a t e l i ê

 


   

 

"O mundo das artes não era tão distante quanto imaginávamos".
por Kerlin Dutra, artewebbrasil

 


Oriundo de uma geração efervescente, ele não se contentou em cumprir os papéis que a sociedade lhe impunha. As dúvidas e as inquietações, lhe diziam que poderia ter mais liberdade de ação e de pensamento. A faculdade de arquitetura foi deixada para trás, e como diz ‘por amor à arte’, se tornou um autodidata. O ambiente familiar lhe auxiliou, a companhia de amigos e principalmente do companheiro Milton Kurtz, também. A sessão Atelier do artewebbrasil, conversou com Mário Röhnelt e, a seguir, é possível desvendar um pouco sobre sua vida, sua obra, sua trajetória artística e pessoal.




Fotografia: Tania Meinerz

 

AWB: Quando tem início a sua trajetória artística?
Mário:
Na pré-adolescência, por volta dos 9 ou 10 anos. A minha família sempre se interessou por livros, meu avô tinha uma biblioteca bastante boa. Era um sujeito interessado por tudo que dizia respeito à cultura, principalmente à cultura francesa. Lembro que desde pequeno eu ficava na biblioteca dele olhando os livros e ficava fascinado pelas ilustrações. Ele tinha a Enciclopédia Larousse, que era muito ilustrada. Uns 12, 15 volumes, enormes. Eu era apaixonado por isso.

AWB: Mas você costumava fazer aqueles desenhos de criança, ou alguma coisa do tipo?
Mário:
Por volta dos 10, 11 anos fiz um desenho em uma pequena folha de papel de um caderno espiral. Era um desenho abstrato com triângulos que se sobrepunham e eram transparentes uns em relação aos outros. Um dia desses lembrei disso, e fiquei pensando como, com aquela idade, eu já tinha uma idéia do que era arte moderna, arte abstrata, arte geométrica. Não consigo saber de onde isso veio, se fui motivado por alguma reprodução numa revista como O Cruzeiro, ou alguma coisa assim... Enfim, para mim é uma demonstração de que este vínculo com a arte é muito antigo em mim. Fui assimilando uma idéia de arte de maneira inconsciente, talvez…

AWB: Mas você estudava normalmente, tinha aulas de artes no colégio?
Mário:
Bom, sou de Pelotas, mas nos radicamos em Porto Alegre em 1956. Em 1957 entrei para a escola. Acho que devo fazer um parêntese e citar a minha mãe. Ela é uma pessoa que tem muita habilidade manual e que sempre se interessou por bordados, por pintura em porcelana e depois, na maturidade, foi estudar no Atelier Livre daqui de Porto Alegre. Acho então que a arte é uma coisa de família. Mas, na época em que o 2º grau se chamava Ginásio, tive aula de artes e freqüentemente víamos reproduções de pinturas e esculturas. Desenvolvi uma fascinação por estas coisas.

AWB: Onde você estudou?
Mário:
Estudei no Colégio Presidente Roosevelt e fiz o Ginásio no Colégio Infante Don Henrique. Na época o Infante Don Henrique era um colégio que oferecia uma didática experimental. Era a chamada Escola Experimental. Um pouco como o Colégio de Aplicação. Então havia algumas diferenças das demais escolas. O currículo era diferenciado, era uma outra maneira de se relacionar com os professores. Ficávamos mais envolvidos.

AWB: Então o seu contato com a arte veio através da família, da sua mãe principalmente, e também das aulas de arte na escola. Mas quando você realmente começou a desenvolver a sua arte?
Mário:
Quando acabei a escola, me preparei para o vestibular, mas na época não sabia muito bem que carreira escolher. Eu não estava decidido para nada, então achei que pelas minhas tendências o melhor seria um curso técnico, mas que tivesse alguma coisa de humanista. O que mais se adequou foi o curso de Arquitetura. Passei no vestibular na UFRGS. Cursei por dois anos, mas repeti muitas matérias. Acho que peguei um período muito crítico da sociedade brasileira, os anos da ditadura. Havia um espírito de contestação muito forte e eu vivi isto com muita intensidade.

AWB: Principalmente dentro da Universidade?
Mário:
Sim, o ambiente social era muito tenso. E, principalmente para mim que saí de um ambiente familiar muito harmônico, calmo e tranqüilo e acabei caindo em um ambiente muito conturbado, cheio de idéias, com muitas inquietudes.

AWB: Você participou de algum movimento contra a ditadura?
Mário:
Antes de entrar na Universidade já tinha participado de duas passeatas e por isso já sabia muito bem como era o ambiente de repressão violenta… Presenciei a polícia correndo atrás das pessoas e batendo em todo mundo… E depois, no ambiente da Universidade fui, por simpatia, me reunindo com pessoas que eram mais contestadoras, mais inquietas em relação às coisas. Foi uma coisa natural. Essa foi uma característica das pessoas que entraram na Universidade um ano antes e um ano depois de mim. Foram três gerações bastante agitadas.

AWB: Esta foi uma das razões que te fizeram abandonar o curso?
Mário:
Eu achava que não havia mais razão para assumir os moldes tão organizados que o ambiente social nos propunha. Achei que dava para viver de outra maneira e que havia muito mais coisas a serem aprendidas no mundo do que uma universidade poderia me dar. De repente me vi completamente fora da Universidade. Eu já não estava conseguindo assimilar, já estava pensando de uma outra maneira, estava querendo outras coisas… Tinha feito dois semestres, depois repeti mais dois semestres e vi que não dava, não progredia. Então abandonei o curso. Não voltei mais para a universidade e não fui cobrado por isso. Resolvi levar a minha vida de uma outra maneira.

AWB: E como você resolveu ‘levar a sua vida’?
Mário:
Fiquei meio que a deriva. Eu tinha 22 anos, desenhava, tinha um grupo de amigos que se reunia e, entre outras coisas, desenhávamos juntos e, ao mesmo tempo, mantínhamos um diálogo sobre como as coisas deveriam ser feitas, como a gente poderia conduzir nossas vidas, sobre o que era uma coisa mais saudável, mais ética em termos de comportamento humano, quais eram os limites da nossa liberdade…

AWB: A sua geração se indagava muito…
Mário:
Sim. Sobre o comportamento de hoje não tenho nenhuma crítica, até porque na minha idade já não tenho um contato tão próximo, visceral, com a juventude.

AWB: Mas você acha que a ebulição histórica vivenciada pela tua geração, pode ter sido propulsora destas indagações?
Mário:
Na verdade esta contestação à sociedade veio do fato de percebermos que podíamos conduzir as relações humanas e sociais de uma outra maneira. O potencial das relações humanas vai mais além dos papéis que a sociedade espera que a desempenhemos, não é?! Esta era uma das razões das nossas contestações. Achávamos que podíamos fazer as coisas de outra maneira e que elas poderiam ser mesmo assim igualmente boas e contribuir na vida social. Não precisávamos viver de maneira tão rígida. Há liberdades que podemos exercer e que são benéficas para todos, não precisamos cumprir com os papéis pré-estabelecidos.

AWB: Este grupo de amigos que você possuía, era composto por artistas?
Mário:
Era um grupo bastante amplo, de pessoas interessadas em música, literatura e arte. Uns eu conheci na faculdade e outros através de amigos.

AWB: Foi a partir deles que nasceu a tua vontade de trabalhar com arte?
Mário:
Naquela época eu achava que a estrutura para desenvolver o trabalho artístico era muito convencional. É a mesma estrutura que temos hoje. São os museus, as galerias e os profissionais envolvidos com isso, curadores, críticos, diretores de museus, galeristas… Mas eu achava convencional demais. Achava que poderíamos fazer uma coisa além, mas na verdade, eu não tinha uma idéia clara do que poderia ser esse ‘além’. Fiquei então ‘zanzando’ mentalmente e tentando solucionar esta questão, mas sem chegar a uma conclusão do que poderia ser feito. Então, em 1974, fui morar com o Carlos Asp e a esposa dele, uma arquiteta que foi minha colega de faculdade, a Silva Maia, e mais uma outra arquiteta, a Beatriz Ambros. Isso tinha um espírito de comunidade. O Carlos Asp hoje está radicado em Florianópolis e foi um dos artistas que participou do ‘Nervo Ótico’, juntamente com o Carlos Pasquetti, com a Vera Chaves Barcellos, com a Mara Alvares, mais o fotógrafo Clóvis Dariano e o Telmo Lanes… Então o ambiente onde fui morar era muito questionador e ao mesmo tempo muito produtivo. Eu acompanhei através do Asp a evolução do ‘Nervo Ótico’, mas na minha cabeça eles tinham uma idéia sofisticada de arte, eles estavam mais próximos daquilo que se chama ‘arte conceitual’, cuja história tem muito a ver com o grupo ‘Fluxos’, que desenvolveu trabalhos na Europa e nos Estados Unidos. Eu era uma pessoa interessada em desenho e tinha muitos amigos também interessados nesta, que  é uma produção mais conservadora.

AWB: Você desenhava com que material, lápis?
Mário:
Lápis e nanquim, principalmente, enquanto que o ‘Nervo Ótico’ trabalhava com fotografia, algumas coisas próximas de instalações. Era mais diversificado.

AWB: Estamos falando da década de 70, não é?
Mário:
Sim, por volta de 1974 e 1975. Eu participei de alguns Salões nesta época… Mas não pretendia uma inserção no mercado de arte. Eu estava desenhando e discutindo comigo mesmo, refletindo sobre o ambiente social que eu vivia…

AWB: Mas quando você se deu conta, já estava inserido no meio artístico…
Mário:
Foi o que aconteceu. Em 1976 fui morar com o Milton Kurtz. Na verdade era uma vida meio desregrada, eu morava um pouco com o Milton e outro pouco continuava morando na casa com o Carlos Asp e a Sílvia. Mas, nesta troca mais freqüente de idéias com o Milton, que foi grande desenhista, decidimos investir mais, sermos um pouco mais agressivos profissionalmente.

 

Mário Röhnelt Mário Röhnelt Mário Röhnelt 

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desenho, 1978  

 

AWB: Aí então você já se via como um profissional das artes?
Mário:
Nós nos juntamos com mais outros dois desenhistas, o Júlio Viega e o Paulo Haeser, e instituímos um grupo chamado ‘KVHR’, que eram as iniciais dos nossos sobrenomes. Fizemos uma série de desenhos, alguns feitos em conjunto… Nós trocávamos os desenhos e continuávamos o desenho um dos outros… Depois resolvemos fazer uma exposição com este material. Procuramos o Luiz Inácio Franco de Medeiros, na época diretor do MARGS, então instalado num apartamento na Avenida Salgado Filho. O Luiz Inácio gostou do nosso trabalho e aceitou fazer uma apresentação para nós. Pedimos um espaço na Galeria Eucatexpo que ficava num centro comercial na Avenida Independência quase esquina com a Rua Barros Cassal. Quem dirigia esta galeria na época, era o Eduardo Conil, hoje jornalista social do Correio do Povo. O Conil achou que nosso trabalho estava pronto para ser exposto e topou fazer a exposição. Foi uma surpresa para nós porque a exposição foi muito bem sucedida em termos de público e também porque vendemos alguns trabalhos.

AWB: Foi a primeira vez que você vendeu um trabalho?
Mário:
Sim e foi a minha primeira exposição organizada profissionalmente. Já tinha participado de alguns Salões, mas esta foi a primeira exposição de verdade. E como vendemos alguns trabalhos, percebemos que havia interesse no que estávamos fazendo, que era um caminho, e que o mundo das artes não era tão distante quanto a gente imaginava. Assim, começamos a trabalhar mais. Fizemos outras exposições…

AWB: Sempre em conjunto?
Mário:
Trabalhamos até 1980 em conjunto. Tínhamos trabalhos individuais, mas organizávamos todas as exposições para os quatro. Fizemos uma exposição em Pelotas e outra na Galeria do Centro Comercial de Porto Alegre, que na época era dirigida pela Tina Presser e pelo Tatata Pimentel. Com a Tina foi interessante. Ela estava de passagem pelo MARGS no dia em que fomos apresentar nossos trabalhos ao Luiz Inácio Franco de Medeiros e se interessou muito. Um dia recebemos um cartão dela dizendo que gostaria muito de ver novamente o nosso trabalho. A Galeria do Centro Comercial era uma muito boa, tinha exposições muito legais. Depois desta exposição encerramos as atividades do grupo.

 

Mário Röhnelt Mário Röhnelt Mário Röhnelt
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desenho, 1980  

 

AWB: Nesta época os teus trabalhos eram feitos só com nanquim?
Mário:
Não, eu já estava utilizando técnicas mistas. Já estava me interessando em usar ‘xerox’ e lápis de cera, sempre tendo o papel como suporte.

AWB: E por que o grupo ‘KVHR’ terminou?
Mário:
Porque nossas perspectivas e as necessidades pessoais tomaram rumos completamente diferentes. E, na verdade, havia uma perspectiva profissional em arte melhor para mim e para o Milton do que para o Júlio e o Paulo. Talvez tenha pesado também o fato do Júlio já ter família, filhos… O Paulo também já estava com um filho pequeno… O Paulo, antes da exposição na Galeria do Centro Comercial, já tinha comentado que não seguiria adiante se os resultados não fossem melhores para ele. Acho que isso pesou… Eles já não poderiam mais investir tempo como eu e o Milton.

AWB: E vocês dois, continuaram trabalhando juntos?
Mário:
Nós morávamos juntos, mas tínhamos trabalhos bem individuais. Entretanto, de qualquer maneira, sempre houve uma troca muito grande e uma espécie de competitividade sadia entre nós. Grande parte das soluções que encontramos e de técnicas que descobrimos, foram em conjunto. Apareciam os problemas de como fazer as coisas e a gente aprendia a fazer junto.

AWB: Ele também fazia desenho, não é?
Mário:
Sim. Numa certa época o nosso trabalho ficou muito próximo, pois havia um diálogo. Apesar de nossas personalidades serem muito diferentes, havia um diálogo grande na atividade plástica. Era um diálogo, às vezes de aproximação e às vezes de separação… Não éramos muito teóricos, era mais um diálogo visual… Uma coisa comum entre artistas…

AWB: E como o teu trabalho se desenvolveu nesta nova realidade?
Mário:
A Tina nos abriu alguns espaços, ela realmente se interessou pelo nosso trabalho. Na época ela era casada com o Décio Presser e uma das pessoas próximas do casal era o Milton Couto, que também se interessava muito pelo nosso trabalho. Essa relação nos abriu espaços interessantes, um deles foi expor em São Paulo pela primeira vez. Foi no início dos anos 80, em um restaurante bastante badalado chamado Espaço Pirandello. Mais tarde a Tina conseguiu para expormos, eu o Milton e o Alfredo Nicolaiewsky, na Galeria Arte Sobre Papel, também em São Paulo.  A partir daí, eu e o Milton começamos a viajar constantemente para o Rio de Janeiro e São Paulo.

