Vá logo ver  AS GRAVURAS de GOYA
Silvia Livi


Se puder, visite o Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli durante a semana, peça uma lupa e olhe tranquilamente as gravuras de Goya. Mas essa palavra não se aplica a quaisquer das 218 gravuras. Todas as 
quatro séries completas em exposição tem imagens muito fortes e instigantes. Prepare-se para olhar um mundo violento e cruel, retratado com maestria por um artista que conviveu em todos esses ambientes, soube perceber os vícios da sociedade espanhola de seu tempo e teve a ousadia de gravar em metal as imagens que difundiriam suas sátiras. Esse legado ficou para nós, pois em seu próprio tempo, o artista teve que esconder matrizes e retirar cópias de circulação.










Auto-retrato
"Francisco Goya y Lucientes, Pintor", 22 15,3cm
Série "Caprichos"
 

A primeira série de gravuras, Os Caprichos, coincide com a grave doença que Goya contraiu em 1792 e cuja seqüela lhe pesará pelo resto da vida: a surdez. O anúncio: "Colección de estampas de assuntos caprichosos, inventadas y grabadas al aguafuerte por don Francisco de Goya" foi colocado na “Gaceta de Madrid” em 6 de fevereiro de 1799. Em um longo texto o autor justifica seu trabalho afirmando que a Pintura pode ser também um veículo para censurar "los errores y los vicios humanos" assim como a Poesia, e defende a capacidade criativa do artista em contraste com o "copiante servil". No final indica: "Se venden en la calle del Desengaño, número 1, tienda de perfumes y licores, pagando por cada colección de 80 estampas 320 reales de vellón".

Apesar de Goya esclarecer que trata de “males universais” e da caracterização dos personagens ser dúbia, a crítica nos Caprichos alertou a Inquisição. Temendo represálias, a venda foi imediatamente cancelada. Goya ofereceu ao Rei as 80 matrizes e as estampas editadas e ainda não vendidas. Em troca, teria pedido uma pensão para o único filho que sobreviveu, dos 20 gerados por sua mulher.  

As impressões da terrível série Os Desastres da Guerra , cujas matrizes escondia, ocorreram postumamente, em 1863. Contém 80 estampas e trata dos horrores da Guerra da Independência Espanhola (1808-1814).

 


"Tanto y más" (15,8 x 24,8cm)
Série "Desastres da Guerra", início do século 19

 


"Será lo mismo" (14,8 x 21,6cm)
Série "Desastres da Guerra", início do século 19



O Rei Carlos IV, de quem Goya era pintor de corte desde 1799, acossado pela pressão francesa, deserdou seu filho Fernando e entregou o trono espanhol para Napoleão Bonaparte, que nele colocou seu irmão José. Goya retrata a carnificina da invasão francesa e da reação violenta do povo espanhol, lutando em condições precárias. A despeito das  contundentes críticas nas imagens e nos títulos nos Desastres, Goya continuou realizando trabalhos para membros da corte comandada por José Bonaparte.

Além do desenho e composição, aprecie os detalhes que revelam os usos e costumes da época, da arquitetura aos sapatos e estribos. Possivelmente vale retornar, pois ainda há mais duas séries:

Tauromaquia reúne um conjunto de 40 gravuras sobre as touradas. A maioria das cenas apresenta o dinamismo e a violência do encontro entre o homem e a fera, retratando eventos da juventude do artista, que convivia com os toureiros e chegou a atuar na arena.
 


Tauromaquia


Goya tinha 68 anos quando gravou a série, realizada após a fuga de José Bonaparte, em 1812. Seria uma época de precariedade econômica do artista, um período de censura de estampas por parte do Tribunal da Inquisição.

Quando Fernando VII retomou o trono espanhol em 1814,  a despeito de tudo,  aceitou Goya como pintor na corte. O rei teria dito “deveria mandar te enforcar, mas... és um artista... faz-me um retrato.”

Os Disparates, também conhecido como Provérbios, é uma série 18 gravuras de crítica social e política que não chegou a ser concluída. Foi feita na época das “pinturas negras”, grandes painéis que Goya pintou nas paredes da quinta onde vivia, nos arredores de Madri. O artista está envolto em imagens oníricas e fantásticas. As pinturas negras lá permaneceram quando Goya se transferiu em auto exílio para a França, com aposentadoria concedida pelo Rei, onde morreu em 1828.

E finalmente não deixe de lembrar que todo esse tumulto que Napoleão criou na Europa  fez Dom João VI vir para o Brasil. Fugindo desses desastres, a corte portuguesa aqui aportou, em 1808, trazendo coisas que antes eram proibidas, como o livre comércio,  a imprensa, os arquitetos e pintores. Pena que a corte portuguesa não tivesse um Goya.








Goya: As gravuras da Coleção Caixanova -
A mostra reúne as quatro séries completas das gravuras de Francisco de Goya (1746-1828) da coleção da financeira espanhola Caixanova, cujo acervo é considerado um dos mais importantes daquele país. As 218 obras estão sendo expostas pela segunda vez fora da Espanha – a mostra esteve no MASP de março a maio deste ano – e a vinda ao MARGS faz parte das comemorações dos 53 anos do Museu, que se completam no dia 27 de julho. A exposição é fruto da parceria entre Caixanova e o Instituto Cervantes de Porto Alegre e irá percorrer o continente americano, passando por Buenos Aires, Cidade do México, Miami e Nova York. As séries apresentadas são Os Caprichos, Desastres da Guerra, Tauromaquia e Proverbios ou disparates. Francisco José de Goya y Lucientes nasceu em Saragoça, na Espanha, em 30 de março de 1746 e começou a pintar aos 13 anos, sob orientação de Don José Luzan y Martinez e copiando obras de grandes mestres. Em 1785, em Madri, tornou-se o pintor oficial da família real, fazendo retratos. Após ter contraído uma doença que o deixou surdo e parcialmente cego, suas obras adquiriram um aspecto mais sombrio, porém se tornaram mais expressivas. Sua inclinação liberal fez com que sofresse perseguição política e passou seus últimos anos exilado na França, onde veio a falecer em 1828. De 15 de junho a 5 de agosto, de terças a domingos, das 10h às 19h, nas Pinacotecas. FONTE: SITE DO MARGS - WWW.MARGS.ORG.BR