a t e l i ê

 


   

 

Uma garota determinada
por Kerlin Dutra, artewebbrasil




Foto : Miriam Dutra

 



Quem conhece Denise Gadelha percebe desde o primeiro momento que ela sabe o que quer da vida, da arte e do seu próprio trabalho. Com apenas 24 anos tem uma experiência digna de quem não fica esperando as portas se abrirem. Denise vai atrás, busca aperfeiçoamento constante, não dispensa uma leitura, fica atenta às novidades, desenvolve o seu olhar e o seu posicionamento diante da história da Arte, cria, produz e não tem medo de colocar a ‘cara para bater’, como diz. Denise não veio ao mundo para passar em branco, e isso você pode conferir na sua entrevista exclusiva para o artewebbrasil.



 

AWB: Como começa a tua história nas Artes Plásticas?
DENISE:
Desde pequena eu queria ser artista, uma idéia que não sei de onde tirei especificamente. Na realidade foi uma conjunção de fatores. Tive uma grande influência da minha meia-irmã mais velha que tinha uma história relacionada a isso. Além disso, fui matriculada em vários cursinhos de artes quando era pequena. Teve um fato emblemático que demonstra bem esta convicção. Quando eu tinha 14 anos fiz um curso de interpretação de sonhos, era um curso de psicologia. Eu era a ‘fedelha’ do grupo, não tinha ninguém da minha idade, todas as pessoas estavam trabalhando na área. Todos tinham que se apresentar, uns diziam que eram psicólogos, outros médicos e eu disse que era artista plástica.

AWB: Você já disse que era?
DENISE:
Disse. E todos devem ter pensado: ‘Como uma ‘fedelha’ de 14 anos está dizendo que é artista plástica?’ O mais engraçado foi que fiquei muito próxima durante algum tempo de alguns destes colegas, e aqueles que riram quando me apresentei como artista plástica, depois quando eu já tinha uns 20 e poucos anos disseram: ‘Não é que ela era mesmo uma artista! Ela já sabia o que queria!’

AWB: Você sempre quis ser artista. Mas o que você fazia quando era criança?
DENISE:
Fazia várias coisas. Com 14 anos eu já estava pintando, apesar de ainda ter uma idéia muito vaga das coisas. Acho que algo que me deu força para insistir nesta área foi quando eu passei num salão em Santos em 94, o Salão Primeira Mão de Arte Jovem, do Centro Cultural Brasil - Estados Unidos. Tive dois trabalhos classificados, participei da exposição...

AWB: Mas você tinha apoio da sua família? Quem te levava para fazer estas coisas?
DENISE:
Sim, me matriculavam em cursos, compravam materiais pra mim... A minha mãe me incentivou a fazer várias atividades desde quando eu era pequena, me matriculava em escolinha de esportes, ballet, essas coisas. Eu tentava tudo, mas depois de seis meses já desistia. Só ficava nas escolinhas de arte. Começou por aí. Aconteceu uma coincidência muito grande, pois eu era aluna de uma escolinha de arte chamada ‘A Casa’, que é onde o Leandro Selister está morando hoje, na Rua Cabral. Eu tinha uns nove anos. Ali era uma escolinha de arte muito bacana e a que mais me apaixonei. Quando a escola fechou, foi até um problema para a minha família, pois eu dizia que não sabia mais o que iria fazer da minha vida sem aquela escola... E a coisa mais louca de tudo e que eu não sabia, é que uma das organizadoras desta escola era a Maria Helena Bernardes, que depois veio a ser minha orientadora e é uma das minhas principais referências. Descobri isso quando estávamos conversando e contei que fiz uma escolinha que me marcou profundamente e ela me perguntou o nome, quando eu disse ‘A Casa’ e ela me contou que fazia parte do projeto, não podíamos acreditar em tal coincidência!

AWB: Mas desde pequena você expõe?
DENISE:
Sim, tinha estas exposições pequenas nas escolinhas e eu já estava acostumada a este ritmo. ‘A Casa’ fazia exposições no final do ano, depois passei para outra escola e também tinha exposições. Mas a princípio para todos os meus colegas era um hobby, uma distração, um brinquedo.

AWB: Você freqüentava o colégio normalmente?
DENISE:
Normal. A arte era uma atividade paralela, assim como tem pessoas que estudam pela manhã e pela tarde jogam vôlei.

AWB: Que tipo de trabalho você gostava de fazer quando pequena?
DENISE:
Um pouco de tudo. Ficava experimentando. Lembro de ter feito uma maquete na ‘A Casa’, que me impressionou muito, era um ambiente completo e eu ficava inventando narrativas de quem morava naquele lugar. Mas fazia um pouco de tudo. Entretanto, o que eu acho mais decisivo na minha carreira, foi quando fiz 16 anos e tinha que decidir qual vestibular iria fazer. A minha família, obviamente, não apoiou as Artes Plásticas, diziam que eu tinha que procurar uma profissão que me desse dinheiro... Eu fiquei chateada e resolvi fazer Psicologia, pois era a segunda coisa que mais me interessava. Optei por fazer na Unisinos, pois a linha que me interessava só tinha lá. Aí cheguei para meus pais e disse: ‘Ou eu faço Artes Plásticas, ou eu faço Psicologia, mas se for Psicologia quero estudar aquela linha da Unisinos. Só me interessa se for lá, se vocês puderem pagar legal, se não vou investir no meu sonho’. E eles disseram para eu fazer Psicologia, pois precisava de uma profissão que me desse sustento e segurança para a vida. Entrei na faculdade de Psicologia, mas acho que foi uma estratégia, não sei dizer se inconscientemente ou não.  Uma vantagem da Unisinos ser particular é que com isso tive liberdade para fazer o outro vestibular na UFRGS. No ano seguinte me matriculei no vestibular de Artes Plásticas na UFRGS. Simplesmente informei: ‘Gente estou matriculada no vestibular de Artes Plásticas, vou fazer’. E passei. A princípio seria uma atividade paralela, meu hobby. Mas depois de fazer um ano de UFRGS, cheguei para eles e disse: ‘Sinceramente, vocês estão investindo muito dinheiro em mim. A Unisinos não é uma universidade barata, e não é o que eu quero para a minha vida. O meu sonho é fazer Artes Plásticas, vou me realizar fazendo isso. Essa coisa de profissão que não dá dinheiro... Em primeiro lugar, só vai dar dinheiro se eu estiver satisfeita com o que estou fazendo... E cada vez mais vejo que Psicologia não é o que quero para mim’. Disse ainda para eles: ‘Fiquem tranqüilos porque vocês não desperdiçaram dinheiro, não enganei vocês, aliás, tentei ser clara desde o início... Mas todo o investimento foi bem feito, pois na Psicologia aprendi a escrever rápido, aprimorei a redação, tive aulas de Antropologia, análises do sujeito da modernidade, etc...’ Tudo isso me deu um background, uma base para as Artes Plásticas que uso até hoje, acho que foi sensacional. Talvez eu até tivesse que buscar isso de propósito, ao entrar nas Artes Plásticas talvez sentisse uma necessidade de fazer alguma das Ciências Humanas para dar um amparo maior. Então acho que isso foi super bacana, mas chegou um momento que resolvi trancar a matrícula e ficar só nas Artes Plásticas.

AWB: Você ficou apenas com as Artes Plásticas...
DENISE:
Sim, me formei ano passado e já entrei direto no mestrado.

AWB: Como foi a seleção para o mestrado?
DENISE:
Foi uma coisa louca pra mim, um impulso. Quatro dias antes do prazo final das matrículas resolvi que queria tentar... Mas havia aquele preconceito de que quem acabou de se formar não passa na seleção...

AWB: É um mito isso?
DENISE:
Deve ser. E eu lembro que no dia que estava entregando a inscrição, encontrei uma amiga que me disse: ‘Ah, por que você está perdendo seu tempo?’. E eu: ‘Como assim?’ E ela: ‘Eles não vão te passar nunca, tu acabaste de te formar’. Não é bem assim... Tem mais dois colegas que se formaram comigo e que também estão no Mestrado. Não tem nada a ver, acho que o que importa é a qualidade do projeto. Fiz o meu quatro dias antes, por isso foi uma loucura...

AWB: Você é bem decidida, não é? Quando anos você tem?
DENISE:
Tenho 24 anos. Sou decidida, desde o início. Esta luta para fazer o curso de Artes Plásticas só aconteceu porque eu sabia o que queria para a minha vida. Acho que tem muita gente que entra no curso como segunda opção no vestibular. Não passou na primeira opção e foi parar nas Artes Plásticas. Vários dos meus colegas tinham passado na segunda opção, começaram a cursar a UFRGS para ver se podiam aproveitar alguma disciplina ou até mesmo só para não ficarem parados. Depois acabaram ficando até o final do curso, mas não tem aquele sonho de vida, aquela motivação. Acabam ficando muito paralisados. Tem muita gente que espera se formar para começar a trabalhar... Acho isso um absurdo, uma perda de tempo, pois trabalhar nisso é uma paixão pra mim, se não tivesse a oportunidade de fazer a faculdade, estaria trabalhando igual, buscando outros meios, graças a Deus eu consegui...

AWB: Você se considera uma artista nata?
DENISE:
Não acredito nestas coisas de “dom”. Acho que tudo é uma questão de interesse. Não existe esta coisa de talento nato. Acho que se a pessoa for atrás e tiver interesse, se informar, estudar, se dedicar, ela consegue. Eu sou apaixonada pelas Artes, mas poderia ser por qualquer outra disciplina. Sou também apaixonada por música, estou sempre comprando discos, buscando novidades, baixando músicas pela internet, mas nunca tive persistência de estudar um instrumento, de aprender a tocar. Então não posso me transformar em uma música de uma hora pra outra. Tudo é uma questão de interesse e dedicação. A paixão de ir atrás das informações e saber usufruir disso é fundamental. Desde pequena eu vou a exposições...

AWB: Mas quem te levava nas exposições?
DENISE:
A minha família sempre me colocou em um ambiente cultural muito bom, me levavam em tudo, teatro, exposições...

AWB: Você é nascida em Porto Alegre?
DENISE:
Não, sou de Belém do Pará. É uma história tão longa...

AWB: Como assim?
DENISE:
Minha mãe resolveu fazer uma excursão pelo Norte e Nordeste com algumas amigas, sendo que ela tinha uma amiga em comum com a Karin Lambrecht. Eu não sabia nada disso. Na verdade elas não são amigas, elas têm uma amiga em comum e nesta circunstância estavam juntas. Aí elas estavam viajando e quando chegaram em Belém do Pará, conheceram o meu pai. A minha mãe então falou: ‘Meninas, sigam a viagem adiante que eu me apaixonei e vou ficar em Belém’. E ela ficou. As outras continuaram a viagem. A mãe casou. Depois de um ano que eu nasci, o negócio ‘degringolou’ total e ela resolveu voltar para Porto Alegre. Nós ficamos aqui e eu fui criada pela minha mãe e pelos meus avós maternos, mas todo o ano visitava o meu pai, onde ele estivesse. Desde os dois anos de idade eu viajo sozinha. Estou acostumada a viajar.

AWB: Tua mãe é gaúcha? Qual o nome dela?
DENISE:
Sim, o nome dela é Clarissa Ruschel.

AWB: Foste criada de forma bem independente, não é?
DENISE:
Pois é... Imagina na cabeça de uma mãe ver uma criança de dois anos viajando sozinha... Tem criança de dois anos que não deixa a mãe ir até a esquina que já se desespera... A mãe achou que na primeira vez eu iria chorar e não iria embarcar de jeito nenhum, mas eu fui. Cheguei a viajar seis, sete horas sozinha...

AWB: Teus pais fazem o quê?
DENISE:
Ela é dentista e meu pai... Bom ele já foi várias coisas. Na época que ele conheceu a minha mãe acho que era jornalista e tinha uma empresa de Publicidade e Propaganda. Mas ele já foi corredor de kart, chefe de cozinha brasileira no Japão... Nesta época eu tinha quatro anos de idade e não pude ir para o Japão porque era muito pequena... Meu pai me chamou, mas a minha mãe não deixou... A minha irmã mais velha que tinha oito anos foi.

AWB: Tua irmã?
DENISE:
Só por parte de pai. Mas enfim, a história doida é que depois de muitos anos eu fui trabalhar com a Karin, fui fazer uma colaboração no livro dela, e na época eu ainda morava com os meus pais...

AWB: Com a tua mãe...
DENISE:
Morava com a minha mãe e com o meu pai adotivo que me criou desde pequena, desde os seis anos. Neste dia eu disse para a minha mãe: ‘Vem uma artista aqui em casa, ela é super importante, vamos recebê-la bem, é a Karin Lambrecht’ E a minha mãe disse: ‘Denise, vou te contar uma história do teu passado...’.

AWB: Você não sabia de nada?
DENISE:
Não, a gente nunca mais tinha conversado sobre isso. E às vezes brinco: ‘Poxa, elas estavam juntas, a Karin quase podia ter sido minha mãe...Mas enfim... Estas são histórias do passado.

AWB: Você foi uma criança bem independente, não é?
DENISE:
É, a minha história de vida já é diferente... Todo o ano eu viajava para visitar o meu pai, conhecia lugares diferentes, fui perdendo alguns medos e abrindo novos olhares. Era uma coisa totalmente estranha... Acho que isso fez alguma diferença.

AWB: E como foi o teu desenvolvimento como artista?
DENISE:
Estava louca para falar sobre isso, pois acho que estas histórias do passado e da família não têm muito que contribuir para os outros, pois ninguém muda a sua história individual, isso é fato. Mas, acho importante dizer para os leitores que eu sempre me dediquei muito a buscar informações e a me aproximar de pessoas que contribuíram para a minha formação. Por exemplo, eu considero a Maria Helena Bernardes fundamental na minha formação.

 

AWB: Qual o papel da Maria Helena Bernardes neste processo?
DENISE:
Eu a conheci em 2000, em um Festival de Arte no Atelier Livre. Isso é super legal... Acho que temos que prestigiar os festivais, principalmente quando trazem artistas legais... Acho que desde que eu entrei na faculdade, freqüento todos os festivais... Devemos estar sempre atentos às informações e às oportunidades de troca. Então conheci a Maria Helena em um festival, em uma oficina chamada ‘Perguntas e Respostas sobre a Arte Contemporânea’. Isso foi um marco para mim. Eu achei aquela mulher fantástica... Tinha um ponto de vista, uma clareza, uma facilidade de te fazer entender e um senso crítico inacreditável... Ela não passava apenas a informação, passava a informação de forma que o aluno entendesse a sua linha de raciocínio e ele mesmo pudesse elaborar seus questionamentos e ter a sua própria visão crítica. Então, mais do que passar informações é te ensinar a tomar uma posição. Eu achei isso fantástico. Considero a Maria Helena como uma das pessoas mais marcantes da minha vida. A partir disso, eu e mais alguns colegas, ficamos no ‘pé’ dela. Dissemos que queríamos a orientação dela... E ela disse: ‘Se vocês fizerem um grupo de orientação, eu oriento’. E aí a gente organizou um grupo que se reunia na casa da minha mãe... E a gente teve este grupo durante um ano ou dois... Não me lembro direito... Fazíamos encontros esporádicos para orientação de trabalho. Foi sensacional. A freqüência dos encontros era de acordo com a rotina da Maria Helena e as nossas.

AWB: Você lembra quem fazia parte deste grupo?
DENISE:
Várias pessoas, em diversos momentos. A Daniele Marx foi uma das que mais ficou, ela é uma artista daqui e agora está morando em Barcelona. Dirnei Prates, também deu uma passadinha... A Maria Isabel, que era minha colega no Instituto de Artes...

 


AWB: Quem ficou do início ao fim, foi só você?
DENISE:
Eu e a Daniele. Enfim, acho que este grupo foi super importante. Estou no primeiro semestre do Mestrado, mas notei que a principal diferença em relação à graduação é que no Mestrado nós temos orientação desde o primeiro semestre. Acho uma pena que isso não aconteça também na graduação. Várias pessoas falam que o currículo deveria ser modificado... Realmente, acho que várias coisas deveriam ser mudadas no currículo da graduação, mas o que considero mais importante é um tempo mais longo de orientação. Eu senti isso quando visitei a Academia de Dusseldorf, uma das mais importantes do mundo, lá tu tens um orientador, você é aluno daquele professor, se quiser fazer alguma técnica diferente, você será aluno de técnicos em gravura, em desenho, em fotografia... Mas aquele professor é o teu mestre e ele te orienta. Acho isso ótimo, pois você tem uma orientação maravilhosa, um acompanhamento do teu trabalho durante todo o tempo, um diálogo sobre o teu trabalho... Isso é fundamental.

AWB: Foi o que você buscou no grupo com a Maria Helena?
DENISE:
Sim, exatamente. A orientação é fundamental para qualquer artista, nem que seja apenas durante a formação... Se puder manter, melhor... A gente tem que ter crítica... Às vezes ficamos naquela coisa, achando que o que fazemos é o máximo, mas tem que sair do teu umbigo e olhar de fora... Nada melhor que uma pessoa para ter coragem de te dizer isso e indicar novos caminhos. Acho que todos os artistas precisam desta crítica.

AWB: E você aceita bem esta crítica?
DENISE:
Acho que ela é fundamental. Quem não aceita críticas não está sendo sério. Esta coisa de arte como forma de expressão... Tudo bem, super bacana. Mas existe uma confusão com o uso da palavra arte, ela denomina tanta coisa... Existem tantas camadas de significado para uma mesma palavra... Seria mais fácil se a nossa língua tivesse algumas outras variantes para falar dos tipos de arte. Mas quando a gente fala de Artes Visuais, do meio acadêmico, estamos falando de uma arte que vem desde o Renascimento, estamos falando de um trabalho que tem diálogo com toda a História da Arte e que se posiciona com relação a esta história. Isso tem muita seriedade. Não pode ser apenas como auto-expressão... Auto-expressão é arte também, mas não é a mesma coisa... Acho que o trabalho que a gente faz quando entra numa academia, quando queremos isso como profissão, temos que nos posicionar com relação à História da Arte e com muita seriedade.

AWB: E como é o teu fazer artístico, o teu trabalho?
DENISE:
É difícil dizer isso, mas basicamente considero que no trabalho artístico temos que ter posicionamento. Acho essencial que a gente conheça muito da história para que possamos nos posicionar em relação a alguma coisa, ao que já foi feito. Na realidade é como se fosse o desenvolvimento de uma linguagem. Artes Plásticas tem muito a ver com Filosofia ou outras ciências do pensamento, pois é uma linha do pensamento que vem sendo desenvolvida e determinados artistas e escolas dão respostas ao que já foi feito e ao que está sendo feito naquele momento contemporâneo, marcando sua posição em relação ao contexto. A minha visão de Arte e de objeto artístico é essa. É mais ou menos como num jogo de xadrez, um se posiciona em um lugar, o outro dá uma resposta, há uma nova resposta em relação a anterior... E assim vai... Isso é fundamental, pois a arte é a expressão do que é o sujeito em um determinado momento da história, do tipo de pensamento vigente. Acho que é importante para todos ter consciência disso e nos posicionarmos em relação a isso. Essa história é muito antiga, quando mais conhecimento a gente tiver, provavelmente o nosso posicionamento estará consoante com o sujeito do nosso período. Assim conseguimos entender melhor qual a nossa diferença com relação ao passado.

