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À espera de Nina
por Kerlin Dutra, artewebbrasil

 

Dona de uma rotina que seria vista como atribulada para alguns artistas, Cylene Dallegrave nos recebe em um dos seus espaços de trabalho - a sua própria casa. A cobertura, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre é onde ela desenvolve suas obras, principalmente neste momento em que está com seis meses de gravidez, à espera de Nina, sua primeira filha.

Jornalista por formação, especialista em Artes Visuais, incansável aprendiz de novas técnicas artísticas e também autodidata por definição, Cylene utiliza diversos meios para expressar o seu conceito de arte. Pintura, colagem, fotografia, gravura e infografia, são alguns deles, mas confessa que atualmente tem se voltado mais para o último, devido à facilidade proporcionada pelo computador. Entretanto, mesmo grávida, não abandona a gravura e a faz como aluna do Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre, como voluntária do Hospital Psiquiátrico São Pedro ou como membro da diretoria executiva do Núcleo de Gravura do Rio Grande do Sul.

Na busca por algo que lhe desse mais prazer, Cylene abandonou o Jornalismo e uma carreira como funcionária pública, mas ganhou experiência e um trabalho reconhecido no cenário das artes. Com o apoio do marido, Rodrigo Guimarães, não teve medo de investir tempo e dinheiro na própria carreira, assim como se alimentou de energia para aprender sempre mais, crescer e conquistar o seu próprio espaço. Leia a seguir a entrevista exclusiva concedida para o artewebbrasil e conheça como é a rotina desta artista multimeios.



Foto : Miriam Dutra



 

AWB: Você é jornalista por formação e carioca?
CYLENE:
Sou, mas carioca foi por acidente. Com poucos dias de vida vim para Porto Alegre. Meus pais eram gaúchos, mas nos anos 60 acho que era moda ir para o Rio de Janeiro. Nasci lá, mas cheguei em Porto Alegre bem bebezinho.

AWB: Então você se considera gaúcha?
CYLENE:
Sim, totalmente. Somos obrigadas a colocar, quando se preenche estas fichas de inscrição para salões, o lugar de nascimento. Mas eu mesma, às vezes, me atrapalho.

 

AWB: Você fez a faculdade de Jornalismo?
CYLENE:
Fiz na PUC/RS, me formei em 1986.

AWB: E como foi parar nas Artes Plásticas?
CYLENE:
Fiz Jornalismo, mas sempre gostei de coisas ligadas à arte. Logo após me formar, montamos um grupo para fazer um jornal sobre cinema. Chamava-se ‘Última Cena’. Era na época daqueles planos econômicos, Plano Sarney, plano isso, plano aquilo... O panorama econômico estava favorável, então fizemos um jornal pequeno, na raça, e distribuíamos de graça nos cinemas. Trabalhei uns três anos neste jornal. Era puro prazer de cinéfila, mas vendíamos anúncios e conseguíamos nos manter. Porém, depois que a inflação estourou não foi mais possível manter o jornal. Depois, tive alguns problemas de ordem familiar, por causa da saúde da minha mãe... Tive que parar de trabalhar para cuidar dela e acabei me desencantando pelo Jornalismo. Acho que no fundo nunca tinha sido a ‘minha praia’. Aí fiz quinhentas coisas, fui até dona de confeitaria. Depois fiz concurso público, me tornei funcionária da Câmara Municipal... mas me sentia perdida e sem graça. Um dia minhas amigas Cristina Ferraz e Fernanda Verissimo disseram que não estavam mais me agüentando por causa do ‘meu mundinho de funcionária pública’. Eu realmente estava sem assunto. Elas disseram para eu fazer alguma coisa que tivesse mais a ver comigo.




AWB: Você também sentia isso?
CYLENE:
Claro. Era um mundo muito restrito, muito esquisito até. As pessoas eram muito sós, muito sem perspectiva de vida... Na época acho que foi até importante para eu ter uma rotina... Eu tinha ficado muito deprimida por causa da morte da minha mãe... De certa forma, foi uma forma de voltar para o mundo, mas com o passar do tempo começou a pesar. Então, lembro que peguei o jornal Correio do Povo e li um anúncio do Fernando Baril. Ele tinha voltado de Nova Iorque e estava ministrando um curso lá no torreão do MARGS, chamava-se ‘O ABC do Desenho’. Eu sempre gostei de arte, a minha mãe colecionava quadros, mas eu nunca tinha desenhado nada. Entretanto, como era um curso para principiantes, fui fazer. Era 1993. O curso foi maravilhoso, adorei. Era como se eu tivesse aberto uma porta para uma nova vida. Depois deste curso, fiz outro, também com o Baril, de pintura e formei um grupo com minhas colegas. Começamos a freqüentar o ateliê de uma delas e passei a pintar muito com tinta acrílica.

AWB: Mas você continuava trabalhando na Câmara dos Vereadores?
CYLENE:
Em 1995 ainda continuava fazendo concursos para tentar outro serviço público, fiz para taquigrafa para ganhar mais... Acabei passando. Mas me deu um ataque... Comecei a pensar o que queria fazer da minha vida, se queria ser funcionária pública ou se queria pintar... Dei um peitaço e pedi exoneração, pois era concursada. Não foi fácil, me senti horrorosa por estar jogando fora um emprego público.

