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REFLEXÃO
de raiz, digo, radical!
Sergio Moura
E-mail :
ser-moura@pop.com.br
A Vida: um extraordinário problema para se refletir com amigos próximos.
O Indivíduo e a pessoa; arte criatividade
e autonomia: aprimoramento pessoal; a sociedade contrapeso; política
partidária - “coisa” dispensável; poder econômico: dominação,
dependência e paralisia; o medo e a “diplomacia“ social.
O indivíduo – a Pessoa
Quase
todos nós já observamos um objeto
solitariamente isolado num espaço qualquer: uma árvore no horizonte, um
deserto de areia, ou uma única estrela no firmamento. Ainda que possamos
pressentir e ver alguma singularidade, podemos reconhecer que “falta
alguma coisa” neste ambiente de ausência e quase vazio.
Ao contrário disso já vimos uma floresta, o céu em noite de lua
estrelada com milhões de pontos luminosos!
Quantos elementos fazem parte dessa variedade a compor a extraordinária
e magnífica paisagem?
Quanta riqueza e abundância de aspectos, valores e significados!
Quanta beleza nessa diversidade?
O conjunto sobrepõe-se, não raramente, ao
unitário e individual e embora seja necessário firmar nossa
singularidade é fundamental e educativo sabermos compreender nossas
limitações pessoais para descobrir e cultivar o sentimento coletivo que
enriquece e completa a existência. O indivíduo precisa aprender a
esperar mais de si mesmo, caminhar sozinho, sim, porém, mais do que
existir em si precisa ter consciência de que o viver em relações é mais
completo, porque a Vida, na sua extensão e plenitude é
relações: relações de um com o outro - físicas,
espaciais, interdimensionais; emocionais - afeto, consideração,
respeito; conseqüentes - entre cada uma e todas as coisas,
relações contínuas e descontinuas, infinitas.
TUDO
ESTÁ EM RELAÇÕES E,
POR CONSEGUINTE, NADA SOBREVIVE
NO ISOLAMENTO.
O indivíduo, localizado
em si mesmo, freqüentemente está todo focado apenas para
si, em sua única direção e provavelmente suscetível ao egocentrismo: Ele
se vê o centro do mundo e alvo da sua própria atenção.
Isolado em sua armadura pessoal, vive de forma estreita
e limitada: a mente que vive fechada em si mesma não poderá descobrir
algo mais profundo e além.
Voltado para dentro, em sua “prisão” particular, passa seus dias à
margem da vida, que está sempre em movimento
e por isso é impermanente.
Jamais descobrirá o infinito mistério,
que podemos conhecer somente quando estamos em contato direto com a
realidade maior. Pode até ter lido muitos livros, ser ilustrado,
poliglota e ter viajado a terra toda, entretanto, alienado da realidade
que dinamiza e transforma tudo que é vivo, não perceberá o criativo
para buscar sua integridade, forjar a realização pessoal e alcançar
finalmente a pessoa mais elevada,
encontrar seu EU maior, o supremo e imensurável.
A Pessoa, como
entidade abrangente, vive “de dentro para fora”.
Sua mente, flexível e receptiva, está em relações, fora do
si mesmo. Interligada com o que é vivo e dinâmico, se comunica e
coexiste com todo o cosmo integrada a totalidade da
existência.
Somente essa qualidade de Ser pode viver com elevação e
sabedoria, construir uma nova realidade e “abraçar o mundo”
suprindo-o daquilo que se configura, talvez, como a maior das carências
da civilização atual, o amor, este grandioso sentimento,
que não é pessoal nem impessoal, é infinito, que alcança
abrange e move todo
o Universo.
E somente a partir desse estado de
consciência pura é que poderemos sonhar, um dia, em “...construir e
elevar a pirâmide espiritual que alcançará o céu!” (Kandinsky,
W.)
A Arte, a arte monumental, a arte do
artista comprometido com a humanidade trabalha para este objetivo. O
resto é ilusão, como tudo na vida, ilusão que pode ser percebida na
“...a beleza da miragem, só a miragem existe” ( Duchamp.M
)
Arte, criatividade, autonomia e libertação: aprimoramento pessoal
Todos sabemos, e o
sentimos a cada momento, que nossa sociedade, aqui e no mundo inteiro,
está atravessando uma crise moral da maior gravidade. É uma crise de
valores humanos, em geral, e crise de critérios na arte, em particular.
O que são valores artísticos? O que nos dizem as obras de arte? Porque
arte?
