Marcia Lorenzato e Luiza Avellar

Galeria Candido Portinari
- Embaixada do Brasil
10, Piazza Navona, Roma
- 17 dezembro 2003 a 04 de janeiro 2004



 

 


Viagens em Si
- Os sonhos acordados de Márcia Lorenzato
Danielle Leenaerts, PhD Université Libre de Bruxelles, História da Arte

Através da sua própria biografia, Márcia Lorenzato expressou aquilo que, mais tarde, seria a substância da sua obra, ou seja, o distanciamento, a locomoção como renascimento para si, a abertura para novos territórios, novos encontros, novas sensações.  Nascida em São Paulo, em uma família de raízes ítalo-portuguesas, a artista morou em diversas cidades do Brasil e Canadá.  É em Bruxelas que colocou provisoriamente sua bagagem, antes, sem dúvidas, de continuar seu caminho rumo a novos horizontes.  Será que se deve, a partir daí, enxergar na forma das camas, às quais suas obras instalativas se referem, um paradoxo ou o contr
ário a expressão coerente de sua relação com mudanças sucessivas?  Cabe ao expectador fazer tal escolha e, principalmente, projetar suas próprias impressões sobre esta estrutura familiar que é ao mesmo tempo surpreendente, pois a artista não elabora seu trabalho como uma obra autobiográfica.  Seu trajeto constitui apenas um ponto de partida que desencadeia questões de ordem universal.

A estrutura da cama, que enquadra impressões fotográficas sobre tecido, funciona também como ponto de partida.  Totalmente fabricadas por Márcia Lorenzato, estas camas são de formatos diversos.  Aos pés das camas, todos diferentes uns dos outros, recuperados de antiquários, a artista lhes atribui assim uma nova existência.  Não se trata, aqui, de modo algum, de um ready-made, mas sim de uma reconstrução de um objeto familiar, íntimo, que a artista transpõe na vertical, fixando a obra na parede de espaço público de exposição.  Este quadro acolhe uma tela que reproduz imagens fotográficas, retrabalhadas pela infografia.  Desestabilizada, ao ser instalada nas paredes, a cama não é então apenas assimilada no espaço do repouso, do sono, mas a um local onde se inserem imagens como num sonho.

As imagens de Márcia Lorenzato têm, de fato, a complexidade e a densidade dos sonhos.  Através de suas obras, a massa gravitacional é freqüentemente invertida, como na obra Iniciação, em que os galhos das árvores transformam-se em raízes, e as raízes em galhos.  Estas inversões acabam duplicando este efeito através do plano da cama, que passa do horizontal para o vertical das paredes.  Suas obras dão também a impressão de vertigem, pois os elementos, como as pedras de Acidentado, perdem sua estabilidade em favor de um movimento de queda, de deslize.

Driblando a verossimilhança da imagem fotográfica, Márcia Lorenzato consegue criar mundos oníricos congregando, em uma única tela, fotografias de diversos registros.  Ao resgatar imagens de seus parentes, a artista apropria-se de cenas ou rostos que são, então, afetivamente próximos, embora distantes no tempo.  A criança está presente na maioria de suas obras.  No conjunto da tela, estes clichês surgem geralmente em um tipo de projeção, circunscrita ao espaço e ao volume do travesseiro, ou seja, no espaço do sonho.  Estas imagens inserem-se num fundo através do qual pode ser visto um amplo espaço, correspondendo na maioria das vezes a uma fotografia de paisagem, às vezes, invertida.  A inocência da idade e das brincadeiras infantis dialoga com um espaço que parece imutável, perene.

Através da instalação ou da colagem de imagens fotográficas retrabalhadas eletronicamente, Márcia Lorenzato produz representações complexas.  A partir de preocupações recorrentes, ou seja, da passagem do tempo, da transmissão intergeracional, do relacionamento do indivíduo com seu meio, a artista cria a cada vez variações renovadas que buscam incitar o imaginário do espectador.