AWB: Nem você tinha certeza de que esse era o melhor caminho?
CYLENE:
Não, mas arrisquei.



 

AWB: Quando você saiu da Câmara dos Vereadores, ainda estava aprendendo as técnicas artísticas, não existia uma carreira comercial?
CYLENE:
Não, mas eu tinha uma renda que me mantinha. Não foi uma coisa de jogar tudo para o alto e ficar sem base. Eu tinha, independente do meu trabalho na Câmara, uma renda que me mantinha.

AWB: Mas esta renda paralela não vinha da sua arte?
CYLENE:
Não. Era um apartamento alugado. Mas, de certa forma, dei um peitaço. Largar uma coisa certa, um salário todo o final do mês, uma estabilidade... Mas estava infeliz... Em busca de me sentir melhor, de estar de acordo com a minha cabeça e com as coisas que gostava fui para as artes. Hoje vejo os adolescentes que estão fazendo vestibular e não sabem o que vão fazer... Dizem: ‘Não sei se faço medicina por que se ganha mais dinheiro, ou...’. Acho que atualmente não tem profissão que ganhe mais dinheiro, você tem que fazer uma coisa que goste e de qualquer maneira vai ter que trabalhar bastante para conseguir ter retorno financeiro. Se você dedicar horas da sua vida numa coisa que não lhe dá prazer, será infeliz. Imagina ficar contando as horas para acabar o trabalho e poder viver...

AWB: Você fez este primeiro curso com o Fernando Baril e depois?
CYLENE:
Uma vez por semana eu me encontrava com o grupo de colegas, se chamava Grupo da Quinta. Os encontros eram as quintas-feiras, óbvio. A gente pintava... Minhas colegas eram a Bárbara Neubarth, a Lia Killing, a Silvia Benke, a Luiza Koch e a Gládis Ferreira.

AWB: E depois?
CYLENE:
Fui aprender outras técnicas. Comecei a fazer xilogravura no Centro de Desenvolvimento da Expressão (CDE), um lugar que pouca gente conhece, mas é mantido pelo Estado e fica na Avenida Ipiranga. Lá tinha um ateliê de xilogravura com Bento Dalabonna, que é um arte-educador sensacional. Depois fiz outros cursos no CDE para aprender outras técnicas. Fiz também um curso no Atelier 65 Arte, que era um atelier de arte têxtil, e que tinha a Francisca Dalabonna, esposa do Bento, que dava aula de colagem em papel de presente, em papel estampado. Maravilhoso. Fiz este curso com ela por uns três anos. Tenho uns trabalhos lindos deste aprendizado. Também fiz Curso de História da Arte na PUC com a Tânia Bian e com a Cláudia Fay e outro curso de História da Arte com o Armindo Trevisan... Em 2000, entrei no Atelier Livre da Prefeitura para estudar litografia. Estava me interessando cada vez mais pela gravura e tive vontade de aprender técnicas diferentes. Fui muito bem recebida pela Miriam Tolpolar, que era professora do atelier de lito e que hoje é a diretora. Eu já estava num momento bem mais maduro.

AWB: Você já tinha aprendido diversas técnicas e parece que já sabia o que queria...
CYLENE:
Isso mesmo. Foi uma trajetória que tracei e que se aprimorou. Quando cheguei no Atelier Livre já tinha uma bagagem prática, já tinha pintado muito, experimentado diversas coisas. Já entendia a linguagem da gravura, dominava a pintura... Acho que dominava... Embora nunca tenha feito uma exposição de pinturas, penso que tenho uma boa base. O Baril foi um ótimo professor, ele é muito bom, ensina tudo. Assim, quando cheguei no Atelier Livre comecei a estudar a parte conceitual, o projeto, a minha linguagem... Era uma coisa que eu não tinha...

AWB: Uma orientação da tua carreira artística...
CYLENE:
Sim, eu era soltona. Ia fazendo coisas. Pintava por pintar, imagem por imagem. A Miriam Tolpolar tentava nos encaminhar para um projeto próprio. A minha entrada na Feevale também ajudou muito neste sentido.

AWB: Mas antes de você pensar neste conceito do teu fazer artístico, você já havia feito alguma exposição?
CYLENE:
Eu tinha feito uma exposição com o Grupo da Quinta, uma exposição do curso de colagem, mas tudo em grupo, exposições bem amadoras, bacanas, ajeitadas, mas nada grande... Então, quando cheguei no Atelier para aprender lito, ainda não tinha essa linha... A Miriam nos orientou neste sentido e comecei a experimentar. Fiz uma série de litografias baseadas em fotos de jornais em que apareciam mulheres em diversos locais do mundo, na Chechênia, México, Brasil. Eu recortava as fotos, dava uma releitura e fazia uma lito. Era uma coisa meio política, bem ingênua, mas eu estava tentando. Fiz também uma série de litografias de árvores... Depois fui para a Feevale.



 

 


Cais do Porto de Porto Alegre - Infografia

 

AWB: Você foi fazer o que na Feevale?
CYLENE:
Veja que coincidência. Descobri o curso com o Fernando Baril, em 1993, nas páginas do jornal Correio do Povo. Dez anos depois, o Rodrigo, meu marido, abriu o jornal e viu um anúncio de uma pós-graduação em fotografia, imagem digital e gravura, e me disse: ‘É tudo o que tu faz!’. Então me inscrevi e, considero isso um passo tão importante quanto o de ter feito meu primeiro curso de pintura. Eu já estava trabalhando com o computador, foi o meu marido inclusive que me ensinou. O Rodrigo trabalha com animação e computação gráfica, ele desenha super bem, já fez desenho animado, filmes, ganhou prêmios... Ele foi super importante para mim. Quando fiz o curso com o Baril eu dizia que não sabia desenhar, que achava tão lindo os desenhos do Rodrigo... Ele me disse que qualquer um podia... Mas eu achava que tinha que ter o dom... E ele dizia que era aprendizado, que todo mundo poderia desenhar, que desenho era uma coisa de observação e que a gente vai aprendendo... Ele me incentivou muito para fazer este curso com o Baril, me deu dicas, foi maravilhoso. O aprendizado de computação gráfica também foi ele quem me ensinou. Eu não fiz nenhum curso. Nesta coisa de passar a xilogravura para o computador, ele me dava as dicas e eu ia fuçando... Naqueles momentos que eu trancava, pedia socorro e ele me ajudava nos pepinos de computador. Até hoje ele me ajuda porque tem paciência de ler manual e eu não. Então eu fazia gravura, trabalhava com o computador e estava também tirando fotos. A gente tinha comprado uma máquina digital...


 

AWB: Foi aí que você fez a série de fotos de Porto Alegre?
CYLENE:
Sim, foram gravuras de Porto Alegre. Tínhamos voltado de uma viagem ao México e decidi que queria fazer coisas da minha cidade. Quando a gente viajava, via aqueles cartões postais bacanas, bonitos e coloridos, e Porto Alegre não tinha nada. Então tirava fotos de pontos tradicionais e de detalhes da cidade e passava para o computador.

AWB: Após trabalhar a foto no computador, onde você imprime?
CYLENE:
Em gráficas expressas. Eu chamo de infografia, pois aprendi essa terminologia na Feevale com a Sandra Rey. Ela ensinou que o que não é cavado, ou cortado na matriz é grafia, por isso dizemos serigrafia, fotografia e infografia. E o que é gravado, que fere a matriz recebe o sufixo “vura”, daí xilogravura, etc. Eu tiro a foto, coloco no Photoshop, manipulo e isso vira infografia.

AWB: É um trabalho limpo, sem sujeira, sem químicas...
CYLENE:
Sim. Muitos dizem que é uma coisa de computador... Tudo bem é mesmo, mas embutido nestes trabalhos está a minha experiência com a pintura, com o uso das cores, com o contraste, com a composição... Tudo que aprendi nas aulas com o Baril... A linguagem da gravura também está muito presente nestas infografias por causa dos pretos, desta coisa do chapado. Recentemente, fiz uma sob encomenda para a Trensurb, foi uma edição fechada. Eles estavam fazendo um grande seminário com pessoas e empresários de trens urbanos da Espanha, de Portugal e do Mercosul, e queriam dar um presente para estes convidados. Chamaram-me para fazer uma nova infografia de Porto Alegre. Foi muito legal.

AWB: E a Feevale, você foi fazer pós-graduação?
CYLENE:
Sim, pois afinal nestas alturas eu já tinha 10 anos de experiência, feito muitos cursos, mas só tinha um diploma de Jornalista.

 

Ponte do Guaíba - Infografia


AWB: Existe preconceito por você não ter feito o curso superior de Artes?
CYLENE:
Acho que não. Penso que se você vai atrás, procura aprender, trabalha sério, mostra que tem conteúdo, não existe preconceito em ser ou não formado em Artes. Nunca alguém me pediu para ver um diploma. Mas eu sentia esta necessidade. Pensava: ‘E se um dia resolvesse dar aula, um curso, ou me candidatar a ser professora... Não poderia, pois meu diploma era de Jornalista e não tinha nenhum papel, nada formal que me desse essa possibilidade’. Apesar disso, sabia que não tinha cacife para entrar num mestrado na UFRGS. Eu ainda não tinha uma maturidade profissional nem um trabalho de destaque. Então fui fazer a pós-graduação na Feevale em busca deste título e também para aprender mais, me aprofundar. Foi maravilhoso.

AWB: Quando você terminou a pós-graduação?
CYLENE:
Defendi a banca em março de 2004 e obtive o título de Especialização em Artes Visuais. Foi super bom. Neste período comecei a entender e refletir sobre o meu trabalho e de alguma maneira as coisas começaram a acontecer... Fui incentivada a fazer uma pesquisa, e comecei a ter uma linha de estudo nas coisas que estava realizando. ‘Por que eu fiz uma foto e não fiz um quadro, por que eu fiz preto e branco e não colorido, por que escolhi este suporte?’ Aprendi a olhar para o meu trabalho, aprendi a me entender.

AWB: E durante o curso você continuava a produzir?
CYLENE:
Sim, era obrigatório. Isso era ótimo. Tive aulas de computação aplicada à arte, de fotografia, de gravura... Em cada disciplina a gente tinha que apresentar um projeto final, um trabalho escrito e outro prático.

AWB: Então você aprendia diversas técnicas?
CYLENE:
Sim, até porque a especialização era multi técnicas. Eram a fotografia, o computador e a gravura. Vejo uma grande união entre estas coisas, para mim é super natural.

AWB: Você é a favor do ensino de diversas técnicas, do artista multi?
CYLENE:
Sou muito a favor dos multi. Conseguimos ter a nossa linguagem. Os meios são tantos e estão a nossa disposição, é uma questão de reflexão: ‘Qual a melhor forma de expressar o que desejo? Através da fotografia, da gravura?’. Sempre tem um meio melhor de dizer as coisas. Por exemplo, quando fiz a exposição dos travesseiros, com a qual ganhei o 16º Salão de Artes Plásticas da Câmara Municipal de Porto Alegre, eu queria fazer uma parede cheia de travesseiros, precisava de várias cópias... Então tinha motivo para escolher a gravura, queria a reprodutibilidade... Acho muito bom ir fuçando nas coisas, descobrir novidades...

 


Sem Título. Objetos/instalação e litografia sobre tecido.
Prêmio Aquisição no 16º Salão de Artes Plásticas
da Câmara Municipal de Porto Alegre, 2004

 

AWB: Como foi este trabalho com os travesseiros?
CYLENE:
Foi o que fiz na Feevale. É um trabalho feito com as pessoas dormindo, para dentro de si. A idéia era essa. Somos uma personalidade para fora, mas todos os dias a gente se volta para dentro e vive uma vida paralela e mais próxima do verdadeiro eu. Então comecei a tirar fotos de pessoas dormindo e a trabalhar com elas. Fui depurando este material e acabei com filmes de pessoas dormindo. Eu tirava fotos toda à noite enquanto a pessoa estava dormindo, deixava a máquina bater sozinha e depois passava para um programa de animação... Quando dormimos temos uma vida paralela, mas não consideramos muito este momento de sono, são horas que parecem que não existiram... Fiz este trabalho para mostrar que durante o sono tem uma vida, existem coisas acontecendo... Entretanto, todas as vezes que tentava mostrar isso, usava imagens paradas, na gravura ou na fotografia, e parecia que a pessoa estava morta. No final me dei conta que podia animar as imagens, quadro a quadro, como acontece nos filmes, que não são nada mais do que fotos a 24 quadros por segundo. Pois estas fotos foram tiradas de três em três minutos...

AWB: E estas pessoas, quem eram?
CYLENE:
Os coitados dos parentes e dos amigos. O marido...

 

Sem Título. Fotografia Digital em Time Lapse, 2004 (detalhe)



 


Sem Título. Fotografias Digitais aplicadas em relógios de parede.100x80cm. 2004

 

 

Colcha de retalhos. Objeto. Infografia sobre tecido. 200x180cm. 2003

 

 

AWB: Você é também autodidata, né?
CYLENE:
Sou.

AWB: Só não gosta de ler manuais...
CYLENE:
Não, tenho horror... Mas o marido lê.

AWB: O seu trabalho explora novos meios, como a arte digital, a qual muitos ainda discriminam porque, talvez, não entendam. Você mesmo disse que já ouviu críticas como: ‘Ah, é só imprimir em uma gráfica’... Há quem pense que isso não é arte. Como você percebe este tipo de preconceito?
CYLENE:  
Isso existe. Nunca tive uma discussão mais profunda sobre esse assunto, mas tenho as minhas convicções. Penso que a gravura, no seu primórdio, era uma arte acessível, podia ser reproduzida e por isso ser barata. Pelo menos é o que eu estudei até hoje. Mas atualmente, uma gravura não é mais tão barata. Vai fazer uma gravura hoje, uma litografia, uma gravura em metal... O papel é caríssimo... É mais caro hoje fazer uma gravura do que fazer um quadro com tinta acrílica... Acho que tinta, bastidor e tela são mais baratos que fazer cópias de gravura...


Os papéis bons são caros... Um quadro você consegue pintar com capricho, em alguns dias... Já a gravura, se você fizer de três cores é uma novela... Cada impressão é paga... É complicado. Mas, em meio a isso tudo surge o computador, onde você pode colocar uma imagem para dentro, trabalhar com a tua bagagem de conceito de imagem e reproduzir em uma gráfica. ‘Ah, não é gravura porque não tem mão!’. ‘Ah, não é gravura, esta mais para uma simples reprodução!’. ‘Tem que numerar e não sei o quê...’. Tudo bem, você pode numerar, pode fazer uma edição fechada, tudo isso são regras. Mas eu faço, eu defendo e vendo bem essas infografias de Porto Alegre e acho que o que vale é a imagem. 
Claro que pode ter regras de mercado, mas acho que tem que ser barato, pois possibilita muitas cópias sem perda de qualidade e, o material e a impressão são acessíveis. Eu vejo que pouca gente trabalha com isso, mas já vi coisas caras, aí acho que não tem nada a ver...

AWB: Estas infografias você vende apenas em galerias?
CYLENE:
Sim, ou por encomenda.

AWB: Tem algum preconceito em vender numa livraria?
CYLENE:
Não, não tem problema nenhum. É o que penso, deve ser uma coisa barata para as pessoas colocarem em casa. A gente não tem que ter este preconceito. Acho que as outras pesquisas que fiz não têm um perfil comercial, nem pretendo isso. É uma coisa muito mais conceitual. Mas tenho que trabalhar e vender. Tem outras coisas que também sei fazer e por que não faria? Se me contratarem, vou lá e faço da melhor maneira. Uma coisa não exclui a outra.

