Entrevista exclusiva com Paulo Sérgio Duarte
Curador da 5ª Bienal do Mercosul


por Kerlin Dutra, artewebbrasil


Paulo Sérgio Duarte é crítico, escritor e professor de história da arte. Realiza pesquisas no Centro de Estudos Sociais Aplicados na Universidade Cândido Mendes, e leciona Teoria e História da Arte na Escola de Artes Visuais – Parque Lage, no Rio de Janeiro. Também é curador na Fundação Iberê Camargo.
Foto: Site Fundação Bienal


 

AWB - Quais as razões para a escolha do escultor mineiro, Amílcar de Castro, como artista homenageado? A retrospectiva que será apresentada em Porto Alegre será a mais completa realizada sobre o artista? Quais os espaços que a mostra irá ocupar?

Paulo Sérgio Duarte - Primeiro, porque Amílcar foi sem dúvida um dos maiores artistas da segunda metade do século vinte. Só não está em todos os livros de história da arte porque nasceu e viveu ao Sul do Equador, e a história da arte ainda é escrita no hemisfério Norte e para o hemisfério Norte. Veja-se, por exemplo, a recente Art since 1900 – modernism, antimodernism, postmodernism de Hal Foster, Rosalind Krauss, Yve-Alain Bois e Benjamin Buchloh, sem dúvida, entre os maiores críticos e teóricos da arte contemporânea: onde está Amílcar nesse livro? Segundo: o tema da Bienal tem tudo a ver com a obra de Amílcar que constantemente reinventou o espaço com suas esculturas e desenhos. A primeira e única retrospectiva em vida de Amílcar de Castro (1920-2002) foi realizada no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, em 1989, sob minha direção e com curadoria de Glória Ferreira. Porém a homenagem que faremos nesta Bienal será a mais completa não só porque permite a visão da obra de 1953 até 2002, como inclui as obras de design gráfico que não fizeram parte da exposição do Paço Imperial. O José Francisco Alves, curador assistente da 5a Bienal do Mercosul, já visitou perto de quarenta coleções públicas e privadas no Rio, São Paulo e Belo Horizonte, para fazer a pré-seleção das obras.
 

" o tema da Bienal tem tudo a ver com a obra de Amílcar que constantemente reinventou o espaço com suas esculturas e desenhos."


AWB
- O tema desta edição é ‘Histórias da Arte e do Espaço’ e pretende estabelecer uma ponte entre o grande público e a produção artística contemporânea. Quem é o grande público e como estabelecer esta ponte?

Paulo Sérgio Duarte - Existem mais de cinqüenta Bienais no mundo de hoje. O que a Bienal de Porto Alegre tem que fazer para se diferenciar numa conjuntura que não é a mesma do início dos anos 1950, quando surgiu a Bienal Internacional de São Paulo? Naquela época só existia a, então, cinqüentenária Bienal de Veneza. A jovem Bienal de São Paulo veio mostrar que havia qualquer coisa se movendo ao Sul do equador. Ciccilo Matarazzo realizou um formidável empreendimento. O evento se sustentava por si só, atraia naturalmente seu dinheiro, e conquistou, não somente a adesão da comunidade internacional que financiava suas representações, como substantivos recursos orçamentários públicos, aprovados por lei que permanecem até hoje. A Bienal de Porto Alegre surge em outro momento histórico, por isso, além, de sua abertura para o conjunto do continente latino-americano é, a meu ver, indispensável, um novo tipo de relacionamento com a população local para justificar sua existência, seus custos, e garantir sua longevidade.
O primeiro passo é pensar o projeto educativo enquanto um processo permanente de atualização, primeiro de professores, e depois de setores da sociedade, sobre as questões da arte moderna e contemporânea. Um trabalho que nem as instituições museológicas, nem a academia podem se dedicar em grande amplitude, mas que a Bienal de Porto Alegre poderia tomar às mãos como sua razão de ser entre um evento e outro. Operacionalmente é possível, existe o desafio financeiro, mas, acredito, que um projeto bem elaborado encontrará  quem o apóie. Trata-se de uma prioridade óbvia a questão da educação. É esse elemento que tem que ser fortalecido: entender a arte enquanto a produção de um conhecimento específico e que, portanto, para a ele se ter acesso se necessita de educação. Uma educação à qual não se tem acesso no ensino formal, sobretudo no que diz respeito à arte contemporânea. Essa seria a verdadeira razão de ser de mais uma entre cinqüenta bienais.

