Fahrion - Um Olhar sobre o Universo Feminino

Galeria da Vera - Associação Leopoldina Juvenil -
Porto Alegre - RS
Visitação :  20 de novembro a 10 de dezembro de 2002
de terça a domingo, das 11h às 20h
Rua Marquês do Herval, 280 - Moinhos de Vento

 

Fahrion - Um olhar sobre o Universo Feminino
Texto e Curadoria :
Maria Amélia Bulhões*
(Trechos selecionados do catálogo)

O olhar de João Fahrion sobre o universo feminino é de deslumbramento. Suas mulheres ostentam tanto uma beleza que emerge de traços simples, com fortes signos étnicos, quanto uma beleza idealizada, de postura hierática e sobriamente composta, sempre elaboradas com muita
paixão e solene reverência.




Auto Retrato, 1945
Óleo sobre tela - 70x55cm. Coleção Particular

 

Modelos foram sua inspiração

Fahrion foi, por quase trinta anos, professor de Desenho com Modelo Vivo, atividade que marcou profundamente sua própria produção artística. Percebe-se, de forma insistente e intencional, que alguém posou para cada uma de suas obras. A presença do modelo é sempre evidente no resultado final do trabalho. Não há uma falsa ilusão de um instantâneo captado; pelo contrário, há sempre a construção de uma cena. Uma montagem quase teatral instaura a imagem apresentada sobre a tela. O preparo detalhado da postura e dos gestos dos modelos fazia parte de sua dinâmica criativa, constituindo o primeiro momento de sua forma estruturante.

Numa época em que não cabiam mais as construções acadêmicas, nas quais o modelo era proposto como falsamente real, ele assumiu corajosamente a artificialidade cenográfica, sem tampouco buscar a fictícia instantaneidade fotográfica dos padrões modernos.

Sua atração por elementos decorativos, como panos coloridos, véus ou chapéus, sempre comentada por aqueles que o conheceram, pôde se expandir livremente no trabalho com seus modelos. Ele utilizava uma decoração sofisticada, com poucos elementos, em que as cores se somam entre si por uma adição calculada, buscando suas raízes mais diretamente no Art-déco e no Fovismo, dois movimentos que ele consegue articular de forma primorosa. A cor, intensa e contrastante, é um dos elementos compositivos mais ricos no seu trabalho, enfatizando contrastes em determinados pontos, diluindo efeitos em outros. Utilizada com cuidadosa manipulação, ela atua como elemento expressivo, pontuando o espaço pictórico, ao mesmo tempo em que se desdobra sobre ele de forma sensual.



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Reproduções Fotográficas
Pierre Yves Refalo



 


A sensualidade que se observa em suas personagens femininas é ambígua, tem a ver com o realismo e o desencanto de um homem solitário. Os corpos ostentam, a um só tempo, força e fragilidade, em uma luta que mal deixa antever signos de sexualidade, como, por exemplo, o seio desnudo contrastando com a mão enluvada. A presença da mulher completamente nua é rara em sua obra e, quando aparece, remete a uma vida sem pecados, livre do moralismo e da coerção..

Suas figuras femininas parecem desfrutar da condição de exposição, não se mostram surpreendidas, estão lá de livre vontade, como à espera de um olhar, primeiro do artista, depois do público. Mesmo quando a modelo não enfrenta diretamente o espectador, ela fugidiamente revela que sabe estar sendo observada. O desejo do voyeur se confunde e se amalgama com o daquela que se mostra. Artista e modelo eram cúmplices de um acordo. Elas se deixavam captar, como presas submissas, para que ele as fizesse viver sua eternidade nas imagens pintadas. O que permanece nas suas telas não são mais pessoas reais, são personagens que nasceram de uma intensa e mútua relação de entrega.







Retratos, uma permanência.

Na obra de Fahrion, os retratos aparecem desde seus primeiros experimentos, retornando sempre com força e persistência em sua trajetória. Sua atividade de retratista se exercitou nas páginas da Revista do Globo, onde documentava periódica e continuadamente os semblantes de damas da sociedade local, nos retratos de pessoas que lhe eram queridas, familiares, amigos, alunas, que ele estava sempre a fixar, assim como nos retratos de encomenda em que deixou perpetuados os rostos das diversas mulheres que passaram sob seu olhar arguto.

As mulheres, sob seu traço, ganham contornos de suave sensualidade e grave presença. Ele tenta substituir os padrões artísticos dos modelos acadêmicos por opções mais revigoradas, ancoradas em sua excelente formação de desenhista, assim como na observação arguta da realidade social e da alma da retratada.