AWB: A gravura tem que ser acessível?
CYLENE:
As infos, sim. Por que tem que ser cara? Por que tem que ser um negócio tão complicado, irreprodutível? Aí entra aquela coisa da aura da obra... Não vejo assim... Acho que o valor está no que você faz, na idéia, no resultado.

AWB: Você já sofreu algum preconceito por parte dos teus colegas?
CYLENE:
Não. Um dia a gente estava discutindo este negócio de assinar ou não as infografias. Se você não assina é reprodução, se assina e numera é uma edição fechada. Mas são discussões normais sobre um meio novo e as formas de explorá-lo. Já vi um pouco de discussão no Grupo Gravura, que é um grupo que tem na internet e eles levantavam o assunto. Diziam que infografia não é gravura... Bom, mas às vezes eles discutem também se o profissional é gravador ou gravurista... Qual é a diferença? Tem gente que fica ofendido de ser chamado de gravurista, sabe lá porque...



 

AWB: Você tem pequenas prensas, mas hoje não as têm utilizado. Houve um momento em que estavas mais voltada para a gravura tradicional?
CYLENE:
Acho que quando fazia gravura lá no CDE, quando eu fazia xilogravura. Ah, nesta época eu fiz um trabalho muito bacana para o “Livro Vermelho da Fauna em Extinção no Rio Grande do Sul“. O livro foi feito pela PUC, pela Fundação Zoobotânica e pelo Governo do Estado e patrocinado pelo Boticário. Eles fizeram um levantamento, através de pesquisa oficial, dos bichos que estavam em extinção no Estado e queriam dar um ar menos técnico para o livro. Assim me chamaram para fazer as ilustrações de abertura dos capítulos. Fiz gravuras aqui em casa mesmo. Mas depois, com o curso na Feevale, me envolvi muito com a fotografia... Acabo não fazendo tanto gravura em casa, mas faço lá no Atelier Livre, e fazia também no atelier da Feevale.



AWB: Até porque a gravura faz muita sujeira...
CYLENE:
Ah faz. Aqui em casa só posso fazer gravuras pequenas, se quiser fazer gravuras maiores tenho que ir para um ateliê maior. Lito por exemplo, você só pode fazer no Atelier Livre, no Museu do Trabalho, ou no Instituto de Artes da UFRGS. Existem pouquíssimos lugares... Você não pode ter uma pedrona daquelas em casa... Muito menos a prensa, que é enorme. Tem que ter pedra, ter tanque, ácidos... Acho que existem somente três lugares em Porto Alegre para fazer lito. Antes tinha dois, mas a Fernanda Soares, com o incentivo da Maria Lucia Cattani, conseguiu através de ‘um trabalho de formiguinha’, reativar no Instituto de Artes...

AWB: A gravura, para quem vê de fora, é uma coisa tão pesada, bruta até... E você tão calminha...
CYLENE:
Pois é... Mas todo mundo que faz gravura, se você for ver, é tão delicado... Acho que é uma forma de extravasar mesmo. É uma linguagem que também não acho tão delicada... É contraste, é preto e é branco... Claro tem as nuances... Mas o que acho legal na gravura são os contrastes, adoro as gravuras alemãs, dos expressionistas, as carrancas... Acho bacana justamente por ser uma coisa forte.

AWB: E como você foi parar no Núcleo de Gravura?
CYLENE:
Quando estava fazendo lito no Atelier Livre. A Miriam me convidou para ir apresentar meu trabalho e me candidatar. A diretoria analisa teu portfólio e vê se você já tem consistência no trabalho com a gravura, daí você pode se associar. Fiquei um ano como sócia e, no outro, já entrei para a diretoria. E, como todas as associações, sempre tem o problema de pessoas disponíveis para encarar o trabalho administrativo. Teve uma reunião e não tinha ninguém para ser secretária. Eu estava terminando a pós-graduação na Feevale, estava ocupada, mas como tinha facilidade com o computador, aceitei assumir o papel de secretária. Foi uma loucura, mas adoro.



AWB: E como é a rotina no Núcleo de Gravura?
CYLENE:
Nos reunimos todas as segundas-feiras pela manhã. No ano passado, quando o Núcleo completou 20 anos, muitas ações aconteceram, houve uma confluência de coisas boas, inclusive a mudança para a sede nova. Fomos convidados para ir para uma casa na Av. João Pessoa.

AWB: Aquela casa era do Exército, né?
CYLENE:
É do Exército. Nos fundos da casa, tem outra casa onde se reúnem semanalmente os veteranos da FEB (Força Expedicionária Brasileira), que são os velhinhos que foram para a 2ª Guerra. A parte da frente estava desabitada. Mas, um senhor contratado pela FEB, Sr. Contursi, que administra o local, queria transformá-lo em uma casa de cultura. Então, ele foi atrás de instituições que quisessem usar o espaço e movimentá-lo neste sentido cultural e nos convidou. Tínhamos um espaço pequeno no Museu do Trabalho, era super legal, mas era apertado. Nos convidaram para ir para aquela casa, toda legal, e ainda nos acenaram com uma sala de exposições. Aceitamos.