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Marcia Lorenzato

Marcia Lorenzato

Marcia Lorenzato

Marcia Lorenzato

Marcia Lorenzato

Marcia Lorenzato

 



As diferentes camadas da imagem convidam, de fato, a um outro nível de leitura diversa, ultrapassando de longe a dimensão biográfica ou feminina de sua obra.  O universo da célula da família ou da casa, denotado pela referência à infância e à cama, não é concebido de maneira caricatural como algo especificamente feminino.  Tais elementos não conduzem a uma interpretação restrita de sua obra, que seria a de uma obra feminista.  Ao não se restringir a categorias estabelecidas, as instalações de Márcia Lorenzato convidam o espectador a viver uma experiência de um tipo de sonho acordado, através da qual a consciência de sua condição humana se enriquece pelo imaginário capaz de recriar, de maneira incansável, outras existências possíveis, outros relacionamentos com o mundo.

Bruxelas,12 de novembro de 2003


 

 

  Marcia Lorenzato (São Paulo, SP, 1960)

Formação (seleção)
2001- ... Université du Québec à Montréal – Canadá, Ph.D., Estudo e Prática das Artes
1998-2000 - Université Laval, Québec – Canadá, Mestrado em Artes Visuais
1996-1998 - Université Laval, Québec – Canadá, Bacharelado em Artes Visuais
1978-1980 - Pontifícia Universidade Católica, Licenciatura , Educação Artística -
Artes Visuais Campinas,
São Paulo - Brasil

E
xposições Individuais
2003 - Viagens em Si, Galeria Candido Portinari, Roma - Itália
2002 - Résistances, Mois de la photo, Centre Culturel de Shawinigan - Canadá
2002 - Déplacements, Galeria da artista, Toronto - Canadá
2000 - Pure impression, Galerie des arts visuels, Université Laval, Québec - Canadá
1998 - Obras recentes, Ministério da Imigraçao, Centro Multiétnico, Québec

Principais Exposições Coletivas
2003 - Biennale Internazionale dell’arte Contemporanea, Florença – Itália
2003 - Porto Alegre em Foco, Pinacoteca da UFRGS’ Porto Alegre , Brasil
2003 - Salon Européen d’art Contemporain de Montrouge, Paris - França
2003 - V Salon Internacional de Arte Digital, Havana – Cuba
2003 - Portrait, Galerie In-Focus, Bruxelas - Bélgica
2002 - Artlab, Galerie In-Focus, Bruxelas - Bélgica
2002 - Home Sweet Home , Galerie Céline Allard, Toronto - Canadá
2002 -
Vidéocollectif & Visioscope, Festival Netd@ys Wallonie-Bruxelles - Bélgica
2001 - Théâtralité, Galerie des arts visuels, Université du Québec à Montréal - Canadá
2001 - Bric-à-brac, Galerie Céline Allard, Toronto - Canadá
2000 - Cara ou coroa, 500 anos de Brasil, Galerie Alphonse Desjardins, Québec - Canadá
2000-2001 - Bourses, Galerie des arts visuels, Université Laval, Québec - Canadá

Prêmios e Bolsas
1998-2005 - Bolsas de Exelência em Artes Visuais da Fondation Desjardins, FCAR e CRSH, Québec - Canadá
2000 - Quadro de Honra de Mestrado em Artes Visuais, Université Laval, Québec - Canadá
1998 - Prêmio Universitário da Société des musées, Québec - Canadá
1980 e 1981 - 1o Prêmio Escultura, Salão Universitário de Artes Plásticas, Campinas - Brasil





 

 


                                

Rosa Incarnata I, II, III, IV (135 cm x 50 cm, 2003)
Papel fotográfico, linha de algodão, linha de metal, latão

 



ROSA INCARNATA

Françoise Gall, conferencista na Escola do Louvre, nov 2003
(Trecho do texto)

A rosa constitui desde alguns anos o tema principal das pesquisas plásticas de Luiza Avellar. Algumas obras, entre elas as da série "Témoins", se distinguem primeiramente pelo uso imperativo do vermelho sangue e do negro : obras isoladas ou em trípticos, montagens inéditas de imagens de dor, elas transpõem a imagem da paixão de Cristo em uma suntuosa tragédia vegetal. Rosa incarnata traduz hoje uma outra visão do sagrado onde a serenidade o sobrepõe ao medo. A palidez opalina substituiu os tons rubis, o calor do cobre substituiu o negro. A figura central da rosa resta, mas entra em uma nova linha de significados. 



