| |
AWB:
O teu trabalho é bastante técnico não é?
Leopoldo:
É, eu gosto disso. Gosto muito do artesanal. Isso na
verdade me dá um prazer muito grande, adoro ferramentas, às vezes vou
passear na loja Ferramentas Gerais – é o meu shopping. Eu creio que é
importante o domínio técnico em qualquer área. Hoje em dia, como tudo está
em efervescência, até parece que voltou a década de 70... Tenho a impressão de que em arte, o artesanato é
mal visto, acham que você deve ser meio cerebral, suspirar e fazer uma
obra, desde que tenha um discurso.
|
Tenho a impressão de que em arte, o artesanato é
mal visto, acham que você deve ser meio cerebral, suspirar e fazer uma
obra, desde que tenha um discurso. |
AWB:
Você está falando com relação à arte contemporânea?
Leopoldo:
Sim. Eu sinto que há discriminação com relação ao objeto
artístico. É tudo muito virtual, cerebral. Gosto desta coisa de colocar a
mão na massa mesmo, me dá muito prazer o fazer. E para mim a produção
artística tem de ter o lado prazeroso do fazer. Caso contrário, não tem
graça.
AWB:
Quem discrimina o objeto artístico?
Leopoldo:
Alguns críticos e curadores.
AWB:
E nestes locais onde você trabalhou, com o Gravina ou com outras pessoas,
a fotografia ainda não tinha espaço?
Leopoldo:
Muito timidamente. Na verdade eu estava buscando caminhos.
Neste período a fotografia era subsídio para fazer gravuras, pois não
dominava o desenho figurativo, aliás nunca dominei. E a fotografia entrava
aí, ou seja, nas minhas primeiras gravuras usei figuras decalcadas, eu
copiava. As pessoas olhavam, diziam que eu tinha bom traço, mas não sabiam
como eu fazia. Até que descobriram, foi um escândalo... Porque eu copiava,
isto é, eu me apropriava de imagens feitas por mim ou que encontrava em
jornais e revistas. Desta época eu tenho poucas fotos que considero
interessantes.
|
AWB:
Mas você não utilizava fotos suas para fazer gravura?
Leopoldo:
Algumas sim. A fotogravura é uma coisa que estou
perseguindo até hoje. É deste período o que considero a foto número ZERO. Em 1977 fui a Buenos
Aires, e fiz uma série de imagens, das quais escolhi uma que considero
como sendo a minha primeira foto artística. Até usei para a disciplina de
fotografia e acabei colando-a em um cartão. Ela está há 30 anos rolando
pela minha casa, já serviu até de porta-copo. Não tenho o menor cuidado
com ela, mas está sempre ali. É uma foto que gosto, não é nada especial,
mas a elegi como a primeira foto. Entretanto, neste período, para
desenvolver a fotografia como uma prática mais profissional, me faltava
infra-estrutura. O laboratório que eu tinha montado naquela época era
precário e os equipamentos não funcionavam direito.
Foto Zero
|
 |
AWB:
E você continuava trabalhando com outras coisas? Não sobrevivia da
fotografia, da arte?
Leopoldo:
Continuava trabalhando. Não sobrevivia da fotografia. Mas
eu tinha uma vocação para impressor e lembro que ganhava algum dinheiro
imprimindo gravuras horrorosas de um cara de quem não me lembro o nome.
Eram uns casarios, e o cara colocava nas galerias e vendia. Eu imprimia
para ele muito a contragosto.
AWB:
E você fazia isto em casa?
Leopoldo:
Não, eu não tinha prensa. A partir de 1978 passei a morar
no apartamento que moro até hoje, é grande e me propiciou um espaço para
trabalhar. Durante muito tempo trabalhei lá, tinha um quartinho que era um
laboratório, um ambiente de 1,20m por 2,50m que, inicialmente, pintei de
preto e ficou um horror... Gastei não sei quantas latas de tinta para
pintar de branco.
AWB:
Você desenvolvia esta sua atividade como artista paralelamente ao seu
trabalho?
Leopoldo:
Sim, exatamente.
AWB:
E quando você chegou no limite, ou seja, 'chega de trabalhar em outras
coisas e vou me dedicar apenas à fotografia como forma de Arte'?
Leopoldo:
Ainda não consegui.
AWB:
E depois de trabalhar com o Gravina?
Leopoldo:
No início dos anos 80 fui trabalhar na faculdade de
Arquitetura. Fui contratado como técnico para coordenar o que veio se
chamar de Gabinete de Fotografia. Ali encontrei o ambiente e a
infra-estrutura adequada para desenvolver um trabalho fotográfico. Além das
solicitações da faculdade também podia fazer o meu trabalho pessoal. Nesta
época eu já tinha abandonado a faculdade de Artes Plásticas. Tinha 28 anos
em 1980 e achava que estava na hora de focar em alguma coisa. Lembro que
tinha uma quantidade de dólares guardados embaixo do colchão para investir
em equipamento fotográfico, mas não tinha dinheiro para pagar o ônibus, ia
trabalhar a pé, descia do ônibus sem pagar... Era uma coisa de teimosia
mesmo. E nesta época eu já estava casado, o que era um agravante, pois
tinha mais responsabilidade e depois tivemos um filho, o Daniel, que hoje
está na Espanha.
AWB:
Teu único filho?