AWB: Foi feito algum restauro na casa?
CYLENE:
Não. A sala da frente já tinha sido pintada e como tem as paredes lisas, é utilizada como espaço para exposições. E para tanto, resolvemos fazer editais. Como é uma associação, tem 70 sócios... Para funcionar da maneira mais democrática, para nenhum sócio se sentir preterido, a gente faz editais, abre, não apenas para sócios, mas para toda a comunidade e chama júri sem ligação com a diretoria. Chamamos pessoas para avaliarem o portfólio das pessoas que querem expor. Este ano, o júri era formado pelo Eduardo Veras, pela Niura Ribeiro e pela Clara Pechansky, que é do Núcleo, mas não é da diretoria.

AWB: E há muito interesse dos artistas em expor no Núcleo?
CYLENE:
Na realidade estamos começando. Ano passado acho que colocamos o edital muito no final do ano e não houve muitas inscrições. Mas, é um local que está começando, né... Neste ano, teve as exposições da Fernanda Soares e da Júlia Berenstein. O júri foi bem criterioso, escolheu só as duas. Mas em compensação, tivemos uma grande divulgação na imprensa, saiu na Zero Hora, no Correio do Povo, na TVE, na TV COM, FM Cultura... Foi bem legal. Acho que nas próximas seleções haverá muita procura.

AWB: E o Núcleo não oferece cursos?
CYLENE:
Temos este projeto. Mas somos apenas cinco pessoas. Temos que coordenar uma sala de exposições, as exposições de sócios, a tesouraria, a secretaria... São muitas coisas né... Sem ganhar nada... E tem mais a vida da gente... No ano passado teve um projeto bem bacana, chamava ‘Gravura na Praça’, propomos ao Santander Cultural que a gente daria uma aula de gravura para os passantes da Praça da Alfândega, em frente ao Santander Cultural. Então, montamos uma barraca, colocamos mesas e ensinamos xilogravura. Foi super legal. O pessoal do Santander adorou e agora nos chamaram novamente, por causa da exposição do Miró que foi prorrogada, para fazer mais uma vez.

AWB: Já tem data?
CYLENE:
Ainda não, estamos esperando uma resposta do pessoal do Santander.

AWB: Mas este tipo de ação ocorre em troca de algum apoio?
CYLENE:
Sim, a gente vai pedir... No ano passado pedimos também... Mas, temos que pagar um cachê para as pessoas que estão trabalhando... Agora desta vez vamos tentar um pouquinho mais de verba para a Instituição. O Núcleo de Gravura está sempre com a ‘corda no pescoço’... Fazemos um boletim informativo... Tudo é muito custo e sabemos que as pessoas, muitas vezes, não têm dinheiro para pagar a semestralidade... Trabalhamos sempre no limite... É complicado.

AWB: Além das dificuldades do Núcleo, sobreviver da de arte também é complicado?
CYLENE:
É.

AWB: Você sobrevive da arte ou de outras rendas?
CYLENE:
De outras rendas, mas este ano começaram a aparecer muitos trabalhos devido ao movimento que fiz ano passado. Acho que existem dois lados. Um que mostra ser muito difícil mesmo viver de arte porque é uma coisa tão subjetiva, as pessoas têm que gostar do que você faz para querer comprar, e isso é muito complicado. E tem o outro lado onde muita gente reclama que não dá, que não vende, mas que não vai muito à luta. É um trabalho como qualquer outro. Você tem que colocar o trabalho embaixo do braço e se mostrar. Tem que se colocar a disposição para fazer as coisas. Eu fiz muita coisa de graça, faço até hoje...

AWB: O que você faz de graça?
CYLENE:
Faço um trabalho voluntário no Hospital São Pedro, faço coisas... Mas tudo isso só me trouxe benefícios. Através destes trabalhos você mostra o que faz e pode até não estar ganhando nada hoje, mas as pessoas estão te conhecendo, vendo que você trabalha legal e lembrarão de você mais adiante. Este trabalho para a Trensurb, por exemplo, foi uma amiga que conhecia o meu trabalho e que um dia estava numa agência de publicidade e me indicou.

AWB: Como é este trabalho no Hospital São Pedro?
CYLENE:
Tem o objetivo de ajudar a conseguir fundos para conservar a memória e o patrimônio do Hospital antes que ele caia. Doei duas infografias para serem vendidas e faço gravuras pequenas que aplicamos em cadernos e blocos artesanais também para serem vendidos. Vendemos no Hospital e em eventos de arteterapia.

AWB: Você não trabalha diretamente com os internos?
CYLENE:
Não. Mas já fui várias vezes na Oficina de Criatividade, implantada por uma daquelas minhas amigas que fazia pintura nas quintas-feiras, a Bárbara Neubarth. Esta oficina que ela implantou no Hospital Psiquiátrico segue os moldes do que aconteceu no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, quando a Nise da Silveira começou a tratar os pacientes através da arte em uma época que nem se pensava em fazer isso. Hoje a arteterapia é muito usada... A Nise da Silveira começou, acho que na década de 50, a fazer este tipo de terapia ocupacional e acabou fazendo toda uma pesquisa. O trabalho é lindo. E a Bárbara implantou isso no Hospital.

