A importância de Vera Chaves Barcellos
Fernando Cocchiarale *

 

“A história da arte é, obviamente, a história das obras de arte: mas como se decide que uma obra de arte é uma obra de arte? (...) Em todas as épocas, o juízo de valor sobre obras de arte foi formulado mais ou menos explicitamente, mas em cada época foi formado segundo parâmetros diversos. (...) Em outros tempos, os parâmetros dos juízos de valor foram o belo, a fidelidade na imitação da natureza, a conformidade com certos cânones icônicos ou formais, o significado religioso, o interesse da narração figurada etc. Para nossa cultura, que se baseia na ciência e considera a história a ciência que estuda as ações humanas, o parâmetro do juízo é a história. Uma obra é vista como obra de arte quando tem importância na história da arte e contribui para a formação e o desenvolvimento de uma cultura artística. Enfim: o juízo que reconhece a qualidade artística de uma obra, dela reconhece ao mesmo tempo a historicidade.” (Argan, Giulio Carlo, Fagiolo, Maurizio. Guia de História da Arte. Lisboa, Editorial Estampa, 1992, p. 18 e 19)

Para o historiador e crítico de arte italiano Giulio Carlo Argan, a importância de um artista no mundo moderno só pode ser atribuída a partir do momento em que a contribuição de sua obra para a história da arte for criteriosamente estabelecida. Sem qualquer sombra de dúvida, pelo menos nesse aspecto, a arte contemporânea coincide com a arte moderna, já que seu sentido e seu valor essencial também só podem ser esclarecidos no contexto e nos desdobramentos de um processo criativo de muitos anos.

O Grão da Imagem: Uma Viagem pela Poética de Vera Chaves Barcellos, mais do que título, é o conceito desta mostra da artista. Ele foi concebido pela curadoria de Agnaldo Farias, Moacir dos Anjos e por mim para mostrar ao público o processo poético dessa artista e sua contribuição crítica para a história da arte brasileira num contexto regional então bastante refratário a tudo o que pudesse ameaçá-lo em suas intocáveis verdades e virtudes.

Vera Barcellos, tal qual alguns outros artistas do Rio Grande do Sul, teve uma atuação vital para a superação dos entraves que limitavam a difusão e a consolidação da produção contemporânea no estado. Em dezembro de 1976, Vera, Carlos Asp, Carlos Pasquetti, Clovis Dariano, Jesus Escobar, Mara Álvares, Romanita Martins e Telmo Lanes divulgaram na exposição Atividades Continuadas, realizada no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, um manifesto no qual tomavam uma posição crítica com relação ao binômio criação-mercado. Em abril do ano seguinte, o grupo lançou a publicação Nervo Óptico, que, ao longo de 13 números, teve uma ação decisiva para todos aqueles que no Rio Grande se interessavam pelas questões da produção contemporânea.

Um par de anos mais tarde, a artista Ana Torrano sugeriu a Vera Barcellos a criação de um espaço para eventos artísticos contemporâneos em Porto Alegre, semelhante ao Other Brothers and So, dirigido por Ulisses Carrión, poeta visual mexicano radicado em Amsterdã. Surgiu, então, o Espaço NO, cuja trajetória, bem como a do Nervo Óptico, está registrada em publicação da Funarte, de 2004, organizada pela professora e pesquisadora gaúcha Ana Maria Albani de Carvalho.1

Dentre os 11 objetivos de seu estatuto constavam: “Criar um espaço alternativo para promover manifestações artísticas e portadoras de novas linguagens e de caráter experimental” e “ promover o intercâmbio de novas linguagens artísticas com outros meios culturais, nacionais e estrangeiros”. Situado na sala 31 da Galeria Chaves, o Espaço NO favoreceu a formação de uma geração de artistas contemporâneos – como Carlos Wladimirsky, Heloisa Schneiders, Karin Lambrecht, Mário Röhnelt, Milton Kurtz, Rogério Nazari e Simone Michelin –, fundamental para a consolidação definitiva da arte contemporânea no Rio Grande do Sul.



Os Nadadores

 


Nunca é demais lembrar, no entanto, que a participação ativa de Vera Chaves Barcellos nesse processo só foi possível graças aos desdobramentos de sua obra, que demandavam mudanças na cultura local ou a transferência para o eixo Rio–São Paulo, caminho trilhado por muitos outros artistas gaúchos de renome nacional.

É fato que Vera passou uma longa temporada na Europa no começo dos anos 60 e que, nas últimas décadas, vem dividindo seu tempo entre Porto Alegre e Barcelona, mas não devemos perder de vista que ela contribuiu efetivamente para a criação de um ambiente favorável à produção contemporânea no Rio Grande, hoje um dos pólos de arte mais importantes do país. Sua atuação político-institucional é, portanto, indissociável das questões elaboradas por seu trabalho.

As pinturas, os desenhos e as colagens do começo modernista da trajetória de Vera Chaves Barcellos, ainda na primeira metade da década de 60, antecedem em alguns anos o ponto de ruptura de seu processo com o ideário e as práticas defendidas pela arte moderna, central para o entendimento da exposição ora apresentada no Santander Cultural. Seriação, imagens técnicas (fotografias e vídeos) e interatividade são traços permanentes da contribuição de Vera Barcellos para o universo contemporâneo, mergulho que situa seu trabalho na pequena constelação de artistas brasileiros que experimentaram, na própria obra, o corte radical entre a tradição modernista e os primórdios da produção contemporânea no país.



* Fernando Cocchiarale é professor, crítico de arte e curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro