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Uma
história traçada a lápis |
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| AWB: Quando começa
a tua relação com a Arte? TERESA: Quando eu era criança, mas o meu currículo tem início quando pela primeira vez mostrei o meu trabalho, que foi em 1978. Depois disso comecei a expor de uma forma mais ou menos regular. Mas, a minha relação com a arte, na verdade, não tem início como um trabalho e sim como uma necessidade de me expressar tanto através do desenho, como da poesia, literatura ou dança. Sempre senti essa necessidade de extravasar. Acho que, se não fossem estas formas de expressão, eu não teria sobrevivido emocionalmente a muitas coisas. AWB: Você é natural de Porto Alegre? TERESA: Não, sou de Bagé. Mas vim para Porto Alegre com oito anos de idade. Em Bagé tínhamos um pátio enorme, uma relação de pertencimento ao lugar, à terra, essas coisas... Aqui em Porto Alegre fui perdendo isso, morei em apartamento, em casas que não tinham quase pátio e sentia falta de um contato maior com a natureza... AWB: Bagé é uma cidade que tem história no meio cultural, não é? TERESA: Antigamente Bagé e Pelotas eram cidades que tinham uma vida cultural ativa, eram na rota para Montevidéu e Buenos Aires. A paisagem do pampa tem aquele horizonte na terra que se avista longe onde parece que acaba o mundo. Tem o grupo conhecido dos quatro pintores de Bagé que retratou muito essas paisagens... AWB: E o que você mais gostava de fazer? Desenhar? TERESA: Quando era criança e depois mais tarde fiz um pouco de dança, mas foi pouco. Sempre que posso vou ver espetáculos de dança contemporânea, compro vídeos, é uma coisa que adoro. A minha família é muito musical, meus pais tocavam instrumentos... Eu sempre tive ritmo mas sou desafinada. Tinha mais tendência a desenhar e escrever, sempre gostei muito de poesia. Na adolescência fui fazer a Escolinha de Artes da UFRGS e ali comecei a ver o trabalho que estava sendo feito no prédio ao lado. Das janelas via o pessoal desenhando modelos... Foi aí que decidi que seria artista plástica, descobri que era isso o que eu queria. AWB: Que idade você tinha? TERESA: Uns 12 anos. Mas depois tive várias outras paixões... Eu também gostava muito de Matemática, sempre gostei... Também era um pensamento abstrato... Quando eu tinha 17 anos, dava aulas particulares de Matemática... Eu gostava muito desta relação com o aluno, queria que ele gostasse de Matemática, que aprendesse a pensar matematicamente... Cheguei a ir para o Rio de Janeiro fazer um curso relacionado com Matemática... Meu primeiro vestibular foi muito engraçado, a primeira opção era Artes Plásticas, a segunda Matemática, depois vinha Psicologia... Uma coisa não tinha nada que ver com a outra... AWB: E você passou na primeira opção? TERESA: Sim, mas fui para o Rio fazer um curso de Administração Postal na PUC. Fui porque queria morar sozinha sem depender da família, eu tinha uns 18 anos. Mas, depois de dois anos, voltei. Ganhava muito bem lá mas resolvi abandonar porque percebi que seria infeliz, tinha uma força maior do que eu que me chamava pra o que eu sempre quis. Achei que tinha que voltar para fazer o curso de Artes Plásticas. Então destranquei a matrícula para Artes e fiz um outro vestibular para Matemática. Fiquei dois anos cursando as duas faculdades. Fiz até o terceiro ano da Matemática. O curso que fiz no Rio tinha muitas disciplinas de cálculo e pude aproveitar algumas. Até que chegou uma hora em que tive que decidir. Eu gostava das duas coisas mas decidi ficar só nas Artes, estava mais envolvida, já estava expondo e tudo mais... Havia professores que me apoiavam muito nos dois cursos. Optei por Artes pois não poderia ser outra coisa, nem sei bem se é uma opção ou algo mais forte do qual não se pode fugir. Às vezes penso naquele livro do Rilke, "Cartas a um jovem poeta" em que ele fala da vocação