AWB: E como que você se coloca nisso tudo?
DENISE:
Eu não tenho como definir exatamente como me coloco nisso. Não tenho um ponto específico, jamais vou me colocar um rótulo... Os artistas não se rotulam, os outros é que rotulam os artistas para poder encaixar o pensamento deles em gavetas. Eu jamais vou me colocar como artista conceitual, ou alguma coisa do tipo... Não é nisso que penso quando estou produzindo. Como eu me coloco? Eu tenho uma determinada linha de raciocínio, meus trabalhos são constantemente um exercício, nunca estão acabados, são na verdade o que eu estava pensando naquele determinado momento sobre aquele assunto. Meus trabalhos vão se desdobrando, eu vou desdobrando este pensamento e é sempre um exercício. Por isso que eu disse que no início da faculdade pensava em como era possível alguém esperar se formar para trabalhar... Acho que se você tem uma postura, se está pensando em alguma coisa, não vai esperar um dia alguém te dar o aval, um diploma para você mostrar o que pensa, ver se funciona ou não... Uma coisa é o que te passa na cabeça, outra coisa é quando você vai tentar materializar aquilo. Você tem que realizar seus planos para ver o grau de proximidade que teve com o seu pensamento inicial. Às vezes a gente pensa uma coisa, mas quando vai fazer não sai exatamente como imaginávamos. Devemos estar constantemente neste exercício. Aqueles que esperam se formar para trabalhar acabam colocando tanta expectativa em cima de um trabalho, acabam projetando tanta coisa, que fica muito difícil... Não é assim que funciona... Eu erro em exposição, jamais pensei em ficar fazendo ‘trabalhinhos’ no ateliê esperando o grande momento para uma exposição. Que nada, a gente tem que ter a humildade de aprender em público, só assim teremos o retorno, além do que, existem determinadas coisas que só se resolvem no espaço expositivo, que só se aprende fazendo. Eu coloco a cara para bater porque é só assim que eu vou aprender. No primeiro semestre da graduação eu já estava expondo no saguão, foi uma exposição ridícula, mas foi importante porque ali aprendi que aquilo que eu estava fazendo não traduzia o que eu pensava, mas foi só assim que vi o que precisava mudar...

AWB: Sem medos, tem que arriscar?
DENISE:
Claro, tem que errar para acertar. Se o objetivo é expor, então só expondo para evoluir nas exposições.

AWB: Você fez Artes Plásticas com ênfase em Fotografia, não é?
DENISE:
Sim, acho que no quarto semestre descobri que era para esta área que iria. Mas, não acho que eu trabalho só com fotografia, eu trabalho em Artes Visuais e algumas vezes, utilizo a fotografia, outras vezes não...

AWB: Que outras técnicas você utiliza?
DENISE:
Vocês irão ver no Torreão...

AWB: O que você vai fazer lá?
DENISE:
Estarei trabalhando com cartografias e dispositivos para sinalizar o espaço. É um trabalho para acontecer mais na cabeça das pessoas do que no objeto. Os objetos serão apenas dispositivos para ativar o trabalho. O trabalho na verdade será uma percepção que as pessoas terão. Esta exposição no Torreão estava prevista para o início de setembro, ficaria o mês inteiro, mas o artista de agosto furou. Então quando o trabalho estiver pronto, eu entro. Acho que vai ser na primeira quinzena de agosto.

AWB: Você está finalizando o trabalho?
DENISE:
Estou terminando... Dependo justamente destes meus materiais. Um dos mapas foi difícil de encontrar, não encontrei, está sendo produzido...  Uma pessoa está me ajudando e vai fazer o mapa, e isso leva um pouco de tempo.



AWB: Você busca novas técnicas, coisas diferentes?
DENISE:
Eu estou sempre em busca de informação.

AWB: Mas a faculdade te ensinou mais a técnica da fotografia. E as outras ? Você foi buscar fora?
DENISE:
Isso é difícil de responder porque a gente não separa de onde aprendemos o quê. No período da faculdade fiquei dois anos sendo orientada, e não sei dizer o que evoluí na faculdade ou na orientação com a Maria Helena. Só sei que com a orientação obtive um ganho inacreditável, evoluí muito. Mas também tive várias contribuições de outros professores, e não consigo distinguir exatamente o que vem de onde... Aprendi também muita coisa em exposições, você abre novos universos para si mesma... Neste trabalho do Torreão, quando penso que o objeto artístico não está concentrado em um objeto físico, que o trabalho acontece na experiência... Acredito que isso venha de artistas que conheci, artistas mais experientes, do Projeto Areal e estudando a História da Arte... Acho fundamental ler os escritos de outros artistas, assim vemos realmente o pensamento deles e como se posicionam, nem tudo a gente compreende pelo trabalho. Tenho várias linhas de trabalho, algumas mais neste sentido e outras mais voltadas para a imagem fotográfica. Nesta linha que apresentarei no Torreão exercito como é pensar em um trabalho nestes termos, e não estou fazendo nada de novo, mas este exercício de pensar me ajuda a ter novas propostas, novas propostas para mim, na minha experiência como artista. De certa forma na nossa evolução como artista a gente passa por diversas fases semelhantes à história da arte, não que a gente passe por vários estilos e sim por diversas noções de sujeito, de percepção, por noções de visualidade. Os modelos que temos através da nossa história individual são anteriores a nós mesmos.

AWB: Aquela série de fotografias do olho humano foi feita quando?
DENISE:
Começou em 2003 e continua até hoje. É uma série de que chamo genericamente de Retratos. Acho interessante porque eu dialogo muito com a história da arte e com tendências de representação. Por exemplo, os primeiros trabalhos de fotos do olho foram o ‘Retrato no Dilúvio I e II’, e eles transitam entre uma zona instável da fotografia de registro de ação efêmera - que foi muito usada desde os anos 60 até hoje. Esta questão é muito importante para a história da relação entre a fotografia e as Artes Plásticas. A fotografia há muito tempo queria ser arte, mas não conseguia entrar no circuito e foi justamente, quando o objeto artístico se desmaterializou, com toda a onda dos trabalhos conceituais, que a fotografia se tornou um instrumento capaz de trazer à tona boa parte da tradição conceitual. A fotografia é muito responsável, de certa forma, pela visibilidade da produção conceitual. Este trabalho do ‘Retrato no Dilúvio I e II’ registra uma ação efêmera da Maria Helena Bernardes e do André Severo. Eles fizeram um trabalho chamado ‘Encontro no Intervalo’, que foi no Arroio Dilúvio, e eu fotografei a presença de um, no olho do outro. Eu fotografava o olho da Maria Helena e o André estava lá dentro pequeno, focado, e vice-versa. É um trabalho ambíguo porque é um retrato da pessoa - do olho da pessoa (o olho diz muitas coisas) -, e é também um registro de uma ação e ao mesmo tempo é uma fotografia que funciona como um trabalho independente.

AWB: Ele realmente estava em frente a ela? Não tem nenhuma alteração da foto no computador?
DENISE:
Não, nada disso.


 

Retrato no Dilúvio II
André Severo vê
Maria Helena Bernardes
no Arroio Dilúvio
Fotografia 45x70cm



 

Retrato no Dilúvio I
Maria Helena Bernardes vê
André Severo no Arroio Dilúvio
Fotografia 45x70cm




 


Seeing through other´s eyes
Fotografia, 50x50cm, 2005


Seeing through other´s eyes
Fotografia, 50x50cm, 2005



 


Auto-retrato. Variação II. 92x160cm, Lambda Print, 2005



 

AWB: Há pouco tempo o jornal Zero Hora e a ESPM fizeram um concurso para fotografar o Parque da Redenção, em Porto Alegre. A foto ganhadora era muito parecida com uma das suas desta série do olho humano. Você viu isso?
DENISE:
É plágio. Eu estou muito chateada com a conduta disso tudo. Eu não tinha visto a Zero Hora no dia que saiu a foto e me telefonaram avisando que haviam me plagiado. Mas eu achava que era uma foto de olho qualquer e isso não seria nenhuma novidade, lembro de ter argumentado que esse tipo de coincidência é normal. No dia seguinte achei a foto na internet e tomei um susto tão grande... A foto era tão igual que fui procurar meus negativos porque achei que fosse minha mesmo, que era uma variação. Eu tiro várias fotos e seleciono a melhor e essa que ganhou o prêmio seria uma das que considero que não tenha dado certo, porque ela tem problemas técnicos que, para mim, seriam muito graves e que não deixaria passar de jeito nenhum... A reflexão está apenas na metade do olho, a incidência de luz estava muito ruim... Enfim, pensei que fosse uma das minhas rejeitadas. Mas percebi que a modelo usava um delineador que a minha modelo não usava, então percebi que a foto não era minha. Menos mal, poderia ser pior... Mas é muito igual, ele escolheu o mesmo olho, o mesmo enquadramento... Uma coisa é tema, se fosse só o tema não me incomodaria, acho que existem coincidências, e às vezes isso é até positivo, eu sempre falo um pensamento de Bill Viola, que diz algo do tipo: “Se em uma pesquisa científica, duas pessoas chegam ao mesmo resultado em lugares diferentes do planeta, comprova que a pesquisa é válida e que está indo para o caminho certo, mas nas Artes Plásticas em função da autoria isso é visto como algo negativo. Mas se pensássemos em descoberta como a realização de algo que já existe, nossa percepção mudaria”.Se for coincidência de desenvolvimento de determinados conteúdos, não devemos nos preocupar. Autoria é uma coisa complicada, tem coisas que estão no ar, tem coisas que estamos pesquisando simultaneamente e chegamos aos mesmos resultados... Aconteceu isso agora comigo quando o Stefan Sous, o artista alemão que veio para o Torreão recentemente. Ele realizou um trabalho que eu tinha planejado fazer no Torreão, só que ele fez antes de mim. Depois ele veio aqui em casa e mostrei os esboços e que eu estava pensando naquilo... Foi inacreditável. Ele chegou em Porto Alegre com outras coisas em mente, mas acabou mudando os planos, era como se tivesse pegado uma idéia no ar. Ele nunca tinha trabalhado com mapas antes... Fez até melhor do que eu faria, ele tinha uma ajuda de custo do Instituto Goethe. Eu levei isso numa boa, achei até legal, quer dizer, que a minha idéia era boa.