AWB: Uma região muito mais desenvolvida em termos de arte, não é?
Mário:
Muito mais… Mas já havia um intercâmbio grande. Teve um período nos anos 80 em que Porto Alegre chegou a ser o 3º mercado de arte do Brasil. Foi uma coisa bastante intensa e verdadeira, um mercado muito bom tanto para artistas de fora, como para artistas daqui. Então este intercâmbio nos ajudou de certa maneira. Viajando bastante conhecemos o Paulo Herkenhoff, o Fernando Cocchiaralle… e outras pessoas ligadas ao meio. E começamos a ser uma espécie de referência em arte contemporânea do Rio Grande do Sul, éramos convidados a participar de exposições…

AWB: O seu trabalho e o do Milton andavam juntos?
Mário:
Sim, as oportunidades profissionais foram as mesmas, tanto para mim, quanto para ele. Nós também conseguimos abrir espaço para muitos artistas daqui. Por exemplo, o Paço das Artes ofereceu para mim e para o Milton uma exposição, entre 1985 e 1987 e era um espaço imenso. Não havia como, apenas nós dois, ocuparmos o local. Então convidamos um grupo de artistas daqui para expor conosco… Foi o Carlos Wladimirsky, a Regina Ohlweiler, o Alfredo Nicolaiewsky, o Britto Velho, a Ana Alegria… Eram onze artistas. Fizemos uma grande exposição de artistas gaúchos em São Paulo. Também levamos uma coletiva com desenhos de artistas gaúchos para uma exposição em Niterói, em um espaço que também foi destinado ao Milton e eu e que dividimos com outros artistas gaúchos.

 


desenho, 1985


pintura, 1985

 

AWB: Você tinha uma boa relação com os artistas daqui, tens o hábito de freqüentar exposições?
Mário:
Sim, sempre tivemos. Eu tenho muitos conhecidos no meio artístico e me dou muito bem com uma boa parte das pessoas daqui. Essa atitude minha e do Milton é conseqüência do tipo de vida que a gente levou nos anos 70. Achávamos que as pessoas deviam se apoiar. Durante o nosso percurso mantivemos este tipo de comportamento mais participativo… Hoje, claro, as coisas mudaram muito e isso é muito difícil de ser feito…

AWB: Por que você diz isso?
Mário:
O ambiente se tornou muito profissional. Hoje tudo acontece através de instâncias e hierarquias, através de curadores, diretores de museus, críticos, galeristas… As coisas já não acontecem mais através dos artistas… Naquela época influenciávamos no andamento das coisas…

AWB: Você acha que o artista hoje é ‘refém’ do meio?
Mário:
Não digo refém, mas é um ambiente muito mais organizado, e as responsabilidades estão muito mais delimitadas para cada profissional que participa. Uma coisa é você ser artista, outra é ser curador…

AWB: Os papéis estão bem definidos...
Mário:
É… Também existem muitos interesses em jogo… No início da minha carreira, no desenvolvimento do meu projeto artístico, o ambiente era bem menos profissional… Acho que aparentemente é isso, apesar de que não posso falar muito disso porque não tenho mais uma participação direta, estou usufruindo do fato de ser um artista com 55 anos e com uma carreira que me faz merecer a atenção dada a um personagem deste tipo… Não tenho mais participação efetiva, mas percebo como as coisas são muito mais organizadas. Quando sou convidado para fazer uma exposição, sou convidado através de um curador, ou de uma produtora cultural…

AWB: Você já não precisa buscar espaço, as pessoas te oferecem…
Mário:
De certa maneira sim.

AWB: Mas você não tem contato com os artistas mais jovens?
Mário:
Mais jovens que eu sim, mas até onde é possível…

AWB: E você percebe que para eles talvez seja mais difícil do que foi quando você começou?
Mário:
Até os anos 90, eu estava conseguindo acompanhar o que estava acontecendo, hoje não consigo mais. Hoje tenho muito mais responsabilidades comigo mesmo, com a organização da minha vida. Mas tenho boas relações com artistas que são um pouco mais jovens. Procuro estar mais ou menos informado, na medida do possível, não é? Mas não tenho uma vivência mais próxima com artistas jovens… É uma impossibilidade mesmo.

AWB: Então a tua trajetória começou através de exposições, conhecendo pessoas, as portas foram se abrindo… E você se tornou um artista conhecido. O que isso mudou na sua vida?
Mário:
Preencheu a nossa expectativa. Era o que nós queríamos, esperávamos chegar a isso, trabalhamos para isso.

AWB: Você nunca estudou, pode-se dizer que você é um autodidata?
Mário:
Sim. Eu me formei por amor a este tipo de atividade. Posso dizer que, sem fazer um curso formal de Arte eu tenho bastante conhecimento de Arte. Não posso comparar com o conhecimento acadêmico, mas… Apesar de achar que o ensino formal de Arte é necessário…

AWB: Você sentiu falta deste ensino?
Mário:
Não, mas acho que é uma coisa boa. Eu acompanho, de longe, o trabalho formador do Instituto de Artes e vejo que é um trabalho muito bom e necessário. No meu caso, o fato de ter aprendido fora do circuito universitário, acadêmico, é uma exceção. É claro que você pode se formar artista, ter conhecimento, amor e responsabilidade com este tipo de atividade, de uma forma autodidata. Mas que a universidade faz um bom trabalho, não resta dúvida. Acho que ela organiza a maneira de assimilar o conhecimento. Eu assimilo as coisas por curiosidade, não tenho uma organização acadêmica.