AWB – Apesar das estatísticas das Bienais anteriores, em que o número de visitantes e participantes surpreende a cada edição, como os organizadores vêem o desinteresse ou o não-entendimento da arte contemporânea por parte de grande parte da sociedade? O que será feito para aproximar outros públicos da arte?

Paulo Sérgio Duarte - A 5a Bienal do Mercosul parte do princípio que, apesar de recente, esta Bienal já tem uma história. Trata-se agora de avaliar essa história e saber quais são os próximos passos, não só para mantê-la digna desse capital cultural acumulado – essa história é exatamente isso: capital cultural acumulado, e o que fazer para avançá-la. Do ponto de vista temático, a 5ª Bienal não é uma Bienal de autor, isto é, o curador não apresenta uma tese e a expõe nas opções que faz para a Bienal. Escolhi um tema aberto e clássico da História da Arte: a questão do espaço, para permitir livres abordagens tanto pelos artistas como pelos curadores dos diversos países participantes. A principal contribuição que eu veria na próxima Bienal é a compreensão do projeto educativo como permanente, contínuo e abrangente, que não se interrompe entre uma Bienal e outra. Este projeto tinha na capacitação de monitores para “explicar” (atenção para as aspas) a arte contemporânea para o público leigo um dos seus principais objetivos. Do meu ponto de vista, esse trabalho com os monitores é apenas uma pequena parte do projeto educativo e dele não se pode esperar maiores resultados que os já obtidos. É muito difícil, mesmo para o crítico especializado, explicar de chofre uma obra de arte contemporânea: há um tempo para isso, de indagações, às vezes estudo, até a absorção da obra e sua plena compreensão. Isto não é uma novidade, está presente no fenômeno da arte moderna desde o século XIX. Quantos anos, ou mesmo décadas, precisaram para um Manet, os impressionistas, Cézanne serem plenamente compreendidos? Por que a arte contemporânea teria que ser imediatamente entendida e explicada por jovens que recebem algumas semanas de treinamento? É preciso ter a coragem de dizer “eu não sei”, para algum dia chegar a saber. Acho que essa ansiedade pela inteligibilidade imediata da obra contemporânea tem mais a ver com os hábitos de consumo rápido de mercadorias perecíveis que com fruição estética e também pelos hábitos de entretenimento estimulados pela indústria do show business. A fruição de obras de arte é uma experiência, que como qualquer outra exige sua repetição e se dá num nicho diferente das experiências oferecidas pela indústria da diversão. Assim, um projeto educativo permanente e contínuo que se desenvolve através de seminários, ciclos de palestras, pequenos cursos, publicações, encadeando uma bienal com a outra é o melhor modo de capitalizar, junto ao público, a experiência realizada pela visita à exposição que dura apenas um pouco mais de dois meses. Além disso, não vivemos num país com educação pública aprimorada e com poderosas instituições museológicas capazes de contextualizar historicamente as experiências contemporâneas, tal como nos países de capitalismo avançado do hemisfério Norte. Um projeto educativo permanente supre, em parte, uma efetiva lacuna de nossas instituições educacionais e culturais. É uma necessidade para países com as características dos países envolvidos, com exceção, talvez, do México, onde a questão cultural é tratada dentro de patamares diferentes dos nossos. Se a 5ª Bienal do Mercosul conseguir deixar essa herança a minha experiência de curadoria terá sido muito positiva; se fracassar nesse ponto, terá sido apenas mais uma experiência a incorporar na minha existência e no meu currículo na orientação de projetos complexos.
 