 


Foto de Denise Gadelha


Foto Vencedora no Consurso ZH-ESPM



AWB: Mas no caso da foto era diferente...
DENISE:
Como é que pode? O cara copiou descaradamente uma imagem que eu produzi antes. Isso é chato. Esta imagem que ele copiou foi exposta em Paris, foi realizada com certeza há mais de três meses antes do concurso. Eu tenho como provar porque foi de navio para Paris com bastante antecedência... Para sair do Brasil teve que ser registrada no IPHAN. Se eu fosse lutar na Justiça tinha como conseguir a prova do registro desta imagem. O chato é que quando estas imagens voltarem de Paris, elas vão para uma galeria comercial e aí as coisas se complicam, as tiragens são pequenas e fechadas... Como eu vou controlar se tem um cara fazendo plágio? Isso me prejudica muito profissionalmente, nem é apenas uma questão de ética, ou moral... É uma questão profissional. Como é que vou falar para os colecionadores que a minha tiragem está fechada e garantir isso se tem uma outra foto igual circulando por aí? É complicado. Então falei com o pessoal da ESPM e eles já estavam sabendo do problema. A minha foto tinha sido publicada na Zero Hora no sábado e as fotos ganhadoras foram publicadas na terça-feira, então é uma coisa incrível...

AWB: A Zero Hora se encarregou de mostrar esta estranha coincidência?
DENISE:
Indiretamente. O jornal mostrou as duas fotos com nomes diferentes e eu comecei a receber e-mails de pessoas que leram a ZH e que escreveram para o Roger Lerina. O Roger passou o meu e-mail. Perguntavam-me se era plágio. Eu dizia: ‘Olha não sei dizer, mas é igual não é?’ Comecei então a investigar, liguei para a ESPM, falei com um dos mentores do concurso, o Manuel da Costa que me disse que achava que sinceramente se tratava de um plágio porque o cara confessou num blog que havia se “inspirado” em outra foto. E eu perguntei para o Manuel da Costa: ‘Mas se o concurso era sobre criatividade, como é que deram o prêmio para o cara? Sabem que ele confessou...’ No blog ele mostrava as fotos do concurso e em duas delas o comentário é que havia se “inspirado” em fotos que tinha visto na internet. Ele teve o azar de que a foto premiada tinha sido ‘inspirada’ em uma foto de alguém de Porto Alegre e que tinha sido publicada na Contracapa da ZH alguns dias antes do anúncio do resultado do prêmio. O Manuel me argumentou que na realidade era um conjunto de obra que foi premiado, mas não foi o que a Zero Hora divulgou. A ZH publicou três vezes a foto dele dizendo que era a foto premiada. Ou a ZH publicou um erro três vezes ou esta argumentação não procede. O que eu sei é que este concurso foi promovido para divulgar um laboratório novo, mas quando acontece uma coisa dessas, queima a imagem que eles estavam tentando promover, imagina... Eles montaram todo um esquema para promover uma boa imagem de uma coisa e rola essa confusão... Acho que para a ESPM não era interessante alterar o resultado do concurso, tanto é que não alteraram.

AWB: Você pediu isso?
DENISE:
Eles já sabiam mesmo antes do dia da premiação. Entre o dia que saiu o resultado - o dia da publicação na Zero Hora e o horário da premiação, eles já estavam sabendo e premiaram igual. Quando falei com o Manoel, disse que, sinceramente, não sabia se queria exigir a mudança do resultado... Para mim não interessa se o cara ganhou a câmera ou não, o que faz a diferença é que todos estavam participando seriamente e o cara plagiou e passou por cima de todo mundo. Acho que seria mais justo com os outros concorrentes que o cara não fosse premiado. Acho que foi injusto com todos os inscritos e que eticamente deveriam anular o concurso ou repassar o prêmio para o segundo colocado e assim por diante. Mas eles disseram que não fariam isso. Eu somente pedi que a Zero Hora retratasse publicamente o fato.

AWB: E aí?
DENISE:
Estou até hoje esperando. O Manuel falou que iria conversar com o Ricardo Chaves, que era um dos jurados, mas estou esperando. Não aconteceu nada porque a Zero Hora também estava apoiando o concurso, e tem outras coisas em questão... Acho que isso é muito injusto para quem está trabalhando sério. Aí liguei para o cara. Eu precisava saber onde ele tinha visto a imagem. Em Porto Alegre, apenas o laboratório que eu trabalho viu. Eu não expus aqui ainda. No Rio de Janeiro, a Funarte, o IPHAN e uma empresa que era produtora da exposição de Paris, tinham acesso à imagem. Eu queria saber por onde tinha vazado. Se fosse o meu laboratório, eu teria que mudar. Se fosse a produtora, eu deveria tomar alguma atitude. Eu só queria saber disso. Eu disse para ele: ‘Você confessou num blog que era plágio. Vamos ser realistas. Fica tranqüilo, não vou te processar. Eu só quero a informação’. O cara se enrolou todo. Primeiro ele não admitia que tivesse sido plágio. Ele dizia: ‘Se fosse plágio...’ Mas lá pelas tantas ele viu que deveria se posicionar e disse que não era plágio e que jamais tinha visto a minha foto. Ele disse que no blog tinha admitido, mas que não tinha afirmado que era da minha foto. Disse que era uma foto de uma revista tal... Eu então pedi o link da tal revista com a tal foto, se ele pudesse provar a existência dessa outra foto seria mais fácil acreditar na versão dele “de uma incrível coincidência”. Mas estou esperando até hoje por essa imagem. Eu disse que mandaria a minha foto para ele ver já que não tinha visto, só para ele ter noção do tamanho da coincidência que ele alega, mas ele me deu o e-mail errado... Eu podia ter ligado de novo para encher o saco do cara... Mas fiquei com raiva porque ele foi super arrogante, petulante... Disse para eu processá-lo... Mas falei que não estava a fim de perder tempo e dinheiro com isso. Perguntei para ele: ‘Tu quer isso mesmo? Quer pagar um advogado?’. Aí ele mudou de tom, me convidou para tomar um café, disse que queria conhecer o meu trabalho... Muito cínico.

AWB: Esta história então está parada?
DENISE:
Sim. Várias pessoas falaram que vão ajudar nisso. Sei que muitos escreveram para a Zero Hora. Tem um cara indignado que escreveu para várias sessões da Zero Hora e ninguém respondeu. Eu mesma já escrevi, já falei com muitas pessoas de lá. Tem gente que mandou até para a seção Carta do Leitor. Eu sinceramente não controlo a Zero Hora diariamente para ver se saiu alguma coisa. Não tenho tempo para isso e nem assino a ZH. Mas acho que se sair, toda essa comunidade que se formou em torno do assunto, alguém teria me avisado. Acho que as coisas ficaram por isso mesmo... As coisas são assim no nosso país, se nas CPIs ninguém faz nada, imagina nesse caso. É só uma fotinho...

AWB: Você expõe há muitos anos, inclusive fora do Estado e do país. Sendo tão nova como você conseguiu isso?
DENISE:
Expor para mim é um exercício, então desde quando entrei na faculdade já fazia exposições. Em Porto Alegre me inscrevi em vários editais, acho que em todos que tinham, e fui exercitando. A primeira exposição que me marcou muito foi na galeria Lunara. Foi muito legal. Primeiro porque a galeria Lunara recém tinha sido inaugurada, teve apenas a exposição em homenagem ao Lunara. Eu vi no jornal uma chamada de que seria um espaço para a fotografia contemporânea, com uma linguagem investigativa... E achei bem legal. Inscrevi-me e nada do resultado, demorou um tempão... Liguei para a Usina do Gasômetro para perguntar, toda envergonhada... A mulher me disse: ‘O nível estava muito baixo e só selecionamos uma pessoa’. Perguntei quem era e ela falou: ‘É a Denise Gadelha'. Fiquei louca. Aquilo foi super importante. Foi a primeira vez que tive uma aposta. Lembro que o júri era composto pelo Eduardo Veras e o Clóvis Dariano, e eu sou muito grata a eles por terem apostado em mim. Eu não era nada, era uma ‘fedelha’ que pela primeira vez estava fazendo um projeto... Fiz tudo através de simulação de computador, foi uma loucura... Estava dando um chute para frente, arriscando muito e eles toparam. Também agradeço muito a Fuji por me patrocinar, era um projeto absurdo... A produção daquilo lá... Toda a minha família ajudou... Tinha que cortar quatro mil pedacinhos de fotos, foi um mutirão, o meu namorado, a minha mãe, a Zilma e a Dica... Tive um grande apoio para fazer aquilo que parecia muito além do que eu poderia realizar. Depois disso, de ter passado por uma experiência como essa, tudo ficou ‘fichinha’. Aquilo foi um esforço muito grande, envolveu muita coisa... A montagem durou mais de uma semana, trabalhando 12 horas por dia. Foi super bacana, teve uma repercussão legal. O Eduardo Veras publicou uma matéria de página inteira na Zero Hora, com um foto enorme... Tomei um susto quando vi... Lembro bem, estava com meu namorado, quando resolvemos passar numa banca para dar uma ‘espiadinha’ se não tinha saído nenhuma notinha... E tive aquela surpresa! Valorizei muito essa aposta em mim, pois sabia muito bem o quanto era difícil ter o trabalho divulgado no jornal em função de acompanhar o processo da banda do meu namorado. Eles foram várias vezes levar release na ZH, e levou muito tempo até conseguirem uma foto publicada.