AWB: E você acha que esta orientação lhe fez falta?
Mário:
Acho que não. Consigo dialogar bem com este conhecimento. Mas na verdade, tenho muita curiosidade e acho muito interessante o pensamento bem organizado a respeito da Arte e das demais matérias do conhecimento humano.

AWB: E como o seu trabalho se desenvolveu no decorrer da sua carreira, que tipo de materiais e técnicas você começou a utilizar?
Mário:
Eu me formei, vamos dizer assim, essencialmente como desenhista e depois fui utilizando técnicas mistas, misturando diversos tipos de materiais como colagens, impressões em ‘xérox’, lápis de cera, nanquim, grafite… A partir dos anos 80 comecei a me conduzir em direção à pintura e comecei a tentar transformar o meu desenho em pintura… Fui trazendo para o desenho as técnicas da pintura, até conseguir solucionar o todo… Comecei a usar tintas no desenho, transformando partes dele em pintura, até que de repente, aquele conjunto, aquelas composições estavam prontas para serem transpostas para o bastidor entelado.


 

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pintura, 1991

 



Watteau, instalação de pinturas, MAC-RS, Porto Alegre, 1999

 

Mário Röhnelt

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Parede para uma Pinacoteca e outros trabalhos
Pinacoteca da FEEVALE, Novo Hamburgo, 2002

 

AWB: Você usava tinta a óleo?
Mário:
Não, usava tinta acrílica. Em parte por causa do desenho, pois a tinta acrílica é uma tinta gráfica, é muito difícil de ser modulada em tons se comparada com o óleo. E, além disso, a minha influência, assim como a influência do Milton, é da pintura gráfica e da pintura pop, ou seja, as histórias em quadrinhos, o cinema, os desenhos animados… Nossa influência foi o mundo moderno, contemporâneo, da mídia. Também usávamos a fotografia… Ainda nos anos 70 eu já usava a fotografia para desenhar, para obter alguns detalhes… Até que no final dos anos 70, já estava trabalhando francamente com fotografia. Sempre me interessei por fotografia e comecei a tirar fotos próprias para desenho… O Milton era um artista desenhista, tinha o traço feito, uma expressão pessoal… E ele também começou a trabalhar com fotografia, mas tinha o olho mais treinado… Olhando os nossos trabalhos desta época, apesar de usarmos imagens muito parecidas, dá para notar o que é meu e o que é do Milton pois tínhamos preocupações plásticas bem diferentes…

AWB: Interessante esta aproximação, de usar fotografias muito parecidas, de ter a mesma inspiração... Os dois fotografavam, cada um tirava as fotos para seus próprios trabalhos… Como era isso?
Mário:
Nós dois fotografávamos, pois estávamos juntos, morávamos juntos, estabelece-se um diálogo natural.

AWB: A fotografia então começou a figurar em seus trabalhos. Você chegou a fazer exposições apenas de fotografias?
Mário:
Sim, mas bem recentemente, em 2002, na Galeria Gestual. Mas as fotos que foram expostas já tinham sido utilizadas para pintura.

 

Mário Röhnelt

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Fotografias, Galeria Gestual, Porto Alegre, 2002

 

AWB: Mas você sempre tirou fotos para a pintura, ou já tirou fotos para servirem como fotos apenas?
Mário:
Eu fotografo coisas que me interessam. Na época do Milton nós viajávamos, íamos para a fazenda da família dele e a máquina fotográfica estava sempre junto. Usávamos a máquina fotográfica como um caderno de anotações, fotografava tudo o que me interessava. Alguma coisa servia para o desenho e outras apenas como fotografia… Cheguei a participar de uma mostra de fotografia no MAC/USP, em São Paulo, por indicação do artista Genilson Soares. O Milton também participou de um dos Salões de Pelotas com fotografia. Era uma série de seis fotos chamada ‘Homem da Terra‘ retratando um peão que conhecíamos da fazenda.

AWB: O fato de a máquina fotográfica servir como um caderno de anotações demonstra um olhar incansável em busca de imagens. Não cansa estar o tempo todo pensando em arte?
Mário:
Não me incomoda de maneira alguma, apesar de ser sempre um problema a ser resolvido. A visualidade tem o potencial de ser transformada em alguma coisa, no caso uma obra de arte… O artista está sempre atrás disso… Pode até ser um vício mental, mas é interessante por ser uma potencialidade real. Mesmo quando passo períodos longos sem produzir nada, penso constantemente em arte… Atualmente estou produzindo bastante…

AWB: Você chega ficar quanto tempo sem produzir?
Mário:
Já passei muito tempo… Meses talvez. Mas tenho outras atividades…

AWB: O que mais você faz?
Mário:
Sou designer, trabalho principalmente com capas de livros e desde 1997 trabalho com edições de livros de artes. Já fiz para o livro do Alfredo Nicolaiewsky, do Danúbio Gonçalves, do José Carlos Moura, do Pedro Escosteguy, do Grupo de Bagé… Mas nestes trabalhos é uma equipe… São profissionais que se reúnem para desenvolver um projeto. Temos um grupo do qual fazem parte além de mim, a Marisa Veeck, produtora, e o Fernando Zago, fotógrafo.
 