artística. Achei que não poderia mais fugir. AWB: Foi uma decisão difícil? TERESA:Foi mas, por mais difícil que seja, tinha que encarar uma decisão. Sempre achei muito difícil ganhar a minha vida como profissional de Artes. Para mim o trabalho com Artes Plásticas não era bem uma profissão, era uma necessidade pessoal e de certa forma ainda é. Às vezes acho incrível que eu tenha feito disso uma profissão, eu não tenho um espírito muito profissional no sentido de planejar um futuro...organizar uma meta. Vejo esta gurizada agora pensando em arte como uma carreira, um caminho a ser trilhado rumo ao sucesso. Nunca entendi muito essa palavra nem tive estas metas muito definidas. Eu fazia aquilo mais como uma necessidade. As coisas foram acontecendo no meu trabalho mais como decorrência natural do empenho no que eu fazia. Acho triste virar escrava de metas e procuro sempre preservar a minha liberdade. AWB: Como a tua família recebeu a notícia de que você seria Artista Plástica? TERESA: Deixei um trabalho no Rio e depois aqui no Banco da Amazônia onde ganhava muito bem e minha família, a princípio, achou que eu deveria ter a arte mais como um hobby. Mas nunca foi uma coisa vista como proibida. Era mais um problema meu, de como iria solucionar minha independência financeira, ser dona do meu nariz... Eu sabia que não tinha um temperamento de vender o meu trabalho como um produto. Nunca tive. AWB: E ainda não tem? TERESA:Não. Quando vendo alguma coisa eu gosto mas isso sempre dependeu de algumas galerias com as quais trabalhei, umas mais ágeis outras menos, mais do que de mim. Se depender de mim, não vendo. Há a necessidade do trabalho ser mostrado, é claro. O trabalho que não é exposto é como se não tivesse cumprido o seu ciclo de vida, como se estivesse asfixiado. Mas vender para mim não é tão importante. Nunca precisei vender meus trabalhos para sobreviver. Tenho a felicidade de nunca ter ficado sem emprego. Não é uma profissão fácil mas sempre tive trabalho ...talvez porque goste de tudo que se relacione com artes visuais e também porque não separo meu trabalho de professora do de artista, uma coisa influi na outra, adoro fazer as duas coisas. Não poderia ficar só com o trabalho no atelier, preciso da troca, do contato. AWB: Que trabalhos você teve? TERESA:Trabalhei, a princípio, como ilustradora de livros didáticos e de jornais, trabalhei no Correio do Povo, na Folha da Tarde, em jornais alternativos... Trabalhei com cenários para teatro... Tinha um grupo aqui em Porto Alegre que se chamava 'Vende-se Sonhos', fiz alguns cenários de peças para eles, fazia também cartazes, esta parte de material gráfico para teatro e concertos...Fiz alguma coisa de figurino para teatro... Comecei a fazer alguma coisa para cinema mas logo parei, fui morar fora... Teve uma época que trabalhei muito com logotipos e programação visual para eventos, fazendo cartazes e coisas do tipo e, principalmente, trabalhei como oficineira e professora. Era um pouco de tudo. AWB: Você 'se virava'... TERESA: 'Me virava', esse é bem o termo. Dava palestras de História da Arte no interior do estado, dava aulas na Escolinha de Artes da UFRGS, orientava uma oficina terapêutica em uma clínica jungiana onde tinha atelier de pintura para os pacientes... O trabalho na clínica não tinha nenhum modelo, tínhamos que encontrar o melhor jeito para ajudar as pessoas sempre com muito cuidado…A arte tem também uma função terapêutica... Passei por momentos em que meu trabalho foi fundamental .... AWB: Mas que tu já sabias que funcionava no teu caso... TERESA: Eu sabia que aquilo funcionava não só comigo, mas eu tinha que descobrir um jeito de conduzir cada pessoa, de fazer com que ela perdesse certos bloqueios, para cada um é um novo desafio, é diferente... |
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Paisagem. Grafite sobre papel, 50x70cm. 1980 |
