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Ao contrário do
que afirma Foucault (Velázquez e a princesa compartilham o mesmo
olhar como personagens internos do quadro em direção ao tema da
pintura, até agora, considerado como, externo à própria
pintura) a cumplicidade entre os olhares de Velázquez e da
princesa é a mesma estabelecida no retrato da "Infanta
Margarida em Vestido Azul" de 1659, ou seja, entre modelo e
pintor.
Velázquez pertence
na essência da representação ao universo externo a ela, ainda
que pertença também, neste caso, ao universo interno do trabalho
como iremos esclarecer mais adiante. A mudança do eixo
estabelecido por Foucault em sua leitura funda a nossa
interpretação.
Numa tentativa de
tornar mais clara nossa tese, pedimos àqueles que nos acompanhar
para se esquecerem momentaneamente da grande tela onde vemos o
verso e a própria auto-representação de Velázquez. Vamos à
moda de Gombrich e do próprio Foucault descrever, como já foi
dito, o que se passou no grande salão onde todo o espetáculo
aconteceu.
Velázquez dispõe
as meninas de maneira harmoniosa para a execução de mais um
testemunho de um dos membros da família real. É importante
reforçar que o ângulo de estruturação foi alterado em nossa
análise. A grande tela e Velázquez dentro da representação
não existem assim como o espelho. Vemos apenas as meninas e a
arquitetura do salão com seus quadros, sua saída ao fundo e um
trecho da grande janela à direita por onde jorra a luz.
Velázquez inicia
sua pintura e num dado momento um cortesão que passa pára e fica
observando da outra sala o que acontece no grande salão. Ele vê
as costas das meninas e o verso da grande tela. Na sequência vê
Velázquez oscilante entre observar os modelos (as meninas) e
executar o grande trabalho.
Podemos perceber que sua atenção foi tomada momentaneamente, o
suficiente, porém, para Velázquez fixar sua longa figura neste
instante de dúvida, neste contraposto clássico entre retomar o
seu sentido ou permanecer estático por mais um momento.
Então, o cortesão
permanece um pouco mais e se torna testemunha de outra situação.
Sem que o mestre perceba, os reis entram no salão pelas suas
costas e ficam por alguns segundos observando a execução do
trabalho em que sua doce filha muito concentrada é o tema
principal.
Apenas para não
nos perdermos: o cortesão ao fundo vê, na sequência, 1º- as
costas das meninas e das outras figuras, 2º- o verso da grande
tela onde Velázquez executa as meninas (o tema da pintura) , 3º-
Velázquez pintando, e, 4º- os reis observando toda a cena.
Lembremo-nos de que o auto-retrato de Velázquez, a grande tela e
o espelho ao fundo ainda não existem.
De repente a
atenção da princesa é lançada para trás do olhar de
Velázquez, a menina por um instante esboça um leve sorriso ao
perceber os visitantes. Velázquez também percebe que os reis
estão observando tudo, e aí instaura-se a grande tensão;
Velázquez está entre a família real, de costas para os reis.
Todas as
suposições a partir de agora são cabíveis. Talvez Gombrich
tenha razão ao supor que o rei tenha dito que aquele era um tema
digno de uma grande pintura. Nós nos utilizaremos, porém, de
outra parte do seu argumento, ou melhor, de outra parte do seu
desejo, para continuarmos a nossa história.
"...mas eu gostaria de
imaginar que Velázquez fixou um momento real de tempo muito antes
da invenção da máquina fotográfica."(7)
Velázquez no seu
gênio pode ter-se imposto o desafio de reunir toda a cena da qual
fazia parte numa única superfície. O tempo e o espaço eram seus
obstáculos além da relação de respeito com os seus monarcas.
Permanecer de
costas para os reis na representação como
efetivamente/supostamente ocorreu no momento de sua inspiração
sem estar de costas para os reis numa atitude desrespeitosa aos
olhos de todos, mas, principalmente, a seus olhos e aos olhos dos
reis a quem, provavelmente, ofereceu o trabalho.
