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Trechos extraídos do texto de Katia Canton, curadora e crítica publicados na Revista Poliester, vol 6 nº 21, 97/98
.....Ao final da década de 1980 sua produção recuperou e ampliou o tema das bonecas: elegeu objetos miniaturizados, bonecos de plástico, animais de pelúcia, fazendo referência aos jogos infantis e arrancando deles poderosas contradições.... |
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...A matéria prima de Menna Barreto é lúdica e carinhosa. Seus animaizinhos e bonecos são sorridentes peludos, macios, tingidos em suaves tons de rosa e azul celeste. Sem dúvida, em seus estados brutos, são apenas o ponto de partida de uma operação formal de desconstrução e construção de formas realmente muito estranhas.
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Sem Título,
1993. |
| Trecho
extraído do texto de Lisette Lagnado para o catálogo da
exposição de Lia Menna Barreto Galeria Camargo Vilaça, São Paulo, SP Naturezas-mortas Sabe-se que Lia Menna Barreto sempre manipulou bonecos de toda espécie e animais de pelúcia ou de borracha. Decorre daí uma facilidade em inserir obras com tais componentes numa tradição basculante, que comporta desde o "surrealismo" de Hans Bellmer até o "escatológico" Mike Kelley. Qualquer forma de pensamento a respeito do trabalho de Menna Barreto havia se tornado um exercício de especulação sobre "desvios" : corpos desmembrados, infância perversa, contos de fadas e lendas de monstros, tantas expressões de um léxico único e redutor. Não que a obra nunca tenha esbarrado em algumas características da abjeção. Seria o caso de pensá-lo diante das cabeças de bonecas exibidas como troféus de algum massacre, servindo de receptáculo para plantas. O exemplo certamente mais próximo da matéria viscosa que remete ao abjeto é encontrado quando a artista força a penetração de um material no outro, derretendo, com ferro de passar, um tropel de bichos de plástico sobre a seda. |
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O
problema não reside numa arte que cause náusea ou repulsão mas, nesse
jogo de forças com objetos excessivamente contundentes, em estar em
pleno domínio de sua vibração simbólica. Cede-se ao jogo da
literalidade na falta de uma solução formal. (...)
Com o tempo, a ordem dos materiais assumiu cada vez mais a vocação da natureza-morta. As composições não poderiam ser mais explícitas : plantas, flores de tecido e de plástico, e bichos de pelúcia ( sapos, formigas, aranhas, cobras, ratos, escorpiões). (...) O aspecto interessante na natureza-morta de Lia
Menna Barreto é a mistura entre mundo vivo e mundo inerte, vida e morte
inextricavelmente enredadas. A artista relata que na hora em que passa o
ferro quente para incrustar o objeto sobre o suporte, o calor deixa a
lagartixa semiderretida, quase viva. Há um devir-lagartixa que se
desmancha no informe. |
Sem
Título,1999 (detalhe) |
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A maior confirmação dessa necessidade reside no fato de que certas peças da artista dependem de uma participação diária que será transferida à pessoa que adquirir a obra. Mesmo que um fragmento seja fadado à desintegração, é reincorporado, e o trabalho continua exigindo a mão do outro. |
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| É assim que se opera a substituição da "natureza-morta" para a idéia de "vida silenciosa". O sentido do Belo será encontrado na instalação Máquina de bordar, que concentra imagens da passagem do tempo sobre a obra, das "afinidades eletivas" entre o tecido e as raízes do milho. "Quando em funcionamento, este sistema de produção de bordado requer cuidado diário. As sementes de milho colocadas sobre a fralda úmida, dentro das bandejas, são regadas. Com o passar dos dias, as sementes brotam, e as raízes iniciam o bordado. Duas semanas depois, plantas e raízes desenvolvidas, inicia-se o processo de secagem. As bandejas deixam de receber água. Seca, a parte bordada é retirada da bandeja e armazenada ao lado. Começa um novo bordado, mais um pedaço de fralda sai do rolo e é umedecido para receber sementes de milho dentro da bandeja. (conforme descrição da artista extraída de sua carta para mim / 18/01/2000). |
Máquina
de bordar, 1999 |
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| Se é verdade que a diversão das crianças depende de um jogo de manipulação, isto é, aprende-se tocando o mundo com o próprio corpo, não estamos muito longe desse destino quando devemos mergulhar na difícil fruição da arte. Lembramos que a técnica da natureza-morta, imprimir a forma de uma mesa com alimentos por exemplo, exige uma preparação de coisas ao alcance da mão. Mediante pequenos atos cotidianos que, repetidos, garantem a manutenção da obra, Lia Menna Barreto estabelece uma vertiginosa aproximação entre arte e vida. Esta exposição vem reafirmar que o cultivo da arte tange à ordem do afeto. Dentre tantos desvios mencionados aqui, caberia então guardar aquele que nos leva à lição da cultura. A arte, como a vida, é um esforço; por um descuido, desaparece. | ![]() |
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| Trechos de Paulo
Herkenhoff, extraídos do texto
"Quase brinquedos
de Lia Menna Barreto", do catálogo da exposição Ordem
Noturna.(1995) |
| "...Brinquedos, tanto quanto arte, são produção simbólica. Brinquedo e arte tem pontos de analogia e convergência. Não escapam, em geral, das condições tecnológicas, e estão vinculados a um dado momento da sociedade de onde emergem." | ![]() |
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Sem
Título, 1995 |
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"Para
Lia Menna Barreto o processo |
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Espíritos
Azuis, 1995, Madeira queimada e bonecos |
| "...Lia Menna Barreto confronta-se com imagens de representação e simulacros do afeto. Sua obra tem em conta a capacidade do brinquedo de ativação do imaginário infantil e, agora, por seu uso, recuperar essa possibilidade do jogo afetivo. Arte, diz-nos Argan, é um momento preciso de relação de alteridade, momento em que o Outro colhe signicados na estrutura significante, a obra de arte, constituída pelo artista. Brinquedo e arte - estamos diante, não de duplos, mas de instâncias do real...." | ![]() |
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Coelho do
Avesso,1995 |