Seleção de textos e fotos do Livro
ALFREDO NICOLAIEWSKY - Pinturas e Desenhos


O corpo humano, que já vinha servindo de tema a desenhos anteriores, é deslocado para uma estreita faixa à direita, ou na parte superior do papel. Ocupando a superfície restante, aparecem recantos de uma residência de classe média, com seus adereços característicos. O papel de parede estampado de flores, as fotos de família, os vasos, as imagens votivas e outros elementos recriam de forma crítica um modo de vida pleno de ordem. Mas esta ordem é quebrada por situações não previsíveis, como as inscrições infantis sobre a parede (e, às vezes, sobre os retratos da tia) onde o nome do "artista-criança" (que é o mesmo do artista) é repetido inúmeras vezes.



Sem Título (1983 / 98x73cm)
Lápis de cor e aquarela s/papel
Col. Particular, Porto Alegre, RS


E não só o nome, mas também releituras ou complementos dos objetos expostos (por exemplo: borboletas desenhadas na parede, voando em torno de um vaso com flores "reais"). É armado um jogo entre o desenho e o desenho dentro do desenho. Porém, a quebra mais forte se dá com a visão do corpo despido, no limite do papel. Hoje acredito que causavam incômodo pelo preconceito contra o sexo associado à casa, mas mais ainda pela forma como surgiam, ou se insurgiam, não integrados ao ambiente, mas sobrepostos, agregados, expondo a realidade da ilusão provocada pelo extremo realismo na execução.

O outro aspecto que se define com mais clareza a partir desta mostra é a utilização de elementos da cultura popular (santinhos, imagens votivas, prato com asas de borboleta), da cultura erudita (David de Michelangelo, os Profetas do Aleijadinho) e da cultura de massa (cartão postal com reprodução de cartaz de propaganda de bala e de uma praia).


 


Sem Título (1983 / 70x98cm) - Lápis de cor e aquarela s/papel
Col. do Artista, Porto Alegre, RS

 

 

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Na série que compôs a exposição na Galeria Branca da Casa de Cultura Mario Quintana, em 1994, há uma retomada de temas e procedimentos dos dez anos anteriores: as imagens populares (santinhos), as embalagens, os estampados de flores, lembranças e recordações. A exposição, resultado de dois anos de produção, foi concebida como um grande conjunto, tendo as obras características diferentes mas complementares, nas quais os diversos elementos dialogariam e se complementariam, independentemente do seu valor individual, ainda preservado. Os trabalhos dividiram-se em dois grandes grupos: desenhos a grafite sobre papel e pinturas sobre tela. Os desenhos reproduziam fragmentos de páginas do "Diccionario Prático Illustrado" de 1947, no qual há imagens ilustrando alguns verbetes. A escolha das imagens e textos que foram reproduzidos nos desenhos se deu a partir de critérios formais, sendo que a preocupação recaiu mais na composição dos elementos (blocos de texto e imagens) do que nos seus significados. Aqui há um texto que pode ser lido, mesmo não contendo nenhuma informação importante para a compreensão da imagem, sendo portanto o texto desenhado o próprio desenho.

 


"Âmphora" - Col. do Artista
Porto Alegre - RS
Grafite s/papel 1992/94 - 50x70,5cm


"Dentária" - Col. do Artista
Porto Alegre - RS
Grafite s/papel 1992/94 - 50x70,5cm

 

 

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Uma segunda questão colocada é a relação texto/imagem, que aparece nos três santinhos: São Miguel Arcanjo, São Cristóvão e o Anjo da Guarda, nos quais é confrontada uma imagem com a sua descrição. São três pinturas, cada uma formada por duas telas de dimensões iguais: a primeira que foi executada reproduz, através de uma grande ampliação, um "santinho" da forma o mais fiel possível. A segunda é um texto pintado, que descreve a imagem anexa. O confronto entre duas formas de expressão, texto e imagem, era o aspecto que me interessava discutir.