Leopoldo:
Sim. Ele se formou em Publicidade e foi viajar. Me sinto
muito realizado. Ele fez Publicidade para o meu espanto, pois gostava de
música, tocava. Ele morava em Florianópolis com a mãe, depois veio para cá
e fez Publicidade, trabalhou nas melhores agências. Eu padecia com isso,
pois não gosto de publicidade. E ainda estudava na PUC que era 'cara para
cacete'. Quando ele se formou, chegou e me disse: 'Pai, não agüento mais!
Não é isso que eu quero'. Eu o estimulei a fazer o que ele tinha vontade,
que é música. Publicidade é uma sacanagem, ele trabalhava direto nos
finais de semana. Aí ele caiu fora e entrou em crise. A história se
repete. Não sabia o que iria fazer.
AWB:
Mas ao contrário do pai ele conseguiu chegar na Europa neste momento de
crise...
Leopoldo:
É... Ele resolveu encarar a música, gravou um CD. Foi para
a Europa estudar música, mas a batalha pela sobrevivência não deu muito
espaço. Ele estudou um semestre e agora resolveu só curtir.
AWB:
A tua família foi a causa de você encarar a fotografia de maneira mais
profissional?
Leopoldo:
Sim, parei de fazer gravura e fui de cabeça para a
fotografia que me oferecia uma perspectiva profissional mais promissora.
Ainda em 1979, fiz a minha primeira exposição individual e o meu primeiro
workshop. Foi a minha primeira experiência com o ensino. Foi em
Bagé. A mãe do meu filho viveu em Bagé durante muitos anos, embora seja
pernambucana. Ela conseguiu um espaço e eu fiz uma exposição mostrando
desenhos e gravuras e dei um curso de serigrafia. Foi uma experiência
ótima. Ano passado reencontrei uma ex-aluna deste curso... Foi muito
legal... Em 1982 fiz três exposições. Uma foi junto com o Luiz Carlos
Felizardo, que é meu amigo. Fizemos intervenções de cor nas fotografias
preto e branco usando o processo fotográfico chamado de viragem. A
exposição se chamou 'A quatro mãos'.
AWB:
Onde foi?
Leopoldo:
Foi na galeria da Inês Pinto de Morais, que funcionava
dentro do restaurante Lugar Comum, na rua Lucas de Oliveira. Esta
exposição foi muito interessante. Eu mostrei uma série de fotografias que
fiz dentro do banheiro da minha casa. O fio condutor, ou a unidade, era a
alteração das fotografias com a cor, e as decisões eram tomadas de comum
acordo, cada um dando palpite na foto do outro. Lembro que foi muito rico
e foi a primeira vez que discuti fotografia com alguém pois papo de
fotógrafo é um porre... 'Ah, qual é a tua lente? Qual é a tua câmera?'
Hoje é o modelo de computador, uma chatice... Mas esta foi a primeira
conversa inteligente sobre imagem que tive com alguém. Foi muito
gratificante.
AWB:
E as outras exposições de 1982?
Leopoldo:
Uma foi a exposição individual no IAB. No verão de 1981 fiz
uma viagem, para fotografar, percorri as cidades históricas de Minas até
Brasília, queria colocar o nome de 'Do barroco ao Niemeyer', mas não tive
coragem e acabou se chamando 'Fotografias de Arquitetura'. Foi super
legal, vendi algumas fotos. Lembro que foi um ano de muito trabalho.
Depois fiz uma terceira exposição sobre a inauguração do Parque
Farroupilha em 1935. Era uma exposição documental, a Faculdade de
Arquitetura comprou os negativos do Olavo Dutra, que era um fotógrafo que
atuou naquele período. Foi o meu primeiro contato com a fotografia
histórica, tive que aprender a mexer com isso, com negativos de vidro,
como limpava, como guardava... Neste período, a Funarte estava começando a
aparecer e em 1982 criaram o Núcleo de Fotografia, que depois se
transformou no Instituto Nacional de Fotografia. A partir de então, a
Funarte começou um programa de descentralização das informações,
principalmente nesta área de acervos históricos. Eles vieram visitar a
Faculdade de Arquitetura. Esta exposição foi muito interessante, tinha
algumas fotos minhas, as fotos do Dutra e de outros autores. Foi bárbaro.
Foi um período muito intenso, uma loucura de fazer três exposições em um
ano, para quem tinha pouca experiência. E para somar, a mãe do meu filho,
chamada Jade, tinha passado em um concurso e tinha ido trabalhar em
Florianópolis. Ela foi para lá, eu estava aqui e neste meio tempo nós
engravidamos. Era uma loucura, ia para lá nos finais de semana, ela também
vinha para cá quando possível. O Daniel nasceu em fevereiro de 1983, eu
estava trabalhando. Lembro que paguei o parto do Daniel com fotografias
que havia feito para um audiovisual. O parto foi no Hospital Moinhos de
Vento. Se colocarmos no papel os valores de hoje, chegaremos à conclusão
de que a fotografia era bem remunerada. Ao findar a licença maternidade
dela fomos morar em Florianópolis. Fizemos uma 'gauchada'. Fomos viver na
praia. Não deu certo. Hoje Florianópolis tem estrutura melhor em todas
praias, mas naquela época não tinha. E lembro que em 1983 choveu muito e
que alagou tudo.
AWB:
Em que lugar vocês moravam?