AWB: Você acha necessário construir uma rede de contatos?
CYLENE:
Para conseguir trabalho? Sim, tem que fazer, senão, não dá. Eu tenho esta facilidade porque também faço trabalhos gráficos, sei fazer um folder, um cartaz, um convite, se quiserem me contratar para isso...

AWB: E você tem contatos com muitas agências de publicidade?
CYLENE:
Algumas, as que devagarzinho vou conseguindo. Eu trabalho muito com a Galeria Gravura, eles vendem as minhas infografias de Porto Alegre. Também já aconteceu de dois hotéis, um na Serra e outro na Praia do Rosa, me contratarem para fotografar o local onde estavam sediados. Eram fotos, não gravuras, mas tudo bem, eu faço. Trabalho tem, mas você tem que se mostrar e estar disposta a fazer as coisas. Não é fácil, você tem que ser virador, mas tudo na vida é assim. Ficar sentado em casa esperando que lembrem de ti... Isso não acontece mais. Outra coisa é fazer projetos também né...

AWB: Hoje tem muitas opções?
CYLENE:
Tem. É um saco fazer projetos, não tem coisa mais chata. Consome muito tempo só para montar e escrever. É um desgaste enorme, mas é uma saída se você consegue editar um livro, fazer uma exposição que seja remunerada... Isso você vai mostrar mais adiante...

 

 

AWB: E o trabalho para o Festival de Bonecos de Canela?
CYLENE:
O pessoal queria dar uma cara ao festival e me convidaram para fazer. Fiz umas xilogravuras, em 1999. Eles adoraram e houve bastante repercussão, principalmente entre as crianças. Então continuei fazendo. A cada edição faço os bonecos e eles já se tornaram marca do festival. Primeiro eram somente as carinhas dos bonecos, depois coloquei corpinhos neles. Mas este ano não rolou, não tive tempo para fazer, estava muito cansada.

AWB: E o cinema? Você chegou a fazer um curta em Super 8?
CYLENE:
Fiz, mas faz tempo que nem vou ao cinema... Eu fiz Super 8 quando estava na faculdade, era uma cadeira de cinema, o professor era o Carlos Gerbase.  Tínhamos uma turma legal, fazíamos roteiro, tudo direitinho... Eu geralmente fazia a produção e era atriz... Fazia de tudo... Fizemos dois filmes e com um deles até ganhamos um kikito em Gramado. Nunca mais produzi. Até era uma coisa que gostaria de fazer... Acho que tenho muito este perfil...

AWB: Nos parece que tu tens este perfil de organizadora...
CYLENE:
Tenho sim. Tenho este lado meio metódico.

AWB: Como é a tua rotina de trabalho?
CYLENE:
Acho que não tenho muita rotina. Na segunda-feira de manhã tenho a reunião do Núcleo de Gravura, na quarta-feira de manhã tenho o trabalho voluntário no Hospital São Pedro, quinta-feira durante à tarde estou fazendo curso de preparação para mestrado com a Maria Helena Bernardes. Quero fazer mestrado em Artes, agora sim me sinto preparada. Quero continuar estudando, quero ir mais adiante.

AWB: Este curso é preparatório para fazer um Projeto e tentar passar na seleção do mestrado ou você já tem o projeto?
CYLENE:
É para fazer um projeto. É muito difícil, tem uma prova de conhecimentos e de história da arte. São muitas leituras de obras. E a Maria Helena é bárbara, fantástica. Além de nos ensinar a história ela também nos ajuda no projeto, orienta como escrever. É ótima nisso. Outra coisa maravilhosa foi fazer a monografia da Feevale porque foi uma experiência de escrever sobre o próprio trabalho, aquela coisa de organizar o pensamento em cima de uma caminhada tua e produzir um trabalho final, pensar sobre ele, apresentá-lo, concluir coisas e pensar sobre as portas que ficaram abertas e por onde você pode continuar...

AWB: Você pretende fazer um projeto para este ano ainda?
CYLENE:
Pois é... Ainda tem o bebê... Estou com seis meses, deve nascer em setembro e a prova para o mestrado é bem neste período... Não sei se vai dar... Quando me inscrevi neste curso de preparação, disse para a Maria Helena que não sabia se iria dar. Se quando chegar mais perto da data eu achar que está muito pesado, tudo bem, fica pro ano que vem. Mas seria bom se desse, quando as aulas começassem em março, o bebê já estaria com seis meses.

AWB: E no resto da semana você faz o quê?
CYLENE:
Tenho Atelier Livre na quarta-feira de tarde, sexta-feira estou começando num grupo de gravura em metal... A minha rotina é assim, umas tarefas salpicadas e no intervalo disso tudo eu invento coisas...

AWB: E as químicas da gravura não interferem na gravidez?
CYLENE:
Sim, por isso que estou pegando bem leve na gravura este ano. No Atelier Livre, por exemplo, eu brinco que pareço o Dart Vader, pois uso uma ‘baita’ de uma máscara, pareço um piloto kamikaze da 2ª Guerra... Uso por causa dos ácidos, das tintas... Já no Hospital São Pedro, onde fazemos as gravuras para colocar nos blocos... Não uso nada. Acho que tinta não é tão tóxica, e também não colocamos as mãos, não comemos tinta... É mais o problema do cheiro... Mas não limpo com querosene, nem com coisas de cheiro muito forte, limpo com óleo de cozinha... Se, eventualmente, tenho que usar outras coisas, peço para alguém fazer para mim...