Velázquez, para
nós, não fixa um momento real de tempo antes da invenção da
máquina fotográfica. Vai além, opera uma verdadeira montagem
fotográfica que poderia ser, num sentido ideal, o próprio
antecedente do procedimento cinematográfico. Velázquez subverte
a estrutura linear da representação na profundidade do tempo.
Não podemos, portanto, entender este trabalho se procedermos a
nossa análise como Foucault, dentro de uma narrativa diacrônica.
O sentido de
entendimento ocidental do tempo baseado numa estrutura linear
impediu até agora qualquer alteração deste eixo de leitura do
trabalho de Velázquez. Este foi o motivo, também, que levou a
brilhante leitura de Foucault a deixar uma lacuna analisando-a
como sendo própria de uma representação que se distanciava da
representação clássica fundada na imitação da realidade para
se encerrar na sua própria realidade como uma representação
autônoma.
O espelho falso introduzido por Velázquez no fundo do grande
salão não nos mostra o que é duplamente invisível, o modelo
para quem todos olham e o que seria o tema da tela onde Velázquez
trabalhava. O espelho na sua profundidade fictícia é a primeira
parte da montagem de um estratagema muito bem estruturado por
Velázquez.
Para não nos
perdermos será interessante retomar o fio de nossa história, da
nossa descrição do que aconteceu no grande salão. O
auto-retrato de Velázquez e a grande tela de que vemos o verso na
representação final, como já havíamos dito, ainda não
existem. Vemos agora o cortesão ao fundo, as meninas (o tema
principal da pintura) e o retrato dos reis que acaba de ser
inserido por Velázquez no falso espelho no fundo do salão.
O espelho na sua
profundidade fictícia insere na superfície da representação a
profundidade da quarta dimensão, um fragmento de um tempo
passado, de um testemunho do próprio Velázquez ao virar-se para
reverenciar seus soberanos. Para reforçarmos está idéia,
poderíamos utilizar uma análise que Meyer Schapiro (8) fez para descrever
um exemplo de representação do tempo na arte e o seu desenrolar
dentro do espaço pictórico em perspectiva; Schapiro cita uma
prática entre os pintores da Europa ocidental dos séculos XV e
XVI em que estes inseriam episódios a partir do fundo que
precedem ou sucedem na narrativa o assunto principal. Sabemos,
naturalmente, que um reflexo estende a deformação do espaço em
perspectiva, porém, é tentadora esta aproximação,
principalmente, pela proximidade temporal com Velázquez um pouco
posterior a estes artistas.
"A ordem dos episódios no
tempo e a distância entre eles não só correspondem amplamente a
uma ordem no espaço: no sistema de
representação da perspectiva, o aumento ou a diminuição do
tamanho das figuras corresponde, grosso modo, aos intervalos de
tempo entre os acontecimentos retratados."(9)
O espelho não nos
oferece o encantamento do duplo como pressupõe Foucault; ele
torna visível outra dimensão do espaço. Ele não nos oferece o
encantamento do duplo porque o objeto da representação são as
próprias meninas como já demonstramos com as descrições
anteriores.
Isto pode parecer
um pouco movediço, até mesmo atrevido por entrar em confronto
direto com a leitura de Foucault. Porém, tudo ficará claro,
agora, que é chegada a hora de revelarmos o grande segredo do
quadro. Para isso precisaremos retomar o que havíamos deixado de
lado, a grande tela de que vemos o verso e o próprio Velázquez.
Como Velázquez
poderia ficar de costas para os reis sem estar de costas para os
reis aos olhos de todos? A solução encontrada por Velázquez é
tão fantástica e nossa interpretação nos pareceu tão óbvia a
ponto de não querermos nos dedicar mais profundamente a este
trabalho que apresentamos agora.
Velázquez se
auto-retrata posteriormente com a utilização de um espelho,
provavelmente, o único e verdadeiro espelho utilizado no quadro
mas que nele (no quadro), não se apresenta fisicamente em sua
totalidade; porém, é latente o seu reflexo ao nos apresentar o
próprio autor.
Velázquez não pode existir no
quadro sem dividir conosco o lugar que por um momento também foi
o dos reis, o lugar dos observadores; por isso, é o deslocamento
do tema principal da pintura – as meninas – para o lado
externo da superfície – os reis – o grande equivoco da
interpretação deste quadro.