Leopoldo:
No Sul da Ilha, em Armação. Eu tinha conseguido uma
transferência da universidade daqui para a universidade de lá e me engajei
num projeto para registrar o estrago causado pelas chuvas na região do
Vale do Itajaí. A idéia inicial era fotografar os danos, mas encontramos
um acervo riquíssimo de arquitetura da imigração alemã. Eu me envolvi
neste projeto e trabalhei um bom tempo com isso. Depois trabalhei em outro
projeto muito interessante, a documentação das obras de restauro e do
acervo do Museu Vitor Meirelles, em Florianópolis.
AWB:
A fotografia também é um hobby?
Leopoldo:
Não faço muita diferença entre trabalho e lazer. Tem um
escritor, chamado Mark Twain, que diz: 'O segredo do sucesso é fazer do
trabalho uma distração'. Tem um outro ditado budista que diz: 'Descubra
algo que você goste de fazer e você nunca mais terá trabalho'.
AWB:
E a questão de trabalhar por encomenda?
Leopoldo:
É, eu quase sempre trabalhei por encomenda, mas há
encomendas e encomendas. Sempre procurei aliar o prazer ao trabalho.
Quando perguntam o que faço, digo: 'Trabalho com documentação de bens
culturais'. Isso envolve fotografias de obras de arte, arquitetura,
patrimônio histórico, ou reproduções de fotografias históricas. Sempre o
assunto me enriquece de alguma forma. E o meu trabalho como artista também
gira em torno disso. É difícil separar o que é pessoal e o que é uma
encomenda. Por exemplo a foto da Mesbla
foi uma encomenda para um livro que se chamou 'Arquitetura Contemporânea
do Rio Grande do Sul', produzido pela Faculdade de Arquitetura.
|
 |
|
Prédio da Mesbla. 1° Lugar no concurso Fotografia de Arquitetura
promovido pelo CONFEA / 1999 |
AWB:
Já aconteceu de você sair para fazer uma encomenda e encontrar assuntos
que lhe interessaram artísticamente?
Leopoldo:
Sempre acontece e o que eu tenho de melhor é assim. As duas fotos que fazem parte da coleção Pirelli
foram em situações parecidas. Uma delas eu estava fazendo um trabalho de
documentação no Vale do Itajaí, olhei para o lado e vi uma coisa que me
interessava, apesar de não interessar para o trabalho. Em 1984 ganhei a
minha primeira bolsa, que era do Instituto Nacional de Fotografia. Era uma
bolsa de fomento, o dinheiro não era muito grande, lembro que o primeiro
valor que recebi comprei todo em material fotográfico, fiz um estoque. O
projeto envolvia viagens e dei um jeito de desenvolver o trabalho até
durante as viagens de lazer. Em uma destas saídas fiz a outra foto que
também faz parte da coleção Pirelli. São fotos que considero importantes,
são fotografias de paisagem cultural isto é, aquelas em que aparece a
presença do homem.
 |

Clique nas imagens
para
visualizá-las
Foto: Benedito Novo, Santa Catarina
Obra integrante da coleção MASP/Pirelli |
AWB:
Qual é o teu trabalho hoje?
Leopoldo:
Faço várias coisas. Uma delas é a prestação de serviço de
laboratório para outros fotógrafos ou pessoas interessadas em fazer cópias
em preto e branco. O que me mais gratifica neste trabalho é quando recebo
uma encomenda de exposição... Já produzi várias, algumas com serviço
completo de cópias, passe par tout, moldura, montagem e catálogo.
Também tenho trabalhado muito com tratamento de imagens, é o que chamo de
laboratório digital, ou seja, trabalhar as imagens no computador.
AWB:
Para que tipo de cliente?
Leopoldo:
Para instituições. Este ano fiz um trabalho muito grande
para o Arquivo Histórico de Caxias do Sul, pois em 2005 se comemoram os
130 anos da Imigração Italiana. Reproduzi as fotografias digitalmente,
através do scanner. O acervo é riquíssimo, tem imagens fabulosas,
maravilhosas. Isso é uma das atividades que faço. Tenho outros clientes
que me repassam fotos do acervo da família, e periodicamente me encomendam
um grupo de imagens. Além de retirar as fotografias dos álbuns, que não
são formas adequadas de conservação, eu as coloco em um outro suporte,
mais adequado, digitalizo as fotografias e restauro. Até pouco tempo atrás
faria reproduções destas fotos com processos convencionais, isto é, com
filme fotográfico, mas hoje uso o processo digital. É um trabalho de
preservação de memória.
AWB:
É um trabalho mais comercial, não é?
Leopoldo:
Sim. Faço alguma coisa também de fotografia de arquitetura.
Tempos atrás tinha uma revista de São Paulo, do setor de indústrias, que
me contratava para fotografar os empresários, as indústrias daqui do Sul.
AWB:
E você continua fazendo gravura?
Leopoldo:
Não, parei em função da fotografia, embora ache que o tipo
de fotografia que faço está muito próximo da gravura. O tipo de tratamento
dado à imagem acho que é parecido com a gravura.
AWB:
E este trabalho mais artístico você desenvolve nas horas vagas?
Leopoldo:
É, isso é difícil de responder... O que são horas vagas?
AWB:
Mas você tem uma rotina de trabalho?