AWB: Então nesta tua rotina de grávida, o computador é uma grande opção?
CYLENE:
Sim, é fundamental. Hoje em dia tem que ser foto e computador...

AWB: E no futuro, você acha que vai acabar só na infografia?
CYLENE:
Não sei, me dá uma vontade de colocar as mãos na massa...

AWB: E você ainda pinta?
CYLENE:
Não, parei. Tenho uma vontade de voltar, mas não dá tempo... Essa rotina maluca...

AWB: Você acha que falta tempo para o criar artístico?
CYLENE:
Falta e eu ando meio cansada. Você vai assumindo compromissos... Tenho compromisso com o Núcleo, com o Hospital São Pedro... Quando você vê já começou a pesar... Falta tempo para pensar alguma coisa... Mas estou com algumas idéias... Penso em juntar o computador com a gravura... Muito do que surgiu no meu trabalho mais conceitual, foi lá na Feevale. Fiz um trabalho sobre o inconsciente, usando uma linguagem diferenciada... A fragmentação da imagem, em quadros, esteve muito presente. Aliás, acho que esta é uma tendência, se você visitar a mostra do Mapeamento, no MAC, percebe que todo mundo está nesta viagem da fragmentação...


 


Atrás dos olhos fechados. Exposição no MAC/RS, outubro
2004


AWB: A fragmentação está presente em nossas vidas há muito tempo, a TV é assim...
CYLENE:
Sim, há horas né. Tudo tem um quadrado... Fotos são um enquadramento, a TV também, o computador... Olha a loucura... Uma imagem de computador é formada por quadradinhos, pixels... Estou com vontade de brincar com isso usando a gravura e a xilo. Estou com vontade de fazer imagens com pequenos ou grandes pedaços de madeira, unindo a computação com um meio super antigo. Acabei de fazer uma coisa parecida para o Projeto Humanitas da Unisinos. Fiz uma imagem fragmentada da Terra e que formava um rosto olhando para gente. Quis explorar a idéia de que cada pedaço era uma pessoa, a nossa contribuição para o mundo...

AWB: Idéias não te faltam... Mas será que com o bebê vai sobrar tempo para tudo isso?
CYLENE:
É...

AWB: Mas talvez você tenha inspirações relacionadas com a maternidade...
CYLENE:
Já estou tendo... Fiz uma experiência em lito que tem essa coisa de ecografia...

AWB: É menino ou menina?
CYLENE:
Menina. Está prevista para nascer no dia 14 de setembro.

AWB: Qual o nome?
CYLENE:
Nina, para não ter apelido.

AWB: É o teu primeiro bebê?
CYLENE:
É. Estamos casados a 12 anos, o bebê foi bem planejado... Principalmente porque os 40 anos chegaram... Eu estava enrolando, protelei bastante porque antes não tinha estrutura... O problema é que tinha a tendência a achar que nunca tinha a estrutura...

AWB: Você tem mais alguma coisa a dizer?
CYLENE:
Não, acho que falei que nem uma condenada... Só para salientar uma coisa: O meu trabalho das infografias de Porto Alegre são mais comerciais, para vender mesmo, não são, em absoluto, trabalhos que eu não goste, mas não têm toda esta pesquisa, esta coisa mais conceitual que acho legal, mais contemporânea, de investigar uma idéia e de explorar suportes diferentes. No mestrado quero continuar na pesquisa do sono, do inconsciente, que considero muito instigante.

AWB: E sobre o artewebbrasil, qual a tua opinião? Pode ser franca...
CYLENE:
Sinceramente achei que o site está super bonito. Gostei da entrevista com o André Venzon. Achei super bonito a sessão Portfólio. Enfim, acho o site maravilhoso, pois é onde vamos buscar informações sobre eventos, salões, prazos...

AWB: Obrigada pela entrevista Cylene.
CYLENE:
Foi um prazer.

 

 

 

 

Cylene Dallegrave, Rio de Janeiro, 1964

Graduada em jornalismo pela PUC/RS (1985) e pós-graduada em Poéticas Visuais, com ênfase em Gravura, Fotografia e Imagem Digital, pela FEEVALE/RS (2004). Realiza, anualmente, as ilustrações da campanha gráfica do Festival de Bonecos de Canela/RS. Participou de diversas exposições coletivas e salões, entre eles: 2º Salão de Artes Plásticas de Gravataí (2003), 11º Salão Internacional de mini-gravuras de Lódz, Polônia (2002), XIII Salão de Artes Plásticas de Praia Grande/SP (2001) e XIV Salão da Câmara Municipal de Porto Alegre(2000). Em 2004, ilustrou o Livro Vermelho da Fauna em Extinção do Rio Grande do Sul, participou como artista convidada no Loft BR Turbo, no Cais do Porto de Porto Alegre e recebeu o Prêmio Aquisição no XVI Salão de Artes Plásticas da Câmara Municipal de Porto Alegre. Em 2004, realiza a exposição Atrás dos Olhos Fechados, no MAC/RS - Museu de Arte Contemporânea de Porto Alegre.