Hoje em dia, considera-se que valor e
preço são a mesma coisa. Mas isto é um grande equívoco. As conquistas
humanas, da sua humanidade imanente, estas são valores: a compreensão, a
generosidade, a dignidade, o amor, a ternura, a compaixão, o perdão, os
sentimentos de respeito e responsabilidade e, sobretudo, a imaginação e
a criatividade. Estes são valores – não tem preço; não podem ser
comprados e nem vendidos.
O que fazer diante de uma realidade onde,
aparentemente, tudo tem o seu preço? O nosso ”sim” só terá peso e
credibilidade se formos capazes de dizer “não” a certas coisas – porém,
por sua vez, o nosso “não” só terá um significado maior, positivo e
construtivo, se existir um “sim” implícito, fundamentado em valores
reais. Refiro-me à visão humanista, na qual a realização do potencial
criador do homem é compreendida como um caminho de crescimento e
enriquecimento espiritual. (Fayga Ostrower)
Permito-me pensar
que a Arte é o principal esforço humano que deu sentido a civilização em
seus primeiros traços, atos e modos de ser organizado, diferente do
animal irracional. Criatividade e Arte então, são procedimentos aliados
próximos e inseparáveis desde que, na pré-história, o homem se firmou
como sobrevivente em seus primeiros desafios. Isto, provavelmente
impulsionou o conhecimento humano que deu formato corrente a todo o
processo cultural já faz aí 400 séculos.
A atividade artesanal é provavelmente uma
das primeiras manifestações que o homem desenvolveu quando da
necessidade urgente de sobreviver. Ao construir suas ferramentas para
defender-se passou a trabalhar a forma pelo gesto
essencial de moldar, em princípio, seu instrumento de uso. A Cultura
teve então seu desenvolvimento inicial através do conhecimento prático,
do fazer manual à busca acelerada da sobrevivência na luta pela vida.
A atividade
artística, considerada a partir do conceito criativo como necessidade de
expressão de cada ser, leva-nos a refletir que é um exercício
indispensável ao crescimento pessoal por meio da sensibilidade. Não
poderíamos viver sem essa prática e ao homem ficaria faltando uma parte
significativa da sua formação essencial.
Assim, podemos considerar que essa atividade, por ser
tarefa essencial do espírito, promove o envolvimento total do indivíduo
com o não ser à busca imediata do ser, contribui com o
anseio maior do ser sensível, ajuda sobretudo a construir a consciência
da humanidade, e alcança o que Baudelaire tão bem chamou
de “... a
consciência ainda não criada da raça”.
Artesãos, artistas, cientistas,
pensadores, enfim, todos aqueles que produziram algum novo
empreendimento, alguma idéia nova que veio contribuir na ampliação e
desenvolvimento da sensibilidade e do conhecimento humano, foram vitais
e decisivos na evolução do pensamento e da vida inteligente na Terra.
A sociedade é o contrapeso na gangorra da evolução individual
A coisa mais
difícil que vemos na vida de uma significativa parte dos humanos é eles
manterem o direcionamento e o rumo das suas vidas. Hoje, mais que no
passado pois nunca existiu tanto apelo e assédio, tantas opções
preexistenciais, de ocupação, lazer, atraindo e capturando o tempo dos
indivíduos, desviando e alterando continuamente os planos, desejos e
objetivos previamente traçados.
Como é fácil sair
do próprio caminho afastando-se daquilo que queremos realmente fazer,
ser?
A mente humana pode facilmente passar a
vida distraída, vagando continuamente, “pulando de galho em galho”, tal
é a freqüência em que se vive “com a cabeça nas nuvens“, a dificuldade
que se tem em perceber o que está ocorrendo ao nosso redor e mais ainda
com o que está acontecendo em nosso interior, sutilmente, nos níveis
mais profundos.
Não acordamos ainda para reconhecer a
extraordinária capacidade que a mente tem de criar pensamentos vãos e
ilusões. A maioria de nós vive como bonecos monitorados e essa é a
atitude que favorece a manipulação, pela sociedade dominante, dos mais
humildes, dos que se submetem aos empregos, dos que querem escalar
degraus para chegar no topo social, dos menos favorecidos, enfim de
todos os que vivem distraídos da subjetividade mais pura e singular, da
sua potência e grandeza humana.
O que queremos mesmo realizar?
Essa me parece a pergunta principal a fazermos a nós
mesmos.
A força social que
atrai, envolve e anula, todavia, é de um poder extraordinário e por isso
vemos com muita freqüência com que facilidade os indivíduos são levados
pelas “ondas“ do coletivo, que se formam muitas vezes sem permitir
sequer a menor possibilidade deles repensarem seus impulsos.
