|
AWB: Há pouco tempo o
jornal Zero Hora e a
ESPM fizeram um concurso para fotografar o Parque da
Redenção, em Porto Alegre. A
foto
ganhadora era muito parecida com uma das suas desta série do olho
humano. Você viu isso?
DENISE:
É plágio. Eu estou muito chateada com a conduta disso tudo.
Eu não tinha visto a Zero Hora no dia que saiu a foto e me telefonaram
avisando que haviam me plagiado. Mas eu achava
que era uma foto de olho qualquer e isso não seria nenhuma novidade,
lembro de ter argumentado que esse tipo de coincidência é normal. No dia
seguinte achei a foto na internet e tomei um susto tão grande... A
foto era tão igual que fui procurar meus negativos porque achei que fosse
minha mesmo, que era uma variação. Eu tiro várias fotos e seleciono a
melhor e essa que ganhou o prêmio seria uma das que considero que não
tenha dado certo, porque ela tem problemas técnicos que, para mim, seriam
muito graves e que não deixaria passar de jeito nenhum... A reflexão está
apenas na metade do olho, a incidência de luz estava muito ruim... Enfim,
pensei que fosse uma das minhas rejeitadas. Mas percebi que a modelo usava
um delineador que a minha modelo não usava, então percebi que a foto não
era minha. Menos mal, poderia ser pior... Mas é muito igual, ele escolheu
o mesmo olho, o mesmo enquadramento... Uma coisa é tema, se fosse só o
tema não me incomodaria, acho que existem coincidências, e às vezes isso é
até positivo, eu sempre falo um pensamento de
Bill Viola, que diz algo do tipo: “Se em uma pesquisa científica,
duas pessoas chegam ao mesmo resultado em lugares diferentes do planeta,
comprova que a pesquisa é válida e que está indo para o caminho certo, mas
nas Artes Plásticas em função da autoria isso é visto como algo negativo.
Mas se pensássemos em descoberta como a realização de algo que já existe,
nossa percepção mudaria”.Se for coincidência de desenvolvimento de
determinados conteúdos, não devemos nos preocupar. Autoria é uma coisa
complicada, tem coisas que estão no ar, tem coisas que estamos pesquisando
simultaneamente e chegamos aos mesmos resultados... Aconteceu isso agora
comigo quando o Stefan Sous,
o artista alemão que veio para o Torreão recentemente. Ele realizou
um trabalho que eu tinha planejado fazer no Torreão, só que ele fez antes
de mim. Depois ele veio aqui em casa e mostrei os esboços e que eu estava
pensando naquilo... Foi inacreditável. Ele chegou em Porto Alegre com
outras coisas em mente, mas acabou mudando os planos, era como se tivesse
pegado uma idéia no ar. Ele nunca tinha trabalhado com mapas antes... Fez
até melhor do que eu faria, ele tinha uma ajuda de custo do Instituto
Goethe. Eu levei isso numa boa, achei até legal, quer dizer, que a minha
idéia era boa.
 |
 |
Foto de Denise Gadelha |
Foto Vencedora no Consurso ZH-ESPM
|
AWB: Mas no caso da foto era diferente...
DENISE:
Como é que pode? O cara copiou descaradamente uma imagem
que eu produzi antes. Isso é chato. Esta imagem que ele copiou foi exposta
em Paris, foi realizada com certeza há mais de três meses antes do
concurso. Eu tenho como provar porque foi de navio para Paris com bastante
antecedência... Para sair do Brasil teve que ser registrada no
IPHAN. Se
eu fosse lutar na Justiça tinha como conseguir a prova do registro desta
imagem. O chato é que quando estas imagens voltarem de Paris, elas vão
para uma galeria comercial e aí as coisas se complicam, as tiragens são
pequenas e fechadas... Como eu vou controlar se tem um cara fazendo
plágio? Isso me prejudica muito profissionalmente, nem é apenas uma
questão de ética, ou moral... É uma questão profissional. Como é que vou
falar para os colecionadores que a minha tiragem está fechada e garantir
isso se tem uma outra foto igual circulando por aí? É complicado. Então
falei com o pessoal da ESPM e eles já estavam sabendo do problema. A minha
foto tinha sido publicada na Zero Hora no sábado e as fotos ganhadoras
foram publicadas na terça-feira, então é uma coisa incrível...
AWB: A Zero Hora se
encarregou de mostrar esta estranha coincidência?
DENISE:
Indiretamente. O jornal mostrou as duas fotos com nomes
diferentes e eu comecei a receber e-mails de pessoas que leram a ZH e que
escreveram para o Roger Lerina. O Roger passou o meu e-mail.
Perguntavam-me se era plágio. Eu dizia: ‘Olha não sei dizer, mas é igual
não é?’ Comecei então a investigar, liguei para a ESPM, falei com um dos
mentores do concurso, o
Manuel da Costa
que me disse que achava que sinceramente se tratava de um plágio porque o
cara confessou num blog que havia se “inspirado” em outra foto. E
eu perguntei para o Manuel da Costa: ‘Mas se o concurso era sobre
criatividade, como é que deram o prêmio para o cara? Sabem que ele
confessou...’ No blog ele mostrava as fotos do concurso e em duas delas o
comentário é que havia se “inspirado” em fotos que tinha visto na internet.
Ele teve o azar de que a foto premiada tinha sido ‘inspirada’ em uma foto
de alguém de Porto Alegre e que tinha sido publicada na Contracapa da ZH
alguns dias antes do anúncio do resultado do prêmio. O Manuel me
argumentou que na realidade era um conjunto de obra que foi premiado, mas
não foi o que a Zero Hora divulgou. A ZH publicou três vezes a foto dele
dizendo que era a foto premiada. Ou a ZH publicou um erro três vezes ou
esta argumentação não procede. O que eu sei é que este concurso foi
promovido para divulgar um laboratório novo, mas quando acontece uma coisa
dessas, queima a imagem que eles estavam tentando promover, imagina...
Eles montaram todo um esquema para promover uma boa imagem de uma coisa e
rola essa confusão... Acho que para a ESPM não era interessante alterar o
resultado do concurso, tanto é que não alteraram.
AWB: Você pediu isso?
