O que eles querem de nós
por
Davi Frederico do Amaral Denardi *
davidenardi@bol.com.br

Mesmo sendo considerada por muitos como um dos últimos refúgios da liberdade em um mundo cada vez mais tecnicista, a arte não está, e nem nunca esteve isolada de influências (na maioria das vezes decisivas em sua produção). Desde a atinguidade até os dias de hoje é influenciada por instituições, sejam elas o Estado, a Igreja ou o Capital. Atualmente, frente a miríade de transformações sociais da contemporaneidade, a arte e os artistas acabam tendo que se sujeitar as vontades das academias e instituições cuturais a fim de ganhar condições mínimas de subsistência para sua produção.

Toda a produção artística que sobreviveu até os dias de hoje está intimamente ligada às instituições e à classe dominante em cada período histórico. A influência dessas instituições, Igreja, Estado, Burguesia, definia, e ainda define um tipo de produção artística, um certo "modelo" de arte, na maioria das vezes legitimando essas classes. Na Grécia a arte tinha um cunho educacional e religioso. Apesar de estar voltada para uma produção antropocêntrica às artes visuais gregas estavam intimamente ligadas às manifestações religiosas, representando os mitos gregos, tendo nesse momento tinha a função de educar. Em Roma a arte tinha cunho estatal, ao invés de representar as divindades ou "educar" a população, a arte era utilizada pelo estado com instrumento de afirmação do poder, as obras eram espalhadas pelos territórios conquistados a fim de reafirmar a imagem e a soberania de Roma. Na Idade Média, com a ascensão da Igreja, a arte passou novamente a servir a religião, representando o mito cristão e sendo veículo tanto de educação, quanto de afirmação de poder. Nos séculos XVII E XVIII com a afirmação dos Estados Nacionais a arte passa a servir ao estado, fortalecendo e afirmando, como em Roma, a imagem do governante e da classe dominante. A partir do século XIX a arte, que até então era concebida como veículo publicitário, passa a ganhar o "status" de atividade intelectual, o artista passa a ser um profissional liberal e tem a sua produção influenciada pelo mercado, pelas relações comerciais, uma vez que surge um outro veículo de afirmação de poder, a imprensa.

Atualmente a arte é sustentada, basicamente por duas instâncias de poder, o Estado e a Burguesia¹. O Estado se utiliza da arte como uma maneira de continuar se legitimando como instância de poder, mostrando à sociedade que ainda atende às suas necessidades. Já a Burguesia se utiliza da arte como instrumento de segregação social, como uma forma de legitimar seu poder, não o poder político ou financeiro, mas intelectual. A democratização dos meios de produção das artes, bem como o surgimento e o crescimento de uma "classe média" fizeram com que os produtos culturais antes restritos à elite econômica passassem a fazer parte do cotidiano da sociedade, seja na forma do "kitsch" ou através dos novos meios, como a fotografia e o vídeo, que já foram desenvolvidos para serem distribuídos em massa. Como meio de legitimação intelectual a Burguesia passa a investir em um tipo de produção artística altamente intelectualizada, distante da massa "ignorante", uma certa "arte conceitual"², que em muitos casos é confundida com a própria arte contemporânea. Essa produção não é compreendida pela população, sendo alvo de críticas e colocando em xeque a função das instituições culturais de maneira geral.

Não quero aqui defender uma arte "popularesca", mas apenas salientar que o preocupante nesse quadro é que as "academias" e as instituições culturais têm se proposto a incentivar e direcionar a produção artística para dentro de moldes conceituais elitizados, privando a sociedade em geral da possibilidade de consumir e desenvolver uma produção mais autêntica, tanto do ponto de vista social como do ponto de vista estético.

É óbvio que as Universidades têm o dever de explorar e disseminar o conhecimento mais elaborado, mais específico e mais atual. Porém é preciso cada vez mais discutir a estética e o mercado das artes plásticas dentro da sala de aula, sob o risco de formar uma geração altamente intelectualizada mas que não consegue se inserir no tecido social, e que por isso mesmo acaba obrigada a disputar unicamente os exíguos espaços do circuito oficial de artes plásticas brasileiro.

Já as instituições culturais cabe a função de fazer o diálogo de fato entre os artistas e à sociedade, não se limitando unicamente a disseminar o conhecimento acadêmico na comunidade como também, e até principalmente, ouvir e dar atenção às necessidades estéticas da sociedade, propondo soluções que nem reifiquem o senso comum e nem imponham a estética da elite.

Aos artistas, e fundamentalmente à eles, cabe a decisão de desenvolver sua produção em função de uma necessidade estética pessoal, alheia se possível, ao mercado e ao circuito oficial de artes plásticas, e buscando espaços expositivos que vão de encontro com sua produção, sejam eles a própria rua, praças, shoppings ou galerias, nesse último caso exigindo que a exposição seja tratada em todos os casos com o mesmo respeito. Mais do que isso é fundamental que o artista se insira no organismo da cidade, mesmo que de maneira viral, e se coloque de maneira decisiva no cotidiano, não só com sua obra mas essencialmente com sua presença e posicionamento.

* Técnico em Cultura, SESC - Tubarão/SC



* A Burguesia aqui é tratada como a classe que surge com o advento do capitalismo, ou seja, diz respeito aos proprietários das grandes instituições industriais, comerciais e financeiras.
* Arte conceitual aqui não se refere ao movimento de meados do século XX mas a maneira como a arte dita de vanguarda é comumente conhecida.