Um exemplo fatal
dessa anormalidade, aqui maliciosa e maquiavelicamente, é a poderosa
influência que a propaganda e a TV exercem no dia a dia e em dose dupla,
se considerarmos que estas atuam juntas a serviço do poder econômico, na
estratégia de submeter, manipular e manobrar a sociedade, explorando e
escravizando o indivíduo, reduzido pelo capitalismo industrial, e
vulgarmente chamado de “consumidor “.
Precisamos, mais do que nunca, sobretudo
de muita determinação e o espírito voltado ao anseio forte de
concretizar o sonho da autorealização. Temos de realizar nossa Pessoa,
digo, descobrir e encontrar quem realmente somos.
Precisamos achar imediatamente nosso centro,
buscar o elo perdido entre nós e a realidade. Podemos aprender com os
artistas, os cientistas, os pesquisadores, entre outros: sua capacidade
perseverante para buscar a realização dos seus objetivos é
impressionante. Eles, como poucos, são capazes de perseguir um ideal
durante anos seguidos sem desviar-se do caminho, com devoção e amor.
O velho sistema
não assume, mas está sempre tentando nos enfraquecer.
Atenção aqui:
se quisermos crescer e aprimorar nosso sentimento em relação à vida, a
nós mesmos, precisamos urgentemente rever e repensar tudo, descobrir uma
forma de distanciamento dessa máquina destrutiva que está aí para
que possamos recuperar nossa autonomia e
renascer como uma entidade realmente humana.
“Não há maneira mais segura de afastar o mundo nem
modo mais seguro de enlaçá-lo do que a arte“.
(Goethe)
O Poder é sempre uma tentação aos mais pretensiosos e ambiciosos de
êxito pessoal. Política, como posição social, será sempre algo
duvidoso. E numa sociedade saudável e equilibrada, essa atividade, para
mim nefasta, será absolutamente dispensável.
O indivíduo
sensível e equilibrado quando exerce com sabedoria a liberdade de ser
sabe preservar o respeito que deve existir entre tudo que é vivo. Ele
reconhece o valor de viver sem submissão não apenas em si, mas, também
no outro.
Sabe que a
liberdade é patrimônio individual e fundamento básico das relações
humanas e preserva essa condição com responsabilidade. Desenvolve e
aprimora dentro de si o sentimento de justiça e o compromisso ético com
a verdade acima de qualquer circunstância social.
O exercício da
política vigente embora se mascare continuamente com a falácia
escorregadia de democracia e transparência, faz o contrário, confundindo
e enganando incultos e ingênuos com o poder mágico das palavras. Quase
tudo é discurso, palavras ocas, vazias.
É incrível o descaramento com que os
profissionais dessa atividade inescrupulosa se apresentam na TV com suas
propostas repetitivas, indecentes e cínicas. e O mais estarrecedor é
constatar que milhões de espectadores ainda acreditam neles: ao invés de
cumprir com eficiência as promessas feitas, oportunismo nepotismo e
corrupção escancarada. No lugar do trabalho honesto, propina e suborno
como práticas usuais e corriqueiras. E o que é ainda pior, a quase
certeza da impunidade.
Porque será que
em torno dos governos se formam continuamente grupos organizados
infindáveis de parasitas e delinqüentes aguardando o momento oportuno de
lograr benefícios pessoais assaltando os cofres públicos?
Da vergonha de ter
nascido num mundo de desequilibrados à indignação de habitar uma nação
atrasada que fortalece a concepção primária da existência, retardando
sobretudo a sensiblização do espírito humanista para que possamos
imediatamente crescer e evoluir como entidade consciente da grandeza
humana.
E
PARA O BEM COMUM, NADA
!
UMA VERGONHA QUASE GENERALIZADA PORQUE O
SER HUMANO ESTÁ DECADENTE EM TODO LUGAR DESSA TERRA. A DIFERENÇA QUE
TORNA TUDO PIOR É QUE AQUI NO BRASIL CONFERIMOS UMA DESIGUALDADE ÍMPAR:
DE UM LADO UMA ELITE “ESPERTA”, IMEDIATISTA, QUE EXPLORA OS MENOS
FAVORECIDOS VISANDO ENRIQUECER EM CURTO PRAZO E LEVAR DINHEIRO PARA O
EXTERIOR. DE OUTRO, MISERÁVEIS ANALFABETOS QUE NÃO TEM O QUE COMER,
VESTIR E NENHUMA PERSPECTIVA DE VIDA MELHOR.
“DURA LEX” nada, a
lei funciona precariamente, é morosa, ineficiente, e mole com os que
possuem dinheiro.