O tema de
execução de qualquer
representação como no exemplo de "Las Meninas" é,
naturalmente, externo à superfície da representação e, mesmo
que os reis tenham sido introduzidos posteriormente no espelho
falso assim como o auto-retrato de Velázquez, essa relação
essencial da representação não se altera. Mas, se um homem numa
representação está olhando para o exterior da tela, seja para
onde for, o tema da pintura é o homem na tela olhando para o
exterior ainda que o seu olhar nos intrigue e nos faça querer
adivinhar o que olha.
O enigma é causado
por uma fissura no tempo linear da representação. O que vemos
não se deu a um só tempo e não o seria possível dessa forma.
Vemos o tema principal acrescido do passado e ainda que não nos
convencêssemos disso apenas com a imagem do espelho o
auto-retrato seria mais do que latente a esse respeito.
Velázquez fita a
si próprio e não os reis como afirma Foucault. Introduz sua
figura recuperando a tensão do passado, ou seja, permanecendo
entre a família real. Assim, Velázquez divide eternamente os
dois lados da representação com os reis. No interior do quadro
permanece de costas para os monarcas e no exterior divide o
espaço que lhe é destinado por essência, o seu reinado, o do
ato da representação.
O lugar vazio
deixado pela leitura de Foucault começa a se tornar claro, mas
falta ainda tratar mais detidamente da grande tela que Velázquez
executa no interior do quadro. Para os observadores mais atentos
já se tornou clara também esta lacuna; ela merece uma atenção
especial.
A pintura que não apenas Foucault
supôs como sendo o retrato dos reis não existe. O retrato dos
reis existe apenas como memória do passado inserida na
profundidade da representação, no falso reflexo do espelho no
fundo da sala, visto que, já está claro, ocorreu um equívoco no
eixo até agora estabelecido na leitura do trabalho. O tema da
pintura está em evidência na superfície da pintura e não no
que lhe é externo.
Portanto, o que
está representado na grande tela de que vemos o verso
responsável pelo enigma de "Las Meninas"? A partir do
que já descrevemos nos parece óbvia a resposta.
A grande tela da
qual vemos o verso na representação é o que não vemos quando
vamos ao Museu do Prado em Madri, ou seja, a estrutura de
sustentação da própria tela.
A imagem do
auto-retrato de Velázquez nos oferece o duplo num sentido ideal e
nesse mesmo sentido podemos olhar o reflexo falso dos reis, pois
não os vemos na parte externa. O verso da tela ao contrário,
finalmente, nos oferece o verdadeiro encantamento do duplo, ou se
alguém preferir, do completo, afinal, não precisamos imaginar
nada, pois tudo está para nós revelado; o palco e o bastidor do
espetáculo na mesma superfície da representação.
Nenhum enigma,
apenas um auto-retrato feito posteriormente, onde, parte do verso
da tela que o pintor executava aparece como testemunha de seu
ofício dentro do espaço que o pintor acabara de executar. Pode
parecer uma explicação tão inconsistente diante de tudo o que
já se escreveu a respeito do trabalho a ponto de nos deixarmos
enganar, negligenciando, assim, o mais importante, ou seja, a
realidade material e visível da obra.
Para sermos mais convincentes
voltemos a nossa atenção para essa realidade, para a pintura,
para o visível. Observando a posição de Velázquez na pintura e
voltando a atenção agora para a sua posição frente à pintura
dentro da pintura, a qual, supostamente nos esconde o enigma,
verificaremos que se trata exatamente da mesma posição.
Para ficar mais
claro ainda, imaginemos tudo executado, faltando para Velázquez
concluir seu trabalho apenas a realização de seu auto-retrato.
Imaginemos, então,
o mestre girando a grande tela em 180º no sentido anti horário
(como se quisesse voltar no tempo) dentro do espaço que acabara
de executar, posicionando sua tela perto de onde estavam seus
modelos, para assim, na posição correspondente ao seu desejo,
não se confundir com as proporções, tendo como fundo a
arquitetura que já é fundo na grande representação. Tudo isso
refletido num espelho do outro lado da sala, do lado em que
Velázquez esteve até agora como autor executando o tema
principal (as meninas).