DENISE:
Eles já sabiam mesmo antes do dia da premiação. Entre o dia
que saiu o resultado - o dia da publicação na Zero Hora e o horário da
premiação, eles já estavam sabendo e premiaram igual. Quando falei com o
Manoel, disse que, sinceramente, não sabia se queria exigir a mudança do
resultado... Para mim não interessa se o cara ganhou a câmera ou não, o
que faz a diferença é que todos estavam participando seriamente e o cara
plagiou e passou por cima de todo mundo. Acho que seria mais justo com os
outros concorrentes que o cara não fosse premiado. Acho que foi injusto
com todos os inscritos e que eticamente deveriam anular o concurso ou
repassar o prêmio para o segundo colocado e assim por diante. Mas eles
disseram que não fariam isso. Eu somente pedi que a Zero Hora retratasse
publicamente o fato.
AWB: E aí?
DENISE:
Estou até hoje esperando. O Manuel falou que iria conversar
com o Ricardo Chaves, que era um dos jurados, mas estou esperando. Não
aconteceu nada porque a Zero Hora também estava apoiando o concurso, e tem
outras coisas em questão... Acho que isso é muito injusto para quem está
trabalhando sério. Aí liguei para o cara. Eu precisava saber onde ele
tinha visto a imagem. Em Porto Alegre, apenas o laboratório que eu
trabalho viu. Eu não expus aqui ainda. No Rio de Janeiro, a
Funarte, o IPHAN e uma empresa
que era produtora da exposição de Paris, tinham acesso à imagem. Eu queria
saber por onde tinha vazado. Se fosse o meu laboratório, eu teria que
mudar. Se fosse a produtora, eu deveria tomar alguma atitude. Eu só queria
saber disso. Eu disse para ele: ‘Você confessou num blog que era
plágio. Vamos ser realistas. Fica tranqüilo, não vou te processar. Eu só
quero a informação’. O cara se enrolou todo. Primeiro ele não admitia que
tivesse sido plágio. Ele dizia: ‘Se fosse plágio...’ Mas lá pelas tantas
ele viu que deveria se posicionar e disse que não era plágio e que jamais
tinha visto a minha foto. Ele disse que no blog tinha admitido, mas
que não tinha afirmado que era da minha foto. Disse que era uma foto de
uma revista tal... Eu então pedi o link da tal revista com a tal
foto, se ele pudesse provar a existência dessa outra foto seria mais fácil
acreditar na versão dele “de uma incrível coincidência”. Mas estou
esperando até hoje por essa imagem. Eu disse que mandaria a minha foto
para ele ver já que não tinha visto, só para ele ter noção do tamanho da
coincidência que ele alega, mas ele me deu o e-mail errado... Eu podia ter
ligado de novo para encher o saco do cara... Mas fiquei com raiva porque
ele foi super arrogante, petulante... Disse para eu processá-lo... Mas
falei que não estava a fim de perder tempo e dinheiro com isso. Perguntei
para ele: ‘Tu quer isso mesmo? Quer pagar um advogado?’. Aí ele mudou de
tom, me convidou para tomar um café, disse que queria conhecer o meu
trabalho... Muito cínico.
AWB: Esta história então
está parada?
DENISE:
Sim. Várias pessoas falaram que vão ajudar nisso. Sei que
muitos escreveram para a Zero Hora. Tem um cara indignado que escreveu
para várias sessões da Zero Hora e ninguém respondeu. Eu mesma já escrevi,
já falei com muitas pessoas de lá. Tem gente que mandou até para a seção
Carta do Leitor. Eu sinceramente não controlo a Zero Hora diariamente para
ver se saiu alguma coisa. Não tenho tempo para isso e nem assino a ZH. Mas
acho que se sair, toda essa comunidade que se formou em torno do assunto,
alguém teria me avisado. Acho que as coisas ficaram por isso mesmo... As
coisas são assim no nosso país, se nas CPIs ninguém faz nada, imagina
nesse caso. É só uma fotinho...
AWB: Você expõe há
muitos anos, inclusive fora do Estado e do país. Sendo tão nova como você
conseguiu isso?
DENISE:
Expor para mim é um exercício, então desde quando entrei na faculdade já
fazia exposições. Em Porto Alegre me inscrevi em vários editais, acho que
em todos que tinham, e fui exercitando. A primeira exposição que me marcou
muito foi na galeria Lunara. Foi muito legal. Primeiro porque a galeria
Lunara recém tinha sido inaugurada, teve apenas a exposição em homenagem
ao Lunara. Eu vi no jornal uma chamada de que seria um espaço para a
fotografia contemporânea, com uma linguagem investigativa... E achei bem
legal. Inscrevi-me e nada do resultado, demorou um tempão... Liguei para a
Usina do Gasômetro para perguntar, toda envergonhada... A mulher me disse:
‘O nível estava muito baixo e só selecionamos uma pessoa’. Perguntei quem
era e ela falou: ‘É a Denise Gadelha'. Fiquei louca. Aquilo foi super
importante. Foi a primeira vez que tive uma aposta. Lembro que o júri era
composto pelo Eduardo Veras e o
Clóvis Dariano,
e eu sou muito grata a eles por terem apostado em mim. Eu não era
nada, era uma ‘fedelha’ que pela primeira vez estava fazendo um projeto...
Fiz tudo através de simulação de computador, foi uma loucura... Estava
dando um chute para frente, arriscando muito e eles toparam. Também
agradeço muito a Fuji por me patrocinar, era um projeto absurdo... A
produção daquilo lá... Toda a minha família ajudou... Tinha que cortar
quatro mil pedacinhos de fotos, foi um mutirão, o meu namorado, a minha
mãe, a Zilma e a Dica... Tive um grande apoio
para fazer aquilo que parecia muito além do que eu poderia
realizar. Depois disso, de ter passado por uma experiência como essa, tudo
ficou ‘fichinha’. Aquilo foi um esforço muito grande, envolveu muita
coisa... A montagem durou mais de uma semana, trabalhando 12 horas por
dia. Foi super bacana, teve uma repercussão legal. O Eduardo Veras
publicou uma matéria de página inteira na Zero Hora, com um foto enorme...
Tomei um susto quando vi... Lembro bem, estava
com meu namorado, quando resolvemos passar numa banca para dar uma
‘espiadinha’ se não tinha saído nenhuma notinha... E tive aquela surpresa!
Valorizei muito essa aposta em mim, pois sabia muito bem o quanto era
difícil ter o trabalho divulgado no jornal em função de acompanhar o
processo da banda do meu namorado. Eles foram várias vezes levar release
na ZH, e levou muito tempo até conseguirem uma foto publicada.
AWB: Teu
namorado é da banda
Cachorro
Grande?
DENISE:
É. Eles
batalhavam muito para divulgar os shows no jornal, mas até aquele momento
só tinham sido publicadas pequenas notas... E quando vimos a matéria sobre
minha exposição ficamos loucos, porque jamais imaginaríamos uma coisa
dessas... Essa matéria do Eduardo foi muito legal porque foi uma aposta
numa idéia e me estimulou muito para que eu também apostasse mais nas
minhas idéias malucas.
AWB: Uma idéia que
talvez nem você acreditasse?
DENISE:
Eu sinceramente não acreditava... Sabe quando tu fazes uma
coisa para ver se cola? Colou. Então pensei que podia ser que desse mesmo
certo, que merecia ser investida, pois iria para frente essa coisa de
artes plásticas. Isso deu um baita impulso, foi bem legal. Foi um momento
importante de transição do meu trabalho. A Maria Helena me apresentou ao
pensamento do Robert Morris, um artista dos
anos 60, e comecei a pensar na percepção da obra, em não se ater ao hábito
de colocar o objeto em 90° em relação ao espectador. A Lunara tinha aquela
perspectiva de cone que me proporcionou isso... Depois disso
comecei sistematicamente a concorrer em editais, pois percebi que
funcionava.
AWB: Este
edital da Lunara foi o primeiro que você participou?
DENISE:
Não, teve
um no grupo Reticências, que foi com a Daniele Marx, com o
Dirnei Prates, o André Venzon e a Luciana Fonseca. A gente fez uma
exposição na Casa de
Cultura. Depois desta exposição na Lunara eu entrei no Grupo
Laranjas
e fizemos uma exposição na
Usina do Gasômetro, pintamos a galeria Iberê Camargo de laranja e fiz um
trabalho que tinha muito a ver com o da Lunara. Era o oposto, o reverso
total.
AWB: Onde mais tu
fizeste exposições?
DENISE:
No 3º Salão de Porto Alegre...
AWB: Mas tu que foste
atrás ou teve alguém que te abriu portas?
DENISE:
Não, ninguém, de jeito nenhum. Sempre corri atrás, sozinha.
Mas depois de um tempo que a gente começa a trabalhar, começam a surgir
convites. Já conhecem o teu trabalho... Mas isso só depois de ter
trabalhado muito, de ter participado de diversos editais, de submeter o
meu trabalho a diversos júris e, depois de muitos terem sido aprovados.
AWB: Estas exposições
fora de Porto Alegre foram todas através de editais?
DENISE:
Tudo edital, praticamente.
AWB: Em Paris também?
DENISE:
Não. A de Paris foi uma outra história. Deixa-me continuar
na minha cronologia que eu chego lá. Eu comecei
a participar de editais para fora do Estado... Ah, logo depois que eu sai
do grupo Laranjas, eu participei de um grupo chamado El Paso, junto com a
Luz Maria Bedoya e o Armando Andrade, que são artistas peruanos. Este
contato com a Luz Maria ocorreu quando ela veio expor na ‘Obra Aberta’,
junto com a Maria Helena Bernardes. Ela também trabalha com fotografia de
uma maneira mais investigativa, o sentido do seu trabalho não está na
imagem fotográfica, está em desdobramentos disso. Resolvemos montar este
grupo e fomos convidados para expor na Galeria Xico Stockinger, na Casa de
Cultura. Depois disso eu nos inscrevi em um edital na
Fundação Joaquim Nabuco, passamos e eu fui para Recife.
|
 |
 |
|
À curta distância (detalhe à esquerda), (vista Geral à direita).
Intervenção. 02 fotos medindo 70x100cm
Galeria Xico Stockinger. Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre,
2003
|
AWB: Você é expert em participar de editais, preencher fichas,
fazer projetos...
DENISE:
Em uma época me dediquei muito a isso, mas atualmente,
estou com um pouco de preguiça. Cansa... Mas ganhei muita experiência com
isso, foi fundamental. Acho que você tem que passar por diversas
instituições, aprender a produzir um trabalho, saber como fazer, conseguir
um patrocínio aqui, outro ali...
AWB: Você mesma busca os
patrocínios?
DENISE:
Claro, sempre produzo os meus trabalhos. Determinadas vezes
são mais difíceis de conseguir do que outras. É uma coisa que você deve se
dedicar e não é a parte boa do trabalho, é a parte não tão agradável,
digamos assim. Você tem que dar uma de vendedora, vender a sua idéia para
ver se alguém banca.
AWB: E geralmente, no
teu caso alguém banca? Você já bancou sozinha?
DENISE:
Às vezes acontece de não ter a quem recorrer. Por exemplo,
este trabalho no Torreão é um dos que não tenho a quem recorrer, posso é
pedir uma ajuda de custo na impressão, um abatimento. Estes tipos de
coisas rolam se você divulgar a logomarca. Mas você consegue um patrocínio
mais fácil se tiver um catálogo, uma tiragem grande de convites. Mas como
o Torreão não tem isso. Existe um folder, mas com uma circulação mais
restrita é mais difícil. Mas, neste caso, o meu trabalho vai precisar
basicamente de um marceneiro, que não tem empresa, não pode me dar apoio,
não tem nem logomarca. Esse não vai ser um
trabalho caro, então é mais tranqüilo. Mas eu tive muita sorte, em quase
todos os meus trabalhos consegui patrocínio. A Fuji me patrocinou muitas
vezes. A Citylab também. Consegui um patrocínio maravilhoso com a
Fotosfera no Rio de Janeiro e acho que isso contou para eu
desenvolver uma relação legal com a Funarte. As instituições vêem o quanto
você batalha e sentem que podem confiar em você.
AWB: Como foi esta
aproximação com a Funarte?