Leopoldo:
Tenho uma rotina de umas 12 horas de trabalho por dia. Faço
o trabalho artístico aliado ao trabalho comercial, tenho de pagar minhas
contas... Nos últimos anos, em função de alguns prêmios e de uma bolsa
VITAE, tive a oportunidade de me dedicar mais ao meu trabalho artístico.
AWB:
Você acha que os prêmios oferecem a oportunidade para realizar um trabalho
artístico mais tranqüilo?
Leopoldo:
Isso é fundamental. Mas tem que ter cuidado. Acho que os
prêmios/bolsas são mais interessantes quando estimulam a produção
cultural, pois geram um produto. Deveriam existir mais oportunidades de
fomento à arte, seja em âmbito público ou privado. Como exemplo posso
citar o Prêmio Gaúcho de Fotografia, que nas suas duas primeiras e únicas
edições contemplavam o fotógrafo com recursos para desenvolver seu
projeto, garantia a exibição deste trabalho no MARGS, e ainda tinha o
compromisso de uma cópia do trabalho vir a integrar o acervo do Museu. É
enriquecedor tanto para o artista quanto para a sociedade. Isto te dá a
tranqüilidade de espírito para poder pensar e desenvolver o teu trabalho.
Às vezes me apresento como amador, sou aquele que trabalha nos fins de
semana e amo o que faço. Aí entra a minha teimosia. Em diversas
oportunidades, não tinha um 'tostão furado' mas estava lá fazendo o que
achava que deveria fazer. Às vezes me encontrei em situações malucas, não
tinha grana, nem nada, estava devendo e fazendo uma coisa inútil, que não
iria pagar as minhas contas... Isso é complicado, gera um desgaste brutal.
AWB:
E deve afetar a criatividade...
Leopoldo:
É, você tem que ser muito teimoso e cabeça dura para
continuar porque tudo te leva a desistir. A fotografia comercial pode ser
muito rentável, a área de publicidade dá muito dinheiro, a fotografia
social, casamentos dão muita grana. Mas são atividades excludentes, isto
é, não te deixam espaço para desenvolver um trabalho de cunho mais
autoral. O olhar fica viciado.
AWB:
Você já fez este tipo de trabalho?
Leopoldo:
Nunca consegui, mas sei que dá muito dinheiro. A
fotografia social é um grande mercado, movimenta a indústria fotográfica.
AWB:
E foto publicitária?
Leopoldo:
Fiz muito pouco. Tenho dificuldade de trabalhar com
publicidade.
AWB:
Você trabalha com cor?
Leopoldo:
Sim, mas muito pouco. Acho que o artesanal e a gravura são
as razões da minha escolha pelo preto e branco, tudo em função da
possibilidade de manipulação da imagem. É muito recente esta coisa de
pegar uma foto, mexer no computador, levar para o laboratório e ter o
resultado que se deseja. Do contrário você fazia a foto, tinha de aceitar
aquilo que o laboratório te entregava. A outra possibilidade era de
fotografar em cromo (slide), mas com a dificuldade de transportar
para o papel, tinha que fazer uma coisa que se chamava internegativo, que
normalmente ficava uma droga. Lembro que poderíamos enviar para os Estados
Unidos, ou para São Paulo e Rio, para fazer o Cibachrome ou
processo direto, com um resultado maravilhoso. Mas isso era caro, longe e
inacessível. Então a cor sempre ficava refém do que o aparelho poderia me
dar, eu não podia alterar. Enquanto no preto e branco as alterações são
possíveis, desde destruir até construir uma fotografia. Essa coisa sempre
me atraiu. Hoje em dia, usando o computador, posso construir imagens,
alterar fotografias, organizar os pesos, as tonalidades. O que eu faria no
laboratório preto e branco, posso fazer no computador, levo o arquivo para
imprimir e normalmente tenho um resultado bem satisfatório, então
ultimamente tenho trabalhado com imagens em cor.
AWB:
Você tem usado câmera digital?
Leopoldo:
Sim, mas muito pouco. Mas com relação à isto, gostaria de
comentar que acho que a fotografia digital e a analógica são a mesma
coisa. O princípio é o mesmo. Na verdade, podemos considerar que a
fotografia tem 500 anos, é Renascentista. A câmera digital é um aparato
contemporâneo, mas é igual à câmera que os pintores usavam há 500 anos
atrás. A ideologia de construir uma imagem é a mesma. É um aparato
Renascentista, não mudou absolutamente nada. Acho que a fotografia e toda
a produção audiovisual são a visão do caolho, isto é, a visão de um olho
só. É uma lente, é todo o princípio da perspectiva uni-ocular, de um único
ponto. Vejo que a diferença é a facilidade, a instantâneidade, a rapidez.
Não entendo por que fazem tanta polêmica.
AWB:
Falam da facilidade da manipulação com relação às fotos jornalísticas...
Leopoldo:
Mas isso sempre foi possível. As fotomontagens têm longa
data e muitos governos totalitários se utilizaram disto para tirar das
fotografias as pessoas que não lhes interessavam.
AWB:
Atualmente você utiliza apenas a digital?
Leopoldo:
Não, uso mais o filme e digitalizo depois. Tenho apenas uma
câmera digital, é pequenininha, de 4 Mega Pixels.
AWB:
Por que você usa mais o filme?
Leopoldo:
Porque a minha câmera digital é limitada, tem poucos recursos. Com o
sistema híbrido, filme + digitalização, tenho mais possibilidades.