Deste lado da sala,
o lado das suposições, externo e estranho à superfície da
representação, não conhecemos nada a não ser o próprio
Velázquez (como autor que se auto-retratou) e por isso, não
queremos supor nada, apenas que o mestre se utilizou de um espelho
para se auto-retratar.
O que vemos então?
Exatamente Velázquez no lado esquerdo de sua grande obra prima
com o fundo da tela aparente a se observar no espelho cujo lugar
ocupamos agora. Neste momento da sua execução Velázquez se
observou a partir de um ponto de vista próximo de onde estiveram
seus modelos, com a arquitetura e os quadros nas suas costas
visíveis no reflexo do espelho. Este foi o último ato do
espetáculo de Velázquez e, quando o seu fino pincel foi suspenso
pela última vez, se abriu para nós algo que jamais se
encerrará.
Não é o espetáculo do duplo que
Velázquez nos apresenta. É o espetáculo do tempo e do espaço.
Mostra-nos, em vez de um reflexo, a frente e o verso de algo que
ocorreu em dois momentos distintos no tempo e no espaço.
A grande tela pode,
como Foucault descreve, ter a função de equilibrar a
composição com a grande janela que irradia a luz do lado
direito, janela esta que, dentro da análise metafísica de
Foucault, se estende até o espaço do observador. A tela, ao
contrário, pertence a outro espaço que não se estende até
nós, um espaço virtual. A tela representada na representação
se encerra no espaço determinado pela extremidade da própria
representação, visto que são uma e a mesma coisa.
As duas
visibilidades incompatíveis que Foucault aborda desde o início
do texto se devem à suposição de que o centro da
representação é exterior à própria representação, este
centro encontra na análise de Foucault o seu duplo na tela
representada na representação, a qual tem como suposto
testemunho o falso reflexo dos reis no espelho falso.
Um auto-retrato
sempre nos põe ao lado do autor numa sobreposição de funções
olhantes, no entanto, nunca somos nós o motivo para o qual
olharam os artistas ao se auto-retratarem, apesar de nos olharem
quando nós os olhamos.
Nossa análise
restitui para a superfície da representação o centro da
própria representação relegando a este espelho a sua verdadeira
função. Uma função simbólica.
A representação absorveu
Velázquez no momento em que ele se auto-retratou e se ofereceu
como parte do espetáculo, assim como, neste momento, tornou
visível o verso do palco, ou melhor, "o bastidor" do
palco onde ocorre todo o espetáculo. Velázquez sempre esteve ao
nosso lado e em certo sentido participa do espetáculo do duplo
oferecido pelos dois lados de sua tela, pois, como autor, é pura
invisibilidade tornada visibilidade no quadro em que sua figura
não ocupa o grande destaque, o qual teria num auto-retrato comum.
Nada falta a nenhum
olhar, ao espectador está reservado o centro real da cena, não
real de realeza como Foucault afirma numa passagem, colocando-nos
como intrusos no lugar do modelo, mas real de realidade. Ao
espectador é reservado o seu devido lugar, o templo da
observação.
O lugar onde imperam os reis
situa-se na moldura e na profundidade do espelho falso, e como
reflexo de uma realidade, qualquer que seja, falsa dentro da
representação clássica, pertencente ao passado, como uma imagem
do passado, e sendo assim, como uma imagem distante como é
distante a sua realidade na representação. E, livre, o espelho
pode se dar como puro espetáculo.
Apêndice
acrescentado em 22 de dezembro de 2002.
Este
ensaio foi concluído em setembro de 2002 e apresentado pela
primeira vez a 20 de novembro de 2002 para uma banca examinadora
no Instituto de Artes da UNESP como parte do relatório de
qualificação para obtenção do título de Mestre conforme
consta nos registros da Instituição.
