Reflexão e Cultura
Sergio Moura*

Nós queremos 
a vida plena.  Trabalhamos para isso, afinal.

Pensamos assim porque temos uma mente saudável, “luz na cabeça”,  e alegria no coração.

Buscamos a plenitude quando renovamos a esperança e somos positivos, agradecidos por estarmos vivos. Acreditamos que existam outros indivíduos bem intencionados, que querem a vida potencializada ao mais alto grau pela evolução do trabalho inteligente e do cultivo dos ideais que simbolizam a verdadeira grandeza humana.  

Nada melhor que, por meio da arte, do trabalho criativo, e ninguém melhor que os artistas faz essa tarefa. Os artistas, disse muito bem Baudelaire.C. “...ajudam a construir a consciência ainda não criada da raça”.

Isto eu chamo Humanidade.

Mas, pouco acontecerá sem que indivíduos singulares e corajosos, assumam a responsabilidade e o compromisso de alterar e reinventar o cotidiano. Eles são vitais, únicos. É assim em todo lugar e em todas as áreas de atuação, e foi sempre assim na história do homem.

Por outro lado, a grande maioria, faz o que? penduram-se nos empregos para conservar seu salário mensal ainda que tenham que submeter-se a qualquer coisa. Entregam-se à rotina que robotiza e anula o ser...esperando a aposentadoria. Esquecem que a vida é maior que tudo,  condenam-se ao tédio. Perdem a alegria, dormem e acordam infelizes.

O que sentimos, e observamos, é o sombrio e assustador predomínio da mediocridade, a conseqüente afirmação do conformismo generalizado.

ser humano, desgraçadamente, está em franca decadência, e por esta razão visível os governos são fracos e incompetentes diante do maior dos desafios: como alterar o curso dessa mentalidade ordinária e oligofrênica que predomina atualmente?  

A cada dia vê comprometida a sua sensibilidade, afinal, se existe algo que caracteriza um verdadeiro ser humano é a sensibilidade. 

Sem a primordial sensibilidade desaparecem a potência criativa, a generosidade, a solidariedade, a compaixão, e, o mais importante de todos, o amor, digo, o amor que não é pessoal nem impessoal, o amor que transcende sexo, família, fronteiras - nacionalidade, sentimento infinito que abraça tudo que é vivo e abrange todas as coisas presentes no universo.

Com a crise geral de valores,  todo o esforço dos "operários do sistema vigente" está voltado ao cumprimento inquestionável das necessidades mais primárias e mais imediatas.

Estas, quase sempre excluem a expressão e o esplendor da vida, do ser,  porque visam especificamente o funcionamento do seu sistema motor,  como podemos verificar, neste mundo subjugado pelo poder econômico, religiões enganadoras, políticos oportunistas, empresários gananciosos, grupos e corporações que querem o lucro fácil, enfim, indivíduos frios e inescrupulosos, sugando como parasitas, à exaustão, os últimos recursos naturais do planeta lindo.

O Brasil mente descaradamente ao povo quando diz que prioriza áreas ditas mais importantes: Educação, Saúde, Transporte, Economia, que, embora privilegiadas, também seguem inoperantes. O atual governo, todavia, mantém como Ministro da Cultura um cidadão fisiológico como qualquer outro político vulgarmente ambicioso, e que leva a vida se autopromovendo, não fosse o ministro um artista já consagrado. 

Não podemos engolir que não existam recursos financeiros para aplicar na área cultural. Essa conversa é fiada e inaceitável.

O que existe, decididamente, é a indiferença e alheamento dos dirigentes para com a questão cultural, combinando sobretudo, visão estreita  com rigidez de espírito. Confirma-se o antigo preconceito de que a Cultura é algo supérfluo, não se sustentando então como responsabilidade política social e tampouco um compromisso oficial capaz de responder à altura do problema humano. 

Tenho de considerar então a "peste emocional" (Reich W ).

Esta, penaliza os criadores culturais e bloqueia as iniciativas de expressão, principalmente quando sinalizam a possibilidade de transformação dos indivíduos em seres conscientes, criaturas de fato lúcidas e corajosas, que não se deixariam jamais cooptar por ações oportunistas, circunstâncias, favores, ou ainda, valores falsos como, segurança, poder, posição social, títulos e toda a sorte de mentiras inventadas por essa civilização monetarista.

Entretanto, e apesar de tudo, é possível enxergar dentro de cada indivíduo um gigante adormecido,  um ser grandioso capaz de transformar a vida  porque reúne em si uma energia poderosa, infinita e imensurável, a mesma força que move o sol, as estrelas e todo o universo.

Sob a ótica cultural,  por meio da ação criativa,  da arte, dos artistas, é possível intervir e mudar o curso dessa realidade sombria e quase sem perspectivas animadoras.

Os artistas intuem a verdade. A imaginação pode ir mais longe no mundo do conhecimento. (Iberê Camargo)

A cultura é sim, ao meu ver, uma alternativa poderosa como ferramenta indispensável para trabalharmos soluções eficazes,  no complemento justo do grande abismo que existe atualmente na vida humana.


* Sergio Moura é artista plástico, gravador e professor de arte.
Curitiba,  23 de janeiro de 2006

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