AWB:
Você tem fotos de outros fotógrafos em casa?
Leopoldo:
Sim, aqui mesmo na entrada do laboratório tem a galeria dos
amigos.
AWB:
E arquitetura, tu nunca quiseste fazer?
Leopoldo:
A experiência com o Gravina e depois o tempo que trabalhei dentro da
Faculdade de Arquitetura me aproximou muito da área. Sou um voyeur
da arquitetura. Tem gente que acha que eu sou arquiteto...
AWB:
Qual a tua experiência com ensino?
Leopoldo:
Em 1982 a
Funarte começou com as Semanas Nacionais de
Fotografia. Acho que o papel que Funarte desempenhou nos anos 80 foi muito
importante, pois através das Semanas Nacionais de Fotografias ela criou um
intercâmbio de fotógrafos do Brasil. As Semanas
Nacionais de Fotografia, tinham o objetivo de cruzar as informações, fazer
com que as pessoas se conhecessem e eu ministrei o meu primeiro
workshop de fotografia, em 1986, em Curitiba. Foi super legal. Era um
workshop teórico e prático. Nessa época eu já tinha um bom trabalho
de laboratório e fiquei conhecido. Com isso, começaram a me chamar. Lembro
que nesse período, de 1986 até 1989, eu virei um 'workshopista'
ambulante. Ministrei workshops em Aracaju, em Brasília, Ouro Preto,
São Paulo... Quando tinha workshop de fotografia me chamavam...
Isso foi bárbaro. Nesse workshop de 1986, tive um aluno, que hoje é um
grande amigo meu. Ele estava no segundo ou no terceiro ano de Medicina,
fez o workshop comigo e desistiu do curso... Que
responsabilidade... Foi ser fotógrafo... Ele se chama
Marcelo
Buainaim. Ótimo fotógrafo, morava em Campo
Grande, me levou para lá,
organizou um workshop, me apresentou a família. Ele era filho de
médico... O Marcelo tem uma trajetória maravilhosa, anos depois foi para
Europa, tentou Paris, não deu, depois viveu 10 anos em Portugal, até 2003.
AWB:
Você costuma acompanhar a trajetória dos seus ex-alunos?
Leopoldo:
Alguns, e o Marcelo sempre, pois ele é impressionante, sempre que tem uma
oportunidade ele me cita, e eu acho isso muito gratificante. Fui visitá-lo
em Lisboa e agora ele está morando no Brasil, em Natal, Rio Grande do
Norte. Para você viver na Europa tem que ter muita grana. Ele morava em um
lugar muito feio, velho, porém simpático, romântico, mas pouco prático
além de caro, e ele dizia: “Leopoldo, você é a testemunha de que eu
sobrevivi aqui por 10 anos...”
AWB:
E depois você continuou a fazer trabalhos junto a Funarte?
Leopoldo:
Em 1989, durante o governo Sarney, a Funarte começou a
afundar. Veio o governo Collor que liquidou com tudo. Neste momento eu já
tinha passado a ser funcionário da faculdade e estava cansado do trabalho
que estava fazendo. Surgiu então em 1990, um convite da Escola de
Comunicação da UFRGS para trabalhar. Apesar de não ser de uma maneira
legal, dei aula até 1996, quando me demiti. Eu não era concursado, mas
tinha todo o status. Neste período creio ter contribuído para o
crescimento de alguns alunos, hoje fotógrafos profissionais. Depois deste
período eu ainda ministrei dois anos de aula em Passo Fundo, onde
colaborei na montagem de um laboratório de ensino de fotografia na UPF.
AWB:
Foste morar lá?
Leopoldo:
Não. Eu ia uma vez por semana. Isso foi em 1996. Fiz um projeto super
ambicioso, e eles compraram tudo o que pedi. Montei o laboratório. Foi uma
experiência maravilhosa, era o laboratório ideal, eles montaram uma
estrutura de ensino muito boa. Mas era difícil, pois eu saía daqui
quinta-feira à noite, dava aula na sexta-feira pela manhã e à noite e
sábado pela manhã também, pegava o ônibus e voltava. Lembro que nessa
época o Jaime Lerner começou a dar aula na UPF também, a gente se
encontrava no hotel, foi um período legal e tal, mas ficou complicado. A
minha primeira experiência com Passo Fundo foi quando me convidaram para a
Jornada Literária em 1995, dez anos atrás. Eu sabia alguma coisa, mas não
tinha muita idéia da grandiosidade do evento. Foi uma coisa maravilhosa,
surpreendente.
AWB:
Você foi fotografar a Jornada Literária?
Leopoldo:
Não. Fui ministrar um workshop. Foi assim que começou minha relação
com a UPF.
AWB:
E depois de ministrar tantos workshops você nunca quis ter a sua própria
escola ou curso de fotografia?
Leopoldo:
Tenho vontade de fazer isso, quem sabe?
AWB:
Você é avesso a compromissos?