" É preciso ter a coragem de dizer “eu não sei”, para algum dia chegar a saber. Acho que essa ansiedade pela inteligibilidade imediata da obra contemporânea tem mais a ver com os hábitos de consumo rápido de mercadorias perecíveis que com fruição estética e também pelos hábitos de entretenimento estimulados pela indústria do show business. "



AWB – Nesta edição, os artistas serão distribuídos entre os quatro vetores que compõem a mostra, ou seja, da Escultura à Instalação, Transformações do Espaço Público, Direções do Novo Espaço e a Persistência da Pintura. O fim da divisão geográfica é uma maneira de trazer mais pluralidade à Bienal?

Paulo Sérgio Duarte - As questões estéticas contemporâneas não estão nem aí para as fronteiras políticas e geográficas que separam as nações, são questões culturais específicas que podem estar sendo tratadas por artistas no Japão, na Turquia, na Argentina, no Brasil, na Alemanha ou na Itália, por exemplo. Segundo, precisamos mostrar aos governantes de nossos respectivos países que no âmbito da arte interagimos independente das idiossincrasias nacionais e somos capazes de nos apresentar como um continente artístico-cultural que se apropria de modo inteligente de nossas diferenças. Essas diferenças são produtivas, nos estimulam, não nos separam.

AWB – Já foram convidados quatro artistas internacionais: Illya Kabakov (USA), Stephen Vitíello (USA), Marina Abramovic (Iugoslávia) e Pierre Coulibeuf (França). Quem mais será convidado? Existem outros nomes internacionais?

Paulo Sérgio Duarte - Os trabalhos de Ilya Kabakov são, quase sempre, instalações. Coulibeuf só trabalha com vídeo ou cinema; é um artista cineasta. Vittielo trabalha com um pensamento sobre espaço e som. Marina Abramovic trabalha, sobretudo com performances e enviará uma vídeo-instalação. São artistas convidados muito mais pela capacidade de materializar plasticamente um pensamento rico do que pelos suportes que eventualmente utilizam. Fora dos países participantes –Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, México, Paraguai e Uruguai, são somente esses quatro artistas. Sempre é bom lembrar que nomes como Tunga, Waltercio Caldas, Ernesto Neto, Adriana Varejão entre tantos outros, são internacionais.

AWB  – Também já estão confirmados quatro artistas nacionais: Carmela Gross, José Resende, Mauro Fuke e Waltércio Caldas. Eles serão responsáveis por obras permanentes para Porto Alegre. Que tipos de obras estão pensando em doar para a paisagem da Capital dos gaúchos? É possível adiantar alguma coisa?

Paulo Sérgio Duarte - Vou pedir aos artistas que façam intervenções no espaço que permitam ao público experimentá-lo de uma nova forma. Mas de modo nenhum quero monumentos sobre pedestais criando novas “praças”. Já existem muitos monumentos em Porto Alegre de elevada qualidade. Quero que as pessoas possam passear sobre as obras, se sentar sobre elas, ou simplesmente observá-las como algo que altera a paisagem que elas já conheciam. Não é o público que usa os lugares públicos, são pessoas, indivíduos, mães, pais, filhos, solteiros, casados, viúvas e viúvos, pobres e ricos. É para eles que devem ser pensadas as obras que estarão lá. Público é uma abstração tão grande quanto é a humanidade. Os órgãos públicos municipais estão nos ajudando muito nessa escolha dos lugares das intervenções, tal como o estado que nos cede seus formidáveis espaços. De qualquer forma, posso adiantar: pedi que fossem lugares usados pela população nas suas horas de lazer, que não estivessem muito próximos uns dos outros, deveria haver um respiro entre um encontro e outro, e que pudessem ser visitados por alguém que fosse à Bienal sem um grande esforço de deslocamento. Um complemento desse vetor poderá ser o trabalho de performances de artistas que tanto poderá ocorrer ao ar livre quanto em interiores.

AWB – A cada edição, durante a Bienal do Mercosul, o Projeto Educativo tem levado milhares de estudantes de escolas públicas e particulares para um contato mais direto com a Bienal. Esse é um projeto importante. Nesta edição ele será ampliado? Como está sendo feita a preparação dos professores das escolas?