"Anjo da Guarda" (1993/94 , 175x200cm)
Tinta acrílica s/tela.  Coleção do Artista
 Porto Alegre - RS


"São Cristóvão"  (1993/94 , 175x200cm)
Tinta acrílica s/tela.  Coleção do Artista
Porto Alegre - RS



 

"Rosas d'aprés Kosuth" - ( 1994 - 100x100cm cada módulo) Rosas de plástico e tinta acrílica s/ tela.
Col. do Artista, Porto Alegre, RS

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No trabalho intitulado Rosas d’après Kosuth, citação e homenagem a Joseph Kosuth e sua obra "Uma e três cadeiras", um painel é coberto com rosas de plástico (formando uma rede), um segundo painel reproduz em pintura o primeiro e um terceiro repete a palavra "rosa" em uma estrutura igual à dos painéis anteriores. Tenho utilizado o mesmo procedimento - inclusive na produção realizada entre 1995/1997, que comentarei adiante - ou seja, a repetição como forma de reflexão a partir de determinado objeto. Em alguns desenhos de 1983, isto já aparecia de forma integrada na composição: por exemplo, no trabalho em que há seis fotos minhas quando criança, um desenho sobre a parede (auto-retrato adulto) e mais meu nome escrito diversas vezes, ou seja, a presença do autor acentuada, enfatizada. 

A partir de Rosas d’aprés Kosuth, inicio um fazer mais envolvido com a reflexão, tentando refazer, de certo modo, o pensamento de Kosuth, porém acrescentando um dado que me interessa: o diálogo entre cultura popular e erudita, que continuo desenvolvendo até hoje.

Dois aspectos dessa mostra devem ser salientados pela relação que apresentam com a produção de 1995/1997: a exposição foi concebida como um todo em que cada peça valia por si, mas que, no conjunto, possibilitava novas leituras e o uso de imagens que, de alguma forma, se relacionam com minha infância e com minhas memórias, apesar de que "nosso ‘passado’, aquilo que tomamos por um conjunto de lembranças é, realmente, uma nova criação, uma impressão que se relaciona com os eventos atuais e as impressões do passado".(ROSENFIELD, 1988, p. 87.)

 

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Os trabalhos, evidentemente, poderiam ser feitos sobre um único suporte, o que permitiria uma maior integração entre os elementos. Mas esta solução não deixaria tão aparente a sua construção, que queria explicitar. Na verdade, pretendi que estas obras fossem muito claras, ao mostrar não só o processo construtivo, do conjunto e das partes ao deixar aparente as redes de ampliação dos desenhos ou usando tecidos industriais, como também evidenciar as associações e origens das imagens utilizadas.

As memórias - ou talvez fosse melhor falar em recordações - atuaram nestes trabalhos como elemento deflagrador, como ponto de partida da criação. Os motivos iniciais foram imagens significativas da história da arte, com as quais tive contato na infância e adolescência, entre elas o busto de Nefertite, O Nascimento de Vênus de Botticelli, a Noite Estrelada de Van Gogh, associando-as posteriormente com outras da cultura de massa e popular. De todas elas me aproprio, pois são elementos da minha história


 

O que é que tem sua cabeça? é o trabalho que deu inicio à série. No primeiro momento, ele era formado apenas pelas repetições das silhuetas da Nefertite recortadas em chitão e coladas sobre quatro telas revestidas com o mesmo tipo de tecido, em padronagens diferentes.

 

 

 

 


"O que é que tem na sua cabeça?"

Técnica Mista, 143x222cm -1995/96
 

Pretendia acrescentar ao grupo uma Carmen Miranda, propondo um diálogo entre ícones de épocas diferentes. Ao ampliar a proposta, enfatizando a memória, a associação de imagens e a agregação de novas imagens, juntando elementos a partir de um núcleo inicial - que se apresenta como uma possibilidade em aberto - tornou-se mais fácil solucionar a Carmen Miranda, pois me permiti o uso de uma linguagem que diferia das Nefertites. A representação de Carmen Miranda foi encomendada a um retratista de rua: na medida em que estou trabalhando a partir de imagens criadas por outros artistas, porque não incluir um original de outro artista?