Leopoldo:
Bom, primeiro porque acho que ensino é uma coisa muito séria, e o que vi
na faculdade... Havia professores que davam aula como um 'bico' e eu
achava aquilo muito ruim. Acho que para você ensinar, ser professor, tem
que abdicar de certas coisas. Penso também que na área de Comunicação, de
Artes ou Arquitetura, é necessário ter um 'pé no mercado', porque senão
você vai falar 'grego' com os alunos. Mas também creio que dar aula não
pode ser brincadeira. Então, na minha situação, ou faço um curso superior,
ou vou ser fotógrafo. Dei um peitaço, fui tentar ser um só, tentar unir
meus pedaços. Acho também que o ensino, além de ser muito sério e envolver
um compromisso, tem uma coisa que eu particularmente tenho dificuldade em
lidar, que é aquela relação de poder que se estabelece entre professor e
aluno, que envolve nota e a avaliação. No caso da fotografia, todo mundo
gosta, mas em um curso de comunicação, em que você é obrigado a cursar,
você gosta de fotografia, mas pode não haver tanta dedicação. Então é por
isso que eu me sinto muito mais tranqüilo em um workshop, pois quem
está ali é porque está a fim.
AWB:
As pessoas são mais interessadas...
Leopoldo:
Sim. Este ano tive uma experiência bem gratificante, lá na Unisinos. Foi
um workshop bom, com 52 horas/aula, era uma turma heterogênea. Uns
tinham experiência, outros não. Mas você não tem como fazer uma triagem, a
não ser que você faça uma entrevista breve e tal. Mas me sinto à vontade
porque não tenho essa relação de poder, o cara está ali porque está a fim,
eu não tenho que me preocupar se ele estudou ou não, é uma relação mais
madura, mais adulta. Agora, isso é uma dificuldade particular minha, tem
inúmeros professores que resolvem muito bem isso, eu não lido de uma
maneira muito confortável.
AWB:
Nos teus cursos você procura discutir a imagem?
Leopoldo:
Sempre
fiz questão disso. Por exemplo, esse curso na Unisinos intitulei de
"Fotografia Preto e Branco, linguagem e técnica", então procurei falar
sobre a linguagem fotográfica e a técnica
para tentar dar um panorama de como é possível realizar determinados tipos
de fotografia. Procurei mostrar o máximo em termos de escolas, tendências
e autores.
AWB:
E a bolsa VITAE, já terminou?
Leopoldo:
Sim.
AWB:
E houve uma publicação?
Leopoldo:
Isso é uma coisa que eu gostaria, mas que significa ter que correr atrás
de patrocínio. Nos últimos anos, em função de alguns prêmios, algumas
bolsas, consegui me dedicar bem mais ao meu trabalho artístico. Não que
artístico seja arte, nem tudo que é artístico é arte. O Prêmio Gaúcho de
Fotografia foi um impulso muito bom. Lembro que passei um ano, não apenas
fazendo o projeto da bolsa, mas um ano com uma verba que me dava o impulso
para produzir. Em 1999, com a foto da Mesbla, ganhei um prêmio de R$ 20
mil, 1º Lugar na categoria Fotografia de Arquitetura
do
Concurso Nacional 500 Anos promovido pelo
CONFEA.
Eu não
acredito quando eu penso nesse valor... E isso me deu um impulso. Investi
parte deste dinheiro em equipamentos. Até aquele momento eu tinha uma
câmera Hasselblad com apenas uma lente, então comprei mais duas lentes e
uma câmera 4x5 polegadas. Isso me deu um grande impulso, comecei a
fotografar mais e com mais recursos. É evidente que sempre lendo, sempre
buscando coisas, informações.
AWB:
Sempre buscando aprender mais...
Leopoldo:
Claro. No
ano de 1999, quando foram comemorados os 500 anos de Descobrimento do
Brasil, participei de um projeto muito bem organizado, que se chamou '100
fotógrafos fotografam o Brasil'. Escolhi fotografar a fronteira Sul. Fui
para Bagé, que é um lugar onde tenho alguns amigos, os quais me levaram
para algumas fazendas e pude fotografar coisas que achava interessantes, e
que podiam ser singulares em relação a uma visão mais abrangente do
Brasil. Depois houve um encontro em Brasília, e reencontrei o
Walter Firmo,
fotógrafo, que é muito meu amigo, um guri com os seus 66 anos. Ele me
disse que estava em Paris, e falou de um projeto do Banco Icatu,
que talvez pudesse me interessar. Realmente me interessei, mandei um
projeto em 1999 e não deu em nada. Em 2000 mandei novamente o projeto e
então fui contemplado para uma residência na
Cité Internationale des
Arts. Na segunda metade de 2001 fui para Paris. Isso me deu um impulso
notável para produzir. Em Paris trabalhei feito louco, trabalhei o tempo
todo, alucinadamente, compulsivamente. Quer dizer, primeiro, fui conhecer
Paris que eu não conhecia. Fotografar cidades ou cenas urbanas sempre me
chamou atenção, o cenário construído, ou objetos construídos, as ações
humanas... Embora o homem não apareça explicitamente nas minhas
fotografias, ele está ali o tempo todo. Antes de viajar, li muito. Lembro
que li um livro da Sandra Pesavento
O Imaginário da Cidade que fala de Paris, fala do Rio e fala de
Porto Alegre. Ela falava dos fotógrafos, dos pintores, da literatura,
daqueles que escreveram a respeito das cidades. Este livro me ajudou a
montar o meu projeto.
AWB:
Você já sabia o que faria em Paris?