Paulo Sérgio Duarte - Acredito que a 5ª Bienal do Mercosul se diferenciará das outras bienais anteriores, muito mais pela sua metodologia ao conduzir o processo de construção de uma bienal do que por supostas diferenças de “conteúdos” (aqui estão as aspas de novo). Isto se evidencia na aposta nos recursos humanos do Rio Grande do Sul para conduzir o processo como, por exemplo, em pessoas da estatura da reitora Wrana Panizzi, como diretora-superintedente da Bienal, no curador adjunto Gaudêncio Fidelis, nos curadores assistentes José Francisco Alves e Neiva Bohns, todos são gaúchos. Esse aproveitamento de recursos humanos locais, em detrimento da importação de outros estados é um importante diferencial. Outro é a efetiva participação de todos esses curadores na construção do projeto. No futuro, acho que a Bienal deveria ser construída em conjunto com os curadores latino-americanos, mesmo que mantendo o comando brasileiro. Por enquanto, a participação dos demais curadores dos outros países é limitada. Para envolvermos os respectivos países numa participação financeira maior será necessário retribuirmos com uma maior participação na construção comum do projeto. Assim não estaremos repetindo as ilhas de representações existentes nas demais bienais onde não rima ê com crê.

" No futuro, acho que a Bienal deveria ser construída em conjunto com os curadores latino-americanos, mesmo que mantendo o comando brasileiro."


Mas o mais importante diferencial, a meu ver, vem da compreensão da necessidade de se transformar um investimento de milhões de reais, num processo educativo permanente, em favor da instauração de uma inteligência visual, bem diferente daquela literária já vigente, junto às elites e o professorado. A formidável aquisição da gestão de Elvaristo Teixeira do Amaral e de Justo Werlang, ao introduzirem uma pessoa como a Profa. Wrana Panizzi na condução dos processos cotidianos da Bienal é uma verdadeira mudança, não apenas no Rio Grande do Sul e no Brasil, mas que poderá, se persistir, indicar uma formidável diferenciação entre a Bienal de Porto Alegre e as outras mais de cinqüenta bienais hoje existentes no mundo. Não existe nenhum sentido em se realizar uma mostra de milhões de dólares se ela não tiver um sentido educativo. A única forma, num país como o nosso, de capitalizar esse investimento é com um processo educativo permanente, isto é, naquele que, depois de interrompida a mostra, o evento, continua seu trabalho de difundir a história da arte e os problemas da arte contemporânea. A missão de uma bienal de artes é sempre a de criar problemas para a inteligência visual e suas relações com outros campos.

Antes a bienal, depois de encerrada a mostra entrava num interregno, lançada num processo exclusivamente administrativo, de formidáveis esforços de captação de recursos e formatação de projetos, mas inteiramente alheio à vida cultural. Agora, se garantirmos a direção de uma vida cultural entre uma mostra e outra, garantida pela presença da professora Wrana Panizzi, poderemos ter a Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul transformada numa instituição de um outro estatuto, bem diferente daquele de uma entidade promotora de um evento artístico milionário que acontece a cada dois anos. E nisso a Bienal de Porto Alegre será a pioneira indicadora do futuro de todas as bienais a serem realizadas em países como o nosso.

AWB – O site artewebbrasil realizou nas duas últimas edições da Bienal uma cobertura independente. Você acha importante que outros veículos se juntem à divulgação da Bienal? Qual a sua opinião a respeito do site artewebbrasil?

Paulo Sérgio Duarte - Acho a cobertura independente indispensável porque não é aquela que chamamos “chapa branca”. Só assim podemos ter uma interação crítica com nosso trabalho.  O site é muito bom, principalmente, para tomarmos conhecimento de novos artistas. Acabo de ver fotos de uma exposição muito interessante de Laura Cogo, na Fundação Cultural de Criciúma, que lida com a noção do antiespetáculo, a delicadeza, o vazio, e a memória do lugar, revestindo a lembrança das coisas com uma pele quase transparente. Laura, artista esclarecida, faz acompanhar as imagens de um texto objetivo, sem cair no risco de interpretar a própria obra.