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AWB: E que outros trabalhos você teve? TERESA: Junto com isso dei aula no Atelier Livre da Prefeitura, na Casa de Cultura Mario Quintana. Trabalhei no Colégio João XXIII durante uns 10 anos. Havia épocas que eu tinha uns cinco ateliês diferentes, não sei como conseguia... Tinha mais energia. Hoje não poderia, embora trabalhe todo o tempo e isso me de energia e prazer. AWB: Mas como começou tudo isso? Quando você se formou em Artes Plásticas? TERESA: Eu entrei na Universidade com 18 anos em 1973. Aí eu fui para o Rio de Janeiro, voltei e ingressei no curso novamente em 1977 e me formei em 1982. Fiz bem devagar, me formei primeiro em Licenciatura e depois em Bacharelado. AWB: Mas neste período você já trabalhava como Artista Plástica? TERESA: Sim, já dava aulas e fazia exposições. Trabalhávamos muito com Arte Postal também. Eu não estava muito preocupada em me formar logo... AWB: Mas qual a técnica que você utilizava mais? O desenho? TERESA: Era mais desenho nesta época. Foi o único período em que participei de alguns salões e ganhei prêmios em desenho. Depois de 1982 comecei a lecionar no colégio João XXIII e continuei dando aulas na Escolinha não apenas para crianças mas para adolescentes e, principalmente, adultos em vários cursos paralelos. Depois, em 1986, ganhei uma bolsa do Governo Espanhol e fui para a Espanha. Fui fazer Doutorado, mas, na época, queria mais era ter uma vivência na Espanha. Fiz o curso preparatório para o Doutorado mas não defendi a tese porque tive um problema de convalidação dos títulos brasileiros na Espanha e precisei fazer uma prova de conjunto que era complicadíssima. Demorou dois anos para reunir um tribunal de professores na Universidade San Carlos em Valencia, que tinha a terminalidade de Desenho, para eu poder fazer a tal prova. Foram tantas as dificuldades burocráticas que fiz a prova e resolvi voltar para o Brasil. O problema todo foi que entrei com os papéis para convalidar meus diplomas e assim ter todos os direitos de exercer a profissão lá quando eu deveria ter entrado apenas para fins acadêmicos... Mas eu não sabia... Foi difícil. Hoje tenho um diploma europeu que facilita certas atividades lá. Quando recebi o certificado avisando que tinha sido finalmente aprovada na prova de conjunto de Valencia, eu já estava no Brasil e não quis regressar para Madri. Quando cheguei aqui em 89 me direcionei unicamente para o meu trabalho pessoal e para o ensino. Voltei a trabalhar no Colégio João XXIII e, logo em seguida, trabalhei como professora substituta do Instituto de Artes da UFRGS onde fiz o Mestrado. |
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AWB: E depois? TERESA: Fiz o concurso para ingressar como professora do Instituto de Artes na área de desenho e no Atelier Livre, na área de Pintura. Aprovada nos dois, comecei a trabalhar no IA em 97. No ano seguinte, fui para a França. Fiquei quatro anos fazendo Doutorado lá. AWB: E sobre o que foram o Mestrado e o Doutorado? TERESA: Fiz o Mestrado sobre o meu trabalho pessoal. Era em Poéticas Visuais e, na época, eu estava trabalhando com pintura. Era um trabalho que vinha do desenho e chegava na pintura. Fiz depois uma exposição do trabalho prático do Mestrado que se chamou 'Janelas' , foi naquela galeria branca da Casa de Cultura Mario Quintana. Tinha feito logo que voltei da Espanha uma exposição, lá também que se chamou 'Paisagens'. Um dos assuntos desta dissertação de Mestrado era a relação entre paisagem e abstração. O começo da abstração na pintura ocidental do séc XX se deu através de pintores paisagistas... Eu achava que tinha que pesquisar melhor isso. Achava que isso acontecia também com o meu processo. Depois quando fiz o Doutorado na França também foi sobre o meu trabalho pessoal. O trabalho vinha destas pinturas das Paisagens e Janelas para chegar ao desenho novamente. Retorno ao desenho do início do meu