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Temos, porém, em nome da democracia como valor, que concordar com tudo
isso e acrescentar que cada um deve achar o seu modo próprio de conviver
com as obras. Pode-se ler ou não a mensagem do curador, ouvir ou não o
guia. Além disso, é preciso dizer algo bastante comum entre nós e ainda
válido: uma obra deveria ser vista sem legenda, ou sem texto explicativo,
sem que precisássemos de um guia que nos
ensinasse a ver. Nos julgamos capazes de ouvir uma música a qualquer hora
e em qualquer lugar. Para isso não precisamos de guia. Quem nos ajudaria a
ouvir neste país de música industrializada? Acreditamos que nossa audição
é completa, perfeita, natural. É brasileira. Pois é, não é hora de falar
de música além da de Volpi. Mas o fato é que temos a crença de que sabemos
ouvir e, de certo modo, desconfiamos que
não sabemos ver quando vamos a uma exposição. Essa desconfiança pode nos
salvar, mas pode também pôr tudo a perder. Claro que muitos atribuem a
incapacidade de ver, no sentido mesmo assistir, de “se dispor a”, ao
artista e não à própria sensibilidade ainda não forjada. Tudo isso
significa que não sabemos olhar.
Respeitemos o alarme e o guarda sempre chamando a atenção para a linha
amarela, o excesso de pessoas perdidas como num bairro desconhecido, a
rapidez constrangedora dos que se desgarram dos bandos, façamos aquilo que
os fenomenologistas chamavam de suspensão (epoché): uma espécie de transe
em que se abstrai do ambiente para contemplar o fenômeno (e, se faltar
concentração e sobrar sorte, atingi-lo). Assim é possível ver Volpi.
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Grande Fachada Festiva, década de 50
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E o que há em Volpi?
Muitos pensam nas bandeirinhas, outros já viram as fachadas, ainda podem
ter visto as madonas, ou talvez conheçam os objetos concretos, a bandeira
brasileira, as paisagens de Itanhaém, as primeiras pinturas livres que
incluem até óleo sobre papelão. O percurso de Volpi até as bandeirinhas dá
a impressão de que ele foi um artista honesto, dedicado à sua arte no que
ela é conteúdo, forma e técnica, como são em geral os verdadeiros
artistas. O curador Olívio Araújo tenta em seus textos acentuar a
ingenuidade do Volpi homem que negava, por exemplo, a influência de
Ernesto de Fiori e dos concretistas. Ele deve ter razão, pois tudo o que
vemos nos influencia, a emoção ou mesmo a inveja que sentimos por um
artista ou uma obra que nos marca para sempre. Mas Volpi, talvez, quisesse
apenas, ao negar seu saber sobre si mesmo, dizer “me deixa em paz com a
sua história e crítica de arte, porque eu não sou um erudito que produz
uma obra já pensando no museu que vai abrigá-la”. A ingenuidade enquanto é
o meio da crítica sempre preserva o artista. Ela é a devoção a uma causa,
a do próprio estilo, da própria linguagem. Só ela ensina o caminho da
criação.
Ele provou, todavia, para além da ciência, do entendimento, que entendia
tudo de bandeirinhas pintadas com simetria e têmpera (a têmpera, eu
escreveria mil vezes essa palavra para tentar dizer o que ele alcançou com
isso, mas é impossível explicar). Isso, só ele sabia. Sorte de quem viu e
conseguiu, além de tudo, olhar.
Exposição VOLPI: A MÚSICA DA COR
MAM-SP - Grande Sala. (Parque do Ibirapuera, s/nº - Portão 3)
Visitação até 2 de julho 2006 (terças a domingos e feriados, das 10h às
18h)
Quanto: R$ 5,50
Informações: (11) 5549-9688 e
www.mam.org.br
Imagens:
http://diversao.uol.com.br/album/volpi_musicacor_album.jhtm
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