DENISE:
Comecei a me inscrever para fora depois que os editais aqui em Porto
Alegre se esgotaram, eu já tinha passado no edital do Salão, no edital da
Lunara, na Casa de Cultura... Comecei a mandar para outras coisas. Mandei
para o Prêmio Chamex, que foi outro ponto
marcante na minha carreira, foi sensacional porque foi no
Instituto Tomie Ohtake. Era um prêmio super organizado... Mas também
tive que lutar um pouquinho... Eles selecionaram dois trabalhos meus, o
meu projeto de graduação e uma intervenção, que era o que eu mais queria
fazer. Mas, em cima da hora, eles me falaram que tinha ocorrido um erro e
que apenas o meu projeto de graduação havia sido selecionado. Disseram que
o júri havia selecionado muito mais trabalhos que o espaço comportava e
que tiveram que fazer alguns cortes, entre eles a minha intervenção.
Tentei explicar que eu não me importava de cortar um trabalho, mas que
fosse o outro, que deixassem a intervenção, que se chamava ‘A curta
distância’. Mas como para produzí-la, eu teria que ir para São Paulo... E
neste evento eles pagavam os custos... Então eles teriam que me pagar a
passagem, a hospedagem e tudo para eu ir para São Paulo... Enfim, eu disse
que tinha hospedagem lá e que com isso eles não precisavam se preocupar,
que seria só a passagem. Mesmo assim, alegaram que tinha sido decisão do
júri e que tinham que acatar. Mas sabe quando te bate uma intuição? Eu não
acreditava que tivesse sido decisão do júri... Neste dia casualmente eu
fui na casa da Karin Lambrecht e comentei com ela o meu problema. O
presidente do júri era o Agnaldo Farias e eles têm uma relação muito
próxima, tanto é que a Karin teve uma sala especial na Bienal de São
Paulo, quando o Agnaldo havia sido o curador. Perguntei para a Karin, por
ela ser uma artista experiente e por conhecer
o perfil desse júri, se ela achava que era
normal selecionarem e depois cortarem... A Karin tem uma coisa muito
legal, uma espiritualidade muito forte. Eu já tinha até mandado uma carta
para o Agnaldo defendendo o ‘A curta distância’... Mas foi muito bacana
ter conversado com a Karin porque ela me disse que estas coisas acontecem,
me contou alguns casos de Bienais, e disse que a gente tem que se manter
tranqüila e não bater de frente com as instituições. Não lembro exatamente
as palavras que ela me disse, mas quando cheguei em casa, me posicionei de
outra maneira com relação a isso. Eu estava muito indignada e frustrada
antes de conversar com ela. A Karin me tranqüilizou. Acredito que
tem uma coisa de postura que a gente assume e que faz diferença. Só de
mudar o teu conceito com relação à situação pode influenciar o resultado.
Foi inacreditável, tenho certeza que eles não se falaram, e logo em
seguida me liga o Agnaldo pedindo para explicar melhor o meu trabalho.
Achei esta atitude super legal e expliquei tudo, com bastante calma e
clareza. Eu queria fazer com projeção e ele me disse que não seria
possível, pois todas as projeções seriam concentradas em um só espaço. Ele
me perguntou se eu poderia resolvê-lo de outra forma. Eu disse que sim,
com a fotografia. Ele me mandou ir para São Paulo resolver isso logo em
seguida. Fui, e foi maravilhoso. Ele me deixou trazer o outro trabalho
também, mas mais enxuto. Cheguei lá e o montador estava arranjando um
monte de problemas, ele me disse que eu estava com um dos melhores
espaços, mas eu disse que não funcionava para o ‘A curta distância’. Ele
já estava perdendo a paciência comigo, todos os espaços que tinham não
serviam... E não tinha muito espaço sobrando... Eu queria ir para o lado
de fora, mas o Instituto tem umas normas super rígidas, as salas têm que
estar ocupadas e as exposições têm que ficar dentro das salas. Eu disse
que não dava naqueles lugares e chamamos o Agnaldo. Em meia hora ele
estava lá, achei super bacana a postura dele. Um curador da importância
dele se preocupando assim com uma jovem artista. Ele já sabia quem eu era,
sabia tudo do meu trabalho, concordava que os espaços não serviam. Ficamos
procurando espaços e ele me sugeriu uma escada. Eu disse que era
sensacional, mas teria um problema: eu precisava da imagem no mesmo ponto
de vista do espaço, não poderia deslocá-los. Precisava de uma parede junto
à escada, e o Agnaldo pediu para o montador fazer uma parede para mim.
Resolvemos o trabalho, construíram a parede e eu consegui o patrocínio da
Fuji para fazer a foto. Quando eu volto para Porto Alegre, depois de um
tempo recebo um e-mail dizendo que eu tinha sido premiada. Não acreditei,
foi sensacional. O meu prêmio era uma viagem para Londres dentro do
projeto Dinamic Encounters
International Art Workshops.
|
 |
|
Á Curta Distânica. Premio Chamex e Arte
Jovem, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo
Fotografia sobre parede 220x180cm. Intervenção , 2004.
|
AWB: Como é este projeto?
DENISE:
É organizado pelo Charles Watson, um inglês radicado no Rio
de Janeiro. Ele já foi
diretor do Centro de Artes do
Hélio
Oiticica, hoje dá aula no Parque Lage que é uma das maiores referências em
termos de ensino em artes... Então o Charles organiza as viagens da
seguinte forma: além dele, ele chama mais uns três ou quatro professores
que são geralmente críticos muito conhecidos, ou diretores de instituições
importantes, ou artistas bem sucedidos que tenham o dom da palavra, que
saibam dar aula bem. Aí ele monta um grupo de viagem para fora do país,
monta um roteiro, então os brasileiros têm aulas nas maiores instituições
estrangeiras com grandes professores. Mas não são aulas normais. O Charles
tem um acesso inacreditável. Os curadores dessas instituições vêm nos
receber e nos explicar coisas que jamais perceberíamos como um visitante
comum. Por exemplo, lá em Londres a
Tate Modern
abriu duas horas antes para nós. A curadora de lá fez um percurso completo
conosco nos explicando falhas de curadoria. Ela nos disse que dividiam as
obras por temas e não de forma cronológica porque tinham falhas no
acervo... Coisas assim tu não escutas de qualquer pessoa. Ela nos explicou
quais eram as falhas, qual o sistema de aquisição da Instituição, qual a
política cultural deles, o que estava mudando, como era antes e como é
agora... A gente também visita ateliês de artistas inacreditáveis... Os
maiores artistas do momento abrem o ateliê para a gente ‘xeretar’ todos os
trabalhos que eles estão fazendo, perguntar tudo... Esse projeto é
maravilhoso, um upgrade fundamental. Este era o prêmio do segundo
lugar do Prêmio Chamex de Arte Jovem.