 


Rosa dos cânticos (fotos em R Ecrit), 2003
55 cm x 55 cm. Papel fotográfico

 

 

Memória das rosas...

Por Françoise Gall, Professora da Escola do Louvre
Artigo publicado na revista Agenda de la Empresa n° 59, Espanha, Setembro 2002


Três rosas de um vermelho sangue sobre um fundo negro… Despojadas de suas folhas, suspensas por uma barra horizontal que atravessa suas pétalas, elas ainda guardam o frescor das flores recém abertas. A imagem se decompõe em inúmeros pedaços pacientemente ajustados cujos bordas irregulares negam à fotografia sua simplicidade original. O olhar encontra os rasgos, descobre as camadas superpostas lá, onde dois pedaços se encontram um sobre o outro, ajustando-se ao desnível dos contornos, completando os vazios. No seu exterior, o ritmo descontínuo do papel lembra os fragmentos perdidos, e evoca a silhueta desfilada de invisíveis folhagens.

O fio de cobre reúne os elementos da obra e os entrelaça como uma tela de aranha a uma moldura de ferro, deixando entre ambos um espaço aberto que brinca com as sombras. A foto fica assim, suspensa, flutuando no interior de uma moldura que não pode limitá-la, prisioneira deste perímetro que a impede de adotar sua própria forma. Entre a rigidez linear da moldura e o contorno aleatório do papel, o vazio faz parte da obra do mesmo modo que a própria imagem. Através dele se acentua a alusão ao passado, um passado repleto de lacunas, povoado de vestígios e de cicatrizes.





Témoin du Sacrifice, 2000
Papel fotográfico rasgado, fio de cobre,
moldura de ferro enferrujado
50 cm x 70 cm. Coleção Particular

 

 

A obra restitui deste modo seu equilíbrio de uma tensão constante entre a separação e a ligação, entre o gesto que destrói e o que repara. De onde a importância da costura, que se torna mais forte quando porta em si mesmo os ecos da infância. “ Minha mãe dizia : Uma mulher deve saber costurar ”, recorda docemente Luiza Avellar, antes de completar com certa malícia “mas nunca dizia o que costurar...”.  Lembramos que antes da aprendizagem das tarefas domésticas, os trabalhos de agulha constituem também um emblema tradicional de virtudes, não somente porque manifestam uma habilidade feminina, mas também porque manifestam uma capacidade fundamental: a de criar uma unidade a partir do disparate, reunir o que estava disperso, devolver a forma ao que estava destruído. O ir e vir da agulha, entre este e aquele, acima e abaixo, perfura implacavelmente a tela ou o papel. Mas é certo que se o atravessa, pica ou fere, o faz apenas para reunir, acumular, construir... Sensível em cada ponto, a agilidade controlada da mão, dá à imagem uma dimensão estranhamente familiar, quase íntima. Ela vem aqui contradizer deste modo a frieza aparente da foto, da mesma maneira que seus rasgos, ao dar a aparência de um velho pergaminho, anulando qualquer noção de imediatismo.

Flores de Vênus, e também da Virgem Maria cujas belezas plásticas e espirituais elas simbolizam, as rosas aparecem aqui muito próximas de sua antiga função. De simples atributos, convertendo-se aqui em figuras principais, tragicamente isoladas de seu venerável contexto ou de qualquer outro plano de fundo. A artista se livra de todo ornamento ou pathos, trabalhando com as mais simples ferramentas e materiais cotidianos, trazendo à superfície lembranças e sensações. Sua obra, até certo ponto, funciona como catalizador e sua sobriedade é a maior garantia de seu poder: pouco a pouco cada coisa chega a seu lugar. Não se trata aqui em modo algum de um significado codificado à decifrar,  mas sim de pegadas à seguir, pistas, rastros que misturam épocas e lugares. Matérias e objetos possuem sua própria história, sem renunciar de modo algum à memória... Sobre o fundo escuro, as flores de Luiza Avellar aparecem desnudas, privadas de seus espinhos, que talvez nunca o tiveram: Santo Ambrósio escreveu que as rosas foram criadas assim no começo, e que seus espinhos apareceram mais tarde, como conseqüência do pecado. Do Jardin de Eden à coroa de espinhos, as imagens surgem e se sobrepõem aqui em uma espécie de transparência, como em uma vertiginosa letania...

