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Maria Benites, a idealizadora da Bienal do
Mercosul Fui convidada a cursar a disciplina de Arte Contemporânea na América Latina na USP no segundo semestre de 2005, ministrada pela drª. profª. Lizbeth Rebollo Gonçalves. Uma de suas propostas foi o estudo das Bienais do Mercosul, que resultou em um seminário apresentado no auditório do MAC –USP no final do ano, após a apresentação individual da pesquisa realizada pelo grupo de cada bienal do mercosul. No dia 09 de março de 2006, encontrei a drª. profª. Maria Benites às 10hs no bairro Higienópolis em São Paulo, com o propósito de esclarecer algumas dúvidas a respeito da Bienal do Mercosul, projeto idealizado por ela. Quando iniciamos a pesquisa, não pude deter-me somente a III bienal (“Arte por toda a Parte”) e fui adiante...As informações não se encaixavam e eu não tive mais sossego! Fui a Porto Alegre e todas as informações se mascaravam, ninguém sabia de nada ao certo... Ao ler meu e-mail pensou: Bienal do mercosul, de novo? Atualmente ela está envolvida com o seu projeto rede JANELAS para o MUNDO acompanhando a instalação de antenas de recepção de Internet para seus vídeos-conferência e intercâmbio entre alunos de faculdades de diversos países do mundo! A primeira frase que ela me disse foi: “TODO CONCEITO QUE NÃO É USADO É ALIENANTE!”. Nascida na Argentina se encantou por Porto Alegre e escolheu o Brasil como segunda Pátria e atualmente reside na Alemanha. Maria é uma pessoa aberta, transparente, espontânea, alegre, de muita garra e de um conhecimento invejável! Formada em psicologia social, sociologia, literatura, apaixonada por arquitetura, coordenou o Departamento de Cursos do IAB-RS onde organizou diversos cursos como: paisagismo, patrimônio arquitetônico, onde encontrou a arquiteta e artista plástica Liana Timm. Convidada para organizar o Salão “Caminhos do desenho brasileiro”, percebeu sua paixão por arte. A partir daí iniciou uma longa carreira nas artes, trazendo diversas exposições nacionais e internacionais a Porto Alegre, colocando os artistas numa situação de dignidade e respeito pela sua Arte. Por ser eqüidistante de grandes cidades, como Buenos Aires, Montevidéu e São Paulo, no Rio Grande do Sul, governo e empresariado desejavam a implementação do Mercosul e Maria tinha um sonho de que “PORTO ALEGRE” fosse a Capital Cultural do Mercosul. No ano de 1994 ela levou a Bienal Brasil Século XX da Bienal de São Paulo para Porto Alegre, numa das viagens a São Paulo encontrou-se no avião com um grande empresário que já estava patrocinando esta exposição e aproveitando que no avião estava a plana maior do empresariado gaúcho, perguntou a ele: “VAMOS FAZER NOSSA BIENAL?” Maria Benites estava cansada de ver os artistas latinos americanos expondo suas obras sempre ao fundo, à direita... O projeto idealizado por Maria Benites era um projeto em que o artista latino americano fosse respeitado e tratado como tal. Ela sabia que não poderia desempenhar ao mesmo tempo os papéis de curadora e organizadora. Não somente isso como para que esta Bienal não fosse só um evento deveriam ser organizadas as bases para que este projeto tivesse continuidade. O inicio então era escrever o projeto da Bienal do Mercosul que foi feito em folhas de cor cinza impressas em bordô e colocou numa pasta bordô (cor-de-vinho) e a entregou à comissão de cultura do Mercosul, como primeiro passo. Deu também a alguns artistas conhecidos cópias do projeto. Nesse mesmo ano de 1994, ela foi viver na Alemanha. Em 1995 foi procurada para realizar a BIENAL DO MERCOSUL. Ninguém tinha mais o projeto! Ela o re-escreveu Ainda necessitava ser regulamentada a lei de incentivo para que a Bienal do Mercosul “saísse do papel”. Maria Benites assumiu o projeto numa sala com uma