Em 07 de dezembro
de 2002 foi publicado no Caderno "Folha ilustrada" da
"Folha de São Paulo" um ensaio do Poeta e Crítico
Ferreira Gullar a respeito do quadro "As meninas" de
Velázquez e que será publicado numa coletânea de ensaios
inéditos do mesmo autor pela Cosac & Naify no início de 2003
sob o título "Relâmpagos".
Neste ensaio Ferreira Gullar
alterou o tradicional eixo da leitura que toma os reis na parte
externa do quadro como o tema da pintura transferindo-o para a
princesa e as damas de honra. Por tomarmos conhecimento desta
interpretação após a conclusão de nosso trabalho preferimos
não alterar a sua estrutura; no entanto, sentimos a real
necessidade de analisar este "relâmpago" acrescentando
ao nosso trabalho uma breve reflexão em torno da interpretação
de Ferreira Gullar.
"- um espelho
que não se vê, de cuja existência se sabe apenas pelas coisas
que reflete: o pintor, as meninas e as mulheres, o cão e também,
lá no fundo, um homem que se detém numa escada: ao seu lado,
refletidas noutro espelho pequeno, as imagens do rei e da rainha,
que entraram na sala, no outro extremo do aposento, fora de nossa
vista." (10)
A leitura de
Ferreira Gullar é direta (assume o quadro como o reflexo de um
espelho; sendo assim, como o próprio autor afirma, não
contraditoriamente, a construção do quadro foi feita de maneira
indireta) e assume as meninas, a princesa e as damas de honra como
o tema da pintura, sendo o verso da grande tela representada ao
lado do pintor como em nossa interpretação a própria tela em
que está representado todo o espetáculo.
A cena observada através de um
espelho a um só tempo torna o reflexo dos reis no espelho ao
fundo possível graças ao simples jogo de rebatimentos entre os
dois espelhos (e ainda que nada do espaço real esteja refletido
no espelho ao fundo passamos a considerar esta possibilidade).
Realizamos então uma simulação física com dois espelhos
confirmando que Ferreira Gullar havia de modo objetivo
"desvendado" o segredo do quadro. Isto, num primeiro
momento, foi uma grande decepção, pois havíamos dedicado um
extenso tempo à observação e análise deste trabalho. Como num
clarão ou como o autor denominou seu conjunto de ensaios ainda em
sua maioria inéditos, com um dos "Relâmpagos" ofuscou
por um momento nossos olhos e nossa interpretação.
Então o clarão se
dissipou e voltando a focar o quadro percebemos que a
interpretação de Ferreira Gullar continha uma outra
impossibilidade. Assim como Foucault, Ferreira Gullar deixou-se
iludir pelo desejo de explicar o quadro como uma cena vista a um
só tempo, como uma única fotografia.
"E parece uma
visão irreal esta cena real (com sua luz doce) que
Velázquez fixou na tela para sempre."(11)
Ao analisarmos mais
detalhadamente percebemos que havíamos deixado escapar um detalhe
importante. Ao assumirmos o eixo proposto por Ferreira Gullar
estávamos interpondo os reis ao tema do quadro e o grande espelho
do qual Velázquez teria se utilizado
para realizar através do reflexo a grande pintura. Deste modo,
seria impossível a um só tempo que esta cena fosse observada
como a conhecemos hoje, pois os reis estariam em suas próprias
dimensões aumentadas pelo distanciamento necessário no espaço
para que toda a cena fosse vista neste mesmo espelho encobrindo
"As Meninas".
Esta inserção
feita a partir da análise de Ferreira Gullar a respeito do quadro
se tornou mais importante do que imaginávamos quando fomos
surpresos pela possibilidade de termos sido enganados
completamente por este enigma maravilhoso. A partir desta
confrontação chegamos apenas a uma conclusão definitiva:
"Las
Meninas" contém uma fissura no tempo dentro de um mesmo
espaço na representação; ou seja, a cena não pode ter ocorrido
como a vemos num único momento de um presente qualquer que seja.