AWB: E o primeiro lugar
era o quê?
DENISE:
Pois é, quando liguei para o pessoal da coordenação do
Prêmio a moça que me atendeu me disse que não entendia porque esta viagem
era o prêmio do segundo lugar, pois era melhor do que o do primeiro. Eu
fiquei 15 dias e o primeiro lugar ficava um mês, mas ficava numa
residência de uma escola e não tinha tudo isso que eu tive. Sinceramente,
se fosse 15 dias junto com o grupo do Charles e mais 15 dias sozinha,
seria mais legal. Mas não, era um mês sem esta orientação. Ir sozinha para
Londres não tem tanta graça do que ter todas estas aulas. O sensacional de
tudo isso é que o Charles tem uma didática, um método ótimo e ele instiga
que os alunos participem muito, ele quer sempre ouvir as nossas posições.
E ele gostou porque eu fazia muito isso, toda hora perguntava, me
posicionava e acabei desenvolvendo uma amizade muito grande com o grupo,
os laços que eu fiz nesta viagem duram até hoje. E uma destas pessoas
insistiu muito para o Charles e disse que se eu não fosse na próxima
viagem ela também não iria. Esta pessoa freqüentava as viagens dele todo
ano, ele faz duas destas viagens por ano. E a pessoa disse que ele tinha
que me contratar. Um dia, na National Gallery o
Charles me perguntou se eu gostaria de trabalhar com ele. Claro que sim.
Mas esta história ficou no ar. Aqui no Brasil ele também faz essas
viagens, durante as Bienais. E quando eu fui para o Rio de Janeiro na
exposição da Funarte a gente se encontrou e ele me disse que estava quase
certo que eu iria para a próxima viagem, mas que a viagem da Itália falhou
e ele teve um prejuízo muito grande, tinha os gastos da divulgação, dos
adiantamentos de reservas e não tinha fechado o grupo mínimo... Era uma
viagem sobre o Renascimento na Itália, seria uma loucura, mas acho que o
pessoal procura mais o contemporâneo mesmo... Ele disse que estava certo
que iria me contratar, mas que seria muito caro, o custo da viagem é
caríssimo e com essa furada ficou mais difícil. Mas que, como prêmio de
consolação me daria uma bolsa de estudos no grupo da Bienal de São Paulo
se eu tivesse como ir e me hospedar. O meu pai hoje mora em São Paulo e
meu namorado passa bom tempo lá, e isso facilita as coisas. E estava bem
perto em função de uns trabalhos no Rio...
AWB: Aí você foi para
São Paulo?
DENISE:
Sim, mas disse para o Charles que não seria um prêmio de
consolação, eu estaria fazendo um teste. Nós tínhamos combinado
anteriormente que eu seria testada na Bienal de São Paulo para trabalhar
como documentarista nas viagens. Disse: ‘eu vou trabalhar, levar a minha
câmera, meu equipamento e te apresentar uma proposta de trabalho’. Aí fui,
fotografei tudo, fiz textos críticos, resumos do que foi discutido e
apresentei uma proposta de trabalho. Ele adorou, disse que nunca ninguém
tinha feito aquilo sobre o seu projeto e que se o próximo grupo de viagem
saísse ele iria me procurar.
AWB: E isso aconteceu?
DENISE:
Bom, então rolou a exposição em Paris. Vou explicar como
isso aconteceu. Eu participei da exposição da Funarte através de edital de
seleção. Foram umas 600 inscrições. Eles selecionaram 60 artistas e
dividiram em quatro exposições. A minha exposição era a primeira e a mais
arriscada. O próprio Ivan Pascarelli que
é o coordenador dos Projéteis Funarte de Arte Contemporânea, me ligou e
disse que estavam com um problema porque a sala de exposições estava em
obras. Já sabiam como era o meu trabalho, mas que apesar da obra, faziam
questão que eu fizesse parte da primeira exposição. Eles queriam inaugurar
a galeria com um trabalho de especificidade. Queria saber se eu tinha
condições. O prazo era super curto, a sala estava sendo restaurada... Como
eu iria fazer as imagens do lugar com obras? Mas aceitei o desafio, adoro
isso. Eu tinha ido expor em Recife na Fundação Joaquim Nabuco e
aproveitei, desdobrei minha passagem, passei no Rio e consegui fazer
somente a primeira imagem. Só a frente da galeria estava limpa, o resto
estava com a obra. Tomei um susto quando cheguei na galeria, era imensa e
o trabalho que eu tinha planejado no computador na escala real deveria ter
7 metros. Nós tínhamos um cachê de produção de R$ 1 mil e isso não era
suficiente. O orçamento era de R$ 5 mil. Fiquei
desesperada e o Ivan disse para buscar patrocínio ou diminuir o trabalho.
Mas diminuir seria uma pena. Ele me indicou um pessoal que poderia pedir
patrocínio e sendo os últimos os menos prováveis. Era a Fotosfera. Tentei
todos e na última opção, falei com o cara da Fotosfera já rezando...
Consegui o patrocínio. Eu não acreditei e muito menos o pessoal da Funarte.
Eles viram que eu vou atrás das coisas. Muitos artistas do Rio de Janeiro
já haviam tentado patrocínio com a Fotosfera e não tinham conseguido. Eu
dei sorte de falar com a pessoa certa no momento certo.
|
 |
|
A certas Distâncias. Projéteis de Arte Contemporânea, 2004. Funarte.
Rio de Janeiro
Plotagem sobre parede. 740x355cm. Intervenção. 2004 |
 |
 |
|
A certas Distâncias. Projéteis de Arte Contemporânea, 2004. Funarte.
Rio de Janeiro
Plotagem sobre parede. 220x180cm (cada imagem). Intervenção. 2004 |
AWB: Você acredita nisso?
DENISE:
Às vezes
isso acontece. Você tenta várias vezes e chega um momento que as coisas
acontecem. A Fotosfera era a menos provável pelo que me diziam, então acho
que teve um componente de sorte de ter falado com a pessoa certa dentro
daquela empresa gigante. Existe uma conjuntura, sorte e muito esforço.
