Memórias em Ressonância
Blanca Brites


Acompanhando o processo de trabalho de Alfredo Nicolaiewsky nos últimos quatro anos e revisando sua trajetória, lançamo-nos a esquadrinhar os ventos que o levaram a navegar em tal rota. Duplo percurso: o do artista, com seu trabalho conceitualmente materializado, e o nosso, que através do olhar busca cruzar por entre as inúmeras vias de acesso a essa mesma rota, sabendo sempre da possibilidade de outras tantas mais, ainda indecifráveis, e que estarão sempre em aberto.

São múltiplos os caminhos por onde transitar, na dependência da sintonia a que cada um se proponha. Se, para transitar pela obra, temos que nos aventurar a descobrir indícios por vezes quase invisíveis, para o artista, de forma diferente, também existe uma procura: a do inesperado. Nessa busca constante, ele igualmente se vale de pistas que, quando recuperadas, atuam como o fio de Ariadne, dando ao artista a certeza de, ao defrontar-se com o inesperado, já "conhecer" a saída do labirinto, mesmo que esta esteja sempre na próxima obra. Para Alfredo, Ariadne lhe deixou como "ponto de fuga" a memória.

 

Politecnia e Simulação
Imagens Contemporâneas de Alfredo Nicolaiewsky
Fernando Cocchiarale

Duas das características essenciais da obra de Alfredo Nicolaiewsky – a habilidade manual extremada e a produção de nexos pela combinação de imagens – embora interdependentes, costituem, por um lado, o seu principal desafio e, por outro, a única possibilidade de relacionar seu trabalho às idéias que movem parcela significativa da produção de arte contemporânea dos últimos 40 anos.

Trata-se pois, de compreender de que maneira Alfredo vem superando, ao longo do desenvolvimento de sua obra, a rejeição da arte moderna e contemporânea ao virtuosismo e de compreender como seu interesse pelo ícone é marcado pela contemporaneidade, diferindo, portanto, da mímesis pré-moderna. Essas questões específicas, porém, só podem ser esclarecidas se fizermos um breve retrospecto histórico.

 

 

 

Sobre algumas obras
de Alfredo Nicolaiewsky

Tadeu Chiarelli


Nesta primeira aproximação da obra de Alfredo Nicolaiewsky, buscarei ficar restrito a três momentos do trabalho do artista, momentos esses que considero extremamente produtivos, não apenas por considerá-los os mais instigantes de seu percurso até o presente, mas também (ou por causa disso), pelo fato de serem aqueles onde sua produção dialoga de maneira autônoma e original com a cultura visual, tanto do país quanto do exterior.

Esses três momentos são a série realizada com aquarela e lápis de cor sobre papel, de 1983; os desenhos e pinturas em acrílica sobre tela, realizadas entre 1993 e 1994 e, finalmente, seus trabalhos realizados até 1996, 1997.

Melhor pensando, para tentar desencadear meu raciocínio de maneira menos problemática, e levando em consideração o caráter de continuidade existente, entre o segundo e o terceiro momentos, transformarei esses dois últimos num único bloco, embora sempre respeitando as sutis diferenças entre eles.


Embora separados por um período de dez anos, os dois estágios da produção de Nicolaiewsky aqui em consideração possuem, a princípio, um ponto em comum: cada uma das obras que os compõem se caracteriza pelo uso de imagens de forte realismo fotográfico, colocadas em justaposição. Se nos trabalhos de 1983 essas imagens se juntam num mesmo suporte, aquelas realizadas entre 1993 e 1997 tendem a preencher cada uma o campo de suportes determinados, mais tarde agrupados pelo artista.

 

Tentativa de localizar um desígnio
Paulo Gomes


No seu texto subsídio entregue a todos nós, convidados a escrever sobre sua obra, Alfredo Nicolaiewsky, em inúmeros momentos, nos revela seu modo de trabalhar, seus desígnios e suas ações críticas. Mas em dois momentos, ele utiliza a palavra bonito/bonita para justificar uma escolha. No primeiro ele diz que "o molde de papel kraft é exposto porque, além de ser bonito, remeteria à questão do fazer, vinculando uma imagem pronta ao processo construtivo da obra" e, no segundo, "a embalagem do Sonho de Valsa foi escolhida (...) por ser bonita." Não é muito comum que os artistas envolvidos em processos construtivos críticos se valham de palavras tão simples, ainda mais para justificar uma opção dentro da obra.

Quando me sentei para ver e ler o material fornecido pelo artista, fui buscar primeiramente uma linha de pensamento, uma coerência interna, um fio condutor que perpassasse toda a obra.

É uma tarefa complexa, pois corremos o risco de sem olhar com a devida atenção, sermos seduzidos por uma linha que não é a mais profunda. Na obra de A.N., tal risco se multiplica na proporção direta das inúmeras variações formais e das técnicas utilizadas. 

Conhecendo sua obra já há alguns anos e freqüentando seu ateliê e suas mostras sistematicamente, ao longo dos anos, fui depurando minha visão e posso arriscar agora indicar um desígnio para sua obra. 

Vejo a obra de Nicolaiewsky como a de um poeta e de um crítico.

 

Imagens Mestiças
Icleia Borsa Cattani


Esse texto abordará alguns aspectos da obra de Alfredo Nicolaiewsky, centrando-se, sobretudo, na série Mistura Fina, desenvolvida entre 1995 e 1997(*).

Para compreensão da lógica da trajetória de sua obra, serão vistos alguns elementos de uma série anterior, desenvolvida em 1983-1984, que se relacionam estreitamente com a série mais atual.

Mistura Fina compõe-se de sete obras. Todas possuem um mesmo princípio construtivo: tratam-se de conjuntos, estruturados por imagens diversificadas, temática e formalmente. Algumas foram realizadas pelo próprio artista, outras foram "apropriadas", como estatuetas, bandejas; outra ainda, foi encomendada a um artista que realiza desenhos na rua. As técnicas utilizadas por Nicolaiewsky, nas imagens por ele realizadas, também variam: fotocópia, fotocópia pintada à mão, colagem (sobretudo, de tecidos), desenho, pintura.

Esses conjuntos são aglutinados em torno de uma idéia, ou associação de idéias, que surgem, num primeiro momento, ligadas à memória afetiva do artista. O fio condutor que liga imagens tão díspares é essa associação de idéias e um princípio de apropriação: apropriação de imagens-fetiche, imagens-objeto do desejo, imagens que, para o artista, possuem importância que pouco ou nada tem a ver com sua hierarquia no universo consagrado das imagens. Assim, figuras de quadros importantes da história da arte ocidental convivem com imagens populares, religiosas ou não, com fotografias, cartões postais, e até, reproduções de embalagens de produtos industrializadas (bombom, lata de leite condensado, etc). Por trás desse princípio de apropriação, estão presentes o artista, sua história pessoal, a história maior na qual ele se encontra inserido, e sua circunstância. Todas essas questões revelam-se em Mistura Fina, em tensão permanente, nunca resolvidas.

(*) Período em que o artista estava realizando Mestrado em Artes Visuais na UFRGS, sendo que essa série constitui o corpus de obras abordado na dissertação.

 

Trechos dos textos de: Blanca Brites, Fernando Cocchiarale,
 Tadeu Chiarelli, Paulo Gomes e Icleia Borsa Cattani