Assim seria mais simples assumirmos parte da interpretação de
Ferreira Gullar, bastaria dividirmos a execução do quadro em
dois momentos. 1º - A execução do tema da pintura através de
um grande espelho. 2º - a execução do retrato dos reis no
reflexo rebatido no espelho ao fundo. Isto poderia explicar a
ausência de qualquer reflexo dos personagens no espelho onde
estão os reis, pois as meninas que se encontram no raio de
refração do pequeno espelho ao fundo já não
estariam mais no espaço e assim, este espelho parcialmente livre
de sua relação com a realidade ganharia mais força ainda dentro
de nossa interpretação com seu valor simbólico reforçado.
E, livre, o espelho pode se dar como puro espetáculo.
Agradecimentos:
Agradeço ao Professor Dr.
José Leonardo do Nascimento pelo primeiro incentivo no estudo
deste trabalho de Velázquez, assim como muitos outros ainda em
1997, quando eu ministrei minhas primeiras aulas no seu curso de
História da Arte com base em interpretações estruturais,
inclusive do trabalho em questão.
Agradeço a
Antônio Vilenílson Vilar Feitosa e Heloisa Helena Furquim de
Almeida Vilar Feitosa pelas revisões e suas valiosas opiniões a
respeito da clareza do texto no decorrer do desenvolvimento do
trabalho.
Agradeço ainda o apoio de meu
orientador Professor Dr. Milton Sogabe durante todo o mestrado, o
que me possibilitou a tranqüilidade necessária para que a
pesquisa se tornasse realidade.
(1) FOUCAULT, Michel. As palavras e as
Coisas: Uma arqueologia das ciências humanas. Tradução de Salma
Tannus Muchail. 8º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
(Coleção tópicos)
(2) GOMBRICH, E.H.. A
História da Arte (15º edição). Tradução de Álvaro Cabral.
Rio de Janeiro(RJ): Editora LTC,1993. p.321,323
(3) FOUCAULT, Michel. As palavras e as Coisas: Uma arqueologia das
ciências humanas. Tradução de Salma Tannus Muchail. 8º ed.
São Paulo: Martins Fontes, 1999. (Coleção tópicos); p. 21.
(4) Num ensaio inédito, publicado no caderno "Folha
Ilustrada" do Jornal "Folha de São Paulo" p. E4,
do dia 07 de dezembro de 2002, Ferreira Gullar apresenta o quadro
"As Meninas" de Velázquez como o reflexo de um espelho.
Após o final foi acrescentado uma breve análise desta intrigante
interpretação de Ferreira Gullar.
(5) FOUCAULT, Michel. As palavras e as Coisas: Uma arqueologia das
ciências humanas. Tradução de Salma Tannus Muchail. 8º ed.
São Paulo: Martins Fontes, 1999. (Coleção tópicos) p.9.
(6) FOUCAULT, Michel. As palavras e as Coisas: Uma arqueologia das
ciências humanas. Tradução de Salma Tannus Muchail. 8º ed.
São Paulo: Martins Fontes, 1999. (Coleção tópicos) p. 19.
(7) GOMBRICH, E.H.. A História da Arte (15º edição).
Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro(RJ): Editora LTC,1993.
p.323
(8) SCHAPIRO, Meyer. A unidade da arte de Picasso. Tradução de
Ana Luiza Dantas Borges. São Paulo: Cosac & Naify Edições,
2002. p.89.
(9)Ibid., p.90.
(10) GULLAR, Ferreira. As Meninas. Folha de São Paulo, São
Paulo, 07 de dez. 2002. Folha Ilustrada, p. E4.
(11) Ibid., p. E4.
Referências Bibliográficas:
FOUCAULT, Michel.
As palavras e as Coisas: Uma arqueologia das ciências humanas.
Tradução de Salma Tannus Muchail. 8º ed. São Paulo: Martins
Fontes, 1999. (Coleção tópicos)
GOMBRICH, E.H.. A História da Arte (15º edição). Tradução de
Álvaro Cabral. Rio de Janeiro(RJ): Editora LTC,1993.
GULLAR, Ferreira. As Meninas. Folha de São Paulo, São Paulo, 07
de dez. 2002. Folha Ilustrada, p. E4.
SCHAPIRO, Meyer. A unidade da arte de Picasso. Tradução de Ana
Luiza Dantas Borges. São Paulo: Cosac & Naify Edições,
2002.
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