Leopoldo:
Eu
tinha um certo esboço de projeto montado para desenvolver. Eu tinha uma
estrutura legal, um espaço para trabalhar com cozinha e banheiro. Fui a
várias exposições, visitei Museus, foram sete meses em Paris. Bem,
voltando um pouco no tempo, em 1995, houve uma exposição de dois
fotógrafos portugueses em Porto Alegre e um deles, o Aníbal Lemos, tem uma
galeria de fotografia na cidade do Porto. No início de 2001 ele ligou me
convidando para fazer uma exposição na galeria. Eu disse que estava indo
para Paris, depois fui para Lisboa, aí depois para Porto, onde mostrei o
ensaio intitulado Topografia. Foi ótimo, uniu tudo. Tive a
oportunidade de viajar por vários lugares, foi tudo de bom.
AWB:
Depois destas viagens você voltou para Porto Alegre?
Leopoldo:
Sim, e essa volta foi pavorosa para mim. Não foi só o fato de voltar para
cá e comparar uma coisa com a outra. Mas foi voltar para uma rotina miúda.
Lá eu vivia um sonho, estava em Paris, no melhor lugar do mundo, tinha uma
bolsa, era só exposição, arte... Além disso, tinha a companhia do
Alfredo Nicolaiewsky, do Paulo Gomes, da Ana Albani e da
Teresa Poester,
que estavam fazendo Doutorado em Artes. Depois
minha mulher conseguiu ficar um bom tempo comigo e meu filho foi também.
Voltei em 2002 e isso foi muito duro para mim. Fiquei depressivo, foi
horrível, mas não posso reclamar, porque olhando de longe acho que foi um
processo. Tem dias que chove, tem dias que faz sol. Outra coisa que
fiz foi deixar uma proposta de exposição na Embaixada Brasileira. No
início de 2003, me ligaram dizendo que havia uma data disponível. Fiquei
pensando em como faria para voltar a Paris. Então enviei uma proposta para
a Cité Internationale des Arts que foi aceita e isto viabilizou os
custos consideravelmente. Fui. No final de 2003, passei mais dois meses e
meio, quase três. Foi bárbaro, porque o
Cássio Vasconcelos, fotógrafo,
estava por lá dando continuidade ao projeto ‘Noturno’. Ele havia feito
'São Paulo Noturno', e foi fazer 'Paris Noturno', então tinha uma parceria
legal, saíamos juntos para fotografar, era um 'frio do cão'... Muito bom!
Depois o Walter Firmo foi para lá com uma 'trupe' fazer um workshop.
A minha exposição foi legal. Quando eu dizia que tinha uma exposição na
Embaixada todos achavam que eu era importante. Mas isso não significava
nada. Nesse período, reencontrei o Jean-François Couvreur,
que é curador da
Maison Europeéne de Photographie. Ele me convidou para
participar do Festival Photo, Nature et Paysage em Gacilly, França.
Esta exposição aconteceu este ano onde mostrei novamente o ensaio
Topografia. Antes de ir para Paris, em 2001, enviei um projeto para a
Fundação VITAE, já havia enviado uma meia dúzia de projetos para a VITAE.
Outro dia estava relendo alguns, e pensei: 'Ainda bem que não me deram.
Esta bobagem.' Mas em 2001, antes de viajar, enviei um projeto, era a
continuação daquele que eu estava desenvolvendo que envolvia a América
Latina, mas não estava muito bem formulado, e esse também eu olho e
penso... ‘ainda bem que não me deram’. Em 2003, reformulei o projeto, e
enviei novamente. Então, quando estava voltando de Paris, em janeiro de
2004. Voltei em uma quarta-feira, e na sexta eu já fui para São Paulo
participar do projeto 450 anos de São Paulo. Eram 45 fotógrafos que
deveriam fotografar a cidade de São Paulo. Eu estava lá e recebi o
telefonema avisando que havia sido contemplado com a bolsa VITAE. Foi
maravilhoso, e eu ainda estava na companhia do Firmo, que é para mim é uma
figura muito legal, importante, porque sempre nos momentos bons ele estava
do meu lado de alguma forma. Eu estava muito feliz mas não podia contar
que tinha ganhado a bolsa porque tinha que aguardar a publicação na
imprensa, o que aconteceu dois ou três dias depois. E eu faceiro da
vida... Voltei para Porto Alegre e comecei a trabalhar. Foi muito legal. A
idéia do projeto era trabalhar com as cidades da fronteira e as capitais
Buenos Aires, Montevidéu e Porto Alegre. Acho que fiz um bom trabalho, mas
falta dar um fechamento, quer dizer, fazer uma publicação. De Paris,
trouxe 3.600 negativos, entre 6x6 e 35mm. Fotografava compulsivamente...
Evidente que tem muito cartão postal, conseqüência do deslumbramento, da
novidade. E aqui volta o Henry Miller, pois o meu processo de trabalho é o do vagabundo, o
flaneur, que caminha, caminha, caminha exaustivamente.
Isso para mim é recorrente. Lembro que quando eu tinha uns 20 anos, minha
namorada na época, morava do outro lado da cidade, e eu atravessava Porto
Alegre de madrugada. Caminhando resolvia todos os problemas do mundo.
Claro que hoje a gente resolve só a metade dos problemas e ainda corre o
risco de ser assaltado....
| |
Topografia
Naquela rua cotidiana havia uma árvore que eu acompanhava, estação a
estação. Era um jacarandá. Na primavera estendia um tapete lilás aos
que passavam. Um dia, naquela rua cotidiana de minha vida, o
jacarandá de tantas flores não estava mais lá. Só a sua cicatriz.