AWB: Este é um trabalho eventual. Você tem uma rotina de trabalho?
Mário:
O meu trabalho rotineiro é de ‘capista’ de livros. Tenho como cliente principal, uma editora de livros técnicos. Eles publicam livros da área de medicina, pedagogia, química, arquitetura…

AWB: Mas você não é funcionário deles?
Mário:
Não, sou um prestador de serviço.

AWB: Então, este também não é um trabalho diário…
Mário:
É diário, mas não tenho que atender o cliente diariamente. No entanto o meu fluxo de encomendas é constante e me obriga, no bom sentido, a trabalhar diariamente.

AWB: E como é a sua rotina?
Mário:
Como eu não sou funcionário e sim o responsável pelo desenvolvimento dos meus próprios projetos, não tenho uma rotina rígida. Em geral acordo cedo, mas a manhã não é muito produtiva no sentido criativo e então faço mais atividades burocráticas ou de organização da minha vida pessoal. O período do dia que sou mais produtivo é do meio da tarde para a noite. Dependendo do ritmo de trabalho vou até a meia noite, 1h da manhã, trabalhando.


AWB: Mas quando você tem muito trabalho com a editora, por exemplo, você consegue também produzir artisticamente?
Mário:
Não, aí tenho que parar. Mas agora estou conseguindo ficar muito focado no meu trabalho, isto é, consigo retomá-lo sem grandes dificuldades após um período de semanas, às vezes meses, sem poder produzir. Consigo recuperá-lo sem dificuldades.

AWB: Antes era mais difícil?
Mário:
Sim, eu me sentia dividido. Hoje não me sinto mais assim. Trabalhar em artes gráficas ou no meu projeto de arte, não mais me preocupa.

AWB: E como é ter que criar as capas de livros, ser obrigado a cumprir prazos?
Mário:
É, geralmente os prazos são bastante curtos… Mas, como designer, sou um prestador de serviço. Não trabalho com livros de ficção, trabalho com livros técnicos, onde há uma série de procedimentos nos quais o editor já demonstra, em princípio, o que quer. Existe uma série de requisitos. O livro é destinado a um público específico. Eu pego muitas edições universitárias estrangeiras tão famosas que não podemos mudar a capa. Só adequamos ao padrão nacional, ao padrão da editora. É uma outra área de trabalho, apesar de parecer próximo com aquilo que a gente entende por criação. É uma área bem distinta, tem uma especificidade própria.

AWB: A sua casa é o seu local de trabalho?
Mário:
Sim.

AWB: Você então passa a maior parte do dia em casa?
Mário:
Sim, mas tenho um contato diário com a minha família… Mas não tenho contato com público, ou seja, não atendo pessoas freqüentemente.


AWB: Você vende seus trabalhos através de galerias de arte?
Mário:
É, tenho trabalhos em galerias… Mas não posso mais dizer que eu venda… Não sei…

AWB: Por que você diz que hoje não vende mais?
Mário:
O público é muito pequeno. Eu não tenho vendido… Não sei como está sendo para os meus colegas… Mas as pessoas mais próximas de mim têm vendido com bastante dificuldade… Se vendem…

AWB: Você acha que o motivo deste problema é econômico ou falta de conhecimento a respeito da arte?
Mário:
Eu não sei analisar… Posso dizer o que eu acho, mas não tenho certeza… Falta conhecimento do público potencial… Existem também problemas de mercado como investimento, porque arte é um tipo de investimento, não tem como fugir disto… Existe também uma oferta muito grande, você tem que ter um certo interesse específico por esta atividade para poder discernir, procurar para onde as linguagens artísticas estão caminhando… Se você vai investir num artista ou noutro… Acho que é uma coisa complicada, mas certamente exige um padrão de vivência cultural elevado… Caso contrário não tem como a pessoa comprar tranqüilamente… A pessoa tem que ter interesse no desenvolvimento futuro relacionado à arte e tem que ter interesse pela maneira como o artista está conduzindo o seu trabalho, pela biografia do artista… Uma boa compra, mesmo modesta, está muito longe de ser um problema de decoração.

AWB: Neste caso o público é pequeno…
Mário:
É, se restringe a um público mínimo… Temos também a dificuldade por estarmos num Estado muito ao sul do país, “longe demais das Capitais”.

AWB: Ainda hoje esta é uma dificuldade, mesmo com diversas formas de comunicação e de trocas possíveis?
Mário:
Acho que sim. Existe também a questão da riqueza econômica da sociedade, não é?! Onde tem maior riqueza e grande diversidade de indivíduos, acho que a atividade artística se desenvolve mais… Neste sentido, São Paulo é imbatível. Acho também que São Paulo e Rio de Janeiro têm uma coisa que pesa muito a favor deles, as suas pretensões são internacionais. Isso é uma coisa que o ambiente do Sul não consegue desenvolver, não temos pretensões internacionais. Você não consegue que um artista do tipo do Waltércio Caldas ou do Antonio Dias produzam em um ambiente que não tenha pretensão internacional, eles são fruto de uma pretensão muito elevada. O discurso deles é histórico. O nível de embate cultural deles é muito elevado. O nosso não é, não participamos deste embate. Aí fica muito difícil, não é?

