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As Fronteiras da Paisagem : Janelas e Grades

O exercício da pintura, com seus prazeres e suas frustrações determina as mudanças gradativas no meu trabalho há mais de vinte anos. A presença constante de antagonismos no tema e na composição é o ponto comum entre os diferentes períodos.

As paisagens, que começaram em 1988, quando eu vivia longe do Brasil, foram marcadas pela necessidade de evocar a idéia de um "pays" (lugar de origem) como referência, sonho e refúgio. Do ponto de vista formal, a dispersão das manchas ao acaso se contrapõe à estrutura das linhas ortogonais que criam o ritmo da composição. O motivo paisagem, pela ausência de uma ordem narrativa e de elementos que se salientem na hierarquia das formas, facilita o caminho para a abstração.

Ao final deste período senti a necessidade de reduzir a variedade das cores para reencontrar a forma. Desse procedimento resultou a série das janelas, enquadramento de uma nova paisagem e metáfora da idéia de pintura.

As linhas perpendiculares que sintetizam as paisagens e a repetição obsessiva da figura das janelas originam a estrutura das grades que caracteriza o meu trabalho recente.

O espaço é mapeado, compartimentado em pequenos intervalos, fronteiras. As grades assim como as paisagens, criam a alternância entre figuração e abstração que oscilam conforme a distância do observador. O ritmo é dado pela repetição que pontua a marcação do espaço e unifica o conjunto. É essa ordenação do acaso que me possibilita o improviso.

A minha situação, vivendo provisoriamente em Paris, me obriga a buscar novos pontos de referência, redefinir fronteiras para apossar-me de novos territórios. Ter nascido entre o Brasil e o Uruguai certamente estreita a relação com a escola de Torres Garcia no início deste período e ter vivido em diferentres lugares certamente acentua essa idéia de fronteira.

Mas a estrutura de grades é presença constante na pintura ao longo do século XX. A fragmentação, a repetição e a simultaneidade, tão caracteríticas de nossa época, encontram nesta malha ortogonal, seu suporte e abrigo.

Mais do que o resultado, é o registro do que está atrás do olhar, gesto, toque, carícia, que se constitui no cerne da pintura. A atitude do artista que toca matéria do mundo, é uma insistência em manter o trabalho das mãos como forma de integrar intenção e gesto.

Teresa Poester – Paris/2000