Consegui realizar este trabalho que era praticamente impossível e foi
super bem visto. Duas coisas se desdobraram deste trabalho. Uma eu nem
sabia, as exposições da Funarte estavam sendo avaliadas por oito curadores
e eles
selecionaram doze
artistas para ir para Paris. Ninguém sabia disso. Fui uma das indicadas.
Fui para Paris. A segunda coisa que aconteceu foi que, como o pessoal da
Funarte viu que eu batalhava muito, trabalhava e topava muitas coisas,
passaram a me contratar como fotógrafa. Viram que o meu trabalho como
fotógrafa também era bom. Sentiram que podiam contar comigo. Mandaram-me
para Macapá para registrar o trabalho da Elida Tessler, foi ótimo. Com
isso, participei da Rede de Artes Visuais da Funarte, que proporciona
trocas de artistas de diferentes partes do Brasil... É uma conquista.
Chamaram-me também para fotografar o ‘Rapto Relâmpago’ e as “Infiltrações
no Pilotis”, no Rio de Janeiro, foi uma performance na Funarte, fui a
última pessoa a fotografar a Márcia X antes de sua morte... Essas fotos
foram expostas na Funarte e publicadas em diversos jornais...
AWB: E como foi em
Paris?
DENISE:
Bom, eu tinha a passagem. A Funarte pagava a passagem, a
hospedagem e um cachê. Fiz o trabalho, projetei tudo, enviei num navio,
tudo certinho. Passei pelo Rio de Janeiro em uma outra exposição que fiz
em uma galeria comercial, e encontrei o Charles e disse: ‘Você está indo
para Paris, e eu estou indo para lá também um pouco depois, posso adiantar
a minha passagem, vamos trabalhar?’. E ele me disse: ‘Vamos, perfeito,
você está contratada, você quer ir para a Bienal de Veneza também?’ Eu
falei que queria é claro, e ele resolveu pagar as passagens internas na
Europa e a minha hospedagem. Eu já tinha as passagens continentais por
causa da Funarte. Perfeito, a Funarte me pagava cinco dias em Paris e eu
ficaria um mês trabalhando no Dynamic Encounters. As datas fechavam
perfeitamente, iria antes para Paris e trabalharia no grupo até o dia 11
de junho, depois ficava cinco dias pela Funarte montando a exposição e em
seguida viajaria com o grupo do Charles para Dusseldorf e Veneza. Mas, foi
uma loucura para a emissão da minha passagem. A Funarte teria que emitir
inicialmente para depois trocar a data, pagar a multa de remissão, fazer a
inclusão dos outros trechos, etc. Mas na véspera, a exposição da Funarte
havia sido cancelada por tempo indeterminado. Fiquei desesperada. Fiquei
tão indignada que mandei uma carta... Até mostrei para o meu pai que hoje
é editor para ele revisar e ver o que achava... E ele me disse que eu iria
me queimar tanto, que nunca mais iriam me chamar para nada, que a minha
carta era um absurdo, que eu estava até falando que o dinheiro havia sido
roubado... Eu realmente dizia algo que poderia ser interpretado assim, mas
claro que com tons formais. Puxa, um baita projeto foi montado, contratam
as pessoas, inicialmente eu arquei com os custos do projeto, depois com o
cachê eu seria reembolsada, mas até então eu desembolsei... Como assim, as
pessoas trabalham um tempão, se organizam na agenda e de repente a
exposição é cancelada por tempo indeterminado? Pensei. Das duas uma: ou a
organização foi totalmente incompetente e não soube fazer um orçamento
completo e contrataram sem ter previsões de custos fechadas, ou, não sei o
que é pior, o dinheiro que estava destinado foi utilizado para outros
fins... Mandei esta carta para o presidente-geral da Funarte e disse que
nós artistas iríamos nos organizar, que iríamos para a mídia... No dia
seguinte tudo estava resolvido, inacreditável. As verbas reapareceram, o
projeto foi enxugado, mas teria um atraso de uma semana. Me ralei no meu
cronograma. As emissões das passagens só sairiam uma semana depois, ou
seja, eu teria a passagem na mão só depois da data que já deveria estar em
Paris. O Charles foi sensacional e disse que não era para eu me
desesperar, pois eu iria, ele emitiria a minha passagem, mas deixaria de
me dar uma ajuda de custo para diária-alimentação... Tudo bem, pois o
valor da passagem era muito maior, a passagem tinha aquela tarifa de
véspera, eu iria viajar no sábado e recebi a passagem na sexta, é a pior
tarifa que se pode ter...
|
 |
|
A algumas distâncias. Trajetórias;El Paso, Galeria Vicente do Rego
Monteiro, Recife, Intervenção, 2004
|
|
 |
AWB: E aí
você foi?
Denise:
Fui, fiz a exposição e o trabalho no Dynamic. Foi uma experiência
sensacional. Visitamos artistas maravilhosos como o Christian Boltansky, o
Thomas Ruff, que é da fotografia, que me interessava muito, mas que vi que
não era tudo aquilo que eu pensava, a Katharina Fritsch, Tony Craigg,
Thomas Schütte, que ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Veneza, entre
outros... Visitamos a Bienal de Veneza...
AWB: Você foi quando?
Agora há pouco?
Denise:
Fui em 28 de maio, voltei em 28 de junho. Acabei de chegar. Os professores
que foram com a gente eram muito legais, tinha o Reinaldo Roels, que é o
diretor do Parque Lage, a Viviane Matesco, que é também professora lá, o
Luiz Ernesto, artista plástico, o Eduardo Brandão, dono da
Galeria
Vermelho, o Agnaldo Farias, o Fernando Cocchiarale, que é o curador do
MAM
do Rio de Janeiro, o Milton Machado, artista plástico... Um monte de gente
bacana... Foi uma experiência de vida, é um projeto ótimo. E o legal de
tudo isso é que existe chance de eu estar contratada para as próximas
viagens. No final do ano, por exemplo, será para Nova York, não sei se ele
vai me chamar, mas acredito que sim. Tomara! Vou torcer porque é ótimo...
AWB: E até
lá?
