Marcia Tiburi

 

quinta-feira, 27 de abril de 2006 

O curador Olívio Tavares de Araújo batizou “Volpi: A Música da Cor” a retrospectiva da obra do artista ítalo-brasileiro Alfredo Volpi (1896-1988) exposta no MAM de São Paulo até 2 de julho próximo. Chamar de “música” o que se vê nessa exposição, além de ser uma metáfora para o aspecto complexo - apesar do, à primeira vista, simples - das telas do artista, é uma ajuda para a compreensão dos leigos. O povo brasileiro, mais acostumado com música do que com artes visuais, talvez possa entender do que se trata no verdadeiro festival de alegria, em tons e cores, formas geométricas e santos, que é a obra de Volpi. A famosa bandeirinha é um signo radical da alegria que invadiu a pintura.

A exposição propõe que ouçamos já que olhar é tão difícil. E isso é, cada vez mais, um problema social em nosso país de ouvidos ensurdecidos de funk e olhos tapados por luzes de néon. Ouvir é tão difícil quanto ver é o que se pode concluir.

O povo vê Volpi, eu sou parte do povo, logo vou ver Volpi. Brincadeiras sofísticas à parte, tão interessante quanto ver a exposição é ver o povo (quem se move para ver) vendo os quadros. Ao observar o povo descobre-se aquela célebre diferença entre “ver” e “olhar”. Entre o mecanismo da visão que captura e a contemplação que obriga a pensar. No dia em que fui tive a magnífica oportunidade de presenciar festivos bandos de crianças curiosas e suas heróicas professoras, hordas emocionantes de adolescentes em fase de aplaudir tudo (literalmente) com suas ainda mais heróicas professoras, e o guarda constrangido com o barulho inicial do alarme que contava o número de visitantes ou avisava do possível suspeito. O grupo mais curioso era o de turistas americanos ou ingleses ou australianos (...), com certa idade, com um guia ou dois, ou três, ou quatro, explicando-lhes aspectos básicos da vida do artista e suas obras. Os turistas seguiam o guia como abelhas seguem o mel ou moscas seguem outros rumos.

E vêem bem rápido o que há em todas as salas. O guia tem o papel de produzir a “fast-interpretation” como em outros lugares se produz a fast-food. Algo sem prazer nenhum, que cumpre seu papel de preencher o vazio do estômago, desobrigando de que haja algo de nutritivo na refeição. O guia é alguém que ajuda a ver: ou seja, ajuda, em outro registro, a engolir. Se os turistas puderam ver, provavelmente não puderam ouvir a música sugerida pelo curador. Ou seja, não olharam. Aliás, não leram o texto do curador, como também não o fizeram as crianças e os mais crescidos. Direi eu mesma o que outros devem estar pensando: que cada um veja como pode, o mais importante é que as crianças e os jovens  e os estrangeiros estão visitando, estão se acostumando, estão buscando, estão reconhecendo e sendo educados. (Num país sem educação e com a cultura em estado de mendicância, conformar-se é a saída...)



Bandeirinhas, década de 50






Bandeirinhas, década de 70
 



Temos, porém, em nome da democracia como valor, que concordar com tudo isso e acrescentar que cada um deve achar o seu modo próprio de conviver com as obras. Pode-se ler ou não a mensagem do curador, ouvir ou não o guia. Além disso, é preciso dizer algo bastante comum entre nós e ainda válido: uma obra deveria ser vista sem legenda, ou sem texto explicativo, sem que precisássemos de um guia que nos ensinasse a ver. Nos julgamos capazes de ouvir uma música a qualquer hora e em qualquer lugar. Para isso não precisamos de guia. Quem nos ajudaria a ouvir neste país de música industrializada? Acreditamos que nossa audição é completa, perfeita, natural. É brasileira. Pois é, não é hora de falar de música além da de Volpi. Mas o fato é que temos a crença de que sabemos ouvir e, de certo modo, desconfiamos que não sabemos ver quando vamos a uma exposição. Essa desconfiança pode nos salvar, mas pode também pôr tudo a perder. Claro que muitos atribuem a incapacidade de ver, no sentido mesmo assistir, de “se dispor a”,  ao artista e não à própria sensibilidade ainda não forjada. Tudo isso significa que não sabemos olhar.
 
Respeitemos o alarme e o guarda sempre chamando a atenção para a linha amarela, o excesso de pessoas perdidas como num bairro desconhecido, a rapidez constrangedora dos que se desgarram dos bandos, façamos aquilo que os fenomenologistas chamavam de suspensão (epoché): uma espécie de transe em que se abstrai do ambiente para contemplar o fenômeno (e, se faltar concentração e sobrar sorte, atingi-lo). Assim é possível ver Volpi.
 


Grande Fachada Festiva, década de 50

 
E o que há em Volpi?
 
Muitos pensam nas bandeirinhas, outros já viram as fachadas, ainda podem ter visto as madonas, ou talvez conheçam os objetos concretos, a bandeira brasileira, as paisagens de Itanhaém, as primeiras pinturas livres que incluem até óleo sobre papelão. O percurso de Volpi até as bandeirinhas dá a impressão de que ele foi um artista honesto, dedicado à sua arte no que ela é conteúdo, forma e técnica, como são em geral os verdadeiros artistas. O curador Olívio Araújo tenta em seus textos acentuar a ingenuidade do Volpi homem que negava, por exemplo, a influência de Ernesto de Fiori e dos concretistas. Ele deve ter razão, pois tudo o que vemos nos influencia, a emoção ou mesmo a inveja que sentimos por um artista ou uma obra que nos marca para sempre. Mas Volpi, talvez, quisesse apenas, ao negar seu saber sobre si mesmo, dizer “me deixa em paz com a sua história e crítica de arte, porque eu não sou um erudito que produz uma obra já pensando no museu que vai abrigá-la”. A ingenuidade enquanto é o meio da crítica sempre preserva o artista. Ela é a devoção a uma causa, a do próprio estilo, da própria linguagem. Só ela ensina o caminho da criação.


Ele provou, todavia, para além da ciência, do entendimento, que entendia tudo de bandeirinhas pintadas com simetria e têmpera (a têmpera, eu escreveria mil vezes essa palavra para tentar dizer o que ele alcançou com isso, mas é impossível explicar). Isso, só ele sabia. Sorte de quem viu e conseguiu, além de tudo, olhar.
 

Volpi Volpi Volpi
Volpi Volpi Volpi


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Vista Panorâmica de Itanhaém, década de 40  



Exposição VOLPI: A MÚSICA DA COR
MAM-SP - Grande Sala. (Parque do Ibirapuera, s/nº - Portão 3)
Visitação até 2 de julho 2006 (terças a domingos e feriados, das 10h às 18h)
Quanto: R$ 5,50
Informações: (11) 5549-9688 e
www.mam.org.br
Imagens:
http://diversao.uol.com.br/album/volpi_musicacor_album.jhtm