AWB: Teu namorado é da banda Cachorro Grande?
DENISE:
É. Eles batalhavam muito para divulgar os shows no jornal, mas até aquele momento só tinham sido publicadas pequenas notas... E quando vimos a matéria sobre minha exposição ficamos loucos, porque jamais imaginaríamos uma coisa dessas... Essa matéria do Eduardo foi muito legal porque foi uma aposta numa idéia e me estimulou muito para que eu também apostasse mais nas minhas idéias malucas.

AWB: Uma idéia que talvez nem você acreditasse?
DENISE:
Eu sinceramente não acreditava... Sabe quando tu fazes uma coisa para ver se cola? Colou. Então pensei que podia ser que desse mesmo certo, que merecia ser investida, pois iria para frente essa coisa de artes plásticas. Isso deu um baita impulso, foi bem legal. Foi um momento importante de transição do meu trabalho. A Maria Helena me apresentou ao pensamento do Robert Morris, um artista dos anos 60, e comecei a pensar na percepção da obra, em não se ater ao hábito de colocar o objeto em 90° em relação ao espectador. A Lunara tinha aquela perspectiva de cone que me proporcionou isso... Depois disso comecei sistematicamente a concorrer em editais, pois percebi que funcionava.

AWB: Este edital da Lunara foi o primeiro que você participou?
DENISE:
Não, teve um no grupo Reticências, que foi com a Daniele Marx, com o Dirnei Prates, o André Venzon e a Luciana Fonseca. A gente fez uma exposição na Casa de Cultura. Depois desta exposição na Lunara eu entrei no Grupo Laranjas e fizemos uma exposição na Usina do Gasômetro, pintamos a galeria Iberê Camargo de laranja e fiz um trabalho que tinha muito a ver com o da Lunara. Era o oposto, o reverso total.

AWB: Onde mais tu fizeste exposições?
DENISE:
No 3º Salão de Porto Alegre...

AWB: Mas tu que foste atrás ou teve alguém que te abriu portas?
DENISE:
Não, ninguém, de jeito nenhum. Sempre corri atrás, sozinha. Mas depois de um tempo que a gente começa a trabalhar, começam a surgir convites. Já conhecem o teu trabalho... Mas isso só depois de ter trabalhado muito, de ter participado de diversos editais, de submeter o meu trabalho a diversos júris e, depois de muitos terem sido aprovados.

AWB: Estas exposições fora de Porto Alegre foram todas através de editais?
DENISE:
Tudo edital, praticamente.

AWB: Em Paris também?
DENISE:
Não. A de Paris foi uma outra história. Deixa-me continuar na minha cronologia que eu chego lá. Eu comecei a participar de editais para fora do Estado... Ah, logo depois que eu sai do grupo Laranjas, eu participei de um grupo chamado El Paso, junto com a Luz Maria Bedoya e o Armando Andrade, que são artistas peruanos. Este contato com a Luz Maria ocorreu quando ela veio expor na ‘Obra Aberta’, junto com a Maria Helena Bernardes.  Ela também trabalha com fotografia de uma maneira mais investigativa, o sentido do seu trabalho não está na imagem fotográfica, está em desdobramentos disso. Resolvemos montar este grupo e fomos convidados para expor na Galeria Xico Stockinger, na Casa de Cultura. Depois disso eu nos inscrevi em um edital na Fundação Joaquim Nabuco, passamos e eu fui para Recife.
 


À curta distância (detalhe à esquerda), (vista Geral à direita). Intervenção. 02 fotos medindo 70x100cm
Galeria Xico Stockinger. Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre, 2003





AWB: Você é expert em participar de editais, preencher fichas, fazer projetos...
DENISE:
Em uma época me dediquei muito a isso, mas atualmente, estou com um pouco de preguiça. Cansa... Mas ganhei muita experiência com isso, foi fundamental. Acho que você tem que passar por diversas instituições, aprender a produzir um trabalho, saber como fazer, conseguir um patrocínio aqui, outro ali...

AWB: Você mesma busca os patrocínios?
DENISE:
Claro, sempre produzo os meus trabalhos. Determinadas vezes são mais difíceis de conseguir do que outras. É uma coisa que você deve se dedicar e não é a parte boa do trabalho, é a parte não tão agradável, digamos assim. Você tem que dar uma de vendedora, vender a sua idéia para ver se alguém banca.

AWB: E geralmente, no teu caso alguém banca? Você já bancou sozinha?
DENISE:
Às vezes acontece de não ter a quem recorrer. Por exemplo, este trabalho no Torreão é um dos que não tenho a quem recorrer, posso é pedir uma ajuda de custo na impressão, um abatimento. Estes tipos de coisas rolam se você divulgar a logomarca. Mas você consegue um patrocínio mais fácil se tiver um catálogo, uma tiragem grande de convites. Mas como o Torreão não tem isso. Existe um folder, mas com uma circulação mais restrita é mais difícil. Mas, neste caso, o meu trabalho vai precisar basicamente de um marceneiro, que não tem empresa, não pode me dar apoio, não tem nem logomarca. Esse não vai ser um trabalho caro, então é mais tranqüilo. Mas eu tive muita sorte, em quase todos os meus trabalhos consegui patrocínio. A Fuji me patrocinou muitas vezes. A Citylab também. Consegui um patrocínio maravilhoso com a Fotosfera no Rio de Janeiro e acho que isso contou para eu desenvolver uma relação legal com a Funarte. As instituições vêem o quanto você batalha e sentem que podem confiar em você.

AWB: Como foi esta aproximação com a Funarte?
DENISE:
Comecei a me inscrever para fora depois que os editais aqui em Porto Alegre se esgotaram, eu já tinha passado no edital do Salão, no edital da Lunara, na Casa de Cultura... Comecei a mandar para outras coisas. Mandei para o Prêmio Chamex, que foi outro ponto marcante na minha carreira, foi sensacional porque foi no Instituto Tomie Ohtake. Era um prêmio super organizado... Mas também tive que lutar um pouquinho... Eles selecionaram dois trabalhos meus, o meu projeto de graduação e uma intervenção, que era o que eu mais queria fazer. Mas, em cima da hora, eles me falaram que tinha ocorrido um erro e que apenas o meu projeto de graduação havia sido selecionado. Disseram que o júri havia selecionado muito mais trabalhos que o espaço comportava e que tiveram que fazer alguns cortes, entre eles a minha intervenção. Tentei explicar que eu não me importava de cortar um trabalho, mas que fosse o outro, que deixassem a intervenção, que se chamava ‘A curta distância’. Mas como para produzí-la, eu teria que ir para São Paulo... E neste evento eles pagavam os custos... Então eles teriam que me pagar a passagem, a hospedagem e tudo para eu ir para São Paulo... Enfim, eu disse que tinha hospedagem lá e que com isso eles não precisavam se preocupar, que seria só a passagem. Mesmo assim, alegaram que tinha sido decisão do júri e que tinham que acatar. Mas sabe quando te bate uma intuição? Eu não acreditava que tivesse sido decisão do júri... Neste dia casualmente eu fui na casa da Karin Lambrecht e comentei com ela o meu problema. O presidente do júri era o Agnaldo Farias e eles têm uma relação muito próxima, tanto é que a Karin teve uma sala especial na Bienal de São Paulo, quando o Agnaldo havia sido o curador. Perguntei para a Karin, por ela ser uma artista experiente e por conhecer o perfil desse júri, se ela achava que era normal selecionarem e depois cortarem... A Karin tem uma coisa muito legal, uma espiritualidade muito forte. Eu já tinha até mandado uma carta para o Agnaldo defendendo o ‘A curta distância’... Mas foi muito bacana ter conversado com a Karin porque ela me disse que estas coisas acontecem, me contou alguns casos de Bienais, e disse que a gente tem que se manter tranqüila e não bater de frente com as instituições. Não lembro exatamente as palavras que ela me disse, mas quando cheguei em casa, me posicionei de outra maneira com relação a isso. Eu estava muito indignada e frustrada antes de conversar com ela. A Karin me tranqüilizou. Acredito que tem uma coisa de postura que a gente assume e que faz diferença. Só de mudar o teu conceito com relação à situação pode influenciar o resultado. Foi inacreditável, tenho certeza que eles não se falaram, e logo em seguida me liga o Agnaldo pedindo para explicar melhor o meu trabalho. Achei esta atitude super legal e expliquei tudo, com bastante calma e clareza. Eu queria fazer com projeção e ele me disse que não seria possível, pois todas as projeções seriam concentradas em um só espaço. Ele me perguntou se eu poderia resolvê-lo de outra forma. Eu disse que sim, com a fotografia. Ele me mandou ir para São Paulo resolver isso logo em seguida. Fui, e foi maravilhoso. Ele me deixou trazer o outro trabalho também, mas mais enxuto. Cheguei lá e o montador estava arranjando um monte de problemas, ele me disse que eu estava com um dos melhores espaços, mas eu disse que não funcionava para o ‘A curta distância’. Ele já estava perdendo a paciência comigo, todos os espaços que tinham não serviam... E não tinha muito espaço sobrando... Eu queria ir para o lado de fora, mas o Instituto tem umas normas super rígidas, as salas têm que estar ocupadas e as exposições têm que ficar dentro das salas. Eu disse que não dava naqueles lugares e chamamos o Agnaldo. Em meia hora ele estava lá, achei super bacana a postura dele. Um curador da importância dele se preocupando assim com uma jovem artista. Ele já sabia quem eu era, sabia tudo do meu trabalho, concordava que os espaços não serviam. Ficamos procurando espaços e ele me sugeriu uma escada. Eu disse que era sensacional, mas teria um problema: eu precisava da imagem no mesmo ponto de vista do espaço, não poderia deslocá-los. Precisava de uma parede junto à escada, e o Agnaldo pediu para o montador fazer uma parede para mim. Resolvemos o trabalho, construíram a parede e eu consegui o patrocínio da Fuji para fazer a foto. Quando eu volto para Porto Alegre, depois de um tempo recebo um e-mail dizendo que eu tinha sido premiada. Não acreditei, foi sensacional. O meu prêmio era uma viagem para Londres dentro do projeto Dinamic Encounters International Art Workshops.