É imensa a dor
que sinto toda a vez que me deparo com o que restou de uma árvore.
Penso sempre no longo tempo necessário para atingir aquela dimensão
e os poucos minutos para ser abatida.
Os motivos que
levam a esta violência às vezes são nobres: a árvore estava doente e
poderia cair sobre as pessoas; suas raízes prejudicavam nossa água
encanada; seus galhos competiam com a rede elétrica; ou, ainda, para
dar passagem a mais uma avenida.
Não importa, para mim é sempre incompreensível. É um sentimento de
que a vida atrapalha o trânsito, o passeio público, suja as
calçadas. |

|
| |
A vida incomoda.
Estas fotografias representam uma porção do espaço cotidiano: ruas
de minha cidade, referências subjetivas e minhas perdas. Leopoldo
Plentz, Julho/2001
|
AWB:
Henry Miller continua nas tuas lembranças. Você não seguiu a recomendação
médica?
Leopoldo:
Não. Só deixei de fumar. Isso faz parte do meu processo de trabalho. É o
exercício do olhar, do perambular, de sair a rua, de fotografar. É a
descoberta, o olhar do estrangeiro, o ato de se surpreender com as coisas,
às vezes triviais. Por outro lado, eu já organizei uma exposição em que as
fotos foram produzidas, ou dentro da minha casa ou em lugares próximos à
ela, então é aquilo de olhar para um cantinho, aquele canto que tu olhas
todos os dias e pensa... 'Quem sabe eu fotografo?' Na verdade não é o
canto, e sim a foto do canto. O assunto para mim não é muito importante e
sim como se fotografa. Ou ainda como as coisas ficam depois de
fotografadas. Esta exposição eu intitulei 'Simulacro ou
Fotografia de Coisa Nenhuma'. Neste sentido, tenho também o trabalho
que intitulo de ‘Ex-coisa ou Arqueologia Urbana’, no qual
fotografei pequenos objetos incrustados no asfalto. Também tem este
aspecto de prestar atenção em coisas sem importância. São como fósseis
modernos. Cinco destas fotografias foram adquiridas pela Biblioteca
Nacional da França e também fazem parte do acervo do Museu Nacional de
Belas Artes em Buenos Aires.
AWB:
Como você percebe essa apropriação da fotografia pelos artistas plásticos?
Tens algum artista em especial que admiras e que não tenha vindo
especificamente da fotografia ?
Leopoldo: Creio que a fotografia não
pertence a nenhuma categoria ou profissão. Ela é de domínio público. O que
considero importante é que ela seja usada de maneira inteligente, sensível
e bem feita. Acho que o
Vic Muniz é um bom exemplo.
AWB:
Como você analisa o mercado da fotografia em Porto Alegre?
Existe esse mercado ?
Leopoldo:
Não creio
que exista um mercado específico para a fotografia. Há alguma coisa
isolada, como por exemplo, o uso da fotografia para decoração.
AWB:
Qual a tua opinião sobre a
Bienal do
Mercosul e sobre os trabalhos em fotografia que são apresentados?
Leopoldo:
Toda
iniciativa de exibição de arte vem a contribuir para formação de público e
de alguma forma contribui para uma sociedade melhor. Acho muito importante
a existência da Bienal aqui e concordo com o curador que ela deva mudar o
nome para Bienal de Porto Alegre. Quanto aos trabalhos apresentados em
fotografia não saberia dizer pois ainda não os vi.
AWB:
Porque não há jeito de 'vingar' em Porto
Alegre eventos sobre Fotografia, a exemplo do que acontece em São Paulo ?
Leopoldo:
Sabes qual a diferença do siri gaúcho e o siri baiano? O siri baiano tu
tens que colocar uma pedra e fechar a panela com um cadeado, porque quando
dá uma frestinha o siri baiano coloca uma patinha, o outro já empurra e
quando tu vês todos fugiram. O siri gaúcho tu podes deixar a panela
aberta, o primeiro que coloca a patinha para cima o que está em baixo puxa
de volta...
AWB:
Quais são
teus próximos projetos ?
Leopoldo:
Preciso
organizar minha produção e pensar seriamente em uma publicação, um livro.
Para realizar isto de uma forma mais profissional necessito de uma
parceria. Alguém que se ocupe da formatação do projeto, da busca de
patrocínio. Espero realizar isto em médio prazo.
AWB:
Qual a sua opinião sobre o artewebbrasil?
Leopoldo:
Acho uma
iniciativa notável que acompanho há tempos, sendo que com mais assiduidade
no último ano. Sei perfeitamente da dificuldade prática, isto é,
econômica, de manter um empreendimento como este. Acho o desenho limpo e
não usa aquelas chatices 'criativas' que fazem as páginas demorar a abrir.
A seção Atelier é uma forma muito interessante de tornar o artista e seu
trabalho mais, e melhor, conhecidos. E pensando alto, isto é uma idéia
que me ocorre agora, seria interessante, fazer um ensaio fotográfico dos
ateliês. E para isto já me ofereço. Bem o que mais posso dizer, vida longa
e no futuro uma publicação com os melhores textos, trabalhos, etc…
AWB:
Obrigada Leopoldo |