trabalho, mas de uma forma, agora, não tão figurativa, de uma outra maneira, com um outro pensamento. O mestrado foi sobre a pintura a partir do desenho e o doutorado sobre o desenho a partir da pintura. AWB: Você ficou quatro anos na França... TERESA: Sim, mas continuo voltando sempre que posso. Fiz exposições durante o período que morei lá e depois também. Tenho alguns elos de trabalho e de vida por lá... AWB: E você dominava o idioma? TERESA: Sim, porque estudei em uma escola de freiras belgas e desde criança se estudava francês. Esta escola não existe mais, era perto de Viamão e se chamava Cônegas de Santo Agostinho. AWB: Depois que você voltou da França, logo também voltou a dar aulas da UFRGS? TERESA: Sim. Eu ganhei a bolsa que me proporcionou o Doutorado na França porque era professora da UFRGS. Era uma bolsa da CAPES. Quando fui para a Espanha, era muito mais jovem e fui com uma bolsa muito pequena do Governo Espanhol. Eu morava em uma comunidade, junto com mais pessoas... Mas aproveitei para fazer vários cursos, conhecer e viajar. Madri era uma festa nos anos oitenta. Quando eu estava na França, além de organizar mostras, trabalhei muito na tese, estudava demais e não tive tempo para viajar fiquei mais trabalhando mesmo. AWB: Voltaste em 2002? TERESA: Voltei e fui dar aula na UFRGS, como faço até hoje. AWB: Você dá aula do quê? TERESA: De desenho. A cada semestre pode mudar a disciplina, mas normalmente eu dou aula para os alunos dos primeiros e dos últimos semestres. São propostas bem distintas. Acho que o aluno deve ter o maior número possível de ferramentas de criação. Acho que o desenho, para quem não quer fazer dele a sua linguagem de expressão artística, é uma ferramenta para qualquer coisa, uma boa maneira de desenvolver o pensamento visual. AWB: E como você se sente ao dar aulas para alunos que não se interessam pelo desenho? TERESA: Para mim, como artista, o desenho não é um meio, é um fim. Mas, como professora, tenho que pensar que para muitos alunos o desenho vai ser apenas um meio, um instrumento. Nós estamos vivendo em uma época um pouco difícil de determinar uma metodologia mais clara no que se refere ao ensino das Artes. É difícil estabelecer um consenso porque vivemos em uma época em que o próprio papel do artista está pouco preciso. O que é ser artista para ti? O que é ser artista para mim? Mesmo dentro de um universo de pessoas que trabalham com isso, existem mil maneiras de ver o papel e a função do artista contemporâneo. Então, como é que se vai preparar um aluno para ser uma coisa que não se sabe bem o que é? Uma vez eu estava lendo um filósofo francês, professor de filosofia, que disse: "Estou ensinando uma coisa que até hoje não sei o que é". Como é que se vai definir os parâmetros do que é filosofia ou do que é Arte hoje... É complicado, nunca chegaremos a um consenso. Eu acredito que, por exemplo, um aluno que chega no Instituto de Artes terá vários pontos de vista, conforme o professor, e acho que isso pode ser enriquecedor para a maioria deles. Mas, pode também, a princípio, ser confuso para outros. É preciso que, quando o aluno chegue na faculdade, deixemos à mostra as nossas próprias contradições. Não se pode chegar para o aluno como um ser que vai dizer a verdade, mas mostrar indagações, imprecisões e dúvidas de nosso pensamento. O que é ser um artista visual, um artista plástico…Estas coisas estão muito embaralhadas, as pessoas falam como se fosse a mesma coisa, mas são diferentes, têm especificidades. O trabalho de desenho, por exemplo, possui determinadas especificidades que, compreendidas, podem ajudar o aluno a se expressar melhor, a conduzir melhor o seu gesto e o seu corpo em relação ao desenho. Acho que a gente não ensina Arte, mas se pode ajudar o aluno a aproveitar mais o seu potencial "artístico" (aspas grafadas pela entrevistada), a melhorar a sua percepção e a sua maneira de se expressar