 


Á Curta Distânica. Premio Chamex e Arte Jovem, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo
Fotografia sobre parede 220x180cm. Intervenção , 2004.



AWB: Como é este projeto?
DENISE:
É organizado pelo Charles Watson, um inglês radicado no Rio de Janeiro. Ele já foi diretor do Centro de Artes do Hélio Oiticica, hoje dá aula no Parque Lage que é uma das maiores referências em termos de ensino em artes... Então o Charles organiza as viagens da seguinte forma: além dele, ele chama mais uns três ou quatro professores que são geralmente críticos muito conhecidos, ou diretores de instituições importantes, ou artistas bem sucedidos que tenham o dom da palavra, que saibam dar aula bem. Aí ele monta um grupo de viagem para fora do país, monta um roteiro, então os brasileiros têm aulas nas maiores instituições estrangeiras com grandes professores. Mas não são aulas normais. O Charles tem um acesso inacreditável. Os curadores dessas instituições vêm nos receber e nos explicar coisas que jamais perceberíamos como um visitante comum. Por exemplo, lá em Londres a Tate Modern abriu duas horas antes para nós. A curadora de lá fez um percurso completo conosco nos explicando falhas de curadoria. Ela nos disse que dividiam as obras por temas e não de forma cronológica porque tinham falhas no acervo... Coisas assim tu não escutas de qualquer pessoa. Ela nos explicou quais eram as falhas, qual o sistema de aquisição da Instituição, qual a política cultural deles, o que estava mudando, como era antes e como é agora... A gente também visita ateliês de artistas inacreditáveis... Os maiores artistas do momento abrem o ateliê para a gente ‘xeretar’ todos os trabalhos que eles estão fazendo, perguntar tudo... Esse projeto é maravilhoso, um upgrade fundamental. Este era o prêmio do segundo lugar do Prêmio Chamex de Arte Jovem.

AWB: E o primeiro lugar era o quê?
DENISE:
Pois é, quando liguei para o pessoal da coordenação do Prêmio a moça que me atendeu me disse que não entendia porque esta viagem era o prêmio do segundo lugar, pois era melhor do que o do primeiro. Eu fiquei 15 dias e o primeiro lugar ficava um mês, mas ficava numa residência de uma escola e não tinha tudo isso que eu tive. Sinceramente, se fosse 15 dias junto com o grupo do Charles e mais 15 dias sozinha, seria mais legal. Mas não, era um mês sem esta orientação. Ir sozinha para Londres não tem tanta graça do que ter todas estas aulas. O sensacional de tudo isso é que o Charles tem uma didática, um método ótimo e ele instiga que os alunos participem muito, ele quer sempre ouvir as nossas posições. E ele gostou porque eu fazia muito isso, toda hora perguntava, me posicionava e acabei desenvolvendo uma amizade muito grande com o grupo, os laços que eu fiz nesta viagem duram até hoje. E uma destas pessoas insistiu muito para o Charles e disse que se eu não fosse na próxima viagem ela também não iria. Esta pessoa freqüentava as viagens dele todo ano, ele faz duas destas viagens por ano. E a pessoa disse que ele tinha que me contratar. Um dia, na National Gallery o Charles me perguntou se eu gostaria de trabalhar com ele. Claro que sim. Mas esta história ficou no ar. Aqui no Brasil ele também faz essas viagens, durante as Bienais. E quando eu fui para o Rio de Janeiro na exposição da Funarte a gente se encontrou e ele me disse que estava quase certo que eu iria para a próxima viagem, mas que a viagem da Itália falhou e ele teve um prejuízo muito grande, tinha os gastos da divulgação, dos adiantamentos de reservas e não tinha fechado o grupo mínimo... Era uma viagem sobre o Renascimento na Itália, seria uma loucura, mas acho que o pessoal procura mais o contemporâneo mesmo... Ele disse que estava certo que iria me contratar, mas que seria muito caro, o custo da viagem é caríssimo e com essa furada ficou mais difícil. Mas que, como prêmio de consolação me daria uma bolsa de estudos no grupo da Bienal de São Paulo se eu tivesse como ir e me hospedar. O meu pai hoje mora em São Paulo e meu namorado passa bom tempo lá, e isso facilita as coisas. E estava bem perto em função de uns trabalhos no Rio...

AWB: Aí você foi para São Paulo?
DENISE:
Sim, mas disse para o Charles que não seria um prêmio de consolação, eu estaria fazendo um teste. Nós tínhamos combinado anteriormente que eu seria testada na Bienal de São Paulo para trabalhar como documentarista nas viagens. Disse: ‘eu vou trabalhar, levar a minha câmera, meu equipamento e te apresentar uma proposta de trabalho’. Aí fui, fotografei tudo, fiz textos críticos, resumos do que foi discutido e apresentei uma proposta de trabalho. Ele adorou, disse que nunca ninguém tinha feito aquilo sobre o seu projeto e que se o próximo grupo de viagem saísse ele iria me procurar.

AWB: E isso aconteceu?
DENISE:
Bom, então rolou a exposição em Paris. Vou explicar como isso aconteceu. Eu participei da exposição da Funarte através de edital de seleção. Foram umas 600 inscrições. Eles selecionaram 60 artistas e dividiram em quatro exposições. A minha exposição era a primeira e a mais arriscada. O próprio Ivan Pascarelli que é o coordenador dos Projéteis Funarte de Arte Contemporânea, me ligou e disse que estavam com um problema porque a sala de exposições estava em obras. Já sabiam como era o meu trabalho, mas que apesar da obra, faziam questão que eu fizesse parte da primeira exposição. Eles queriam inaugurar a galeria com um trabalho de especificidade. Queria saber se eu tinha condições. O prazo era super curto, a sala estava sendo restaurada... Como eu iria fazer as imagens do lugar com obras? Mas aceitei o desafio, adoro isso. Eu tinha ido expor em Recife na Fundação Joaquim Nabuco e aproveitei, desdobrei minha passagem, passei no Rio e consegui fazer somente a primeira imagem. Só a frente da galeria estava limpa, o resto estava com a obra. Tomei um susto quando cheguei na galeria, era imensa e o trabalho que eu tinha planejado no computador na escala real deveria ter 7 metros. Nós tínhamos um cachê de produção de R$ 1 mil e isso não era suficiente. O orçamento era de R$ 5 mil. Fiquei desesperada e o Ivan disse para buscar patrocínio ou diminuir o trabalho. Mas diminuir seria uma pena. Ele me indicou um pessoal que poderia pedir patrocínio e sendo os últimos os menos prováveis. Era a Fotosfera. Tentei todos e na última opção, falei com o cara da Fotosfera já rezando... Consegui o patrocínio. Eu não acreditei e muito menos o pessoal da Funarte. Eles viram que eu vou atrás das coisas. Muitos artistas do Rio de Janeiro já haviam tentado patrocínio com a Fotosfera e não tinham conseguido. Eu dei sorte de falar com a pessoa certa no momento certo.
 


A certas Distâncias. Projéteis de Arte Contemporânea, 2004. Funarte. Rio de Janeiro
Plotagem sobre parede. 740x355cm. Intervenção. 2004



 


A certas Distâncias. Projéteis de Arte Contemporânea, 2004. Funarte. Rio de Janeiro
Plotagem sobre parede. 220x180cm (cada imagem). Intervenção. 2004





AWB: Você acredita nisso?

DENISE:
Às vezes isso acontece. Você tenta várias vezes e chega um momento que as coisas acontecem. A Fotosfera era a menos provável pelo que me diziam, então acho que teve um componente de sorte de ter falado com a pessoa certa dentro daquela empresa gigante. Existe uma conjuntura, sorte e muito esforço. Consegui realizar este trabalho que era praticamente impossível e foi super bem visto. Duas coisas se desdobraram deste trabalho. Uma eu nem sabia, as exposições da Funarte estavam sendo avaliadas por oito curadores e eles selecionaram doze artistas para ir para Paris. Ninguém sabia disso. Fui uma das indicadas. Fui para Paris. A segunda coisa que aconteceu foi que, como o pessoal da Funarte viu que eu batalhava muito, trabalhava e topava muitas coisas, passaram a me contratar como fotógrafa. Viram que o meu trabalho como fotógrafa também era bom. Sentiram que podiam contar comigo. Mandaram-me para Macapá para registrar o trabalho da Elida Tessler, foi ótimo. Com isso, participei da Rede de Artes Visuais da Funarte, que proporciona trocas de artistas de diferentes partes do Brasil... É uma conquista. Chamaram-me também para fotografar o ‘Rapto Relâmpago’ e as “Infiltrações no Pilotis”, no Rio de Janeiro, foi uma performance na Funarte, fui a última pessoa a fotografar a Márcia X antes de sua morte... Essas fotos foram expostas na Funarte e publicadas em diversos jornais...

