos de Arte Brasileira/RJ, com Do Amo ao Amor.

1975 - Participa do Salão de Verão, no Museu de Arte Moderna/RJ, com Germinal.

1978
- Participa da retrospectiva O Objeto na Arte 60/70, organizada pela FAAP/SP, com Roleta; A Paz; Assombração, Terceira Versão da Ratoeira; Cyborg, Segunda Versão da Tartaruga e Do Amo ao Amor.

1980 - Participa de exposição, na Galeria Jean Borghici/RJ., com Objeto Popular. Retorna a Porto Alegre e encerra suas atividades médicas.

1985 - Participa da retrospectiva Opinião 65, na Galeria de Arte do Banerj/RJ, com Estória e O Circo. Participa da mostra Caligrafias e Escrituras, promovida pelo MinC/Funarte, na Galeria Sergio Milliet e Espaço Alternativo.

1988 - Publica Relatório da Noite, numa Edição Quixote, de Porto Alegre.

1989 - Falece a 28 de junho.

1991 - Inicia a organização do Acervo Literário Pedro Geraldo Escosteguy, gerido pelo Curso de Pós-Graduação em Letras da PUCRS.

1995 - Obras no Opinião 65: Mostra comemorativa dos 30 anos. Obras em A nova figuração − Anos 60, na Galeria Jean Boghici/RJ.

1996 - Lançamento da antologia Poesia Reunida, organizada por Martha Goya.

2001 - Inclusão de Pedro Geraldo Escosteguy entre os verbetes da Itaú Cultural Enciclopédia de Artes Visuais.

2003 - Exposição Arte e Sociedade, Uma Relação Polêmica , curadoria Aracy do Amaral, no Instituto Itaú Cultural , São Paulo. Exposição retrospectiva Pedro Geraldo Escosteguy – Poéticas Visuais, no MARGS. Lançamento do livro : Pedro Geraldo Escosteguy – Poéticas Visuais – financiado pelo FUMPROARTE.