no mundo. AWB: Interessante escutar o lado acadêmico, até então entrevistamos para a sessão Atelier alguns artistas que passaram pelo Instituto de Artes e que são críticos com relação ao ensino... TERESA: Que bom! Estamos precisando de alunos críticos... As ênfases em Desenho, Pintura, Fotografia estão mudando, agora tem o novo currículo onde não existem estas terminalidades, o que já vem acontecendo na prática. Mas determinadas técnicas e ferramentas continuam a ser necessárias, isso é importante para o aluno poder escolher o seu próprio caminho. Vivemos em uma época em que as necessidades não são muito claras. Por exemplo, não se precisa necessariamente saber fotografar para fazer a produção de uma foto, mas o fato de se saber fotografar pode melhorar essa produção, isto certamente será um acréscimo. O vídeo é um instrumento de expressão que vem sendo usado de forma crescente. Andy Warhol já fazia cinema nos anos 60, Salvador Dali, nos anos 20... Parece que o pintor se ressente da imagem parada, única. Esses caras que trabalharam com pintura e que vieram para o vídeo, têm um outro olhar. Eu acho que quanto mais conhecimento se tiver, mais liberdade se tem, mais se pode avançar. AWB: E como é a sua rotina? TERESA: É difícil falar sobre isso porque não tenho uma rotina organizada. O Leopoldo Plentz, que fez a última entrevista no ARTEWEBBRASIL, é muito mais organizado... Eu não tenho um ritmo regular. Não dou aula todos os dias, mas todos os dias faço trabalhos relacionados com as aulas, leio textos de alunos, tenho encontro com algum orientando, planejo alguma palestra, organizo alguma atividade... Existem períodos em que estou produzindo muito meu próprio trabalho, aí tenho vontade de não parar, ficar sempre nisso... outras vezes organizo as imagens no computador, mexo um pouco com vídeo, fotografo, faço montagens etc… AWB: Você vai ao Instituto de Artes todos os dias? TERESA: Não, vou três ou quatro dias por semana pois no Instituto vamos para dar aula. Não temos uma sala individual para trabalhar, então quando tenho que trabalhar com textos, com leituras e na preparação das aulas, trabalho em casa. E, além do meu trabalho com desenho, eu escrevo muito. É uma rotina assim. Desenhar, ler e escrever são duas atividades que faço mais. Não tenho um tempo integral para me dedicar ao desenho, nunca tive, mas existem épocas em que desenho mais , e outras em que desenho muito menos. Não posso dizer que todo dia trabalho durante tantas horas mas há épocas em que posso ficar muitos dias desenhando sem parar. Faço muitos trabalhos ao mesmo tempo. AWB: Como funciona: Você faz os desenhos e organiza uma exposição ou, você marca uma exposição e começa a fazer os desenhos? TERESA: Em geral, quando marco uma exposição já tenho um número de desenhos que quero mostrar. Nem todos podem estar prontos, mas, a maior parte da exposição, já tenho na mão. Exponho pouco. Tenho dificuldade de marcar uma exposição sem ter produzido quase tudo. Geralmente, trabalho adiantado... Muitas vezes, trabalho também de acordo com o espaço da exposição, como é o caso da ultima individual de desenhos que fiz aqui em Porto Alegre no Museu do Trabalho, no ano passado. |
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AWB: Você fez muitas exposições fora do país, não é? TERESA: Não muitas, algumas, principalmente na Espanha e na França. Fiz em locais que me pareceram interessantes como na galeria da Casa do Brasil em Madri, ao lado do Museu de Arte Contemporânea, na antiga Galeria Debret, da Embaixada do Brasil em Paris, ou no Castelo de Gisors, na Normandia, que eram espaços ótimos. Fiz também relações bem ricas com pessoas, há uma troca de conhecimentos maior lá em relação ao desenho e a pintura. Aqui em Porto Alegre depende muito de como e o que a gente mostra... Eu mostro mais o meu trabalho em lugares não-comerciais, mais culturais. AWB: E como o teu trabalho