Jardin do Paraíso, jardim privado da Virgem, fio de cobre, moldura de ferro, cercas de jardins, arames farpados de prisões e campos de concentração, camas de ferro de cadeias, vermelho das rosas e de sangue, rosas que encarnam o amor louco e a morte, três rosas para três cruzes, pontas, espinhos e pregos, paixões paralelas de Cristo crucificado e da Virgem costurando, rasgos da foto e da carne, tormentos da alma...

A obra não poderia portanto ser definida em cima somente da cultura cristã, de onde a artista adota arquétipos, e seu título “Testemunha do sacrifício” deve ser entendido sem dúvida alguma em sua interpretação mais ampla, sabendo que “sacrificar” significa em primeiro lugar “realizar o sagrado”. Sem mais explicações... A extrema economia plástica é uma forma de eloqüência e, se é certo que suscita tantos ecos e repercussões de sentido, ela também nos convida a desconfiança face as falsas certezas das palavras. Idéias e palavras apenas servem para se aproximar da imagem, sem tocá-la, como as molduras de ferro que guardam uma distância permanente.

É por isso que estas flores suspensas não terão tempo de se abrir. Suas vidas interrompidas as negaram todos os seus direitos à decrepitude.... Como sempre afirmaram os velhos sábios: “Desde que existe a rosa, nunca se viu morrer um jardineiro...”

 

 

 

Luiza Avellar ( Belo Horizonte, MG)

Formação

2003 - 2004 - DEA em Artes Plásticas, Paris VIII

2001
- 2003 - Pós Graduação em Artes Plásticas, Universidade de Paris VIII, França
1999
- 2000 - Graduaçao em Artes Plásticas, Universidade de Paris VIII, França
1996
- 1997 - Pós Graduação em História da Arte, FAAP São Paulo, Brazil
1990
- 1995 - Curso Superior de Desenho Industrial, FUMA,  Belo Horizonte, Brazil

Exposições Coletivas
2003 - ‘Rosa Incarnata`,
Antiga Hospital Saint Jean em Bruges, Belgium, do 21ao 30 de novembro 2003
2003 -
‘Histoire de Roses’,
Embaixada do Brasil em Paris, do 24 de abril ao 23 de maio 2003

Exposiçoes Coletivas
2003 - ‘
Artistes de Levallois‘, Espace Escale, setembro em Levallois, França
2003 -
‘48e Salon d’Art Contemporain de Montrouge’, Esp. cultural de Montrouge, França
2003 -
‘Printemps des Poètes’
, grupo Lilith 8, Sala da Légion d’honneur de Saint Denis, França
2002 - 
‘Art Lab’, the >biVa Project , Galeria In Focus, Bruxelas, Belgica
2002 -
‘47e Salon d’Art Contemporain de Montrouge’, Espace cultural de Montrouge, França
2002 -
‘Collective 10’, grupo Lilith 8, Galeria L, Paris, França
2002 -
‘Portas Abertas de Montreuil’
, Site Pathé-Albatroz, Montreuil, França
2001 - ‘XIe Salon d’arts Plastiques Perspectives’, Centro do Lièvre-d’OR, Dreux, França
2001 - ‘Reconceptions’, Galeria Atelier 75075, Paris
2001 - ‘Mois Bis de La Photo’, Espaço Nesle, Paris

Prêmios
Obra `Tryptique du Sacrifice` premiada no 47
th
Salao de Montrouge, em 2002 na França