AWB: E como foi em Paris?
DENISE:
Bom, eu tinha a passagem. A Funarte pagava a passagem, a hospedagem e um cachê. Fiz o trabalho, projetei tudo, enviei num navio, tudo certinho. Passei pelo Rio de Janeiro em uma outra exposição que fiz em uma galeria comercial, e encontrei o Charles e disse: ‘Você está indo para Paris, e eu estou indo para lá também um pouco depois, posso adiantar a minha passagem, vamos trabalhar?’. E ele me disse: ‘Vamos, perfeito, você está contratada, você quer ir para a Bienal de Veneza também?’ Eu falei que queria é claro, e ele resolveu pagar as passagens internas na Europa e a minha hospedagem. Eu já tinha as passagens continentais por causa da Funarte. Perfeito, a Funarte me pagava cinco dias em Paris e eu ficaria um mês trabalhando no Dynamic Encounters. As datas fechavam perfeitamente, iria antes para Paris e trabalharia no grupo até o dia 11 de junho, depois ficava cinco dias pela Funarte montando a exposição e em seguida viajaria com o grupo do Charles para Dusseldorf e Veneza. Mas, foi uma loucura para a emissão da minha passagem. A Funarte teria que emitir inicialmente para depois trocar a data, pagar a multa de remissão, fazer a inclusão dos outros trechos, etc. Mas na véspera, a exposição da Funarte havia sido cancelada por tempo indeterminado. Fiquei desesperada. Fiquei tão indignada que mandei uma carta... Até mostrei para o meu pai que hoje é editor para ele revisar e ver o que achava... E ele me disse que eu iria me queimar tanto, que nunca mais iriam me chamar para nada, que a minha carta era um absurdo, que eu estava até falando que o dinheiro havia sido roubado... Eu realmente dizia algo que poderia ser interpretado assim, mas claro que com tons formais. Puxa, um baita projeto foi montado, contratam as pessoas, inicialmente eu arquei com os custos do projeto, depois com o cachê eu seria reembolsada, mas até então eu desembolsei... Como assim, as pessoas trabalham um tempão, se organizam na agenda e de repente a exposição é cancelada por tempo indeterminado?  Pensei. Das duas uma: ou a organização foi totalmente incompetente e não soube fazer um orçamento completo e contrataram sem ter previsões de custos fechadas, ou, não sei o que é pior, o dinheiro que estava destinado foi utilizado para outros fins... Mandei esta carta para o presidente-geral da Funarte e disse que nós artistas iríamos nos organizar, que iríamos para a mídia... No dia seguinte tudo estava resolvido, inacreditável. As verbas reapareceram, o projeto foi enxugado, mas teria um atraso de uma semana. Me ralei no meu cronograma. As emissões das passagens só sairiam uma semana depois, ou seja, eu teria a passagem na mão só depois da data que já deveria estar em Paris. O Charles foi sensacional e disse que não era para eu me desesperar, pois eu iria, ele emitiria a minha passagem, mas deixaria de me dar uma ajuda de custo para diária-alimentação... Tudo bem, pois o valor da passagem era muito maior, a passagem tinha aquela tarifa de véspera, eu iria viajar no sábado e recebi a passagem na sexta, é a pior tarifa que se pode ter...


 



A algumas distâncias. Trajetórias;El Paso, Galeria Vicente do Rego Monteiro, Recife, Intervenção, 2004

 





AWB: E aí você foi?
Denise:
Fui, fiz a exposição e o trabalho no Dynamic. Foi uma experiência sensacional. Visitamos artistas maravilhosos como o Christian Boltansky, o Thomas Ruff, que é da fotografia, que me interessava muito, mas que vi que não era tudo aquilo que eu pensava, a Katharina Fritsch, Tony Craigg, Thomas Schütte, que ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Veneza, entre outros... Visitamos a Bienal de Veneza...

AWB: Você foi quando? Agora há pouco?
Denise:
Fui em 28 de maio, voltei em 28 de junho. Acabei de chegar. Os professores que foram com a gente eram muito legais, tinha o Reinaldo Roels, que é o diretor do Parque Lage, a Viviane Matesco, que é também professora lá, o Luiz Ernesto, artista plástico, o Eduardo Brandão, dono da Galeria Vermelho, o Agnaldo Farias, o Fernando Cocchiarale, que é o curador do MAM do Rio de Janeiro, o Milton Machado, artista plástico... Um monte de gente bacana... Foi uma experiência de vida, é um projeto ótimo. E o legal de tudo isso é que existe chance de eu estar contratada para as próximas viagens. No final do ano, por exemplo, será para Nova York, não sei se ele vai me chamar, mas acredito que sim. Tomara! Vou torcer porque é ótimo...

AWB: E até lá?
Denise:
Até lá estou trabalhando bastante. Tem a minha exposição no Torreão, também tenho que me concentrar muito porque estou no mestrado, quando esses trabalhos voltarem de Paris vão para uma galeria em Belo Horizonte, a galeria da Celma Albuquerque, uma galeria muito bacana, acho que em área de metros quadrados é a maior galeria da América Latina... Então, tenho que me concentrar nessas coisas. Estou trabalhando muito, estou bem louca escrevendo uns trabalhos para o mestrado, e é isso.

AWB: E o teu dia-a-dia, como é?
Denise:
Bom, meu dia-a-dia depende, todos os dias são diferentes uns dos outros.

AWB: Isso é bom ou ruim?
Denise:
Acho que é ótimo, tenho uma flexibilidade muito grande, mas claro que todo dia de manhã eu acordo, vejo a minha agenda, organizo meu dia, vejo o que tenho que fazer, o que está pendente, o que não está, as coisas que não consegui fazer no dia de ontem, e assim vai. Mas o meu dia varia muito, só o fato de agora eu estar voltando a estudar, todo semestre é diferente...

AWB: E o teu momento de criação?
Denise:
Todo momento é o momento, é sempre, não tem um momento específico.

AWB: Em que você se inspira? Na vida?
Denise:
Em várias coisas. Por exemplo, esse trabalho para o Torreão, tem a ver com uma coisa completamente turística que vi em Canela, que todo mundo ficava olhando e achando normal eu achei sensacional. Mas a minha inspiração vem também de todos os artistas que admiro.

AWB: Quem são os artistas que você admira?
Denise:
Vários, para começar aqui por Porto Alegre, todo mundo do projeto Areal.

AWB: Nos conte sobre este projeto...
Denise:
O projeto Areal é coordenado pela Maria Helena Bernardes e o André Severo.  É um projeto que iniciou com a intenção de viabilizar os projetos dos artistas, cujos trabalhos não tem uma visibilidade institucional, ou seja, um tipo de trabalho que não poderia ser realizado no modo como o sistema das artes se articula hoje. Já participaram do Areal a Karin Lambrecht, a Elaine Tedesco, o Hélio Fervenza, além dos coordenadores. O projeto Areal começou com trabalhos que eram feitos em cidades aqui no interior do Rio Grande do Sul, como Bagé, Mostardas, Arroio dos Ratos, entre outras. Enfim, eram projetos difíceis de serem viabilizados. Não tem instituição que viabiliza um projeto assim. Ainda mais um projeto que não tem visibilidade, não tem público, é uma ação que acontece e que não é exposta, é compartilhada de outra forma, através dos livros, a série ‘Documento Areal’. Essa é a forma de divulgar o que aconteceu, e o livro em si é considerado como um trabalho. Cada autor pensa exatamente como é que o seu trabalho vai estar em um livro, como é essa relação, entre palavra, imagem e texto, nesse suporte que é o livro. Fui contratada para fazer a execução desse material gráfico, foi uma experiência maravilhosa, pois tive a oportunidade de conviver com cada um desses artistas durante esse período de desenvolvimento e diagramação. Eu diagramava, a gente discutia, eles vinham com as idéias bem precisas sobre o que eles queriam, a gente via se era possível de executar ou não. Tudo isso foi uma convivência bárbara com artistas mais experientes, daqui de Porto Alegre, de outra geração. Eu acho super importante para quem está começando ter essa oportunidade de conviver com artistas mais experientes.

AWB: A quantidade de coisas que você já fez, pela tua idade, impressiona às vezes...
Denise:
Pois é, deve ser por eu ter convivido com muitos artistas mais experientes e por isso saber relativizar os meus feitos. É muito fácil quando a gente começa a “dar certo”, se deslumbrar e achar que está “pronta”. Sou muito imatura ainda, acho que meu trabalho está muito abaixo de muitas coisas. Por exemplo, admiro esses caras para caramba, eles são meus heróis, e eu sei que o trabalho deles está muito além do que eu estou fazendo no momento, e o fato de eu ter essa referência e ter isso como uma lanterna, iluminando um caminho possível, é sensacional. Sei que tenho muita coisa a trilhar ainda e tenho alguns trabalhos com um grau de visibilidade muito grande... Bom, mas isso daria um papo para outra entrevista... O que é essa visibilidade? Tem um monte de pré-conceitos e confusões de discernimento nessa história, um monte de coisas para serem ditas, mas esse é um papo muito longo...

AWB: E o que você diz sobre isso?
Denise:
O André Venzon mencionou na entrevista no artewebbrasil que “hoje tem uma exigência formal por parte dos nossos professores, nos requisitando a trabalhar com o mínimo, com o sutil, com o nada, toda essa tendência e tal”. Eu acho que tem muita coisa a ser discutida neste aspecto, mas penso que a gente sempre tem que atentar que a arte é conteúdo, e que a posição do artista é uma visão crítica a determinados conteúdos, conceitos, e situações. Não é uma questão formal. De qualquer forma, tem um mercado em torno de tudo isso, e esse mercado não significa necessariamente o artista que vende, a gente está falando até de quem passa em um edital, sabe... Se eu estou passando em um edital atrás do outro, quer dizer que o meu trabalho tem uma determinada linguagem que faz parte da linguagem aceita, no padrão, que ela faz parte de um circuito, faz parte daquela visibilidade daquele momento, e isso é um mercado também, e a gente tem que criticar isso mesmo, eu critico a minha própria produção em relação a isso...

AWB: Essa questão de se adaptar ao que pode ganhar ou não?
Denise:
Eu jamais me adapto, não me preocupo com isso. Se a gente pensar nesses termos, estaremos reduzindo o nosso trabalho a um mero produto. Às vezes inconscientemente um trabalho acaba se tornando um produto, isso já é tão difícil... Temos que ter tanto cuidado, se policiar tanto para isso não acontecer, então intencionalmente eu jamais faria isso...


 


Hiatos. Dimensão variável. Work-in-Progress. 2004
Imagens fotográficas em forma de cartaz de rua.



AWB:
Você vende seu trabalho?