Os retratos de Fahrion testemunham a condição essencial da feminilidade em uma sociedade conservadora: ser ao mesmo tempo sensual e contida. Assim, o padrão geral de sua retratística é a estaticidade hierática de suas figuras, revelando um mundo homogêneo e estável, onde qualquer possibilidade de mudança é afastada, e a ebulição interna emerge em pequenos detalhes. No leque de Helga Marsiaj, nos vasos de flores ao lado de Evelyn Berg, na pequena escultura com flores de Roseli Becker, no lenço na mão de Célia Ribeiro, ou na estatueta longilínea ao lado de Maria José Cardoso.

O sentido decorativo se mostra por inteiro nos detalhes como pequenos desenhos em uma almofada, tapetes ou toalhas bordadas, lisras no tecido das roupas, chapéus e outros objetos. Cada um desses elementos escolhidos pelo próprio artista atua como signo de feminilidade, reforçando a visão idealizada do artista sobre o universo feminino. Acrescentam, além disso, um pouco de graça e personalidade ao volume principal, sem perturbar em a concentração da figura no centro do espaço pictórico.





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Reproduções Fotográficas
Pierre Yves Refalo

 


O olhar de suas retratadas quase sempre se mostra distante, perdido em devaneios imaginários. Se os corpos parecem escultóricos em sua estática majestade, os rostos se apresentam como imagem essencial do ser humano, a mostrarem simultaneamente o particular e o geral. Alguns centímetros onde se reproduz no exterior o que se passa no interior. Uma presença individual que contém a capacidade de representar a humanidade como um todo, um conteúdo existencial compartilhado. O espectador tem dificuldade em olhar para essas obras representando rostos particulares sem referenciar, mesmo inconscientemente, os milhares de outros rostos que ali reencontra.







Figuras e paisagem
, sem data
Óleo sobre chapa de duratex. 100x197cm. Coleção Jorge Karam



Murais como experiência

A pintura sobre grandes superfícies e exposta em espaços públicos esteve presente de forma muito intensa no modernismo latino-americano, desde os ápices do muralismo mexicano até o formalismo de Torres Garcia.

Fahrion não passou ao largo dessa influência, tendo realizado murais para a Escola de Artes, para a Reitoria da UFRGS, para a Associação Leopoldina Juvenil, assim como para empresas e residências. Além da produção sobre paredes, alguns quadros, mesmo sem serem necessariamente pinturas murais, incorporaram elementos dessa experiência. É o caso de obras cujas dimensões, a principio bastante maiores que as comumente utilizadas pelo artista, bem como sua horizontalidade, pouco usual em sua produção, aponta para influências dessa vertente de trabalho.

Essas suas obras são mais discursivas, e os personagens, embora constituam conjuntos integrados em tarefas ou em atividades de lazer, permanecem bastante individualizados. Dentro da tradição muralista, seus trabalhos utilizam a estilização como forma de valorização dos grandes volumes, apontando, ainda, para uma geometrização das figuras. Um número maior de elementos está presente na composição, e o desdobramento regular do espaço pictórico, marcado por densidades diversas, tenta mostrar uma completude da qual ele é a própria negação. As formas, em sua cuidadosa articulação, apontam as contradições entre uma majestosa imponência e certos traços de um desenho meigo e frágil.

Em Figuras e paisagem, percebe-se uma estreita relação com a litografia Modinha, realizada alguns anos antes, tanto no tema musical quanto no aspecto roliço e diáfano das imagens. Já outra obra, sem título, aqui exposta, parece guardar pontos de contato com a litografia A fonte, tanto na construção formal, com a presença marcada da linha de contorno, quanto no tema dos jarros de água, uma alusão direta a símbolos de feminilidade. Essas proximidades deixam antever que o artista percebia, em sua produção litográfica, um elemento de monumentalidade bastante adequado ao desenvolvimento de pinturas murais, e soube explorá-lo com eficiência.



A Modinha, 1944
Litogravura sobre papel, 18/40
42x55cm. Coleção APLUB

A Fonte
, 1944
Litogravura sobre papel, 8/40
60x40cm. Coleção Particular



O resultado de suas experimentações aparece em uma produção visual incisiva, sob uma aparente contenção e beleza. Nelas, a luz atua como uma força exterior que incide sobre as figuras, evidenciando a plenitude dos corpos, e que vai progressivamente penetrando todos os espaços, inundando a tela, configurando as imagens. As influências clássicas, presentes principalmente na cuidadosa estruturação do espaço pictórico, não impediram o artista de realizar uma obra marcada por signos de modernidade, tais como a estilização das figuras e a presença forte da linha do desenho. Essa produção, severa e grandiloqüente, manifesta a manutenção de seu estilo pessoal, mesmo em exercícios de experimentação técnica e formal.