”CED LEX” somente aos
menos favorecidos, os que não tem dinheiro para se defender.
Poder econômico - dependência e paralisia.
Muito já se falou do fato de uma
significativa massa de indivíduos não saberem viver sem o dinheiro:
quando estão “duros“ ficam deprimidos e desmotivados, anulados e não se
sentem dignos. É corriqueira a desculpa persistente de não ter dinheiro
para fazer tal e qual... e que, se tivessem, fariam isso e aquilo!?
Receio que estejam paralisados pela
inexistência de uma ação criativa, uma ação interior livre de
circunstâncias externas, uma ação independente.
Vemos com freqüência um grande número de
indivíduos ficarem deprimidos quando não possuem a “segurança“ que o
emprego, o salário e o dinheiro no bolso conferem. E no esforço
angustiante de preservarem seus empregos se submetem a situações
indecentes pois, além de entregarem suas vidas à rotina repetitiva que
consome a energia criativa, enterram o entusiasmo, a curiosidade e a
coragem para buscar novos desafios, o encantamento de experimentar que
toda criança manifesta e expressa.
Após anos e anos de “serviço”, ao
completar o período que lhe garante a condição de aposentado, é muito
comum vermos o sujeito com ar de tédio e sem iniciativa, abatido pela
incapacidade diante da vida. Muitos inclusive se sentem completamente
mortos, afinal, esgotaram-se a alegria, a motivação de buscar, de
encontrar, e a esperança de poder sonhar, imaginar.
Sem criatividade,
nada feito, o indivíduo vira um boneco triste, obediente, formal e
acomodado, e não raramente, torna-se objeto das artimanhas da sociedade,
do Estado, das religiões organizadas, das corporações, enfim, um boneco
- objeto de manobra que compõe e engrossa a massa de medíocres que estão
por aí, aos milhões e milhões, perdidos na multidão.
“...quando deixar de ser criança, eu estarei morto”.
( Brancusi )
O medo
e a “diplomacia“ social
É comum e vulgar o
comportamento repetitivo de muitos indivíduos que conhecemos, alguns até
de anos, porque insistem naquela atitude pusilânime e condescendente ao
tentar sempre evitar e apaziguar qualquer confrontação de pensamento,
quando é absolutamente saudável e necessária o questionamento das
idéias, principalmente quando estamos entre amigos e conhecidos: toda
discussão que expõe pensamentos, idéias é sempre construtivo, sabemos,
porque provoca e levanta a energia criativa.
Isto permite verticalizar sentimentos até
então adormecidos, bloqueados pelas circunstâncias cotidianas nem sempre
favoráveis.
Levamos a vida de forma tímida e acanhada
tentando agradar “gregos e troianos “ numa atitude explícita de
quem perdeu a coragem de ser, a ousadia de correr o risco para buscar
seu próprio caminho ou mesmo para expressar uma idéia e defendê-la sem
preocupar-se se é certo ou errado, bom ou ruim, feio ou bonito ou se vai
perder ou ganhar.
Quando estamos em ambiente descontraído o
normal é falar de tudo, relaxadamente e sem preocupações. Deveria ser
assim, mas, o que é constante é que mesmo em terreno conhecido e
confiável a maioria de nós insiste naquela postura convencional e
parcial de ser. Não arrisca nada se pressentir que pode se comprometer
em alguma posição definida, preferindo manter-se indiferente e sem se
envolver muito, “ politicamente correta ” com reservas e omissão.
Vive-se à sombra do medo, “ na moita e em
cima do muro “.
Quando a mente tem dificuldades para olhar
o fato, simplesmente olhar, sem julgar, negar ou justificar,
dificilmente irá aceitar a realidade de forma natural e pura. Terá
sempre que se defender, rebatendo com desculpas, principalmente quando
está em jogo sua atitude e comportamento: justifica, argumenta, nega,
evita, fazendo todo o esforço para “escorregar” fugindo da realidade
apontada.
Entretanto, aprendemos e crescemos como
indivíduo quando sabemos olhar o fato e ficamos com ele sem
resistir ou negar: Quando temos uma dor, uma simples dor de dente, por
exemplo, ao resistir ela aumentará cada vez mais. Do contrário, se
deixarmos ela sozinha, sem atuar contra, ela pode até não passar, mas,
com toda certeza o incômodo será bem menor porque, sem oposição, a dor
flui livremente. Experimente.
Quando a mente é simples não escolhe
muito. O que é, É.
A Arte é “... o
que restitui ao homem sua dignidade perdida”
(Schiller)
Te flagra MULA! |