mesa, uma cadeira e um telefone e usou de toda sua criatividade para que a I Bienal do Mercosul se realizasse, mesmo que tudo estivesse contra ela. Em dezembro de 1995 foi oferecida uma verba para sua produção e um contrato de trabalho temporário, já que desde essa época lecionava na Universidade de Seigen e para realizar o projeto, tinha que se programar para se ausentar de sua função na Alemanha. Em fevereiro de 1996 a Bienal já tinha fundação, presidente, estatuto, produção cultural e diretoria e dinheiro, muito dinheiro, tanto dinheiro que foi capaz de mudar o foco da Bienal do Mercosul.(Lhe vem à mente a estória do Rei Midas)! Para Maria Benites, a I Bienal do Mercosul tinha que ser histórica e para isso o curador tinha que ser alguém que conhece profundamente a arte latino-americana, no caso o escolhido foi Frederico Morais. Além disso, tinha certeza de que.ARTE e ARQUITETURA de uma cidade caminham juntas e buscou espaços com a ajuda do arquiteto Gerardo Vilaseca maravilhosos, como o estacionamento de ambulâncias da Ulbra, antigo prédio da ”Mesbla“ se transformasse em um dos espaços expositivos mais belos e visitados da I Bienal. O lançamento da Bienal do Mercosul ocorreu em todos os países participantes. Numa praça em Buenos Aires, na Argentina no museu de Belas Artes de Santiago no Chile, na escola Humboldt. Estiveram também no Uruguai, Paraguai, Bolívia etc. Quando retornou das viagens encontrou um orçamento que havia se multiplicado e ficou muito aborrecida com este fato. Houve muitas discussões, foram seis meses de desgastes e desentendimentos. Era inconcebível que o curador geral Frederico Morais não tivesse um assistente para ajudá-lo. Com tanto dinheiro disponível queria que o artista latino americano fosse enfim devidamente respeitado, tendo suas despesas como: passagem aérea, hotel e refeições pagas. Numa reunião de diretoria Maria viu que tinha que tomar uma decisão drástica, pois senão a Bienal não sairia, ela seria mais útil de fora que brigando com uma diretoria que não queria entender que arte não tinha nada a ver com marketing e decoração, sua situação era a de que controlando de fora e sem compromisso o seu papel seria fundamental, o jogo de poder tinha que ser deslocado. O “sangue latino” que corre em suas veias fez com que ela “explodisse”, tentou voltar atrás, mas não foi compreendida! O projeto pedagógico criado por Maria Benites também não fora aplicado. Para a idealizadora da Bienal do Mercosul “a obra de arte é diálogo, não é fechada em si mesma”. Sua intenção era ver estudantes de arte questionando a arte juntamente com o público, depois com os próprios artistas através de palestras em frente as suas próprias obras fora do horário de visitação, para isto seriam produzidos ”folhetos“ contendo as atividades com a data e horário em que ocorreriam. Também haveria painéis gigantes repletas de informações. Maria Benites pertence a um grupo de idealistas que queriam transformar a cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, em uma verdadeira ESCOLA DE ARTE LATINO AMERICANA, onde para aprender e entrar em contato com a arte e dialogar com ela seria cobrado 1kg de alimento com o intuito de alertar e conscientizar o público quanto à questão da fome no nosso país ““. Depois da abertura em Outubro de 1997 da I Bienal do Mercosul, Maria Benites retornou para Alemanha. Segundo a criadora do evento: “Esta bienal foi uma pedra num lago”.
*Moira Anne Bush é natural de Porto Alegre-RS. Formada em Comunicação Social na PUCRS, 1981, bacharel em Relações Públicas. Pela sua vivência no exterior, em Santiago-Chile adquiriu interesse pela cultura popular latino-americana e atualmente prepara seu projeto de pesquisa para mestrado, baseado nas Bienais do Mercosul e na arte popular latino-americana. moirabush@gmail.com |