AWB: Mas você tem trabalhos fora do Sul, até em Museus não é?
Mário:
Tenho algumas coisas fora… Participei de uma exposição boa no ano passado no Instituto Cultural Itaú, em São Paulo, com uma produção dos anos 80. Também participei de uma coletiva de obras pertencentes ao Acervo Municipal da Cidade de São Paulo, no Centro Cultural São Paulo. Esta instituição foi a primeira a se interessar em fazer uma longa entrevista comigo, que foi gravada quando fiz uma exposição individual lá. Alguns críticos e curadores conhecem o meu trabalho, então estas oportunidades surgem. Mas, sem sombra de dúvida, há mais interesse no trabalho de artistas que estão radicados em São Paulo, onde existe uma circulação de informações muito maior.

AWB: Você não sobrevive da venda de seus trabalhos…
Mário:
Não. Ajustei-me a esta situação. Apesar de ser uma profissão até certo ponto informal, se existe um vínculo muito estreito entre o artista, o seu público e os seus meios de trabalho, a questão da responsabilidade profissional fica mais forte. Mas se essa é uma relação frouxa, temos que nos adaptar de alguma maneira. A minha percepção disso é que hoje estou mais livre, pois não tenho um público para quem responder, nem um mercado pra suprir, posso fazer o que bem entendo.

 

Mário Röhnelt

Mário Röhnelt

Mário Röhnelt

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projeto digital para instalação, Fundação ECARTA, Porto Alegre, 2005

 

AWB: Você tem certeza de que não tem um público?
Mário:
Muito pequeno… Mas é uma coisa interessante, eu gosto desta liberdade… É uma coisa nova, eu julgo os meus meios, o meu trabalho e a minha capacidade de trabalho de uma outra maneira… Não preciso corresponder aos modelos existentes de artistas… Posso responder de maneira variada…

AWB: Você diz que esta é uma coisa nova. Desde quando é assim?
Mário:
A partir do início dos anos 90 entendi que as coisas estavam ficando difíceis. Então assumi algumas liberdades em relação ao meu trabalho, em relação à forma de pensá-lo… Mas isso muito em função da época… A concepção que temos do artista é do artista moderno, Picasso, Chagall… Por aí. Este tipo de comportamento, que talvez para a nossa época não seja mais o comportamento adequado… Muitos artistas ainda respondem a este modelo de maneira positiva, trabalham desta forma, fazem suas evoluções lentamente, recuperam a sua própria obra, desenvolvem uma técnica e uma temática e vão aperfeiçoando, tipo uma alquimia… Aí o público pode sequenciar o trabalho do artista e até entendê-lo ao longo do tempo… Mas nem todo o indivíduo é assim… E a sociedade contemporânea se processa dinamicamente, com mudanças abruptas de paradigmas e de funcionamento… Eu coloco em dúvida se esta insistência do artista moderno, que vai aprimorando seus meios de produção, a sua linguagem, os seus temas, ainda é eficiente hoje… Acho que isso não é necessário… Essa é a liberdade que digo ter. Penso que, se você é funcionário público, a sua carreira é organizada pelas Instituições às quais, você deve atenção, o seu caminho está traçado. Se você é autônomo você é obrigado a improvisar a sua vida. Se você não tem público você está na mesma situação do desempregado. É um tipo de liberdade… Pode ousar.

AWB: No teu caso, desde que você abandonou a faculdade de arquitetura esta forma de ousar, de improvisar está sempre presente, não é?
Mário:
Sim.

AWB: Você tinha consciência de que levaria a vida assim?
Mário:
Não dava para prever como o futuro iria se organizar… A gente investe em um caminho e vai agüentando as conseqüências com a capacidade que se tem de fazer coisas… Não tem como prever o que vai ser de mim daqui a 20 anos… Eu já vivi uns três ou quatro ‘Brasis’. Mas acho que tenho um diálogo muito bom no meio em que eu lido e que tem me dado certa segurança nos caminhos que vou seguindo.

AWB: Você possui obras de outros artistas?
Mário:
Sim, eu na verdade tenho uma pequena coleção. Tenho uma coleção eclética. Tenho Xico Stockinger, Antonio Dias, Daniel Senise, muitas obras do Alfredo Nicolaiewsky, várias do Carlos Wladimirsky, Iberê Camargo, Karin Lambrecht, Anico Herscovits, Piza.