 

 

No início Este é mais cerebral era para ser constituído apenas pela tela maior. Nesta, o desenho sobre tela do Pensador de Rodin, foi executado com bastão de óleo, ampliado através do uso de uma rede ortogonal. Esta rede se repete na colagem das folhas de textos e completam este elemento do trabalho o desenho de uma casa, e três pequenos quadrados nas cores primárias. Acrescentei posteriormente a reprodução de uma pintura de Mondrian, a planta-baixa de uma igreja e o painel com as infogravuras. Durante a concretização da obra percebi, que todas as imagens utilizadas tinham como estrutura formadora linhas ortogonais.


 

 

 

 

"Este é mais cerebral"
Técnica Mista, 130x250cm
1995/96

 

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Trabalhando no computador, para fazer os estudos preliminares das obras a serem realizadas, havia notado que, em grandes ampliações, a estrutura das imagens é formada por pequenos quadrados - os pixels - também uma estrutura ortogonal. Ao perceber o fato de que todas as outras imagens eram construídas por redes, decidi evidenciar essa estrutura. Para tanto, utilizei uma foto do Pensador e, através de sucessivas ampliações no computador, produzi uma espécie de zoom de aproximação, expondo, assim, sua estrutura formante.

 

 

Inicialmente, Latidos ao longe constituía-se apenas da tela maior, uma citação da escultura da Loba Romana, recortada em chitão e colada sobre a tela parcialmente recoberta por diferente padronagem do mesmo tecido. O título chama a atenção para os dois AU AU que constam na tela. Ao colocá-los posteriormente havia uma certa ironia, uma associação com uma tela de Roy Lichtenstein, onde aparece um cão rosnando, e também já sinalizava a posterior entrada da Lassie em cena.

 

 

 

 

"Latidos ao Longe"
Técnica Mista, 134x294cm
1995/96

Ao decidir agregar por associação outros elementos, poderia dizer que todas as outras imagens surgiram ao mesmo tempo. A Lassie, na minha cabeça, era o contraponto contemporâneo à Loba Romana, mas também referência à lembrança infantil, quando pensava que a loba era uma simples cadela. Este trabalho é construído como um jogo entre o adulto ordenador e a criança livre em suas associações, irônica e debochada. As associações infantis aparecem buriladas, ordenadas pelo adulto.

 

 

" A Terra é azul ", disse o astronauta russo Yuri Gagarin, na primeira viagem do homem ao espaço. Faz parte de minhas lembranças e nomeia o trabalho A Terra é azul que articula imagens infantis que associo ao céu: a foto do antigo observatório astronômico da UFRGS, anjos, a noite e suas estrelas. Fantasias e realidades, que racionalmente são ordenadas e separadas, mas que, para a criança, fundem-se e se confundem, criando um universo único de conhecimento científico e mágico.



 

 

 

 

"A Terra é Azul"
Técnica Mista, 134x294cm
1995/96

 

Ocorreu-me usar a pintura Noite Estrelada de Van Gogh, ao lembrar que, aos 12 anos, minha tia Cila deu-me de presente um estojo de pintura com tintas a óleo. Na época, não sabendo o que pintar, ela sugeriu que copiasse alguma pintura, e escolhi a Noite Estrelada, reproduzida no Mundo da Criança. A partir desta lembrança muitas imagens foram sendo associadas.

Imaginei a Noite Estrelada em fragmentos, elegendo alguns detalhes da pintura original e ampliando-os. Visualizei essa maneira como possibilidade de alterar a estrutura do trabalho, pois, nos anteriores, o ícone detonador da obra era sempre a maior tela. Foi também a possibilidade de remeter à idéia de espaço celeste, como se vêem em filmes ou desenhos animados: os foguetes andando entre planetas e estrelas.