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Em
defesa de uma ausência
Marilice Corona *
(artigo publicado originalmente no Caderno de Cultura de ZH do dia
3/6/2006)
Filha
do
arquiteto Luis Fernando Corona contesta a
inclusão de
presidentes
militares
em
novo
painel do
Palácio da
Justiça. Corona
morto
em 1977,
era
um dos
autores do
prédio de
inspiração modernista.
Em 1964 foi cassado
pela
ditadura.
Perdi
meu
pai
muito
cedo.
Eu
tinha 12
anos e, naquele
momento, começava uma
relação
diferente, uma
relação de
parceria, de
conversas
mais maduras. No
verão de 1977, Luis Fernando Corona, 52
anos,
arquiteto, morreu dormindo... do
coração.
Durante
todos
estes
anos, venho garimpando
lembranças. Às
vezes
me
pego contando, fazendo
listas
para
ver se
me lembro o
suficiente.
Ele
não deixou
um
diário
ou
algo parecido. De
escrito, tenho
apenas uma
entrevista de
escola
que fiz
com
ele
quando
eu estava na 5ª
série - uma
entrevista
sobre a
escolha da
profissão.
Suas
respostas tornaram-se
exemplares
para
mim.
Com inflamados
pontos de
exclamação,
ele afirmava
que o
trabalho
era
um
direito do
homem e
não
um
dever. Falava de
sua
escolha
pela
arquitetura
como uma
escolha
amorosa. Ao
final, dava
um
conselho às
crianças: "Esperem!
Mais
cedo
ou
mais
tarde, explodirá o
talento de
cada
um.
Não procurem numa
profissão escolhida a
riqueza, o
dinheiro,
mas a
riqueza de
ter acertado a
profissão!".
Seguir o
caminho das
artes e
freqüentar o
Instituto de
Artes
sempre
me manteve
próxima de
meu
pai.
Não
apenas
por
ter sido
seu
ambiente de
trabalho,
até
ele
ser cassado
em 1964,
mas
por
que
em inúmeras
situações,
em
palestras,
cursos
ou
exposições,
freqüentemente
alguém vem ao
meu
encontro
contar alguma
coisa
sobre
ele.
São as
mais variadas
histórias
mas
que
sempre apresentam
um
ponto
em
comum: a
menção ao
professor e
arquiteto
competente e
generoso, de
conduta
idealista,
correto e
coerente
em
suas
idéias. Considero essa
imagem o
que
ele
me deixou de
melhor.
Acredito
que
não foi a
insuficiência
cardíaca
que o matou
precocemente,
mas a
doença do
coração.
Todos sabemos o
que significou o
golpe de 64
em
nosso
país. Quantas
pessoas desaparecidas,
quanta
violação de
direitos,
quanto
exílio
involuntário.
Jamais deveríamos
esquecer os
retrocessos e
prejuízos
que podemos
sofrer
quando submetidos a
regimes totalitários.
Em 1964, Luis Fernando Corona teve
seu
direito ao
trabalho usurpado. O
estrago
em
nossa
família foi
grande. A
privação do
direito de
lecionar foi
decisiva na
diminuição de
ânimo de
meu
pai.
Ser
professor
não
era uma
mera
forma de
sustento.
Ser
professor do
Instituto de
Artes e da
Faculdade de
Arquitetura da UFRGS significava a
continuidade de uma
tradição
familiar - uma
relação
amorosa
com uma
casa, o
Instituto de
Artes,
que
fora erguido
com a participação de
meu
avô, o
professor,
escultor e
também
arquiteto Fernando Corona, o
mesmo
que,
em 1941,
juntamente
com Tasso Côrrea e
outros
dois
professores, hipotecou a
própria
casa
para
construir o
prédio de
sua autoria, na
Rua
Senhor dos
Passos.
Ser
professor
era
participar do
processo de
constituição de
um
determinado
campo de
saber, significava
ser
atuante na
configuração de
um
pólo cultural
local.
Meu
pai,
apesar da
vida
breve, teve
papel
importante na
configuração arquitetônica da
cidade. Tem sido
referência
para
pesquisadores
dentro e
fora do
país
em
virtude da
difusão das
idéias modernistas
em
arquitetura. Deixou
projetos
marcantes
como o
Edifício Jaguaribe,
feito
em
parceria
com
meu
avô,
em 1951 -
projeto tipicamente modernista,
que
chama a
atenção
pelo
desenho
arrojado de
sua
fachada.
Em 1964,
com os
arquitetos Emil Bered e Roberto Veronese
realizou o
projeto da
sede da CRT, na
esquina da
Salgado
Filho
com Borges de Medeiros.
Hoje, o
que
me faz
escrever
esse
artigo é
outro
projeto
bastante
importante
para
Porto
Alegre. Trata-se do
Palácio da
Justiça, de 1953, localizado
em
frente à
Praça da
Matriz, ao
lado do Theatro
São Pedro.
Segundo Mizoguchi e Xavier,
em A
Arquitetura
Moderna
em
Porto
Alegre, "o
Palácio da
Justiça pode
ser considerado
como o
marco arquitetônico
mais
significativo do
início do
movimento
moderno no
Rio
Grande do
Sul".
Este
projeto tem co-autoria do
arquiteto Carlos M. Fayet.