foi recebido na Europa? TERESA: Na verdade só posso falar de exposições que fiz na França e na Espanha. Em alguns outros paises europeus participei de coletivas mas não estive presente. Na França eles se interessam, fazem uma boa divulgação, principalmente fora de Paris, reportagens em jornais, artigos... vendi melhor do que aqui, mas não dá muito para comparar... É diferente... Tanto em Paris quanto em Madri há um número muito maior de galerias que trabalham com desenho e pintura e são trabalhos mais próximos do que eu faço. Ao mesmo tempo existe uma concorrência enorme, um grande número de pessoas que trabalham com isso. Mesmo assim, ainda acho que lá tem mais campo. Existe um conhecimento maior da pintura como uma coisa que faz parte da cultura e do orgulho nacional. Na Europa, as coisas duram mais. AWB: E quando você voltou da França para Porto Alegre, não foi difícil de se adaptar? TERESA: Eu já tinha passado por este processo quando voltei da Espanha... É sempre difícil... Fiquei muito mal quando voltei da primeira vez e depois também. Não apenas pelo lado profissional, mas porque se passa tanto tempo fora e as coisas aqui continuam... Até quando a gente volta para o próprio mundo afetivo, família e amigos, é como se tudo estivesse acontecendo sem a gente... Se fica com o ego meio fora de prumo... 'Como que o mundo segue igual sem mim?' Parece que se está sobrando... Estou exagerando, claro, mas existe um pouco desta sensação. As pessoas todas me acolheram super bem... Desta vez já estava com o meu emprego na UFRGS... Mas foi também difícil, embora as dificuldades tenham sido diferentes das da primeira vez, quando voltei da Espanha... Voltei em agosto de 2002 e logo em seguida, em fevereiro de 2003, retornei à França para fazer uma exposição e tive que ficar uns dois meses lá para montar, fazer os catálogos,etc… fiquei envolvida com essas preparações desde que cheguei aqui... Depois fui outras vezes pra lá, não apenas para trabalhar mas também para rever os amigos. E com relação a me adaptar na França, quando fui já tinha experiência em morar fora e não tive tanta dificuldade. Embora eu seja bem brasileira de temperamento, existem algumas características minhas que favorecem a minha adaptação lá. AWB: Que tipo de coisas? TERESA: Por exemplo, um certo compromisso com as coisas, dar importância para determinados valores... Eles têm valores mais humanistas e eu não me adapto muito em uma sociedade pragmática, de consumo... que prioriza os fins e não os meios, que, para mim, são os fins. Acho que nós somos muito americanizados e lá existe uma filosofia mais próxima da minha. AWB: Você tem lá um atelier onde pode trabalhar? TERESA: Eu tenho um lugar onde posso trabalhar lá mas, por exemplo, na última vez, o meu trabalho foi quase todo desenvolvido nas florestas... Encontrei com uma pintora chinesa, com a qual fiz uma exposição em 2003 - Três dias a quatro mãos no Atelier de Pissarro - , e em agosto deste ano ficamos desenhando nas florestas na Normandia...... Ela estava em Pequim e foi me encontrar neste lugar... AWB: Estes desenhos foram expostos? TERESA: Ainda não... AWB: Mas logo devem ser expostos pois, caso contrário, não fecha o elo, não é? TERESA: Provavelmente serão expostos, mas ainda não sei como, nem onde, ainda não definimos bem...eu não tenho muita pressa nestas coisas, a gente acaba fazendo…. AWB: Você desenvolve regularmente este tipo de trabalho de desenhar junto com outros artistas? TERESA: Não, eu já fiz algumas vezes exposições onde ocupava o mesmo espaço com outros artistas. Uma vez, na Espanha, ocupei um andar em uma galeria e a Laura Castilhos ocupou o outro. Aqui fizemos a mesma coisa, mas o nosso trabalho era completamente diferente. No caso desta artista chinesa que é professora na Universidade na China, nós temos uma série de afinidades, temos a mesma idade, a tese foi orientada pelo mesmo professor...Fizemos