Denise:
Vendo. Estou conseguindo entrar nesse circuito mais fechado das Artes Visuais, e que é muito fácil de se deslumbrar, porque o trabalho passa a valer muito, é uma coisa incrível, é muito fácil perder o senso... E é em momentos como esse que vejo o valor dessa influência que tive dos artistas do Areal e de artistas dos anos 60/70 que eles me mostraram... Eles mostram que arte não é isso, não está no objeto, está muito mais na autoria, na tua pessoa, no teu conceito, no teu desenvolvimento, na tua contribuição como sujeito, como artista... No começo eu até pensei: ‘Pô! Agora eu estou vendendo... Como vai ficar isso, como vai ficar a minha produção?’. E vários artistas que admiro andam por fora desse mercado, tanto no de galerias, quanto no institucional, e muitos artistas dos anos 60 que eu admiro criticam o mercado porque chega em um momento que isso vira moda, não há muita diferença entre a arte e a moda...Enfim, tenho várias linhas de trabalhos simultâneas, tenho uma linha que realmente mais passível de ser comercializada, e aí eu já entrei em momentos de crise, de ficar pensando que estou me vendendo... Mas tudo isso é palhaçada. Eu sei que estou sendo ética e não estou reduzindo meu trabalho. Eu acredito que estou fazendo bem e que não faço concessões para vender. Trabalho em várias linhas de pesquisa, e todas são investigativas... Algumas eu investigo a imagem em si, e por isso são mais vendáveis. E tenho trabalhos como este do Torreão. É maravilhoso poder expor em um espaço como este, fazer uma intervenção em um espaço com toda uma história, se inserir em um fluxo onde inúmeras respostas foram dadas para a mesma pergunta – como ocupar esse espaço? São trabalhos diferentes, que muitos devem pensar, como é que pode ser da mesma pessoa? Mas se analisarmos bem tem um fio condutor, são as mesmas perguntas respondidas de diversas maneiras. O Hélio Fervenza, que foi meu orientador na graduação e agora é no mestrado, me ajudou a enxergar isso. Ele me apontou para o fato de eu estar trabalhando com sintaxes visuais e sintaxes de representações.

AWB: E você sobrevive da sua arte?
Denise:
Me tornei independente financeiramente da minha família, recentemente. Agora estou bem feliz, pois estou totalmente independente. Cada mês é um mês, não sei dizer qual mês eu sobrevivi do trabalho artístico, ou quais meses sobrevivi de design gráfico.

AWB: Você também desenvolve um trabalho de designer gráfica?
Denise:
Sim, além de ter trabalhado nas publicações ‘Documento Areal’, fiz a capa para CDs da banda Cachorro Grande, da Pata de Elefante e do Júpiter Maçã. O design gráfico foi a primeira coisa que me proporcionou rendimentos. Atualmente, se eu conseguir viver menos de design gráfico, prefiro. Penso duas vezes antes de topar um trabalho desses. Depende do meu mês, atualmente eu estou muito feliz porque ganhei a bolsa no mestrado, e sei que por um ano e meio estou tranqüila. Antes disso, eu fazia uma poupança com os prêmios e cachês que recebia, também tive uma boa venda de trabalhos...

AWB: Você está vendendo muito ainda?
Denise:
Estou trabalhando esporadicamente com algumas galerias. Neste mês não tenho nada em galeria, mas terei em breve. Tenho alguns colecionadores que se interessam pelo meu trabalho... Olha como as coisas surgem... Na exposição que fiz na Funarte no Rio, uma jovem curadora, a filha do Paulo Sérgio Duarte, a Luiza Duarte viu o meu trabalho e gostou. Depois ela foi chamada para ser curadora de uma exposição de jovens artistas na Silvia Cintra, que é uma galeria super legal lá do Rio de Janeiro, e aí ela me ligou perguntando se eu teria interesse, e me pediu para que enviasse o que achava que seria legal para uma galeria. Começamos a trocar idéias, escolhemos um trabalho... Por isso que falo que tudo é aprendizado... Esse meu trabalho não dava naquele espaço, por incrível que pareça, a galeria não tinha duas paredes brancas que se encontrassem, pois era toda de vidro... Então tive que remodelar o trabalho, e com isso, acho que tive um ganho tão grande... Que bom que não tinham as paredes brancas, pois ficou sensacional, o desafio que toda circunstância te impõe, você só cresce com isso. E eu tive uma sorte... O Gilberto Chateaubriand viu o convite da exposição, gostou e comprou o meu trabalho, no que ele comprou, outros dois compraram imediatamente. Quando cheguei na vernisage, já estava com a tiragem vendida.

AWB: Quem é que dá o preço da obra? É você?
Denise:
Não, a gente conversa e define um valor para cada obra. Quando a galeria banca o custo de produção, dividimos em 50%. Podemos até pensar que é pouco para o artista, mas é a galeria que tem os contatos, o Gilberto jamais veria o meu trabalho se ele não saísse da minha casa, então eu acho justo. Quando a galeria não banca o custo de produção, daí é 30% que eles ganham. Essa história do Gilberto foi muito legal porque, logo em seguida, o conselho curatorial do MOMA veio para o Brasil e o MAM organizou uma grande exposição em comemoração aos 80 anos do Gilberto e os 40 anos de coleção dele, dividiram a exposição por décadas, e tinha um segmento que se chama Arte Brasileira Hoje, e eles colocaram o meu trabalho da coleção do Chateaubriand em exposição e está até hoje.

AWB: Como são as suas tiragens?
Denise:
Pequenas, três unidades... Esses de Paris acho que vou fazer 4...

AWB: E sob encomenda você faz alguma coisa?
Denise:
Não. Mas aconteceu de pessoas me dizerem que querem comprar um trabalho meu, e eu dizer que quando tiver produzindo um trabalho novo, aviso.

AWB: Bom Denise, para finalizar, você gostaria de falar alguma coisa que ainda não tenhas dito?
Denise:
Eu sou capaz de falar por horas...

AWB: E sobre o artewebbrasil, o que você tem a dizer?
Denise:
Acho o site super bacana, mas gostaria de dar uma sugestão: Colocar novamente os textos antigos no ar.

AWB: Em breve estarão disponíveis para download. Agradecemos pela entrevista.
Denise:
Eu que agradeço.





 

Denise Gadelha, Belém do Pará, 1980
e-mail: deniserg@terra.com.br



FORMAÇÃO
Bacharel em Artes Visuais com ênfase em fotografia, no Instituto de Artes da UFRGS.
Recebeu orientação de Maria Helena Bernardes entre 2000 e 2003.
Mestranda em Póeticas Visuais no Programa de Pós-Graduação do Instituto de Artes da UFRGS.

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS
2005 A certas distâncias, Torreão, Porto Alegre, RS.
2005 Espaços Visuais Funarte SP, Funarte São Paulo - SP.
2001 Condensável ,Galeria Lunara, Usina do Gasômetro, Porto Alegre, RS.

EXPOSIÇÕES COLETIVAS2005 Ano do Brasil na França, Espaço Brasil, Carreau du Temple, Paris - FR
2005 Arte Brasileira Hoje, coleção Gilberto Chateaubriand, MAM - RJ.
2005 Espaços Visuais Funarte SP, Funarte São Paulo - SP.
2005 Exposição de Verão II Galeria Silvia Cintra, Rio de Janeiro -RJ.
2004 Projéteis de Arte contemporânea 2004, Funarte, Rio de Janeiro - RJ.
2004 Prêmio Chamex de Arte Jovem, MAM, Rio de Janeiro - RJ.
2004 Prêmio Chamex de Arte Jovem, Memorial da Cidade, Curitiba - PR.
2004 Prêmio Chamex de Arte Jovem, Paço da Alfândega, Recife - PE.
2004 Prêmio Chamex de Arte Jovem, Teatro Nacional Cláudio Santoro, Brasília - DF.
2004 Prêmio Chamex de Arte Jovem, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo - SP.
2004 El Paso, Galeria Vicente do Rego Monteiro, Fundação Joaquim Nabuco, Recife - PE.
2003 Um território da Fotografia, Galeria dos Arcos, Usina do Gasômetro, Porto Alegre -RS.
2003 El Paso, Galeria Xico Stockinger, Casa de Cultura Mário Quintana, Porto Alegre - RS.
2002 3°Salão de Arte da Cidade de Porto Alegre, Usina do Gasômetro, Porto Alegre - RS.
2001 Laranjas, Galeria Iberê Camargo, Usina do Gasômetro, Porto Alegre - RS.
2001 Reticências ,Galeria Augusto Meyer, IEAVI - Projeto João Fahrion, Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre - RS.
2001 4° Salão de Arte Universitária, Instituto Cultural Brasileiro Norte-americano, Porto Alegre - RS.
1994 Salão Primeira Mão de Arte Jovem, Centro Cultural Brasil- Estados Unidos, Santos, SP.

PREMIAÇÃO
2004 Segundo prêmio no Prêmio Chamex de Arte Jovem.
2001 Prêmio-aquisição no 4° Salão de Arte Universitária, Instituto Cultural Brasileiro Norte-americano, Porto Alegre.

PARTICIPAÇÕES EM PROJETOS COLETIVOS
2003 El Paso, projeto itinerante realizado em parceria com os artistas peruanos Luz Maria Bedoya e Armando Andrade.
2003 Areal, a partir de 2002 é responsável pela coordenação gráfica e design da série de publicações Documento Areal, do Projeto Areal, dirigido por Maria Helena Bernardes e André Severo, com as seguintes publicações: Vaga em campo de Rejeito, Maria Helena Bernardes, Documento Areal 2, Escrituras, 2003; O + é deserto, Hélio Fervenza, Documento Areal 3, Escrituras, 2003; Sobreposições imprecisas, Elaine Tedesco, Documento Areal 4, Escrituras, 2003; Consciência errante, André Severo, Documento Areal 5, Escrituras, 2004.
2002 Laranjas, projeto que realizou intervenções sistemáticas em Porto Alegre durante este ano.