Denise:
Até lá estou trabalhando bastante. Tem a minha exposição no Torreão,
também tenho que me concentrar muito porque estou no mestrado, quando
esses trabalhos voltarem de Paris vão para uma galeria em Belo Horizonte,
a galeria da Celma Albuquerque, uma galeria muito bacana, acho que em área
de metros quadrados é a maior galeria da América Latina... Então, tenho
que me concentrar nessas coisas. Estou trabalhando muito, estou bem louca
escrevendo uns trabalhos para o mestrado, e é isso.
AWB: E o teu
dia-a-dia, como é?
Denise:
Bom, meu dia-a-dia depende, todos os dias são diferentes uns dos outros.
AWB:
Isso é bom ou ruim?
Denise:
Acho que é ótimo, tenho uma flexibilidade muito grande, mas claro que todo
dia de manhã eu acordo, vejo a minha agenda, organizo meu dia, vejo o que
tenho que fazer, o que está pendente, o que não está, as coisas que não
consegui fazer no dia de ontem, e assim vai. Mas o meu dia varia muito, só
o fato de agora eu estar voltando a estudar, todo semestre é diferente...
AWB:
E o teu momento de criação?
Denise:
Todo momento é o momento, é sempre, não tem um momento específico.
AWB:
Em que você se inspira? Na vida?
Denise:
Em várias coisas. Por exemplo, esse trabalho para o Torreão, tem a ver com
uma coisa completamente turística que vi em Canela, que todo mundo ficava
olhando e achando normal eu achei sensacional. Mas a minha inspiração vem
também de todos os artistas que admiro.
AWB:
Quem são os artistas que você
admira?
Denise:
Vários, para começar aqui por Porto Alegre, todo mundo do projeto Areal.
AWB:
Nos conte sobre este projeto...
Denise:
O projeto Areal é coordenado pela Maria Helena Bernardes e o André
Severo. É um projeto que iniciou com a intenção de viabilizar os projetos
dos artistas, cujos trabalhos não tem uma visibilidade institucional, ou
seja, um tipo de trabalho que não poderia ser realizado no modo como o
sistema das artes se articula hoje. Já participaram do Areal a
Karin
Lambrecht, a
Elaine Tedesco, o
Hélio Fervenza, além dos coordenadores. O
projeto Areal começou com trabalhos que eram feitos em cidades aqui no
interior do Rio Grande do Sul, como Bagé, Mostardas, Arroio dos Ratos,
entre outras. Enfim, eram projetos difíceis de serem viabilizados. Não tem
instituição que viabiliza um projeto assim. Ainda mais um projeto que não
tem visibilidade, não tem público, é uma ação que acontece e que não é
exposta, é compartilhada de outra forma, através dos livros, a série
‘Documento Areal’. Essa é a forma de divulgar o que aconteceu, e o livro
em si é considerado como um trabalho. Cada autor pensa exatamente como é
que o seu trabalho vai estar em um livro, como é essa relação, entre
palavra, imagem e texto, nesse suporte que é o livro. Fui contratada para
fazer a execução desse material gráfico, foi uma experiência maravilhosa,
pois tive a oportunidade de conviver com cada um desses artistas durante
esse período de desenvolvimento e diagramação. Eu diagramava, a gente
discutia, eles vinham com as idéias bem precisas sobre o que eles queriam,
a gente via se era possível de executar ou não. Tudo isso foi uma
convivência bárbara com artistas mais experientes, daqui de Porto Alegre,
de outra geração. Eu acho super importante para quem está começando ter
essa oportunidade de conviver com artistas mais experientes.
AWB:
A quantidade de coisas que você
já fez, pela tua idade, impressiona às vezes...
Denise:
Pois é, deve ser por eu ter convivido com muitos artistas mais experientes
e por isso saber relativizar os meus feitos. É muito fácil quando a gente
começa a “dar certo”, se deslumbrar e achar que está “pronta”. Sou muito
imatura ainda, acho que meu trabalho está muito abaixo de muitas coisas.
Por exemplo, admiro esses caras para caramba, eles são meus heróis, e eu
sei que o
trabalho deles está muito além do que eu estou fazendo no momento, e o
fato de eu ter essa referência e ter isso como uma lanterna, iluminando um
caminho possível, é sensacional. Sei que tenho muita coisa a trilhar ainda
e tenho alguns trabalhos com um grau de visibilidade muito grande... Bom,
mas isso daria um papo para outra entrevista... O que é essa visibilidade?
Tem um monte de pré-conceitos e confusões de discernimento nessa história,
um monte de coisas para serem ditas, mas esse é um papo muito longo...
AWB:
E o que você diz sobre isso?
Denise:
O
André Venzon mencionou na entrevista no artewebbrasil que “hoje tem uma
exigência formal por parte dos nossos professores, nos requisitando a
trabalhar com o mínimo, com o sutil, com o nada, toda essa tendência e
tal”. Eu acho que tem muita coisa a ser discutida neste aspecto, mas penso
que a gente sempre tem que atentar que a arte é conteúdo, e que a posição
do artista é uma visão crítica a determinados conteúdos, conceitos, e
situações. Não é uma questão formal. De qualquer forma, tem um mercado em
torno de tudo isso, e esse mercado não significa necessariamente o artista
que vende, a gente está falando até de quem passa em um edital, sabe... Se
eu estou passando em um edital atrás do outro, quer dizer que o meu
trabalho tem uma determinada linguagem que faz parte da linguagem aceita,
no padrão, que ela faz parte de um circuito, faz parte daquela
visibilidade daquele momento, e isso é um mercado também, e a gente tem
que criticar isso mesmo, eu critico a minha própria produção em relação a
isso...
AWB:
Essa questão de se adaptar ao
que pode ganhar ou não?
Denise:
Eu jamais me adapto, não me preocupo com isso. Se a gente pensar nesses
termos, estaremos reduzindo o nosso trabalho a um mero produto. Às vezes
inconscientemente um trabalho acaba se tornando um produto, isso já é tão
difícil... Temos que ter tanto cuidado, se policiar tanto para isso não
acontecer, então intencionalmente eu jamais faria isso...
|
 |
|
Hiatos. Dimensão variável. Work-in-Progress. 2004
Imagens fotográficas em forma de cartaz de rua.
|
AWB:
Você vende seu trabalho?