AWB: Você é um colecionador?
Mário:
De certa maneira sim. Um juntador. Tive boas oportunidades de acesso a obras de arte. Consegui então juntar uma coleção. Tenho muitas obras sobre papel. Muita coisa já foi para restauro… Agora estou organizando a coleção com mais cuidados técnicos… Além disso, herdei tudo do Milton quando do seu falecimento. Boa parte do que restou do trabalho dele, ficou comigo… Pinturas, desenhos, mas também muitos rascunhos, estudos e cadernos de anotações que eu gosto muito. Tenho uma documentação relativamente grande do período do Espaço N.O, tanto em  fotografias, obras e de documentos da época… Tenho muita coisa em ‘xérox’, Hudinilson Jr., Bené Fonteles.

AWB: E da sua própria obra, você tem bastante coisa?
Mário:
Tenho o que não foi vendido, foi ficando, e estou também tentando organizar em forma de coleção.

AWB: Você não pensou ainda em expor a sua trajetória histórica?
Mário:
Não é o momento. Tenho refletido a respeito disso. Dentre as várias limitações que temos, penso no que vale mais a pena fazer… Na verdade estou num período bastante bom do meu trabalho, tenho gostado do que tenho feito e tenho conseguido desenvolvê-lo através de novos princípios, até mesmo utilizando o computador, o que era uma coisa mais difícil… É um meio que se abriu para mim… Estou achando mais interessante desenvolver novos trabalhos do que tentar recuperar o que já fiz. Acho que ainda não é o momento.

AWB: O que você está produzindo atualmente?
Mário:
Tenho vários projetos em andamento. Tenho um livro de artista do qual fiz as duas primeiras provas. Tenho uma longa série de grandes painéis, mas que preciso de um fornecedor/técnico para finalizar. E, especificamente agora, estou trabalhando numa exposição para o Studio Clio, para o início de abril. Será um trabalho em conjunto, no dia da inauguração da exposição também será comemorado o aniversário do site artewebbrasil.

AWB: E teremos uma camiseta especial com um desenho seu… Que tipo de trabalho você irá expor?
Mário:
Como o espaço do Studio Clio é muito pequeno, estou adequando a exposição. Os trabalhos expostos serão pequenos projetos de exposição. Ficções. São entre seis e oito projetos, maquetes digitais.
 


exposição Projetos/maquetes - Studio Clio, abril 2006

 

AWB: Você trocou o papel pelo computador?
Mário:
Não é que tenha trocado… Tenho muita vontade de retornar à pintura, ainda gosto muito de pintura, gosto muito de desenho… Gosto da manualidade. Acontece que arte é um tipo de economia, você produz com os meios que são possíveis, na sua contingência. Toda vez que tenho um projeto, no meu caso, tenho um problema para resolver. Esse é um problema de economia, tenho que analisar o meu tempo, os materiais disponíveis, o que o local me oferece, como é o local da exposição, tudo isso tem que ser medido para que o trabalho nasça. Isso é uma micro economia que temos que resolver e da qual deve sair um projeto que valha a pena realizar. Então, o computador tem solucionado para mim uma parte desta economia do trabalho.
 

 Mário Röhnelt Mário Röhnelt Mário Röhnelt
Mário Röhnelt Mário Röhnelt Mário Röhnelt

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AWB: Você tem vontade de voltar a pintar...
Mário:
Isso está sempre na minha cabeça... Parei de pintar em 1996. Cheguei a retomar a pintura em 2003/2004. Fiz alguns projetos, mas eram vertentes que não tiveram potencial para continuar… Estou sempre refletindo maneiras de pintar…

AWB: Assim como o Paulo Sérgio Duarte registrou na 5ª Bienal do Mercosul, a pintura para você também resistirá?
Mário:
Sim, sem dúvida. A pintura, a grande pintura, é um desses paradigmas universais que as pessoas sempre irão tentar solucionar.

AWB: E para finalizar Mário, gostaríamos que você nos dissesse o que pensa do site artewebbrasil? Esta é uma pergunta que nos constrange, pois parece que queremos receber elogios, entretanto nossa intenção é saber o que os artistas pensam realmente, ouvir críticas…
Mário:
É um site pioneiro. É um espaço para a arte que não existia e o arteweb inaugurou de forma ampla e muito profissional. E a internet está aí para ser explorada. Espero que vocês consigam mantê-lo.

AWB: Agradecemos pela entrevista, pela disponibilidade de tempo, enfim, por nos proporcionar mais uma entrevista especial para o arteweb.
Mário:
Eu que agradeço.


 

MÁRIO RÖHNELT, Pelotas, RS, 1950.
Reside e trabalha em Porto Alegre.
E-mail: mabrohnelt@terra.com.br


Fez parte do Grupo KVHR, criado em 1977, juntamente com os artistas plásticos Milton Kurtz, Julio Viega e Paulo Haeser. O grupo esteve ativo de 1979 até 1980 realizando diversas exposições de desenhos e participando do circuito de arte. Mário Röhnelt participou ainda do Espaço NO (1979/82) espaço cultural alternativo em Porto Alegre comprometido com manifestações culturais experimentais. A partir de 1983 Röhnelt começou a expor individualmente. Foi premiado em diversos Salões de Arte, entre eles o Salão Nacional, Rio de Janeiro, RJ, 1995. Mário Röhnelt vive e trabalha em Porto Alegre onde se dedica ao desenho, pintura e mais recentemente a fotografia.