Em
maio de 2000, Carlos Fayet entrou
em
contato
com
nossa
família solicitando
nossa autorização
para a
realização de "pequenas
modificações" nas
instalações do
Palácio.
Segundo
correspondência endereçada à
família, o
arquiteto afirma
que,"sendo
co-autor
sobrevivente do
projeto, foi contatado
pelo
setor
técnico do
Tribunal de
Justiça
para
realizar os
estudos arquitetônicos
necessários".
Dentre
estes, "incluía-se a
execução de uma
escada de
incêndio,
hoje
obrigatória pelas
normas e a
reciclagem de algumas
áreas
que foram transferidas
para o
novo
prédio
construído à Av. Borges de Medeiros".
Em
função disso, o
arquiteto salienta
que "as alterações ao
projeto
inicial seriam
inevitáveis e
que o
juízo de
valor
sobre a
adequação das modificações à
idéia
original
só pode
ser
feito
pelos
próprios
autores e,
portanto, a
responsabilidade
por estas cabe ao
co-autor
remanescente". Na
ocasião, concordamos,
pois
nada
mais
justo do
que o
co-autor
ser o
responsável pelas reformas necessárias e
receber os
honorários
relativos a
seu
trabalho. No
entanto,
com o
decorrer deste
processo, presenciamos uma
série de transformações
que
nos desagradaram
profundamente e
que
em
nenhum
momento
tinha sido
tema de consulta. O
documento
que
nos
fora
enviado
não mencionava
nem a
execução da
escultura a
ser dependurada na
fachada
cega e
nem o
mural
com "as
faces do
Rio
Grande", divulgado
em
Zero
Hora, no
último
sábado -
para
mim,
ainda o
caso
mais
grave!
Em
primeiro
lugar,
como
artista, reservo-me o
direito de
fazer
um
julgamento de
valor
não
apenas
estético,
mas
ético. Pergunto-me se foi
aberto
concurso
público
para a
realização da
escultura,
como o
fora
para a
construção do
prédio. Neste
caso, seria a
atitude
mais indicada, uma
vez
que contamos
com
um
número
significativo de
escultores
talentosos,
artistas de
renome
internacional. O
projeto
original previa
para essa
fachada
cega uma
escultura de Fernando Corona,
que na
época acabou
não sendo realizada. Tenho
comigo o
protótipo
em
gesso,
que
muito difere do
que
hoje foi oferecido à
cidade. Tratava-se de
escultura de
linhas
limpas,
forma
sintética, condizente
com o
projeto modernista.
Mas a
realização de
tal
objeto
não é o
que
mais
me escandaliza.
Aliás, seria uma
ótima
oportunidade
para abrir-se
um
debate
sobre a
arte
pública,
seus
critérios de avaliação e
legitimidade e,
principalmente,
sobre a
responsabilidade de
inserir
tais
objetos no
espaço
urbano. O
que
para
mim tornou-se
mais
aberrante é o
fato de o
arquiteto,
depois de
tudo
que
nossa
família passou
em
decorrência da
cassação,
ter colocado
sobre a
obra de
meu
pai,
como
personalidades de
destaque, as
figuras dos
presidentes
militares
Costa e Silva, Ernesto Geisel e Emílio
Médici. Sendo
que o
disparate
maior é
realizar
tal
atrocidade
sobre a
fachada do
que seria a
Casa da
Justiça. E
como se
isso
não bastasse,
retrata
meu
avô e
meu
pai ao
lado dos
militares,
ou seja, o
arquiteto reúne a
vítima das
injustiças ao
lado de
quem as praticou. O
arquiteto despreza qualquer
critério
qualitativo
na
escolha dos homenageados. Uma
obra
pública oferecida à
cidade deveria
enaltecer àqueles
nomes
que ajudaram
positivamente a contruir o
país lutando
por
processos
democráticos de
organização
política e
social.
Não é
por
que fazem
parte da hitória
que devam
ser glorificados. Atitudes
como a de Fayet nos
convocam a uma
profunda
reflexão
sobre as imbricações entre
os
valores éticos
e
estéticos de
qualquer
objeto
que intencione
ser
artístico.
Não é
apenas
em
defesa da
imagem de
meu
pai
que
me coloco,
mas
em
defesa de
tudo
aquilo que
acredito
ser o
papel da
arte na
sociedade.
Um
papel
libertário e tranformador.
Trabalhar
com arte exige
tomada de
posição,
não existe
meio
termo.
Por
ocasião do
processo das reformas do
Palácio, o
arquiteto,
em
entrevista a RBS TV,
quando perguntado
sobre essa
oportunidade,
sobre
estar à
frente da reforma, Fayet comentou: "É a
vantagem de
ter sobrevivido".
Realmente,
pois a
desvantagem de
quem esta
morto é a impossibilidade de manifestar-se,
preservando
seu
nome.
Um
nome
construído
com
muito
trabalho,
transparência e
sem
concessões.
Como disse o
artista Waltercio
Caldas,
recentemente,
em uma
conversa
pública no
Instituto de
Artes: "Existem
aqueles
que
durante a
vida construíram uma
carreira,
estes
são
muitos.
Mas existem
outros
que
durante a
vida constroem uma
obra,
estes
são
poucos".
Eu diria
que os Coronas construíram uma
obra, no
sentido
amplo
que esta
palavra pode
ter.
*
Artista
plástica,professora,
doutoranda
em
Poéticas
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da UFRGS. |