 


O mundo do espetáculo, sua grande paixão

O mundo do espetáculo constituiu o cerne de sua produção mais característica, estando presente em sua obra, sem o componente trágico que poderia habitar um mundo proibido e denegrido pela sociedade conservadora da época. Em suas cenas de teatro, circo, dança ou cabarés, pelo contrário, evocam-se certo júbilo e deleite com os corpos modelados que se deslocam no espaço de maneira fugidia e sensual. As figuras femininas, dominantes, são expostas numa linguagem plástica que busca o equilíbrio, com contrastes cromáticos mais intensos. A luz que emana dos corpos pede uma espera para que o olho penetre mais além daquilo que se vê na superfície. O artista expõe os signos de prazer oferecidos nos espaços liberais dos cabarés, freqüentados por intelectuais e boêmios. Uma visão lúdica e flexível, onde a fantasia tudo harmoniza, e as máscaras, ao mesmo tempo, ocultam e evidenciam. Para esses indivíduos, ele criava uma experiência de comunicação, reunindo-os de forma solidária em cenas que, a princípio, poderiam invocar a solidão e individualismo. O elogio da humanidade perpassa seus personagens, resgatando-os da vida sórdida do baixo mundo e da noite vadia para comporem um universo de arte e magia. Se tudo aparentemente se integra nesse ambiente de festa e alegria, no entanto, a tristeza dos olhares vazios ainda permanece latente. Eles trazem escondido o vestígio da vida real de onde emergiram para compor a obra.

O artista parece titubear entre versões mais lúdicas, como as que apresenta em Camarim e Dançarina, e visões mais dramáticas como as que revela em Bastidores. Uma obra interessante a documentar essa ambigüidade é aquela em que se vê, em uma superfície da tela, duas modelos, uma delas, vestida de bailarina. Em cores claras e de contornos bem definidos, elas parecem flutuar em uma irrealidade fugidia. No verso dessa tela, há um desenho de cena com mesa de bar, onde predominam cores contrastantes, traço solto e forte tensão formal. A dramaticidade da segunda face se opõe à leveza da primeira; no entanto, verso e reverso podem constituir juntos, em uma única obra, forte simbolismo.




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Reproduções Fotográficas
Pierre Yves Refalo

 

 

Suas alegorias evocam estranhamento, medo e solidão, ou, quem sabe, um desejo de liberdade, expresso na recusa de compromisso com o previsível e com o cotidiano. Mesmo em cenas do dia-a-dia, como se vê em Interior com figura ou na da bailarina com espelho, está evidente a busca de um estado pleno de satisfações, derivado da imaginação e da poesia. Personagens bizarros, muitas vezes alheios à cena principal, parecem se introduzir sorrateiramente nas obras, como, por exemplo, a velha na Cena de circo, ou a figura feminina ao fundo em Bastidores. O artista dava vida a esses seres ambíguos, enclausurados no mundo do espetáculo, sem outro público senão o solitário pintor, que se colocava, muitas vezes, ele mesmo junto a seus personagens na tela.

Assim, quando, acreditando já ter visto tudo, o espectador se afasta, tem a estranha sensação de que algo permanece no ar. A impossibilidade de uma percepção imediata o confunde, fazendo-o sentir-se igualmente solitário frente a essa obra que se abre para abismos infinitos.



* Maria Amélia Bulhões - Professora Titular, pesquisadora do Programa da Pós-graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, doutora pela USP, com pós-doutorado na Sorbonne, Paris. Membro da Associação Internacional de Crítica de Arte.




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Reproduções Fotográficas : Pierre Yves Refalo

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Atelier do Artista

A exposição também apresenta, além dos trabalhos de Fahrion
uma réplica do Atelier do Artista.

Para visualizá-lo
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Fahrion - Um Olhar Sobre o Universo Feminino
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Fotografias - Leandro Selister

 

 

 

Ficha Técnica

Projeto e Coordenação Geral - Vera de Nonohay Schneider Santos
Curadoria e Texto -
Maria Amélia Bulhões
Museografia -
Ivan Andrade
Projeto Gráfico -
Alfredo Aquino - Edições Animae
Reproduções Fotográfica -
Pierre Yves Refalo
Pesquisa -
Gabriela Motta / Cristina Ribas
Versão para Inglês -
Nick Rands
Editoração Eletrônica -
Samanta Paleari
Revisão -
Zoleva Carvalho Felizardo
Avaliação das Obras -
Jorge Karam / Vera de Nonohay Schneider Santos
Site -
www.artewebbrasil.com.br


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