um trabalho a quatro mãos anteriormente num outro projeto no antigo atelier do Pissarro porque queríamos confrontar o gesto oriental e ocidental na pintura mas agora foi diferente, cada uma trabalhou no seu próprio desenho, embora tenhamos certas afinidades no trabalho. AWB: Vocês ficaram quanto tempo desenhando na floresta? TERESA: Ficamos durante um mês trabalhando, de 15 de julho a 15 de agosto, mas os desenhos na floresta foram feitos em 10 dias. AWB: Em que região da França ficava a floresta? TERESA: Exatamente entre a Normandia e a Picardia, perto de Gisors. AWB: E de agosto para cá, o que você tem feito? TERESA: Lido, às vezes me dispersado, produzido algumas coisas e trabalhado com alunos. AWB: E quais são os seus planos? TERESA: Ah! Estou fazendo uma coisa que não fazia, litogravuras lá no Museu do Trabalho, eu desenho e o Paulinho Chimendes imprime. Estou gostando muito! Tenho trabalhado agora com caneta esferográfica em pequenos e grandes formatos. Tem a ver com a escritura manual que está em vias de desaparecer. Ando com vontade de mexer mais com vídeo, apreender a editar, coisas assim. Tenho planos de organizar exposições de outros artistas franceses. Tenho sempre muitos planos dos quais sei que vou realizar poucos, pois a vida é curta e os desejos são muitos. AWB: Há quanto tempo trabalhas com lito? TERESA: Há uns cinco meses. O pessoal do Museu do Trabalho me convidou para fazer uma para o consórcio de gravuras... eu fiz e gostei. Sempre tive vontade de fazer lito e aproveitei a oportunidade. Sempre que posso vou lá fazer... AWB: A impressão da litogravura fica parecida com o teu trabalho de desenho com lápis, não achas? TERESA: Fica e justamente por isso que é legal... Pode ter uma tiragem, ter um preço bem mais acessível... AWB: Que outros materiais você utiliza no seu trabalho? TERESA: Estou procurando usar o mínimo possível de material, estou voltando para uma coisa que usava no início do meu desenho. Quando comecei a trabalhar, usava o material mais básico que havia, o lápis preto e o papel. Eram trabalhos grandes, sempre com figuras humanas, caricatas, alegóricas, até por ser daquela época de ditadura... Tudo com lápis preto... Aí foi indo, passei a trabalhar com cor, mas continuei, nesta época, com uma representação caricata... Teve uma época em que dei aula para crianças e o universo infantil fez parte do meu trabalho... |
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AWB: Depois de descobrir o lápis de cor, você deixou de lado por um
tempo o lápis preto? TERESA: Fiquei usando mais o lápis de cor e outros materiais de desenho misturados durante anos. Depois fui para a Espanha e comecei a trabalhar de uma forma mais abstrata. Comecei a fazer pinturas de paisagens na Espanha e terminei em Porto Alegre. Paisagens foi a primeira exposição grande depois que cheguei. Eram pinturas sobre tela, eu fabricava a tinta com pigmento, eram paisagens cada vez mais abstratas... Depois disso começa a fase das janelas, eram quadros grandes e cada vez mais geométricos. Eu não vou entrar aqui na teoria mas sempre procuro relacionar o que faço com a Historia da Arte, a pintura esta inserida neste contexto ancestral. AWB: Você saiu do figurativo e chegou ao abstrato total? TERESA: Em certos períodos sim em outros quase. AWB: E os teus trabalhos mais recentes? TERESA: Tenho trabalhos pequenos e grandes, mas principalmente usando apenas o lápis preto, poucas vezes com cor. São desenhos quase automáticos. Acho que a pintura ainda é importante como uma caligrafia, como um gesto... O representativo não tem muito sentido, temos a fotografia, o computador... Acho que daqui a pouco as crianças não vão mais aprender a escrever, só a digitar... Acho que o desenho e a pintura são importantes como um exercício do corpo, utilizam ainda o corpo como instrumento de expressão... AWB: Já tens uma exposição em vista? TERESA: Estou pensando. Não