Denise:
Vendo. Estou conseguindo entrar nesse circuito mais fechado das Artes
Visuais, e que é muito fácil de se deslumbrar, porque o trabalho passa a
valer muito, é uma coisa incrível, é muito fácil perder o senso... E é em
momentos como esse que vejo o valor dessa influência que tive dos artistas
do Areal e de artistas dos anos 60/70 que eles me mostraram... Eles
mostram que arte não é isso, não está no objeto, está muito mais na
autoria, na tua pessoa, no teu conceito, no teu desenvolvimento, na tua
contribuição como sujeito, como artista... No começo eu até pensei: ‘Pô!
Agora eu estou vendendo... Como vai ficar isso, como vai ficar a minha
produção?’. E vários artistas que admiro andam por fora desse mercado,
tanto no de galerias, quanto no institucional, e muitos artistas dos anos
60 que eu admiro criticam o mercado
porque chega em um
momento que isso vira moda, não há muita diferença entre a arte e a
moda...Enfim, tenho várias linhas de trabalhos simultâneas, tenho uma
linha que realmente mais passível de ser comercializada, e aí eu já entrei
em momentos de crise, de ficar pensando que estou me vendendo... Mas tudo
isso é palhaçada. Eu sei que estou sendo ética e não estou reduzindo meu
trabalho. Eu acredito que estou fazendo bem e que não faço concessões para
vender. Trabalho em várias linhas de pesquisa, e todas são
investigativas... Algumas eu investigo a imagem em si, e por isso são mais
vendáveis. E tenho trabalhos como este do Torreão. É maravilhoso poder
expor em um espaço como este, fazer uma intervenção em um espaço com toda
uma história, se inserir em um fluxo onde inúmeras respostas foram dadas
para a mesma pergunta – como ocupar esse espaço? São trabalhos diferentes,
que muitos devem pensar, como é que pode ser da mesma pessoa? Mas se
analisarmos bem tem um fio condutor, são as mesmas perguntas respondidas
de diversas maneiras. O Hélio Fervenza, que foi meu orientador na
graduação e agora é no mestrado, me ajudou a enxergar isso. Ele me apontou
para o fato de eu estar trabalhando com sintaxes visuais e sintaxes de
representações.
AWB:
E você sobrevive da sua arte?
Denise:
Me tornei independente financeiramente da minha família, recentemente.
Agora estou bem feliz, pois estou totalmente independente. Cada mês é um
mês, não sei dizer qual mês eu sobrevivi do trabalho artístico, ou quais
meses sobrevivi de design gráfico.
AWB:
Você também desenvolve um
trabalho de designer gráfica?
Denise:
Sim, além de ter trabalhado nas publicações ‘Documento Areal’, fiz a capa
para CDs da banda Cachorro Grande, da Pata de Elefante e do Júpiter Maçã.
O design gráfico foi a primeira coisa que me proporcionou rendimentos.
Atualmente, se eu conseguir viver menos de design gráfico, prefiro. Penso
duas vezes antes de topar um trabalho desses. Depende do meu mês,
atualmente eu estou muito feliz porque ganhei a bolsa no mestrado, e sei
que por um ano e meio estou tranqüila. Antes disso, eu fazia uma poupança
com os prêmios e cachês que recebia, também tive uma boa venda de
trabalhos...
AWB: Você está
vendendo muito ainda?
Denise:
Estou trabalhando esporadicamente com algumas galerias. Neste mês não
tenho nada em galeria, mas terei em breve. Tenho alguns colecionadores que
se interessam pelo meu trabalho... Olha como as coisas surgem... Na
exposição que fiz na Funarte no Rio, uma jovem curadora, a filha do Paulo
Sérgio Duarte, a Luiza Duarte viu o meu trabalho e gostou. Depois ela foi
chamada para ser curadora de uma exposição de jovens artistas na
Silvia
Cintra, que é uma galeria super legal lá do Rio de Janeiro, e aí ela me
ligou perguntando se eu teria interesse, e me pediu para que enviasse o
que achava que seria legal para uma galeria. Começamos a trocar idéias,
escolhemos um trabalho... Por isso que falo que tudo é aprendizado... Esse
meu trabalho não dava naquele espaço, por incrível que pareça, a galeria
não tinha duas paredes brancas que se encontrassem, pois era toda de
vidro... Então tive que remodelar o trabalho, e com isso, acho que tive um
ganho tão grande... Que bom que não tinham as paredes brancas, pois ficou
sensacional, o desafio que toda circunstância te impõe, você só cresce com
isso. E eu tive uma sorte... O Gilberto Chateaubriand viu o convite da
exposição, gostou e comprou o meu trabalho, no que ele comprou, outros
dois compraram imediatamente. Quando cheguei na vernisage, já estava com a
tiragem vendida.
AWB:
Quem é que dá o preço da obra? É
você?
Denise:
Não, a gente conversa e define um valor para cada obra. Quando a galeria
banca o custo de produção, dividimos em 50%. Podemos até pensar que é
pouco para o artista, mas é a galeria que tem os contatos, o Gilberto
jamais veria o meu trabalho se ele não saísse da minha casa, então eu acho
justo. Quando a galeria não banca o custo de produção, daí é 30% que eles
ganham. Essa história do Gilberto foi muito legal porque, logo em seguida,
o conselho curatorial do MOMA veio para o Brasil e o
MAM organizou uma
grande exposição em comemoração aos 80 anos do Gilberto e os 40 anos de
coleção dele, dividiram a exposição por décadas, e tinha um segmento que
se chama Arte Brasileira Hoje, e eles colocaram o meu trabalho da coleção
do Chateaubriand em exposição e está até hoje.
AWB: Como são as suas tiragens?
Denise:
Pequenas, três unidades... Esses de Paris acho que vou fazer 4...
AWB:
E sob encomenda você faz alguma
coisa?
Denise:
Não. Mas aconteceu de pessoas me dizerem que querem comprar um trabalho
meu, e eu dizer que quando tiver produzindo um trabalho novo, aviso.
AWB:
Bom Denise, para finalizar, você
gostaria de falar alguma coisa que ainda não tenhas dito?
Denise:
Eu sou capaz de falar por horas...
AWB:
E sobre o artewebbrasil, o que
você tem a dizer?
Denise: Acho o site super bacana, mas gostaria de dar uma sugestão:
Colocar novamente os textos antigos no ar.
AWB: Em breve estarão
disponíveis para download.
Agradecemos pela entrevista.
Denise:
Eu que agradeço. |