sei se será aqui ou não. AWB: Mas você tem muitos trabalhos prontos... TERESA: Sim, mas estou sempre mudando... Nunca acho que está pronto... Às vezes acho que pode ficar melhor, e mudo tudo... AWB: É um jogo, não é? TERESA: É, sempre se quer ganhar mais um pouco... aqueles que são viciados no jogo apostam tudo para ganhar, e podem perder tudo... tem que se saber arriscar, se entregar ao jogo, com medo, não funciona. AWB: E já aconteceu de você arriscar demais e perder o trabalho? TERESA: Claro, isso acontece, faz parte. Este processo de saber destruir um trabalho é muito importante. Talvez não seja tão importante para quem não tem um trabalho plástico, mas quem tem, precisa arriscar se não, não vai conseguir tirar o máximo das possibilidades da matéria… AWB: Às vezes não parece uma luta entre você e o papel, tendo o lápis como arma? TERESA: Sim, no meu caso às vezes parece esgrima e outras parece dança. São dois corpos que se confrontam e se encontram. São dois corpos que estão em um embate, existe uma ação e uma reação de forças. Acho que sempre é uma relação de amor e ódio. O lápis como arma e também como instrumento de carícia... O desenho tem um pouco disso, se for comparado à pintura, a ponta do lápis é mais propícia a ferir, tem uma coisa de incisão, e a natureza do pincel é suave, está mais pronta ao afago. AWB: E a gravura fere mais ainda? TERESA: Mais ainda. AWB: Tens mais alguma novidade, projetos? TERESA: Nunca sei muito bem o que vai acontecer com a minha vida no ano que vem... Não tenho isso muito claro... Vou fazer um painel para o Centro Cultural que será restaurado e inaugurado em Bagé. Pretendo continuar a fazer litogravura e seguir dando aulas no Instituto de Artes. O que vai acontecer exatamente com o meu trabalho, ainda não sei. Sou uma pessoa meio imprevisível. AWB: E isso te faz bem ou te atrapalha? TERESA: Às vezes me faz bem e às vezes gostaria de ter uma vida mais previsível, mas, na verdade, não sei se agüentaria... AWB: O que você acha do Artewebbrasil? TERESA: Estive presente no arteweb desde o início pois estava na França, na época, e o o site foi inaugurado justamente com uma exposição virtual dos professores do IA que estavam fazendo doutorado em Paris e da qual eu participava. No inicio, eu achava que o site deveria ter uma linha editorial mais definida mas eles optaram por uma democracia absoluta. Hoje, acho que o grande mérito do site é justamente a abertura por parte dos organizadores em confrontar opiniões e posturas diferentes, o que é raro no nosso meio. AWB: Agradecemos pela entrevista... TERESA: Eu que agradeço, me fez lembrar muitos períodos, falei de coisas que normalmente não falo. |
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TERESA POESTER, Bagé, Brasil, 1954. Formação: Educação Artística (1982/1), Bacharelado em Artes Plásticas- desenho (1982/2) - Instituto de Artes - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre; Estudos de doutorado na Universidad Complutense de Madrid através de Bolsa concedida pelo Instituto de Cooperación Iberoamericano (1986-89), Atelier Carlos León(1987), Juan Navarro Baldeweg (1987) e Bruce MacLean(1988), Círculo de Bellas Artes de Madrid; ‘Prueba de Conjunto – Dibujo”, Universidad de Valencia, Aprovada em 1987; Mestrado em Poéticas Visuais - Pintura – IA/UFRGS (1995); Doutorado em Artes Plásticas na Universidade de Paris I -Panthéon-Sorbonne através de Bolsa CAPES/COFECUB (2002). Experiências na criação de cenários para teatro e cinema(1979-1985), artes gráficas (1979-1985) e ilustrações para periódicos (1982-1984). Desde 1989 escreve apresentações de artistas e artigos sobre arte em diferentes mídias. Participou do movimento de Arte Postal no Brasil, realizando eventos no Brasil e no exterior (1978-1982).
Premiação em desenho:
2°
Jovem Arte Sul América, Florianópolis (1982), I Prêmio Pirelli, MASP,
Museu de Arte de São Paulo, (1984). |